{"id":86035,"date":"2016-05-11T10:20:29","date_gmt":"2016-05-11T13:20:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=86035"},"modified":"2016-05-10T18:21:30","modified_gmt":"2016-05-10T21:21:30","slug":"presenca-de-medusas-da-especie-cassiopea-andromeda-no-litoral-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2016\/presenca-de-medusas-da-especie-cassiopea-andromeda-no-litoral-brasileiro\/86035","title":{"rendered":"Presen\u00e7a de medusas da esp\u00e9cie Cassiopea andromeda no litoral brasileiro"},"content":{"rendered":"<p> Karina Toledo \u00a0| \u00a0Ag\u00eancia FAPESP \u2013\u00a0Pesquisadores confirmam a presen\u00e7a de <strong><em>medusas<\/em><\/strong> da esp\u00e9cie Cassiopea andromeda no litoral brasileiro. An\u00e1lises sugerem que o animal teria emigrado do mar Vermelho para as Am\u00e9ricas durante as grandes navega\u00e7\u00f5es.\u00a0O nome pomposo foi escolhido em homenagem a duas personagens da mitologia grega: Cassiopeia, a rainha da Eti\u00f3pia que com sua vaidade e arrog\u00e2ncia teria provocado a ira das Nereidas, e Andr\u00f4meda, sua filha, oferecida em sacrif\u00edcio a um monstro marinho enviado pelo deus Nereu para castigar o reino et\u00edope.<\/p>\n<p>Reservada, Cassiopea andromeda n\u00e3o \u00e9 como outras esp\u00e9cies de \u00e1gua-viva que saem por a\u00ed nadando em busca de comida e de parceiros sexuais. Ela procura um canto para chamar de seu e por ali permanece, de ponta-cabe\u00e7a, durante boa parte da vida. Mas \u00e9 exigente: o local deve ter \u00e1gua calma, rasa, quente e transparente. \u00c9 tamb\u00e9m de uma grande beleza.<\/p>\n<p>At\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, os cientistas acreditavam que essa esp\u00e9cie origin\u00e1ria do mar Vermelho n\u00e3o ocorria no litoral brasileiro \u2013 que, de maneira geral, n\u00e3o lhe oferece as condi\u00e7\u00f5es ideais de sobreviv\u00eancia. Mas sua presen\u00e7a na forma adulta \u2013 de medusa \u2013 foi pela primeira vez confirmada no pa\u00eds em um estudo  e publicado recentemente no Journal of the Marine Biological Association of the United Kingdom.<\/p>\n<p>An\u00e1lises gen\u00e9ticas descritas no artigo sugerem que a presen\u00e7a de Cassiopea andromeda em \u00e1guas brasileiras \u00e9 bem mais antiga do que se poderia imaginar.<\/p>\n<p>Uma das hip\u00f3teses \u00e9 que ela teria vindo para as Am\u00e9ricas na \u00e9poca das grandes navega\u00e7\u00f5es e, inicialmente, se instalado na regi\u00e3o da Fl\u00f3rida e do Caribe. Em seguida, aproveitando o intenso fluxo de caravelas que cruzavam o continente naquele per\u00edodo, teria alcan\u00e7ado o Hava\u00ed e o litoral sul-americano.<\/p>\n<p>\u201cNossa teoria \u00e9 que, na forma de p\u00f3lipo [a primeira fase de seu ciclo de vida], a esp\u00e9cie teria grudado em alguma embarca\u00e7\u00e3o antiga e, assim, chegado ao Brasil\u201d, relatou S\u00e9rgio Nascimento Stampar, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Assis e coautor do artigo.<\/p>\n<p>Assim como ocorre com outras esp\u00e9cies de \u00e1guas-vivas, explicou o pesquisador, o ciclo de vida de Cassiopea andromeda \u00e9 dividido em duas fases: p\u00f3lipo e medusa.<\/p>\n<p>As medusas adultas se reproduzem de forma sexuada e geram os p\u00f3lipos \u2013 organismos s\u00e9sseis (que n\u00e3o se movimentam voluntariamente e vivem fixos a rochas, conchas ou outras estruturas s\u00f3lidas), com no m\u00e1ximo 5 mil\u00edmetros de tamanho, que s\u00e3o considerados imortais pelos cientistas.<\/p>\n<p>\u201cOs p\u00f3lipos podem se reproduzir de forma assexuada e dar origem a novos p\u00f3lipos com a mesma carga gen\u00e9tica ou, se as condi\u00e7\u00f5es do meio forem favor\u00e1veis, podem brotar e se transformar em medusas. Na fase adulta, o animal pode alcan\u00e7ar entre 30 e 40 cent\u00edmetros de di\u00e2metro, o tamanho de uma pizza\u201d, disse Stampar.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a de p\u00f3lipos da Cassiopea andromeda j\u00e1 havia sido identificada no Brasil em 1999, no Centro de Biologia Marinha da Universidade de S\u00e3o Paulo (CEBIMar\/USP).<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o ach\u00e1vamos que encontrar\u00edamos a forma adulta em nosso litoral porque elas preferem condi\u00e7\u00f5es parecidas com as existentes no Caribe: \u00e1guas claras, que permitem a passagem da luz do sol. Essa depend\u00eancia da energia solar se deve ao fato de que a esp\u00e9cie vive em associa\u00e7\u00e3o com um organismo simbionte, um protista dinoflagelado que faz fotoss\u00edntese e transfere parte do carbono gerado para a medusa em troca de acolhida e prote\u00e7\u00e3o\u201d, disse Stampar.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de ficar com parte da energia produzida pelo inquilino, a Cassiopea andromeda tamb\u00e9m se alimenta de pequenos animais que habitam o sedimento marinho. Para isso, ela permanece de ponta-cabe\u00e7a e bate contra o fundo do oceano para levantar uma nuvem de petiscos com a qual se delicia.<\/p>\n<p>O professor Andr\u00e9 Carrara Morandini, chefe do Departamento de Zoologia do Instituto de Bioci\u00eancias (IB) da USP e autor principal do artigo, contou que recebeu em 2008 fotos de uma popula\u00e7\u00e3o de \u00e1guas-vivas bastante peculiar que havia aparecido no canal Itajuru, na cidade de Cabo Frio (RJ).<\/p>\n<p>\u201cNa \u00e9poca, eu trabalhava em um campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) pr\u00f3ximo de Cabo Frio e me pediram ajuda para identificar a esp\u00e9cie at\u00e9 ent\u00e3o desconhecida. Sab\u00edamos que pertencia ao g\u00eanero Cassiopea, mas este abrange 12 diferentes esp\u00e9cies e n\u00e3o consegu\u00edamos definir claramente em qual delas os animais se encaixavam\u201d, disse.<\/p>\n<p>Por meio das an\u00e1lises gen\u00e9ticas, o grupo confirmou que se tratava de Cassiopea andromeda. Ao comparar as amostras coletadas no Brasil com dados de bancos p\u00fablicos, como o , notaram que o material gen\u00e9tico era id\u00eantico ao de animais encontrados no Caribe e na regi\u00e3o do mar Vermelho.<\/p>\n<p>\u201cCome\u00e7amos, ent\u00e3o, a discutir como essas \u00e1guas-vivas teriam se deslocado por dist\u00e2ncias t\u00e3o grandes e conclu\u00edmos que vieram durante as grandes navega\u00e7\u00f5es. Com t\u00e9cnicas de data\u00e7\u00e3o molecular, modelos que calculam a taxa de muta\u00e7\u00e3o de uma esp\u00e9cie, foi poss\u00edvel estimar quando essa migra\u00e7\u00e3o teria ocorrido. Mas ainda n\u00e3o sabemos se ela migrou gradativamente do Caribe para o Brasil ou se houve uma segunda introdu\u00e7\u00e3o independente no continente americano\u201d, disse Morandini.<\/p>\n<p>Desaparecimento repentino<\/p>\n<p>Por algum motivo que os pesquisadores ainda desconhecem, a popula\u00e7\u00e3o de medusas encontrada em Cabo Frio se desenvolveu intensamente entre os anos de 2008 e 2009 e depois entrou em decl\u00ednio. No auge populacional, os pesquisadores contaram mais de 2 mil indiv\u00edduos em uma \u00e1rea de 200 metros quadrados. Entre 2012 e 2013, todos desapareceram.<\/p>\n<p>Os p\u00f3lipos da esp\u00e9cie, no entanto, continuam por l\u00e1 e podem ser encontrados em diversas partes do litoral brasileiro.<\/p>\n<p>\u201cEsse desaparecimento repentino das medusas \u00e9 um ind\u00edcio de que se trata de uma esp\u00e9cie n\u00e3o nativa, ou seja, introduzida ou invasora. Outra evid\u00eancia \u00e9 que, nessa popula\u00e7\u00e3o de Cabo Frio, todos os indiv\u00edduos eram machos\u201d, disse Morandini.<\/p>\n<p>No artigo, o grupo discute o risco ambiental representado por esp\u00e9cies invasoras, que na aus\u00eancia de predadores naturais podem dominar uma determinada regi\u00e3o e comprometer a sobreviv\u00eancia de outras esp\u00e9cies, gerando desequil\u00edbrio ecol\u00f3gico.<\/p>\n<p>\u201cEm algumas partes do mundo, como no Jap\u00e3o, a explos\u00e3o populacional de \u00e1guas-vivas \u00e9 um problema s\u00e9rio. Elas s\u00e3o pe\u00e7onhentas e podem matar peixes e outros organismos marinhos que com elas tiverem contato \u2013 prejudicando a piscicultura e a pesca. Como a Cassiopea andromeda \u00e9 uma esp\u00e9cie introduzida no Brasil, isso pode ocorrer a qualquer momento, caso ela se adapte \u00e0 regi\u00e3o\u201d, disse Stampar.<\/p>\n<p>Morandini, por\u00e9m, acredita que os riscos s\u00e3o pequenos. \u201cA esp\u00e9cie poderia, talvez, causar algum desequil\u00edbrio em uma regi\u00e3o mais fechada, como uma ba\u00eda ou uma lagoa. Como s\u00e3o animais com mobilidade bastante reduzida, dificilmente v\u00e3o se dispersar por grandes dist\u00e2ncias. N\u00e3o acredito que haveria um grande impacto no ambiente que chegasse a prejudicar os humanos\u201d, avaliou.<\/p>\n<p>As an\u00e1lises que deram origem ao artigo foram feitas no \u00e2mbito de um  coordenado pelo professor do IB-USP Antonio Carlos Marques, no \u00e2mbito do Programa FAPESP de Pesquisas em Caracteriza\u00e7\u00e3o, Conserva\u00e7\u00e3o, Restaura\u00e7\u00e3o e Uso Sustent\u00e1vel da Biodiversidade (BIOTA-FAPESP).<\/p>\n<p>O artigo All non-indigenous species were introduced recently? The case study of Cassiopea (Cnidaria: Scyphozoa) in Brazilian waters (doi: 10.1017\/S0025315416000400) pode ser lido em .<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Karina Toledo \u00a0| \u00a0Ag\u00eancia FAPESP \u2013\u00a0Pesquisadores confirmam a presen\u00e7a de medusas da esp\u00e9cie Cassiopea andromeda no litoral brasileiro. 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