{"id":92799,"date":"2016-08-15T06:06:32","date_gmt":"2016-08-15T09:06:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=92799"},"modified":"2016-08-12T20:08:00","modified_gmt":"2016-08-12T23:08:00","slug":"encontrada-no-brasil-bacteria-resistente-a-um-dos-mais-poderosos-antibioticos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2016\/encontrada-no-brasil-bacteria-resistente-a-um-dos-mais-poderosos-antibioticos\/92799","title":{"rendered":"Encontrada no Brasil bact\u00e9ria resistente a um dos mais poderosos antibi\u00f3ticos"},"content":{"rendered":"<p> Diego Freire | Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Recentemente descoberto na China e tamb\u00e9m encontrado em pa\u00edses da Europa, da \u00c1sia e da \u00c1frica, o gene mcr-1, que causa resist\u00eancia a uma classe de antibi\u00f3ticos utilizados justamente para tratar infec\u00e7\u00f5es por <strong><em>bact\u00e9rias multirresistentes<\/em><\/strong>, foi identificado pela primeira vez no Brasil em cepas da bact\u00e9ria Escherichia coli isoladas de animais de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os pesquisadores do Instituto de Ci\u00eancias Biom\u00e9dicas da Universidade de S\u00e3o Paulo (ICB-USP) respons\u00e1veis pela identifica\u00e7\u00e3o da bact\u00e9ria tamb\u00e9m reportaram o primeiro caso de infec\u00e7\u00e3o humana no Brasil, em um hospital de alta complexidade em Natal (RN), por uma cepa da bact\u00e9ria portadora do gene e resistente a Colistina (polimixina E), um dos mais poderosos antibi\u00f3ticos, considerados como \u00faltimo recurso no tratamento de infec\u00e7\u00f5es produzidas por bact\u00e9rias que n\u00e3o respondem a outras drogas.<\/p>\n<p>\u201cA apari\u00e7\u00e3o desse gene no Brasil pode contribuir para o surgimento de bact\u00e9rias totalmente resistentes aos antibi\u00f3ticos, com risco de enfrentarmos uma situa\u00e7\u00e3o similar ao que foi a era pr\u00e9-antibi\u00f3tica, quando doen\u00e7as comuns, como uma infec\u00e7\u00e3o urin\u00e1ria ou um ferimento profundo na pele, levavam facilmente a \u00f3bito\u201d, alerta Nilton Lincopan, respons\u00e1vel pela pesquisa  multirresistentes de import\u00e2ncia m\u00e9dica (humana e veterin\u00e1ria): impacto cl\u00ednico\/ambiental e desenvolvimento de alternativas terap\u00eauticas e produtos de inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, realizada com apoio da FAPESP.<\/p>\n<p>Os resultados da pesquisa foram publicados nas revistas cient\u00edficas Eurosurveillance, do European Centre for Disease Prevention and Control, e Antimicrobial Agents and Chemotherapy, da American Society for Microbiology.<\/p>\n<p>Superbact\u00e9ria<\/p>\n<p>Descoberta em 1949, a produ\u00e7\u00e3o de Colistina foi descontinuada entre a d\u00e9cada de 1970 e o ano 2000 por sua elevada toxicidade, ficando o antibi\u00f3tico restrito ao uso veterin\u00e1rio. No in\u00edcio do s\u00e9culo, entretanto, com a emerg\u00eancia de bact\u00e9rias produtoras de enzimas respons\u00e1veis por provocar resist\u00eancia a praticamente todos os antibi\u00f3ticos beta-lact\u00e2micos, como as penicilinas, a Colistina voltou a ser utilizada como \u00faltima alternativa terap\u00eautica no tratamento de infec\u00e7\u00f5es produzidas por microrganismos multirresistentes, principalmente associadas a surtos de infec\u00e7\u00e3o hospitalar.<\/p>\n<p>Por muito tempo, conta Lincopan, a comunidade cient\u00edfica internacional acreditou que o desenvolvimento da resist\u00eancia bacteriana a Colistina seria um processo dif\u00edcil. \u201cPor\u00e9m, ao final do ano passado, um artigo alarmante foi publicado na revista Lancet Infectious Diseases, em que pesquisadores chineses descreveram a identifica\u00e7\u00e3o de um novo gene (o mcr-1) que confere resist\u00eancia contra polimixina E e polimixina B.\u201d<\/p>\n<p>Ainda mais preocupante, de acordo com o pesquisador, foi a descoberta de que o gene \u00e9 facilmente transfer\u00edvel de uma esp\u00e9cie bacteriana a outra por meio de plasm\u00eddeos, fragmentos de DNA extracromoss\u00f4micos que podem se replicar autonomamente e que podem ser transferidos entre diferentes esp\u00e9cies bacterianas por conjuga\u00e7\u00e3o \u2013 processo de reprodu\u00e7\u00e3o das bact\u00e9rias por meio do qual peda\u00e7os de DNA passam diretamente de uma para a outra. O fragmento de DNA transferido se recombina com o material gen\u00e9tico da bact\u00e9ria receptora, produzindo novas combina\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas que ser\u00e3o transmitidas \u00e0s c\u00e9lulas-filhas na pr\u00f3xima divis\u00e3o celular.<\/p>\n<p>Cepas bacterianas carregando o gene mcr-1 foram encontradas tanto em animais de produ\u00e7\u00e3o como em seres humanos, levantando suspeitas sobre a exist\u00eancia de uma cadeia na dissemina\u00e7\u00e3o da resist\u00eancia a Colistina que come\u00e7a a partir do uso do antibi\u00f3tico na alimenta\u00e7\u00e3o animal, propagando-se para os animais abatidos, os alimentos derivados e o ambiente.<\/p>\n<p>Diante da amea\u00e7a de que muitas infec\u00e7\u00f5es poderiam se tornar intrat\u00e1veis, um alerta mundial foi emitido no in\u00edcio do ano pelo Centro de Controle e Preven\u00e7\u00e3o de Doen\u00e7as (CDC, na sigla em ingl\u00eas), ag\u00eancia do Departamento de Sa\u00fade e Servi\u00e7os Humanos dos Estados Unidos. Segundo Lincopan, papers de pesquisadores de diferentes pa\u00edses reportaram em seguida a identifica\u00e7\u00e3o do gene mcr-1 em cepas de bact\u00e9rias clinicamente importantes, como Escherichia coli, Salmonella spp. e Klebsiella pneumoniae.<\/p>\n<p>\u201cO aspecto mais assustador sobre o gene \u00e9 a facilidade com que ele \u00e9 transferido entre diferentes esp\u00e9cies bacterianas. Consequentemente, algumas bact\u00e9rias hospitalares t\u00eam alinhado este gene junto a outros de resist\u00eancia a antibi\u00f3ticos, favorecendo que a esp\u00e9cie bacteriana receptora fique resistente a praticamente a totalidade dos medicamentos. Assim, se um paciente estiver gravemente infectado, por exemplo, por uma E. coli, n\u00e3o haver\u00e1 nada que se possa fazer\u201d, diz o pesquisador.<\/p>\n<p>Urg\u00eancia epidemiol\u00f3gica<\/p>\n<p>De acordo com Lincopan, suspeita-se que a principal raz\u00e3o para o surgimento e a propaga\u00e7\u00e3o do mcr-1 seja o uso exacerbado de Colistina na produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria, como promotora de crescimento. Entretanto, a presen\u00e7a do gene tamb\u00e9m foi descrita em amostras de animais dom\u00e9sticos, alimentos e ambientes aqu\u00e1ticos, evidenciando a dissemina\u00e7\u00e3o para diversos ecossistemas.<\/p>\n<p>\u201cNo Brasil, no in\u00edcio deste ano, nosso grupo de pesquisa identificou pela primeira vez a presen\u00e7a do gene mcr-1 em animais de produ\u00e7\u00e3o das regi\u00f5es Sudeste (S\u00e3o Paulo e Minas Gerais) e Sul (Paran\u00e1 e Santa Catarina), o que deve ser considerado uma urg\u00eancia epidemiol\u00f3gica e um alerta para as implica\u00e7\u00f5es no agroneg\u00f3cio, visto que o pa\u00eds \u00e9 um grande produtor e exportador de produtos de origem animal.\u201d<\/p>\n<p>Para os pesquisadores, os \u00f3rg\u00e3os reguladores do setor deveriam reavaliar o uso de antibi\u00f3ticos como a Colistina.<\/p>\n<p>\u201cO impacto real da resist\u00eancia bacteriana no Brasil tamb\u00e9m precisa ser avaliado pelo poder p\u00fablico e pela comunidade cient\u00edfica. Al\u00e9m disso, devemos privilegiar a educa\u00e7\u00e3o sobre o uso racional de antibacterianos. Clinicamente, muitos estudos e reuni\u00f5es cient\u00edficas t\u00eam alertado que bact\u00e9rias multirresistentes est\u00e3o adquirindo um car\u00e1ter de endemicidade em centros hospitalares, sendo frequentemente associadas a altas taxas de falha terap\u00eautica e subsequente morbimortalidade\u201d, conta Miriam Fernandes, aluna de doutorado da Faculdade de Ci\u00eancias Farmac\u00eauticas da USP e primeira autora dos artigos publicados. \u201cEstes esfor\u00e7os poderiam evitar uma situa\u00e7\u00e3o irrevers\u00edvel\u201d.<\/p>\n<p>Um plano de a\u00e7\u00e3o global contra o risco do colapso dos antibi\u00f3ticos, avalia Lincopan, deve incluir \u201co uso racional desses f\u00e1rmacos na sa\u00fade humana e animal, o refor\u00e7o da vigil\u00e2ncia epidemiol\u00f3gica e o est\u00edmulo de pesquisas na \u00e1rea, a educa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o e dos profissionais da sa\u00fade humana e veterin\u00e1ria, assim como fazendeiros e produtores, sobre o uso adequado de antibi\u00f3ticos e o desenvolvimento de novos compostos e ferramentas de diagn\u00f3stico\u201d.<\/p>\n<p>Os resultados da pesquisa podem ser acessados no artigo First Report of the Globally Disseminated IncX4 Plasmid Carrying the mcr-1 Gene in a Colistin-Resistant Escherichia coli ST101 isolated from a Human Infection in Brazil, dispon\u00edvel em\u00a0, e no artigo Silent dissemination of colistin-resistant Escherichia coli in South America could contribute to the global spread of the mcr-1 gene, em .<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diego Freire | Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Recentemente descoberto na China e tamb\u00e9m encontrado em pa\u00edses da Europa, da \u00c1sia e da \u00c1frica, o gene mcr-1, que causa resist\u00eancia a uma classe de antibi\u00f3ticos utilizados justamente para tratar infec\u00e7\u00f5es por bact\u00e9rias multirresistentes, foi identificado pela primeira vez no Brasil em cepas da bact\u00e9ria Escherichia coli isoladas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":37376,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_genesis_hide_title":false,"_genesis_hide_breadcrumbs":false,"_genesis_hide_singular_image":false,"_genesis_hide_footer_widgets":false,"_genesis_custom_body_class":"","_genesis_custom_post_class":"","_genesis_layout":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[22,5],"tags":[],"class_list":{"0":"post-92799","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-brasil","8":"category-saude-e-vida","9":"entry","10":"gs-1","11":"gs-odd","12":"gs-even","13":"gs-featured-content-entry"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/imagens\/saude-doutor.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_likes_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/92799","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=92799"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/92799\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/media\/37376"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=92799"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=92799"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=92799"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}