{"id":93812,"date":"2016-08-29T06:19:35","date_gmt":"2016-08-29T09:19:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=93812"},"modified":"2016-08-26T14:20:39","modified_gmt":"2016-08-26T17:20:39","slug":"zika-continua-a-danificar-o-cerebro-de-bebes-apos-o-nascimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2016\/zika-continua-a-danificar-o-cerebro-de-bebes-apos-o-nascimento\/93812","title":{"rendered":"Zika continua a danificar o c\u00e9rebro de beb\u00eas ap\u00f3s o nascimento"},"content":{"rendered":"<p> Ricardo Zorzetto \u00a0| \u00a0Pesquisa FAPESP \u2013 Em meio \u00e0 relativa calmaria que o inverno imp\u00f4s \u00e0 epidemia de <strong><em>Zika<\/em><\/strong>, uma not\u00edcia grave surge para deixar todos em alerta: o v\u00edrus pode continuar danificando o c\u00e9rebro dos beb\u00eas por semanas ap\u00f3s o nascimento. Ainda n\u00e3o se sabe durante quanto tempo o Zika permanece ativo no organismo das crian\u00e7as, mas, em 24 de agosto, foi apresentada uma das primeiras evid\u00eancias de que isso pode ocorrer por tempo suficiente para agravar as les\u00f5es formadas durante a gesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um grupo de 20 pesquisadores de S\u00e3o Paulo publicou na sess\u00e3o de correspond\u00eancias do New England Journal of Medicine, uma das mais prestigiadas revistas m\u00e9dicas do mundo, a descri\u00e7\u00e3o do caso de um beb\u00ea do sexo masculino que foi infectado pelo v\u00edrus ainda durante a gesta\u00e7\u00e3o e que manteve o Zika ativo no organismo por ao menos 67 dias ap\u00f3s o parto. \u201cAinda n\u00e3o se havia descrito uma infec\u00e7\u00e3o t\u00e3o prolongada ap\u00f3s o nascimento\u201d, afirma o virologista Edison Durigon, da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), um dos autores do estudo.<\/p>\n<p>O menino nasceu no dia 2 de janeiro deste ano em um hospital da capital paulista, ao final de uma gravidez de 40 semanas. Pesava 3.095 gramas e media 48 cent\u00edmetros (cm) de comprimento. O tamanho de seu cr\u00e2nio, por\u00e9m, era lim\u00edtrofe para microcefalia: tinha um per\u00edmetro de 32,5 cm \u2013 at\u00e9 mar\u00e7o o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade considerava suspeitos os casos de crian\u00e7as com igual ou inferior a 32 cm. Mas o que chamou a aten\u00e7\u00e3o dos m\u00e9dicos foi a testa, mais estreita que o normal, algo comum entre os beb\u00eas com microcefalia. Exames de imagem identificaram pequenas les\u00f5es (calcifica\u00e7\u00f5es) no tecido cerebral caracter\u00edsticas de infec\u00e7\u00f5es adquiridas durante a gesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O beb\u00ea foi encaminhado para a Santa Casa de S\u00e3o Paulo, onde passou a ser acompanhado pela equipe do pediatra Eitan Berezin. No final de fevereiro, por iniciativa de Berezin, amostras de sangue do garotinho foram enviadas para o grupo de Durigon na USP. Exames anteriores haviam dado resultado negativo para citomegalov\u00edrus, toxoplasmose e rub\u00e9ola, infec\u00e7\u00f5es cong\u00eanitas que tamb\u00e9m podem causar les\u00f5es cerebrais. Mas faltavam os testes para Zika, que s\u00e3o mais complexos e demorados e ainda n\u00e3o est\u00e3o dispon\u00edveis no sistema p\u00fablico de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Um teste molecular confirmou que o menino tinha o v\u00edrus ativo no organismo e exames sorol\u00f3gicos indicaram que a infec\u00e7\u00e3o havia ocorrido ainda durante a gesta\u00e7\u00e3o. Por volta da 26\u00aa semana de gravidez, a m\u00e3e apresentou febre, dores de cabe\u00e7a e manchas vermelhas pelo corpo, menos de um m\u00eas depois de seu marido ter retornado de uma viagem ao Nordeste, durante a qual desenvolveu sintomas semelhantes. \u201cExiste a ideia de que as infec\u00e7\u00f5es cong\u00eanitas s\u00e3o mais graves quando ocorrem no in\u00edcio da gesta\u00e7\u00e3o\u201d, diz Berezin. \u201cMas, nesse caso, a infec\u00e7\u00e3o por Zika aparentemente ocorreu mais tarde e tamb\u00e9m causou danos.\u201d<\/p>\n<p>Como a primeira an\u00e1lise mostrou quantidades elevadas de v\u00edrus no sangue, Durigon decidiu procurar por sua presen\u00e7a na saliva e na urina. \u201cNaquela \u00e9poca, por volta do 54\u00ba dia ap\u00f3s o nascimento, o v\u00edrus continuava se reproduzindo e sendo eliminado na urina\u201d, conta o virologista, que integra a Rede de Pesquisa sobre Zika V\u00edrus em S\u00e3o Paulo (Rede Zika), apoiada pela FAPESP. Testes repetidos ao longo das semanas seguintes detectaram a presen\u00e7a de Zika at\u00e9 o 67\u00ba dia de vida da crian\u00e7a. O aumento na concentra\u00e7\u00e3o de alguns anticorpos, por\u00e9m, indicava que, \u00e0 medida que amadurecia, o sistema imunol\u00f3gico se tornava capaz de combater o v\u00edrus.<\/p>\n<p>Os pesquisadores n\u00e3o sabem dizer por quanto tempo o Zika continuou ativo. Por volta de meados de mar\u00e7o, os pais da crian\u00e7a tiveram dificuldade de seguir com as consultas no hospital e o acompanhamento passou a ser a dist\u00e2ncia. Mas um exame de resson\u00e2ncia magn\u00e9tica realizado no final de fevereiro indicava que as les\u00f5es no c\u00e9rebro ainda continuavam ativas. \u201cO v\u00edrus continuou a se reproduzir e a lesar o tecido cerebral mesmo ap\u00f3s o nascimento\u201d, afirma Durigon.<\/p>\n<p>Em agosto, a pedido dos editores do New England, a equipe m\u00e9dica voltou a avaliar o garoto. Ele j\u00e1 estava livre do v\u00edrus, mas o exame cl\u00ednico mostrou que apresentava algumas restri\u00e7\u00f5es de movimento: tinha algum grau de paralisia em um dos lados do corpo e dificuldade para segurar objetos. \u201cEsses efeitos s\u00f3 s\u00e3o percebidos \u00e0 medida que a crian\u00e7a se desenvolve porque \u00e9 quando deveria come\u00e7ar a adquirir certas habilidades\u201d, explica Berezin. \u201cPara esse garoto, em particular, acho que a fisioterapia pode ajudar a melhorar os movimentos para que ele venha a ter um bom padr\u00e3o de independ\u00eancia.\u201d<\/p>\n<p>Edison Durigon v\u00ea no caso um sinal de alerta. \u201cN\u00e3o sabemos nada sobre o que ocorre com as crian\u00e7as que adquirem o v\u00edrus ap\u00f3s o nascimento\u201d, explica. E conclui: \u201cEstamos em uma esp\u00e9cie de entressafra da epidemia, com o risco de enfrentar em breve uma segunda onda de Zika. Dever\u00edamos estar preparados para iniciar o acompanhamento dessas crian\u00e7as.\u201d<\/p>\n<p>O artigo cient\u00edfico de Oliveira, D. B. L. e outros, Prolonged shedding of Zika virus associated with congenital infection, publicado noNew England Journal of Medicine em 24 agosto de 2016, pode ser lido em .<\/p>\n<p>No v\u00eddeo do N\u00facleo de Divulga\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica da USP, pesquisadores da USP e da Santa Casa de Miseric\u00f3rdia relatam \u00a0o caso do rec\u00e9m-nascido que permaneceu infectado pelo v\u00edrus da Zika at\u00e9 os 67 dias de idade. A reportagem \u00e9 de Tabita Said, Fabiana Mariz e Caio Antonio; a edi\u00e7\u00e3o \u00e9 de Tabita Said e Alan Petrillo e a dire\u00e7\u00e3o de M\u00f4nica Teixeira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ricardo Zorzetto \u00a0| \u00a0Pesquisa FAPESP \u2013 Em meio \u00e0 relativa calmaria que o inverno imp\u00f4s \u00e0 epidemia de Zika, uma not\u00edcia grave surge para deixar todos em alerta: o v\u00edrus pode continuar danificando o c\u00e9rebro dos beb\u00eas por semanas ap\u00f3s o nascimento. 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