{"id":92402,"date":"2016-08-09T06:43:22","date_gmt":"2016-08-09T09:43:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=92402"},"modified":"2016-08-08T20:44:37","modified_gmt":"2016-08-08T23:44:37","slug":"dieta-da-populacao-brasileira-esta-cada-vez-mais-padronizada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2016\/dieta-da-populacao-brasileira-esta-cada-vez-mais-padronizada\/92402","title":{"rendered":"Dieta da popula\u00e7\u00e3o brasileira est\u00e1 cada vez mais padronizada"},"content":{"rendered":"<p> Elton Alisson | Ag\u00eancia FAPESP \u2013 O <strong><em>padr\u00e3o alimentar<\/em><\/strong> de popula\u00e7\u00f5es situadas em locais isolados na Amaz\u00f4nia, no Nordeste e no Centro-Oeste do Brasil e de comunidades de pescadores no litoral norte de S\u00e3o Paulo est\u00e1 cada vez mais semelhante ao de moradores de regi\u00f5es urbanas do pa\u00eds.<\/p>\n<p>A dieta de comunidades ribeirinhas na Amaz\u00f4nia brasileira, que antes era composta principalmente por alimentos produzidos localmente, como peixe com farinha de mandioca, por exemplo, passou a ser integrada por alimentos industrializados, como enlatados e frangos congelados produzidos nas regi\u00f5es Sul e Sudeste do pa\u00eds.<\/p>\n<p>As constata\u00e7\u00f5es foram feitas por pesquisadores do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) e da Escola Superior de Agricultura \u201cLuiz de Queiroz\u201d (Esalq) da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), em colabora\u00e7\u00e3o com colegas das Universidades de Bras\u00edlia (UnB), Federal do Acre (UFAC) e do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), por meio de uma s\u00e9rie de estudos realizados nos \u00faltimos anos com apoio da FAPESP.<\/p>\n<p>Alguns dos resultados dos estudos foram publicados nas revistas Ecology of Food and Nutrition e Environment, Development and Sustainability. E foram apresentados durante a , que ocorre at\u00e9 10 de agosto em S\u00e3o Pedro, no interior de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Realizado pelo Cena-USP e o Inter-American Institute for Global Change Research (IAI), o evento, financiado pela FAPESP, por meio do programa Escola S\u00e3o Paulo de Ci\u00eancia Avan\u00e7ada (), re\u00fane 100 estudantes de gradua\u00e7\u00e3o e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, sendo 50 do Brasil e 50 do exterior, para discutir sobre a distribui\u00e7\u00e3o desigual de nitrog\u00eanio no mundo e seu impacto na sustentabilidade ambiental em um cen\u00e1rio de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas globais.<\/p>\n<p>\u201cDe uma forma geral, os dados obtidos indicam uma homogeneiza\u00e7\u00e3o do padr\u00e3o alimentar no Brasil\u201d, disse Gabriela Bielefeld Nardoto, professora da UnB e uma das autoras dos estudos, \u00e0 Ag\u00eancia FAPESP.<\/p>\n<p>\u201cApesar do isolamento, as popula\u00e7\u00f5es rurais de diferentes regi\u00f5es do Brasil t\u00eam aderido cada vez mais \u00e0 \u2018dieta de supermercado\u2019, composta por alimentos processados e ultraprocessados\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Composi\u00e7\u00e3o isot\u00f3pica<\/p>\n<p>A pesquisadora come\u00e7ou a estudar em 2002, durante seu doutorado realizado com , os padr\u00f5es alimentares de popula\u00e7\u00f5es brasileiras usando a composi\u00e7\u00e3o isot\u00f3pica de carbono e nitrog\u00eanio em amostras de unha, al\u00e9m de uma entrevista (anamnese) em que os participantes s\u00e3o estimulados a recordar o que consumiram nas \u00faltimas 24 horas\u00a0(leia mais em\u00a0)<\/p>\n<p>Os estudos iniciais, de 2002, indicaram que a propor\u00e7\u00e3o de carbono oriunda de plantas do tipo fotossint\u00e9tico C4 (como cana-de-a\u00e7\u00facar, milho e pastagens) na dieta de habitantes de cidades como Piracicaba, no interior de S\u00e3o Paulo, e Santar\u00e9m, no interior do Estado do Par\u00e1, era semelhante.<\/p>\n<p>J\u00e1 os moradores de pequenas comunidades rurais, distantes cerca de 50 a 80 quil\u00f4metros da cidade de Santar\u00e9m, apresentam padr\u00f5es alimentares semelhantes entre si, mas totalmente diferentes em rela\u00e7\u00e3o a moradores da capital do Par\u00e1, Bel\u00e9m.<\/p>\n<p>A fim de investigar se essas diferen\u00e7as de padr\u00e3o alimentar entre o meio urbano e as comunidades rurais persistiam em outras regi\u00f5es da Amaz\u00f4nia, os pesquisadores decidiriam realizar, entre 2007 e 2010, um estudo mais detalhado por meio de uma\u00a0 apoiada pela FAPESP, coordenada pelo professor Luiz Antonio Martinelli, do Cena-USP.<\/p>\n<p>No estudo, eles compararam os padr\u00f5es alimentares de popula\u00e7\u00f5es urbanas de Manaus e Tef\u00e9, no Amazonas, com comunidades ribeirinhas situadas ao longo do rio Solim\u00f5es, cuja principal fonte de prote\u00edna era o pescado.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, tamb\u00e9m investigaram os padr\u00f5es alimentares em comunidades de cai\u00e7aras na regi\u00e3o de Ubatuba, ao longo da Rodovia Rio-Santos, e da popula\u00e7\u00e3o de bairros pr\u00f3ximos \u00e0s encostas da Serra do Mar \u2013 conhecidos como \u201csert\u00f5es\u201d de Ubatuba.<\/p>\n<p>Os resultados dos estudos com essas diferentes popula\u00e7\u00f5es sugeriram que h\u00e1 uma homogeneiza\u00e7\u00e3o do padr\u00e3o alimentar de moradores que vivem em aglomerados rurais e urbanos de diferentes tamanhos.<\/p>\n<p>Os pesquisadores n\u00e3o encontraram diferen\u00e7as isot\u00f3picas nas unhas dos integrantes de comunidades cai\u00e7aras e do \u201csert\u00e3o\u201d de Ubatuba em compara\u00e7\u00e3o com os moradores das classes C e D de Piracicaba.<\/p>\n<p>\u201cEssas popula\u00e7\u00f5es j\u00e1 aderiram totalmente \u00e0 dieta de supermercado\u201d, afirmou Nardoto. \u201cOs pescadores das comunidades cai\u00e7aras, por exemplo, usam parte do dinheiro que conseguem com a venda do pescado para comprar frango congelado no centro de Ubatuba\u201d, contou.<\/p>\n<p>J\u00e1 entre os moradores das regi\u00f5es rurais da Amaz\u00f4nia, os pesquisadores observaram que h\u00e1 um v\u00ednculo mais forte com os alimentos produzidos regionalmente.<\/p>\n<p>No entanto, notaram uma perda da identidade alimentar dessas popula\u00e7\u00f5es e a penetra\u00e7\u00e3o de alimentos industrializados, como frango congelado, bolachas, embutidos e refrigerantes, em suas dietas\u00a0(leia mais em:\u00a0).<\/p>\n<p>\u201cNossa hip\u00f3tese era a de que as comunidades mais afastadas dos centros urbanos estariam mantendo a dieta do peixe com farinha. Mas n\u00e3o foi isso que observamos ao longo do rio Solim\u00f5es\u201d, disse Nardoto.<\/p>\n<p>Quanto mais estruturada a comunidade ribeirinha em termos de acesso \u00e0 energia el\u00e9trica e diesel para abastecimento de barcos para locomo\u00e7\u00e3o, mais seu padr\u00e3o alimentar se assemelhava ao de popula\u00e7\u00f5es das cidades, que j\u00e1 aderiram totalmente \u00e0 dieta de supermercado.<\/p>\n<p>O h\u00e1bito de se alimentar de peixe com farinha de mandioca, por exemplo, est\u00e1 muito mais restrito hoje ao almo\u00e7o, exemplificou a pesquisadora.<\/p>\n<p>\u201cEles acabaram preservando consciente ou inconscientemente esse h\u00e1bito no almo\u00e7o. J\u00e1 no jantar e no caf\u00e9 da manh\u00e3 passaram a consumir mais alimentos processados e ultraprocessados\u201d, disse.<\/p>\n<p>A fim de verificar se essa diminui\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a do padr\u00e3o alimentar de popula\u00e7\u00f5es rurais e urbanas observada em S\u00e3o Paulo se repetia em outras regi\u00f5es do pa\u00eds, os pesquisadores realizaram um estudo com duas comunidades sertanejas de Mossor\u00f3, no Rio Grande do Norte, com moradores da regi\u00e3o urbana da cidade e com uma comunidade cai\u00e7ara na Reserva do Tubar\u00e3o em Natal, na capital potiguar.<\/p>\n<p>Os resultados das an\u00e1lises indicaram que a composi\u00e7\u00e3o isot\u00f3pica das unhas dos integrantes das comunidades cai\u00e7aras era semelhante \u00e0 das sertanejas e \u00e0 dos moradores da regi\u00e3o urbana de Mossor\u00f3.<\/p>\n<p>\u201cPensamos que poderia haver uma diferen\u00e7a no padr\u00e3o alimentar das popula\u00e7\u00f5es do sert\u00e3o, da cidade e litor\u00e2nea, mas a assinatura isot\u00f3pica deles \u00e9 a mesma\u201d, disse Nardoto.<\/p>\n<p>\u201cEsse padr\u00e3o \u00e9 muito parecido com o que observamos no Norte, Centro-Oeste e no Estado de S\u00e3o Paulo\u201d, comparou.<\/p>\n<p>Um estudo recente realizado por Rodrigo de Jesus Silva, da Esalq, com  concedida pela FAPESP, analisou a mudan\u00e7a do padr\u00e3o alimentar de comunidades remanescentes do quilombo Kalunga, situadas na Chapada dos Veadeiros.<\/p>\n<p>Ele constatou que as comunidades que t\u00eam mais f\u00e1cil acesso \u00e0 estrada j\u00e1 adotaram a \u201cdieta do supermercado\u201d.<\/p>\n<p>J\u00e1 as comunidades que t\u00eam menor acesso \u00e0 estrada e est\u00e3o situadas em regi\u00f5es de dif\u00edcil acesso apresentam uma dieta mais baseada em alimentos produzidos regionalmente.<\/p>\n<p>\u201cEssas comunidades foram as \u00fanicas dentre as que pesquisamos em que observamos essa continua\u00e7\u00e3o do padr\u00e3o alimentar\u201d, disse Nardoto.<\/p>\n<p>Simplifica\u00e7\u00e3o das fontes<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o da pesquisadora, a homogeneiza\u00e7\u00e3o do padr\u00e3o alimentar no Brasil, em raz\u00e3o de fatores como aumento da urbaniza\u00e7\u00e3o e melhoria das condi\u00e7\u00f5es sociais \u2013 que t\u00eam levado a mudan\u00e7as no estilo de vida e \u00e0 substitui\u00e7\u00e3o de alimentos produzidos localmente por itens processados \u2013, tem causado uma simplifica\u00e7\u00e3o das fontes alimentares e uma mudan\u00e7a de uma alimenta\u00e7\u00e3o C3 para C4.<\/p>\n<p>A dieta do brasileiro, que at\u00e9 ent\u00e3o era baseada em alimentos oriundos de plantas do tipo fotossint\u00e9tico C3, como o arroz e o feij\u00e3o, tem se tornado cada vez mais composta por alimentos originados de plantas C4, como o milho e a soja, presentes na ra\u00e7\u00e3o de diversos animais, al\u00e9m da cana-de-a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p>\u201cOs alimentos C4 n\u00e3o fazem mal \u00e0 sa\u00fade. O problema \u00e9 como s\u00e3o processados, o que faz com que tenham alto teor de gordura, sal e a\u00e7\u00facar e contribuam para o aumento da incid\u00eancia de obesidade e de doen\u00e7as cardiovasculares\u201d, ponderou.<\/p>\n<p>J\u00e1 a perda da identidade alimentar pelas comunidades tradicionais tamb\u00e9m pode ter impactos na conserva\u00e7\u00e3o ambiental, apontou.<\/p>\n<p>\u201c\u00c0 medida que essas comunidades perdem sua identidade alimentar, tamb\u00e9m acabam perdendo sua rela\u00e7\u00e3o com a paisagem local. Se n\u00e3o precisam mais do peixe para se alimentar, o rio deixa de ser uma fonte alimentar e passa a ser somente um meio de transporte\u201d, avaliou.<\/p>\n<p>O artigo \u201cFood insecurity in urban and rural areas in Central Brazil: transition from locallu produces foods to processed items\u201d (doi: 10.1080\/03670244.2016.1188090), de Livia Penna Firme Rodrigues e outros, pode ser lido por assinantes da revista Ecology of Food and Nutrition em .<\/p>\n<p>E o artigo \u201cFactors influencing the food transition in riverine communities in the Brazilian Amazon\u201d (doi: 10.1007\/s10668-016-9783-x), de Rodrigo de Jesus Silva e outros, pode ser lido na revista Environment, Development and Sustainability em\u00a0.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Elton Alisson | Ag\u00eancia FAPESP \u2013 O padr\u00e3o alimentar de popula\u00e7\u00f5es situadas em locais isolados na Amaz\u00f4nia, no Nordeste e no Centro-Oeste do Brasil e de comunidades de pescadores no litoral norte de S\u00e3o Paulo est\u00e1 cada vez mais semelhante ao de moradores de regi\u00f5es urbanas do pa\u00eds. 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