{"id":96694,"date":"2016-10-05T06:23:15","date_gmt":"2016-10-05T09:23:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=96694"},"modified":"2016-10-04T15:24:45","modified_gmt":"2016-10-04T18:24:45","slug":"peixe-peconhento-tem-molecula-com-acao-potencial-contra-esclerose","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2016\/peixe-peconhento-tem-molecula-com-acao-potencial-contra-esclerose\/96694","title":{"rendered":"Peixe pe\u00e7onhento tem mol\u00e9cula com a\u00e7\u00e3o potencial contra esclerose"},"content":{"rendered":"<p> Peter Moon \u00a0| \u00a0Ag\u00eancia FAPESP | <strong><em>mol\u00e9cula com a\u00e7\u00e3o potencial contra esclerose<\/em><\/strong> \u2013 Quando se pensa em um peixe venenoso \u00e9 comum lembrar da imagem de um baiacu inflado como um bal\u00e3o. No baiacu \u2013 designa\u00e7\u00e3o popular de diversos peixes da ordem dos Tetraodontiformes \u2013, o veneno est\u00e1 na carne. Comer a carne n\u00e3o tratada para a retirada da toxina pode levar \u00e0 morte. O baiacu \u00e9 venenoso, mas n\u00e3o \u00e9 pe\u00e7onhento: n\u00e3o tem presas nem espinhos para injetar toxina em suas v\u00edtimas e, desse modo, imobiliz\u00e1-las. O niquim (Thalassophryne nattereri), habitante de \u00e1guas rasas, tem tudo isso.<\/p>\n<p>O niquim vive na zona de transi\u00e7\u00e3o entre as \u00e1guas salgada e doce, escondido no fundo lodoso de rios e lagoas costeiras. Na mar\u00e9 vazante o peixe cor de areia sobrevive enterrado, podendo viver fora d\u2019\u00e1gua por at\u00e9 18 horas. Quem caminha pela areia rasa no litoral do Norte e Nordeste, estendendo-se at\u00e9 a costa do Esp\u00edrito Santo, pode inadvertidamente ser picado pelo niquim. Todos os anos h\u00e1 relatos de 50 a 100 acidentes no litoral brasileiro. O n\u00famero real deve ser maior, pois n\u00e3o h\u00e1 notifica\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria e nem tratamento por enquanto.<\/p>\n<p>Em 2008, um grupo de pesquisadores do Laborat\u00f3rio Especial de Toxinologia do Instituto Butantan, em S\u00e3o Paulo, desenvolveu um soro efetivo contra a picada do niquim. Agora, a mesma equipe, liderada pelas imunofarmacologistas M\u00f4nica Lopes-Ferreira e Carla Lima, descobriu que as f\u00eameas do niquim, embora menores, t\u00eam toxina mais poderosa que a dos machos.<\/p>\n<p>Os resultados da pesquisa, desenvolvida no \u00e2mbito do Centro de Toxinas, Resposta-Imune e Sinaliza\u00e7\u00e3o Celular (), um dos Centros de Pesquisa, Inova\u00e7\u00e3o e Difus\u00e3o (CEPIDs) apoiados pela FAPESP, foi publicado na revista .<\/p>\n<p>Em outro estudo, o grupo de pesquisadores j\u00e1 havia observado na pe\u00e7onha do niquim um pept\u00eddeo que mostrou ter a\u00e7\u00e3o contra a esclerose m\u00faltipla \u2013 doen\u00e7a inflamat\u00f3ria autoimune neurol\u00f3gica na qual o sistema imunol\u00f3gico afeta a bainha de mielina que recobre os neur\u00f4nios, respons\u00e1vel pela condu\u00e7\u00e3o nervosa.<\/p>\n<p>\u201cIdentificamos um pept\u00eddio com atividade anti-inflamat\u00f3ria comprovada nos casos de esclerose m\u00faltipla. Em camundongos, o pept\u00eddeo bloqueia o tr\u00e2nsito e a infiltra\u00e7\u00e3o de linf\u00f3citos patog\u00eanicos e macr\u00f3fagos para o sistema nervoso central, o que favorece o aumento de c\u00e9lulas reguladoras. Isso resulta na atenua\u00e7\u00e3o da neuroinflama\u00e7\u00e3o e na preven\u00e7\u00e3o da desmieliniza\u00e7\u00e3o, refletindo no adiamento do aparecimento dos sintomas e na melhoria dos sinais cl\u00ednicos da doen\u00e7a\u201d, explicou Lima.<\/p>\n<p>O pept\u00eddeo, denominado TnP (pept\u00eddeo do T. nattereri), foi descoberto em 2007, quando Lopes-Ferreira resolveu pesquisar se o veneno era composto por pept\u00eddeos al\u00e9m de prote\u00ednas. Simultaneamente, Lima havia padronizado no laborat\u00f3rio testes em murinos (roedores) para avalia\u00e7\u00e3o de esclerose m\u00faltipla. As duas resolveram testar a efic\u00e1cia do pept\u00eddeo no tratamento da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cInicialmente, descobrimos a fun\u00e7\u00e3o anti-inflamat\u00f3ria do pept\u00eddeo e, mais recentemente, a fun\u00e7\u00e3o imunomoduladora\u201d, disse Lopes-Ferreira. Segundo ela, todos os ensaios cient\u00edficos para a comprova\u00e7\u00e3o da efic\u00e1cia do pept\u00eddeo no tratamento da esclerose m\u00faltipla foram feitos no laborat\u00f3rio de toxinologia do Butantan, em parceria com o laborat\u00f3rio Crist\u00e1lia, de Itapira (SP).<\/p>\n<p>As pr\u00f3ximas etapas rumo a um medicamento necessitam da continua\u00e7\u00e3o da parceria com o laborat\u00f3rio ou com outro que tenha interesse na descoberta e na sua aplica\u00e7\u00e3o. Mas os pesquisadores ainda aguardam a aprova\u00e7\u00e3o do pedido de patente solicitada ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).<\/p>\n<p>\u201cDepositamos, em 2007, o pedido da patente que ainda est\u00e1 pendente de aprovac\u00e3o. Nesse meio tempo, a patente j\u00e1 foi requerida e aprovada na Comunidade Europeia, nos Estados Unidos, Canad\u00e1, M\u00e9xico, Jap\u00e3o, Coreia do Sul, \u00cdndia e China. Em m\u00e9dia, cada processo levou um ano para ser aprovado\u201d, disse Lima.<\/p>\n<p>F\u00eameas s\u00e3o mais venenosas<\/p>\n<p>O niquim possui quatro espinhos ligados a uma gl\u00e2ndula produtora de toxina poderosa. A maioria dos acidentes com o peixe em humanos ocorre na regi\u00e3o palmar e plantar. O veneno provoca dor, edema e necrose de dif\u00edcil cicatriza\u00e7\u00e3o, acarretando em perda de fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 relatos de pessoas que choram de dor. O p\u00e9 ferido quase duplica de tamanho e a dor e o edema podem levar at\u00e9 dois meses para desaparecer\u201d, disse Carla Lima. Esses sintomas s\u00e3o provocados principalmente por proteases encontradas no veneno, chamadas de natterinas.<\/p>\n<p>Segundo M\u00f4nica Lopes-Ferreira, inicialmente as natterinas impedem o recrutamento celular \u2013 todo processo inflamat\u00f3rio aciona um mecanismo de recrutamento e ativa\u00e7\u00e3o de c\u00e9lulas fagocit\u00e1rias respons\u00e1veis pelo controle inicial do agente causador do problema. As proteases do veneno do niquim impedem essa rea\u00e7\u00e3o natural do organismo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, as natterinas provocam estase venular \u2013 paralisa\u00e7\u00e3o do fluxo de sangue pelos vasos \u2013 e agem na matriz extracelular, afetando o metabolismo e as trocas e intera\u00e7\u00f5es entre as c\u00e9lulas.<\/p>\n<p>Agora se sabe que as f\u00eameas da esp\u00e9cie s\u00e3o mais venenosas. Os machos da esp\u00e9cie t\u00eam em m\u00e9dia 22 cent\u00edmetros de comprimento e 200 gramas. J\u00e1 as f\u00eameas s\u00e3o bem menores: 18 cent\u00edmetros e 120 gramas. No entanto, a concentra\u00e7\u00e3o de toxina no veneno das f\u00eameas \u00e9 diferente, e muito mais necrosante.<\/p>\n<p>Ou seja, os sintomas da picada da f\u00eamea s\u00e3o mais severos e mais prolongados. Mas n\u00e3o fatais. \u201cA gl\u00e2ndula que produz o veneno n\u00e3o o faz na quantidade suficiente para ser fatal a um ser humano. Para tanto, a quantidade de toxina teria que ser 20 vezes maior\u201d, disse Lima.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe tratamento farmacol\u00f3gico dispon\u00edvel para uso p\u00fablico contra o veneno do niquim. A composi\u00e7\u00e3o do veneno dos peixes \u00e9 muito diferente daqueles das cobras e dos escorpi\u00f5es. \u201cO veneno do niquim n\u00e3o pertence \u00e0 fam\u00edlia das toxinas cl\u00e1ssicas e, portanto, a dor provocada por ele n\u00e3o pode ser tratada com nenhum analg\u00e9sico cl\u00e1ssico\u201d, disse Lima.<\/p>\n<p>Como uma das especialidades do Butantan \u00e9 a fabrica\u00e7\u00e3o de soro antiof\u00eddico, em 2008 a equipe do Laborat\u00f3rio Especial de Toxinologia extraiu o veneno do niquim e inoculou em cavalos para a produ\u00e7\u00e3o de anticorpos com os quais foi feito um soro. Em camundongos, o soro antiveneno de T. nattereri produzido em equinos se mostrou eficaz na neutraliza\u00e7\u00e3o da necrose e da dor e parcialmente do edema.<\/p>\n<p>\u201cO fato de inibir a necrose j\u00e1 \u00e9 muito importante, uma vez que a necrose \u00e9 um dos maiores transtornos do acidente\u201d, disse Lopes-Ferreira. O soro contra o veneno do niquim ainda n\u00e3o est\u00e1 sendo produzido, aguardando o interesse do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade em sua produ\u00e7\u00e3o industrial.<\/p>\n<p>O artigo Analysis of the intersexual variation in Thalassophryne maculosa fish venoms (doi: http:\/\/dx.doi.org\/10.1016\/j.toxicon.2016.02.022), de M\u00f4nica Lopes-Ferreira, Ines Sosa-Rosales, Fernanda M. Bruni, Anderson D. Ramos, Fernanda Calheta Vieira Portaro, Katia Concei\u00e7\u00e3o e Carla Lima, pode ser adquirido em\u00a0.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Peter Moon \u00a0| \u00a0Ag\u00eancia FAPESP | mol\u00e9cula com a\u00e7\u00e3o potencial contra esclerose \u2013 Quando se pensa em um peixe venenoso \u00e9 comum lembrar da imagem de um baiacu inflado como um bal\u00e3o. No baiacu \u2013 designa\u00e7\u00e3o popular de diversos peixes da ordem dos Tetraodontiformes \u2013, o veneno est\u00e1 na carne. 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