{"id":84408,"date":"2016-04-15T10:08:33","date_gmt":"2016-04-15T13:08:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=84408"},"modified":"2016-04-14T20:11:04","modified_gmt":"2016-04-14T23:11:04","slug":"minicerebros-ajudam-a-entender-relacao-entre-o-zika-e-a-microcefalia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2016\/minicerebros-ajudam-a-entender-relacao-entre-o-zika-e-a-microcefalia\/84408","title":{"rendered":"Minic\u00e9rebros ajudam a entender rela\u00e7\u00e3o entre o Zika e a microcefalia"},"content":{"rendered":"<p> Karina Toledo\u00a0 | \u00a0Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Cientistas brasileiros t\u00eam usado os chamados organoides cerebrais ou minic\u00e9rebros \u2013 estruturas tridimensionais milim\u00e9tricas criadas em laborat\u00f3rio a partir de c\u00e9lulas-tronco pluripotentes induzidas (IPS, na sigla em ingl\u00eas) \u2013 para entender a rela\u00e7\u00e3o entre a infec\u00e7\u00e3o pelo <em><strong>v\u00edrus Zika<\/strong><\/em> e o desenvolvimento de microcefalia.<\/p>\n<p>Parte dos experimentos coordenados por Stevens Rehen e Patr\u00edcia Garcez, pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Instituto D\u2019Or de Pesquisa e Ensino (Idor), foi\u00a0\u00a0pela revista Science. O trabalho contou com a participa\u00e7\u00e3o da \u00a0FAPESP de p\u00f3s-doutorado Juliana Minardi Nascimento.<\/p>\n<p>\u201cO objetivo do meu projeto de p\u00f3s-doutorado \u00e9 usar organoides cerebrais criados a partir de c\u00e9lulas de pacientes com esquizofrenia para fazer an\u00e1lises de prote\u00f4mica, ou seja, avaliar todas as prote\u00ednas expressas nessas c\u00e9lulas e comparar com as prote\u00ednas expressas em c\u00e9lulas de pacientes sem a doen\u00e7a para entender o que est\u00e1 diferente. A grande vantagem \u00e9 que esse modelo mant\u00e9m intacta a informa\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica do portador da doen\u00e7a\u201d, explicou Nascimento.<\/p>\n<p>Sediada no Laborat\u00f3rio de Neuroprote\u00f4mica do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), sob a supervis\u00e3o do professor Daniel Martins de Souza, Nascimento buscou parceria com o grupo do Rio, um dos poucos no mundo que dominam a t\u00e9cnica de cria\u00e7\u00e3o dos minic\u00e9rebros para o estudo de doen\u00e7as neuropsiqui\u00e1tricas.<\/p>\n<p>O m\u00e9todo consiste, inicialmente, em reprogramar c\u00e9lulas adultas \u2013 que podem ser provenientes da pele ou da descama\u00e7\u00e3o natural da bexiga extra\u00eddas da urina \u2013 para faz\u00ea-las assumir est\u00e1gio de pluripot\u00eancia semelhante ao de c\u00e9lulas-tronco embrion\u00e1rias (t\u00e9cnica descrita em 2006 por Shinya Yamanaka, da Universidade de Kyoto, no Jap\u00e3o, e premiada com o Nobel de Medicina em 2012). Em seguida, essas c\u00e9lulas IPS s\u00e3o induzidas por est\u00edmulos qu\u00edmicos a se diferenciar em c\u00e9lula-tronco neural \u2013 um tipo de c\u00e9lula progenitora que pode dar origem a diversas c\u00e9lulas do c\u00e9rebro, como neur\u00f4nios, astr\u00f3citos e micr\u00f3glias.<\/p>\n<p>Para formar os minic\u00e9rebros, esse processo de diferencia\u00e7\u00e3o precisa ocorrer tridimensionalmente, sob condi\u00e7\u00f5es espec\u00edficas de cultivo. \u201cEm vez de as c\u00e9lulas ficarem em uma placa de cultura, elas s\u00e3o colocadas em rota\u00e7\u00e3o, sob condi\u00e7\u00f5es bem espec\u00edficas. Ao assumirem o formato tridimensional, a comunica\u00e7\u00e3o celular se altera. Na cultura bidimensional, elas s\u00f3 conseguem interagir com c\u00e9lulas que est\u00e3o imediatamente ao seu lado. No modelo tridimensional, a comunica\u00e7\u00e3o ocorre com todas ao redor. O funcionamento das c\u00e9lulas fica mais semelhante ao que ocorre no c\u00e9rebro em desenvolvimento\u201d, explicou Nascimento.<\/p>\n<p>Sob condi\u00e7\u00f5es adequadas, portanto, essas c\u00e9lulas-tronco neurais se organizam em camadas, formando inicialmente neuroesferas e, depois, os organoides cerebrais. As primeiras mimetizam o c\u00e9rebro de um embri\u00e3o em um est\u00e1gio rudimentar, enquanto os minic\u00e9rebros se equiparam ao c\u00e9rebro de um feto de 3 meses.<\/p>\n<p>Nascimento planeja cultivar os modelos para estudo de esquizofrenia no Rio e, posteriormente, concluir na Unicamp as an\u00e1lises de prote\u00f4mica. Desde que surgiu a epidemia causada pelo v\u00edrus Zika, o trabalho vem sendo feito em paralelo com os estudos voltados a entender o efeito da infec\u00e7\u00e3o no c\u00e9rebro.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s sab\u00edamos que os organoides cerebrais seriam \u00fateis para entender a rela\u00e7\u00e3o do v\u00edrus com a microcefalia. Por se tratar de uma quest\u00e3o importante de sa\u00fade p\u00fablica, parte da equipe do laborat\u00f3rio de Rehen se concentrou nesse objetivo. Foi um trabalho que se desenvolveu muito rapidamente\u201d, contou Nascimento.<\/p>\n<p>Tr\u00eas diferentes experimentos foram feitos para testar os efeitos do v\u00edrus Zika no c\u00e9rebro. Primeiro foram infectadas as c\u00e9lulas-tronco neuronais, cultivadas bidimensionalmente. O grupo observou que o v\u00edrus causava a morte dessas c\u00e9lulas em cerca de tr\u00eas dias.<\/p>\n<p>Em um segundo experimento, as c\u00e9lulas-tronco foram infectadas e colocadas para se diferenciar no modelo tridimensional. Ap\u00f3s tr\u00eas dias, Rehen e sua equipe observaram que o Zika havia comprometido a capacidade de gera\u00e7\u00e3o de neuroesferas.<\/p>\n<p>\u201cAs poucas neuroesferas formadas se degradaram em at\u00e9 seis dias, enquanto as originadas de c\u00e9lulas n\u00e3o infectadas se desenvolveram normalmente\u201d, disse Nascimento.<\/p>\n<p>Imagens de microscopia eletr\u00f4nica mostraram que o v\u00edrus havia se multiplicado rapidamente no interior das c\u00e9lulas, induzindo um processo de morte celular programada conhecido como apoptose.<\/p>\n<p>Em um terceiro experimento, minic\u00e9rebros com 30 dias de forma\u00e7\u00e3o foram infectados com o v\u00edrus. Ap\u00f3s 11 dias, eles foram comparados com organoides n\u00e3o infectados e observou-se que haviam crescido 40% menos.<\/p>\n<p>\u201cEmbora os minic\u00e9rebros n\u00e3o tenham se desmanchado como as neuroesferas, seu processo de crescimento foi claramente prejudicado. Agora estamos investigando se a diferencia\u00e7\u00e3o celular tamb\u00e9m foi afetada no modelo\u201d, disse Nascimento.<\/p>\n<p>Pr\u00f3ximos passos<\/p>\n<p>Em parceria com pesquisadores da Unicamp, o grupo do Rio pretende fazer an\u00e1lises de prote\u00f4mica nos minic\u00e9rebros afetados pelo Zika para tentar desvendar quais vias bioqu\u00edmicas foram alteradas pela infec\u00e7\u00e3o, o que pode dar pistas para poss\u00edveis terapias.<\/p>\n<p>\u201cNosso objetivo \u00e9 identificar, entre medicamentos j\u00e1 existentes e aprovados para uso em humanos, alguma droga capaz de diminuir o impacto do v\u00edrus sobre as c\u00e9lulas cerebrais. J\u00e1 estamos testando alguns compostos, desde suplementos alimentares at\u00e9 antivirais. H\u00e1 um que se mostrou promissor em testes preliminares\u201d, adiantou Nascimento.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Karina Toledo\u00a0 | \u00a0Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Cientistas brasileiros t\u00eam usado os chamados organoides cerebrais ou minic\u00e9rebros \u2013 estruturas tridimensionais milim\u00e9tricas criadas em laborat\u00f3rio a partir de c\u00e9lulas-tronco pluripotentes induzidas (IPS, na sigla em ingl\u00eas) \u2013 para entender a rela\u00e7\u00e3o entre a infec\u00e7\u00e3o pelo v\u00edrus Zika e o desenvolvimento de microcefalia. 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