{"id":90146,"date":"2016-07-12T10:47:56","date_gmt":"2016-07-12T13:47:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=90146"},"modified":"2016-07-11T19:49:35","modified_gmt":"2016-07-11T22:49:35","slug":"aumentam-as-evidencias-de-que-pernilongo-tambem-pode-transmitir-zika","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2016\/aumentam-as-evidencias-de-que-pernilongo-tambem-pode-transmitir-zika\/90146","title":{"rendered":"Aumentam as evid\u00eancias de que pernilongo tamb\u00e9m pode transmitir Zika"},"content":{"rendered":"<p> Elton Alisson, de Porto Seguro (BA) | Ag\u00eancia FAPESP \u2013 O mosquito <strong><em>Aedes aegypti<\/em><\/strong> tem sido apontado como o principal vetor do v\u00edrus Zika, que, estima-se, infectou at\u00e9 junho 49 mil pessoas dentre 139 mil casos notificados no Brasil, e causou o nascimento de 1,6 mil crian\u00e7as com microcefalia em 582 munic\u00edpios.<\/p>\n<p>Mas, al\u00e9m do Aedes aegypti, o Zika tamb\u00e9m pode ter outros vetores, como o mosquito Culex quinquefasciatus, conhecido popularmente como pernilongo ou muri\u00e7oca, sobre o qual crescem as evid\u00eancias de que pode estar envolvido na emerg\u00eancia do v\u00edrus no pa\u00eds.<\/p>\n<p>O alerta foi feito por Const\u00e2ncia Fl\u00e1via Junqueira Ayres Lopes, pesquisadora do Instituto Aggeu Magalh\u00e3es (IAM) da Fiocruz em Recife, Pernambuco, em uma mesa-redonda sobre \u201cO mosquito, o v\u00edrus e o que temos para combat\u00ea-los\u201d, durante a 68\u00aa Reuni\u00e3o da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia (SBPC).<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 s\u00e9rias d\u00favidas se o Aedes aegypti \u00e9 um vetor exclusivo do v\u00edrus Zika\u201d, disse Lopes. \u201cEm ambientes silvestres v\u00e1rias esp\u00e9cies de Aedes est\u00e3o implicadas no processo de transmiss\u00e3o. Por que em ambientes urbanos somente uma esp\u00e9cie estaria envolvida?\u201d, questionou.<\/p>\n<p>De acordo com a pesquisadora, o mosquito Aedes aegypti come\u00e7ou a ser incriminado como vetor do v\u00edrus Zika em1947, quando foi encontrado em uma floresta com nome hom\u00f4nimo em Uganda, na \u00c1frica, por pesquisadores financiados pelo Instituto Rockefeller, dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Os pesquisadores estavam tentando isolar o v\u00edrus da febre amarela e, para isso, estudaram mosquitos de esp\u00e9cies de Aedes, velhos conhecidos como transmissores da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Ao analisar o material coletado, eles observaram que o v\u00edrus que isolaram era diferente e o batizaram de Zika em homenagem \u00e0 floresta onde foi descoberto.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, diversos outros isolamentos do v\u00edrus Zika foram feitos a partir de diferentes esp\u00e9cies de Aedes, como o Aedes africanus, contou a pesquisadora.<\/p>\n<p>Em 1966, quando houve a primeira emerg\u00eancia do v\u00edrus Zika, na Mal\u00e1sia, foram analisados in\u00fameros pools de mosquito no pa\u00eds asi\u00e1tico e identificado apenas um como Aedes aegypti.<\/p>\n<p>J\u00e1 nas epidemias mais recentes do v\u00edrus Zika, como em 2007, na Micron\u00e9sia, na regi\u00e3o do Pac\u00edfico, quando cerca de 70% da popula\u00e7\u00e3o da ilha de Yap, com popula\u00e7\u00e3o de 7,3 mil pessoas, foi infectada, n\u00e3o foi encontrado nenhum pool de Aedes aegypti, afirmou a pesquisadora.<\/p>\n<p>\u201cNa verdade, h\u00e1 pouqu\u00edssimos mosquitos Aedes aegypti na Micron\u00e9sia. H\u00e1 outras esp\u00e9cies de Aedes na regi\u00e3o, mas o Aedes aegypti \u00e9 muito raro na maioria das ilhas e completamente ausente nas ilhas onde houve uma grande ocorr\u00eancia de casos de infec\u00e7\u00e3o pelo Zika v\u00edrus\u201d, disse.<\/p>\n<p>Quando ocorreu a epidemia, Lopes entrou em contato com pesquisadores da regi\u00e3o a fim de saber qual era a esp\u00e9cie de mosquito mais abundante por l\u00e1. A resposta dos pesquisadores foi o Culex quinquefasciatus, que n\u00e3o tinha sido investigado como um vetor do v\u00edrus Zika.<\/p>\n<p>\u201cA quest\u00e3o \u00e9 que todo mundo que estudou a circula\u00e7\u00e3o do v\u00edrus Zika antes s\u00f3 olhou para as esp\u00e9cies de Aedes. Como esses mosquitos j\u00e1 s\u00e3o conhecidos como vetores de dengue, chikungunya e febre amarela, por que n\u00e3o seriam tamb\u00e9m do Zika?\u201d, explicou Lopes.<\/p>\n<p>No in\u00edcio da emerg\u00eancia do Zika no Brasil, a pesquisadora decidiu investigar se o Culex quinquefasciatus tamb\u00e9m poderia transmitir o v\u00edrus. O mosquito \u00e9 20% mais abundante do que o Aedes aegypti no ambiente urbano e \u00e9 vetor de outros arbov\u00edrus (transmitidos essencialmente por artr\u00f3podes), como o do Oeste do Nilo e da encefalite japonesa, que s\u00e3o pr\u00f3ximos do v\u00edrus Zika.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, come\u00e7ou a chamar a aten\u00e7\u00e3o da comunidade cient\u00edfica e da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS), por meio de cartas publicadas em revistas como Lancet, sobre a urg\u00eancia e a necessidade de se investigar outras esp\u00e9cies de mosquito que tamb\u00e9m podem ser vetores do v\u00edrus Zika, e n\u00e3o apenas o Aedes aegypti .<\/p>\n<p>\u201cAt\u00e9 ent\u00e3o, infelizmente, a comunidade cient\u00edfica e a OMS estavam focando s\u00f3 o Aedes aegypti e todo o combate ao v\u00edrus Zika foi voltado exclusivamente para essa esp\u00e9cie de mosquito, negligenciando uma s\u00e9rie de outras, como o Culex quinquefasciatus\u201d, afirmou Lopes.<\/p>\n<p>Os resultados dos ensaios realizados pelos pesquisadores, em que foram infectados, em laborat\u00f3rio, mosquitos Culex quinquefasciatus e Aedes aegypti com Zika para comparar suas capacidades de transmitir o v\u00edrus, indicaram que o desempenho das duas esp\u00e9cies \u00e9 muito semelhante.<\/p>\n<p>Os pesquisadores conseguiram observar a presen\u00e7a do v\u00edrus Zika na gl\u00e2ndula salivar dos mosquitos Culex quinquefasciatus eAedes aegypti tr\u00eas dias ap\u00f3s infectados.<\/p>\n<p>\u201cEsse ciclo \u00e9 menor do que o do v\u00edrus da dengue, que leva entre 10 a 15 dias para vencer as barreiras de resist\u00eancia e chegar \u00e0 gl\u00e2ndula salivar dos mosquitos. O pico de surgimento do v\u00edrus Zika na gl\u00e2ndula salivar dos insetos ocorre sete dias ap\u00f3s serem infectados\u201d, detalhou Lopes.<\/p>\n<p>A fim de verificar se o v\u00edrus Zika era capaz de sair da gl\u00e2ndula salivar e ser encontrado na saliva dos mosquitos, os pesquisadores realizaram um teste em que expuseram os insetos a um papel filtro coberto com mel e um antibi\u00f3tico.<\/p>\n<p>Ao se alimentar do mel, os mosquitos depositavam saliva no papel filtro, que era coletada e dela extra\u00eddo o RNA.<\/p>\n<p>O resultado do ensaio, em vias de ser publicado, aponta que o Zika est\u00e1 presente e com carga semelhante na saliva dos mosquitosCulex quinquefasciatus e Aedes aegypti.<\/p>\n<p>\u201cComo o Culex quinquefasciatus \u00e9 mais abundante no ambiente urbano do que o Aedes aegypti, queremos saber agora qual tem maior import\u00e2ncia no papel de transmiss\u00e3o do v\u00edrus Zika\u201d, disse Lopes.<\/p>\n<p>Os resultados dos estudos realizados pelos pesquisadores da Fiocruz foram apresentados \u00e0 OMS, que recomendou \u00e0 Organiza\u00e7\u00e3o Pan-Americana da Sa\u00fade (Opas) que outras esp\u00e9cies de mosquitos \u2013 principalmente o Culex quinquefasciatus \u2013 fossem investigados em regi\u00f5es com casos registrados de infec\u00e7\u00e3o por v\u00edrus Zika no mundo.<\/p>\n<p>Mudan\u00e7a na forma de controle<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o de Lopes, uma das implica\u00e7\u00f5es de ter outras esp\u00e9cies envolvidas na transmiss\u00e3o do v\u00edrus Zika, caso seja comprovado, \u00e9 que mudar\u00e1 drasticamente a forma de controle da infec\u00e7\u00e3o, que hoje est\u00e1 focada exclusivamente no Aedes aegypti.<\/p>\n<p>Os h\u00e1bitos do Aedes aegypti s\u00e3o bastante diferentes dos do Culex quinquefasciatus, ressaltou.<\/p>\n<p>Enquanto o Aedes aegypti pica durante o dia, o Culex quinquefasciatus pica durante a noite. Isso deve provocar uma mudan\u00e7a de h\u00e1bito das pessoas \u2013 especialmente as gr\u00e1vidas \u2013 que est\u00e3o tomando medidas de prote\u00e7\u00e3o contra a picada, como o uso de repelentes, somente durante o dia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, enquanto o Aedes aegypti tem prefer\u00eancia por colocar ovos em \u00e1gua parada, de chuva, o Culex quinquefasciatus gosta de colocar seus ovos em \u00e1gua extremamente polu\u00edda, como a de esgoto e de fossa. \u201cIsso ir\u00e1 requerer um investimento na melhoria das condi\u00e7\u00f5es de saneamento no pa\u00eds, que \u00e9 um problema hist\u00f3rico\u201d, avaliou a pesquisadora.<\/p>\n<p>O controle do Culex quinquefasciatus, contudo, deve ser mais f\u00e1cil do que o do Aedes aegypti, estimou Lopes.<\/p>\n<p>Enquanto a f\u00eamea do Aedes aegypti prefere depositar seus ovos de forma distribu\u00edda para garantir que sua prole tenha maiores chances de sobreviv\u00eancia, a f\u00eamea do mosquito Culex quinquefasciatus deposita seus ovos em um \u00fanico lugar.<\/p>\n<p>\u201cOs criadouros do Culex quinquefasciatus s\u00e3o mais concentrados e t\u00eam um alto n\u00edvel de infesta\u00e7\u00e3o, enquanto os do Aedes aegyptis\u00e3o mais distribu\u00eddos\u201d, comparou a pesquisadora.<\/p>\n<p>\u201cA chance de sucesso de um programa de controle de Culex quinquefasciatus \u00e9 muito maior do que o de Aedes aegypti. Prova disso \u00e9 que at\u00e9 hoje n\u00e3o h\u00e1 um controle efetivo da dengue no Brasil\u201d, avaliou.<\/p>\n<p>De acordo com a pesquisadora, Recife \u2013 a cidade considerada o epicentro da epidemia do v\u00edrus Zika no Brasil \u2013 \u00e9 a \u00fanica no pa\u00eds onde h\u00e1 incid\u00eancia de filariose \u2013 uma doen\u00e7a parasit\u00e1ria cr\u00f4nica causada por vermes nematoides (as fil\u00e1rias). O parasita \u00e9 transmitido pelo mosquito Culex quinquefasciatus, que \u00e9 o vetor exclusivo.<\/p>\n<p>Um trabalho realizado por colegas dela na Fiocruz de Recife identificou que os casos de microcefalia registrados na cidade ocorreram exatamente em regi\u00f5es onde tamb\u00e9m foram notificados casos de filariose.<\/p>\n<p>\u201cCerca de 85% das m\u00e3es que tiveram beb\u00eas com microcefalia vivem em \u00e1reas onde foram registrados casos de filariose\u201d, afirmou Lopes.<\/p>\n<p>Algumas das caracter\u00edsticas das regi\u00f5es onde moram essas m\u00e3es s\u00e3o as baixas condi\u00e7\u00f5es de saneamento b\u00e1sico, com esgoto a c\u00e9u aberto.<\/p>\n<p>\u201cSe o v\u00edrus Zika fosse transmitido exclusivamente por Aedes aegypti seria uma doen\u00e7a democr\u00e1tica, como a dengue \u00e9. Todo mundo pega, e n\u00e3o somente as pessoas que est\u00e3o extremamente expostas a picadas e \u00e0 transmiss\u00e3o do v\u00edrus\u201d, avaliou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Elton Alisson, de Porto Seguro (BA) | Ag\u00eancia FAPESP \u2013 O mosquito Aedes aegypti tem sido apontado como o principal vetor do v\u00edrus Zika, que, estima-se, infectou at\u00e9 junho 49 mil pessoas dentre 139 mil casos notificados no Brasil, e causou o nascimento de 1,6 mil crian\u00e7as com microcefalia em 582 munic\u00edpios. 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