{"id":84259,"date":"2016-04-13T10:24:18","date_gmt":"2016-04-13T13:24:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=84259"},"modified":"2016-04-12T19:27:54","modified_gmt":"2016-04-12T22:27:54","slug":"aquecimento-podera-reduzir-em-44-a-grande-circulacao-das-aguas-do-atlantico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2016\/aquecimento-podera-reduzir-em-44-a-grande-circulacao-das-aguas-do-atlantico\/84259","title":{"rendered":"Aquecimento poder\u00e1 reduzir em 44% a grande circula\u00e7\u00e3o das \u00e1guas do Atl\u00e2ntico"},"content":{"rendered":"<p> Jos\u00e9 Tadeu Arantes\u00a0 | \u00a0Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Devido \u00e0s <strong><em>mudan\u00e7as clim\u00e1ticas<\/em><\/strong>, a gigantesca circula\u00e7\u00e3o de \u00e1guas, que leva calor do Atl\u00e2ntico Sul para o Atl\u00e2ntico Norte, poder\u00e1 diminuir quase pela metade ainda neste s\u00e9culo. Se isso ocorrer, as consequ\u00eancias ser\u00e3o dram\u00e1ticas, tanto em escala global quanto, principalmente, nas por\u00e7\u00f5es litor\u00e2neas dos tr\u00eas continentes banhados pelo Atl\u00e2ntico: Am\u00e9rica, Europa e \u00c1frica.<\/p>\n<p>Para se ter ideia da import\u00e2ncia dessa circula\u00e7\u00e3o oce\u00e2nica, conhecida como C\u00e9lula de Revolvimento Meridional do Atl\u00e2ntico, basta considerar que sua pot\u00eancia (quantidade de energia liberada por segundo) \u00e9 quase 100 mil vezes maior do que a da usina hidrel\u00e9trica de Itaipu, com todas as turbinas funcionando. A estimativa mais pessimista do IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change \u2013 Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas) \u00e9 que essa pot\u00eancia, de 1,3 petawatt (1,3 x 1015 W), venha a ser reduzida em 44% at\u00e9 2100.<\/p>\n<p>Nesse caso, 44% da energia t\u00e9rmica atualmente transportada para as \u00e1guas frias das altas latitudes do Atl\u00e2ntico Norte ficar\u00e3o retidas e ser\u00e3o redistribu\u00eddas no Atl\u00e2ntico Sul e no Oceano Austral, impactando os centros de alta e baixa press\u00e3o, o regime dos ventos, a intensidade e dura\u00e7\u00e3o das chuvas etc.<\/p>\n<p>Uma forma de aferir a acur\u00e1cia dessas proje\u00e7\u00f5es e desenhar com maior precis\u00e3o o cen\u00e1rio futuro \u00e9 olhar para o passado. Isto \u00e9, \u201crodar o modelo para tr\u00e1s\u201d e comparar os resultados obtidos pela simula\u00e7\u00e3o com os dados concretos colhidos por meio da pesquisa de campo.<\/p>\n<p>Tal \u00e9 o prop\u00f3sito do projeto \u201cResposta da por\u00e7\u00e3o oeste do Oceano Atl\u00e2ntico \u00e0s mudan\u00e7as na circula\u00e7\u00e3o meridional do Atl\u00e2ntico: variabilidade milenar a sazonal\u201d, conduzido pelo paleoclimat\u00f3logo Cristiano Mazur Chiessi, professor da Escola de Artes, Ci\u00eancias e Humanidades da Universidade de S\u00e3o Paulo (EACH-USP). O projeto \u00e9  por meio do Programa Jovens Pesquisadores.<\/p>\n<p>\u201cNosso projeto procura avaliar os impactos que as mudan\u00e7as ocorridas h\u00e1 milhares de anos na circula\u00e7\u00e3o oce\u00e2nica do Atl\u00e2ntico tiveram, na \u00e9poca, sobre o clima da Am\u00e9rica do Sul e sobre a por\u00e7\u00e3o oeste do Atl\u00e2ntico Sul. Um desses impactos, que aconteceu quando a c\u00e9lula teve sua intensidade drasticamente reduzida ou at\u00e9 mesmo colapsou, foi um per\u00edodo prolongado de chuvas torrenciais sobre a regi\u00e3o nordeste do atual territ\u00f3rio brasileiro\u201d, disse Chiessi \u00e0 Ag\u00eancia FAPESP.<\/p>\n<p>Nas condi\u00e7\u00f5es atuais, a C\u00e9lula de Revolvimento Meridional do Atl\u00e2ntico \u00e9 uma circula\u00e7\u00e3o oce\u00e2nica de larga escala, que recolhe \u00e1guas quentes de grande salinidade, situadas no topo da coluna de \u00e1gua do Atl\u00e2ntico Sul, e as leva at\u00e9 altas latitudes do Atl\u00e2ntico Norte.<\/p>\n<p>\u201cAo longo do trajeto, a intensa evapora\u00e7\u00e3o, que ocorre nas baixas latitudes, causa um aumento ainda maior da salinidade. Posteriormente, o resfriamento, nas altas latitudes, provoca uma contra\u00e7\u00e3o de volume. Conjugados, esses dois fatores, aumento de salinidade e contra\u00e7\u00e3o de volume, tornam as \u00e1guas mais densas. E a maior densidade faz com que elas afundem na coluna de \u00e1gua e retornem ao Atl\u00e2ntico Sul em camadas profundas e frias, at\u00e9 alcan\u00e7ar as imedia\u00e7\u00f5es da Ant\u00e1rtica\u201d, explicou o pesquisador (veja a anima\u00e7\u00e3o em ).<\/p>\n<p>Em maior detalhe, o processo \u00e9 o seguinte. A corrente quente desloca-se para norte, pr\u00f3xima do litoral leste da Am\u00e9rica, desde a altura de Salvador, no Brasil, at\u00e9 a altura de Nova York, nos Estados Unidos, aproximadamente. L\u00e1, sofre uma inflex\u00e3o para leste, rumo \u00e0 Isl\u00e2ndia e \u00e0 Noruega. E, depois de alcan\u00e7ar o norte europeu, retorna ao sul, j\u00e1 como corrente fria e profunda, fluindo paralela \u00e0 margem leste da Am\u00e9rica, at\u00e9 chegar \u00e0s imedia\u00e7\u00f5es da Ant\u00e1rtica.<\/p>\n<p>A grande perda de calor para o meio, que faz a corrente afundar, ocorre em dois s\u00edtios espec\u00edficos: o Mar de Labrador, entre o Canad\u00e1 e a Groenl\u00e2ndia, e o Mar da Noruega, entre a Groenl\u00e2ndia, a Isl\u00e2ndia e a Noruega. \u201cDevido a essa libera\u00e7\u00e3o de calor, a temperatura m\u00e9dia da superf\u00edcie oce\u00e2nica perto do sul da Noruega ou do norte da Inglaterra \u00e9 muito mais alta do que na por\u00e7\u00e3o da costa canadense situada na mesma latitude\u201d, informou Chiessi.<\/p>\n<p>A c\u00e9lula exerce uma influ\u00eancia muito grande sobre o clima, n\u00e3o apenas do oceano, mas tamb\u00e9m de todos os continentes situados ao redor do Atl\u00e2ntico \u201cIsso vale especialmente para as por\u00e7\u00f5es desses continentes banhadas pelo oceano. Na Am\u00e9rica do Sul, tudo o que est\u00e1 a leste da Cordilheira dos Andes \u00e9 altamente influenciado pelo fen\u00f4meno\u201d, acrescentou o pesquisador.<\/p>\n<p>Ele acredita que, em fun\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, a diminui\u00e7\u00e3o da intensidade desse processo oce\u00e2nico j\u00e1 esteja acontecendo.<\/p>\n<p>\u201cO aquecimento global arrefece a circula\u00e7\u00e3o de duas maneiras. Em primeiro lugar, por uma intensifica\u00e7\u00e3o das chuvas nas altas latitudes do Atl\u00e2ntico Norte, exatamente nos locais em que as \u00e1guas precisam de maior densidade para poder afundar e retornar ao Sul. Se chove muito nessas regi\u00f5es, a salinidade das \u00e1guas superficiais diminui, reduzindo, por consequ\u00eancia, sua densidade e dificultando o afundamento. Em segundo lugar, pelo derretimento da calota de gelo sobre a Groenl\u00e2ndia, liberando \u00e1gua doce, de salinidade extremamente baixa, exatamente nos s\u00edtios de forma\u00e7\u00e3o das \u00e1guas profundas\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Chuvas torrenciais e prolongadas no Nordeste<\/p>\n<p>Segundo o pesquisador, existe ainda uma grande margem de incerteza nas proje\u00e7\u00f5es. Os modelos atuais funcionariam muito bem para algumas vari\u00e1veis. Mas n\u00e3o t\u00e3o bem para outras. Da\u00ed a proposta de investigar, no passado, per\u00edodos em que a circula\u00e7\u00e3o esteve bastante diminu\u00edda ou at\u00e9 mesmo colapsada, para identificar quais foram as consequ\u00eancias, especialmente na margem oeste do Atl\u00e2ntico Sul.<\/p>\n<p>\u201cO per\u00edodo ic\u00f4nico mais recente de redu\u00e7\u00e3o da circula\u00e7\u00e3o oce\u00e2nica ocorreu entre 18 mil e 15 mil anos antes do presente, na \u00faltima grande deglacia\u00e7\u00e3o. Com o aquecimento do planeta, as geleiras existentes nas altas latitudes do Hemisf\u00e9rio Norte, especialmente sobre o territ\u00f3rio canadense, derreteram e lan\u00e7aram uma enorme quantidade de \u00e1gua doce no Mar de Labrador, arrefecendo ou at\u00e9 paralisando a C\u00e9lula de Revolvimento Meridional do Atl\u00e2ntico\u201d, relatou Chiessi.<\/p>\n<p>Para estimar a magnitude do degelo, \u00e9 preciso recuar mais um mil\u00eanio, at\u00e9 19 mil anos antes do presente. Nessa \u00e9poca, no m\u00e1ximo glacial, a concentra\u00e7\u00e3o de CO2 na atmosfera, atualmente maior do que 400 partes por milh\u00e3o (ppm), estava muito baixa, na faixa de 175 ppm. E o n\u00edvel do mar encontrava-se 130 metros abaixo do atual. Toda a \u00e1gua correspondente permanecia aprisionada nas geleiras continentais, principalmente sobre o Canad\u00e1 e o norte dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Em v\u00e1rias regi\u00f5es do planeta, a linha da costa havia avan\u00e7ado centenas de quil\u00f4metros sobre a \u00e1rea hoje ocupada pelos oceanos. Era poss\u00edvel ir a p\u00e9 das Ilhas Malvinas ao atual territ\u00f3rio da Argentina; do sul da Inglaterra \u00e0 Fran\u00e7a; do nordeste da \u00c1sia ao noroeste da Am\u00e9rica do Norte. N\u00e3o havia o Canal da Mancha, nem o Estreito de Bering, pois estas regi\u00f5es encontravam-se emersas.<\/p>\n<p>\u201cEntre 18 mil e 15 mil anos atr\u00e1s, com o aquecimento, as geleiras come\u00e7aram a lan\u00e7ar uma extraordin\u00e1ria quantidade de icebergsno Mar de Labrador, diminuindo a salinidade das \u00e1guas superficiais e, portanto, a intensidade da C\u00e9lula de Revolvimento. Acredita-se mesmo que possa ter havido um colapso total da circula\u00e7\u00e3o. A pot\u00eancia de 1,3 petawatt de calor teve que ser redistribu\u00edda ao redor do Atl\u00e2ntico Sul e do Oceano Austral. E chegou a aquecer expressivamente a Ant\u00e1rtica\u201d, informou o pesquisador.<\/p>\n<p>Devido a isso, a chamada zona de converg\u00eancia intertropical, localizada onde a superf\u00edcie do oceano \u00e9 mais quente, e, consequentemente, a evapora\u00e7\u00e3o e a concentra\u00e7\u00e3o de nuvens alcan\u00e7am os valores mais altos, deslocou-se para o sul. Hoje, ela est\u00e1 situada em m\u00e9dia entre 5 e 10 graus ao norte da linha equatorial. Naquela \u00e9poca, migrou para o sul do Equador, provocando chuvas torrenciais e prolongadas sobre o nordeste do territ\u00f3rio brasileiro.<\/p>\n<p>\u201cUm de nossos trabalhos, publicado em Earth and Planetary Science Letters no ano passado, evidenciou tal fen\u00f4meno\u201d, disse Chiessi, referindo-se ao artigo .<\/p>\n<p>A pesquisa constatou um colossal aumento da taxa de sedimenta\u00e7\u00e3o no fundo oce\u00e2nico, em decorr\u00eancia da eros\u00e3o causada pelas chuvas e do arraste de sedimentos pelos rios, mar adentro. \u00c0 frente da foz do rio Parna\u00edba, no Piau\u00ed, mas j\u00e1 em alto-mar, a mais de um quil\u00f4metro de profundidade, a taxa de sedimenta\u00e7\u00e3o alcan\u00e7ou o valor de 100 cent\u00edmetros em mil anos. Este \u00e9 o padr\u00e3o de sedimenta\u00e7\u00e3o do Amazonas, que \u00e9 um rio gigantesco. No entanto, foi igualado pelo Parna\u00edba, um rio de porte incomparavelmente menor.<\/p>\n<p>\u201cDevido \u00e0s chuvas que incidiram sobre o Nordeste, o Parna\u00edba depositou em alguns locais uma quantidade de sedimentos equivalente \u00e0quela depositada pelo Amazonas. No mesmo per\u00edodo, h\u00e1 registros de uma grande diminui\u00e7\u00e3o das precipita\u00e7\u00f5es ao norte, na Venezuela e na Am\u00e9rica Central\u201d, comentou Chiessi.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s coletamos e analisamos entre oito e nove metros de coluna sedimentar em dois s\u00edtios marinhos: um deles ao largo da desembocadura do Parna\u00edba, o outro ao largo da Guiana Francesa. O primeiro foi coletado a 1.367 metros de profundidade. O segundo, a 2.510 metros\u201d, detalhou.<\/p>\n<p>Conforme descreveu o pesquisador, o processo de coleta \u00e9 o seguinte. Primeiro, com o emprego de ecossonda de penetra\u00e7\u00e3o, \u00e9 feita a imagem do subfundo oce\u00e2nico. Isso informa como est\u00e3o as camadas sedimentares, se existem ou n\u00e3o dist\u00farbios de sedimenta\u00e7\u00e3o. Em regi\u00f5es onde n\u00e3o h\u00e1 dist\u00farbios, \u00e9 enviado, ent\u00e3o, do navio para baixo, um equipamento com mais de 5 toneladas chamado \u201ctestemunhador a gravidade\u201d.<\/p>\n<p>Por gravidade, o \u201ctestemunhador\u201d chega ao fundo oce\u00e2nico e penetra suavemente na camada de sedimentos n\u00e3o consolidada, recolhendo, sem dist\u00farbios, de oito a dez metros de coluna sedimentar. Depois, j\u00e1 no laborat\u00f3rio, cada fra\u00e7\u00e3o da coluna \u00e9 analisada, obtendo-se, a partir disso, mir\u00edades de informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Defasagem entre o aquecimento do oceano e do continente<\/p>\n<p>\u201cSeguindo em linhas gerais essa mesma metodologia, outro trabalho nosso mostrou que o aquecimento do Atl\u00e2ntico Sul n\u00e3o provocou uma eleva\u00e7\u00e3o imediata da temperatura do continente. As \u00e1guas do oceano aqueceram-se h\u00e1 cerca de 18 mil anos, por\u00e9m esse aquecimento s\u00f3 foi manifestar-se em terra firme por volta de 16,5 mil anos atr\u00e1s. Houve uma defasagem de um mil\u00eanio e meio\u201d, afirmou Chiessi.<\/p>\n<p>Segundo o pesquisador, foi apenas com o aumento da concentra\u00e7\u00e3o de CO2 na atmosfera, associado \u00e0 deglacia\u00e7\u00e3o, que a temperatura continental come\u00e7ou finalmente a ascender. Tal conclus\u00e3o foi comunicada por ele e colaboradores em artigo publicado em Climate of the Past, jornal da European Geosciences Union:\u00a0.<\/p>\n<p>Aqui, \u00e9 importante definir com precis\u00e3o a sequ\u00eancia causal. Em primeiro lugar, o in\u00edcio do processo de deglacia\u00e7\u00e3o, provocando o despejo de \u00e1gua doce no Mar de Labrador, arrefeceu ou colapsou a circula\u00e7\u00e3o oce\u00e2nica. O calor aprisionado no Atl\u00e2ntico Sul aqueceu, ent\u00e3o, n\u00e3o apenas as \u00e1guas do litoral leste sul-americano, mas tamb\u00e9m as \u00e1guas ao redor da Ant\u00e1rtica. Isto fez com que os ventos de oeste, que sopram intensamente sobre a Patag\u00f4nia, migrassem para o Sul. Com a migra\u00e7\u00e3o, esses ventos aumentaram, nas cercanias da Ant\u00e1rtica, o fen\u00f4meno da ressurg\u00eancia, trazendo \u00e1guas profundas para a superf\u00edcie do oceano.<\/p>\n<p>Por um lado, a intensifica\u00e7\u00e3o da ressurg\u00eancia provocou uma explos\u00e3o de vida marinha na regi\u00e3o, porque muitos nutrientes que estavam no fundo oce\u00e2nico foram disponibilizados. Por outro lado, liberou na atmosfera o CO2 que estava aprisionado no fundo. E foi esse g\u00e1s de efeito estufa que gerou o aquecimento suplementar que encerrou de vez a glacia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o fomos n\u00f3s os primeiros a correlacionar a \u00faltima deglacia\u00e7\u00e3o com o aumento da concentra\u00e7\u00e3o de CO2. Isso foi feito por Jeremy Shakun em um artigo famoso, publicado na Nature em 2012: \u201c\u201d. Esse trabalho teve grande repercuss\u00e3o na comunidade cient\u00edfica, recebendo v\u00e1rias cita\u00e7\u00f5es\u201d, ressalvou Chiessi.<\/p>\n<p>\u201cEnt\u00e3o, n\u00e3o tivemos a primazia na sugest\u00e3o do mecanismo. A caracter\u00edstica in\u00e9dita do nosso trabalho, se podemos dizer assim, foi corroborar a asser\u00e7\u00e3o de Shakun a partir da an\u00e1lise de uma curva de temperatura oce\u00e2nica e uma curva de temperatura continental em um mesmo testemunho sedimentar\u201d, continuou.<\/p>\n<p>O pesquisador estabeleceu a s\u00e9rie de temperaturas oce\u00e2nicas a partir da an\u00e1lise qu\u00edmica de conchas muito pequenas de zoopl\u00e2ncton depositadas nas v\u00e1rias camadas da coluna de sedimentos. E estabeleceu a s\u00e9rie de temperaturas continentais analisando lip\u00eddeos produzidos por bact\u00e9rias da microbiota do solo, levadas ao oceano pelas chuvas. Assim, a partir de um mesmo testemunho sedimentar, p\u00f4de chegar \u00e0s temperaturas do oceano e \u00e0s temperaturas do continente.<\/p>\n<p>\u201cIsso foi muito interessante, porque eliminou o problema de sincroniza\u00e7\u00e3o dos registros. Os registros j\u00e1 estavam sincronizados pelo fato de se encontrarem no mesmo estrato da coluna de sedimentos. Construindo as curvas, pudemos verificar que a temperatura continental n\u00e3o acompanhou no curto prazo o aquecimento do oceano. Realmente s\u00f3 aumentou quando houve a eleva\u00e7\u00e3o da concentra\u00e7\u00e3o de CO2, n\u00e3o antes\u201d, comentou.<\/p>\n<p>Na interpreta\u00e7\u00e3o do pesquisador, essa defasagem entre o aquecimento das \u00e1guas e o aquecimento da \u00e1rea continental \u00e9 uma evid\u00eancia de que a Terra s\u00f3 saiu realmente da \u00faltima glacia\u00e7\u00e3o ap\u00f3s o aumento da concentra\u00e7\u00e3o de CO2, como afirmara Shakun. A import\u00e2ncia singular da descoberta do papel do CO2 se deve ao fato de que, h\u00e1 at\u00e9 bem pouco tempo, as entradas e sa\u00eddas de glacia\u00e7\u00f5es eram atribu\u00eddas exclusivamente a varia\u00e7\u00f5es na \u00f3rbita terrestre.<\/p>\n<p>\u201cA correla\u00e7\u00e3o das glacia\u00e7\u00f5es com a varia\u00e7\u00e3o orbital, estabelecida pelo geof\u00edsico s\u00e9rvio Milutin Milankovitch (1879 \u2013 1958), predominou da d\u00e9cada de 1950 \u00e0 d\u00e9cada de 1980. Mas, j\u00e1 nos anos 1990, os estudiosos da \u00e1rea come\u00e7aram a perceber que esse modelo fazia sentido, mas n\u00e3o era completo. Faltava alguma coisa nele. E essa coisa \u00e9 justamente o papel do CO2, que Shakun mostrou ser fundamental para levar adiante a deglacia\u00e7\u00e3o\u201d, enfatizou Chiessi.<\/p>\n<p>Por volta de 15 mil anos atr\u00e1s, a religa\u00e7\u00e3o da circula\u00e7\u00e3o oce\u00e2nica modificou o cen\u00e1rio abruptamente. Em poucas d\u00e9cadas, a temperatura na Europa subiu 6 ou 7 graus Celsius. Foi um aquecimento regional em fun\u00e7\u00e3o da redistribui\u00e7\u00e3o da energia t\u00e9rmica que estava confinada no Sul.<\/p>\n<p>Mas houve flutua\u00e7\u00f5es menores posteriormente. E isso ensejou um terceiro trabalho de Chiessi e colaboradores, publicado emPaleoceanography: .<\/p>\n<p>Estudar o passado para aperfei\u00e7oar o cen\u00e1rio futuro<\/p>\n<p>\u201cNesse terceiro trabalho, mudamos as balizas temporais, enfocando as modifica\u00e7\u00f5es ocorridas nos \u00faltimos 10 mil anos. Essas modifica\u00e7\u00f5es n\u00e3o foram t\u00e3o grandes como aquelas da deglacia\u00e7\u00e3o. Mas tiveram sua import\u00e2ncia e s\u00e3o relevantes na constru\u00e7\u00e3o dos cen\u00e1rios atuais \u2013 at\u00e9 porque a previs\u00e3o para o final do s\u00e9culo \u00e9 uma redu\u00e7\u00e3o da ordem de 44% na circula\u00e7\u00e3o oce\u00e2nica e n\u00e3o um colapso. \u00c9 importante frisar isto: as proje\u00e7\u00f5es n\u00e3o indicam um colapso. Assim, fomos investigar o que ocorreu com os ventos de oeste, durante o Holoceno, quando houve tamb\u00e9m uma redu\u00e7\u00e3o parcial da circula\u00e7\u00e3o\u201d, afirmou o pesquisador.<\/p>\n<p>Para isso, foram selecionados tr\u00eas testemunhos sedimentares: um ao largo do Rio Grande do Sul; outro bem \u00e0 frente de Buenos Aires; e o terceiro um pouco mais ao sul, ainda nas imedia\u00e7\u00f5es da costa argentina. E, a partir deles, foram reconstitu\u00eddas as caracter\u00edsticas da faixa norte dos ventos de oeste durante os \u00faltimos 10 mil anos. Verificou-se que, no longo prazo do Holoceno, houve uma migra\u00e7\u00e3o desses ventos para o sul.<\/p>\n<p>\u201cInvestigamos esse passado n\u00e3o t\u00e3o distante usando o mesmo modelo empregado pelo IPCC para a proje\u00e7\u00e3o do clima futuro. Foi, ent\u00e3o, um trabalho de valida\u00e7\u00e3o de modelo. E o modelo reproduziu muito bem o padr\u00e3o que detectamos empiricamente. Mas subestimou a amplitude da migra\u00e7\u00e3o dos ventos para o sul em uma ordem de grandeza. Ou seja, estimou como 10 algo que valia 100. Ora, o modelo tamb\u00e9m projeta, no futuro, uma migra\u00e7\u00e3o dos ventos para o sul. Se, no cotejo com os dados do passado, detectamos a subestima\u00e7\u00e3o de uma ordem de grandeza, \u00e9 poss\u00edvel que a proje\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m esteja subestimando na mesma escala\u201d, alertou Chiessi.<\/p>\n<p>\u201cO modelo acertou na dire\u00e7\u00e3o dos ventos e no intervalo de tempo da varia\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o na amplitude da mudan\u00e7a. E isso \u00e9 muito preocupante. Pois pode indicar que, at\u00e9 o final do s\u00e9culo, a migra\u00e7\u00e3o dos ventos para o sul venha a ser muito maior\u201d, prosseguiu.<\/p>\n<p>Se for muito maior, entre outras consequ\u00eancias, poder\u00e1 ocasionar uma redu\u00e7\u00e3o da \u00e1rea de sequestro de CO2, situada ao sul dos ventos de oeste, na costa da Argentina, e um aumento da \u00e1rea de emiss\u00e3o de CO2, localizada ao norte dos ventos de oeste, na costa do Uruguai e do Brasil. Ent\u00e3o, haver\u00e1 o risco de uma emiss\u00e3o de CO2 ainda maior do que a estimada.<\/p>\n<p>Em conjunto, os tr\u00eas estudos evidenciam a import\u00e2ncia da inter-rela\u00e7\u00e3o entre a paleoclimatologia, a climatologia atual e a modelagem clim\u00e1tica para a proje\u00e7\u00e3o do clima futuro, buscando, no passado, eventos que funcionem como an\u00e1logos de eventos futuros e testando no cotejo entre a simula\u00e7\u00e3o e os dados emp\u00edricos a acur\u00e1cia das proje\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cAl\u00e9m disso, a paleoclimatologia permite abrir os horizontes dos modelos clim\u00e1ticos, colocando em evid\u00eancia rea\u00e7\u00f5es n\u00e3o necessariamente lineares. Os modelos t\u00eam dificuldade em lidar com vari\u00e1veis n\u00e3o lineares. Um aporte de informa\u00e7\u00f5es do passado pode contribuir para a melhoria das proje\u00e7\u00f5es\u201d, concluiu Chiessi.<\/p>\n<p>Iniciou-se em 21 de mar\u00e7o, e dever\u00e1 se estender at\u00e9 15 de abril, o cruzeiro oceanogr\u00e1fico SAMBA (South American Hydrological Balance and Paleoceanography during the Late Pleistocene and Holocene), com o navio de pesquisas oceanogr\u00e1ficas alem\u00e3o Meteor. O cruzeiro, do Rio de Janeiro a Fortaleza, coletar\u00e1 dados e amostras da coluna de \u00e1gua e de sedimentos do fundo oce\u00e2nico. O cruzeiro contar\u00e1 com participantes da Universidade de Heidelberg, na Alemanha (Andr\u00e9 Bahr), da Universidade Federal Fluminense (Ana Luiza Albuquerque) e da Universidade de S\u00e3o Paulo (Cristiano M. Chiessi), entre outras institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Tadeu Arantes\u00a0 | \u00a0Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Devido \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, a gigantesca circula\u00e7\u00e3o de \u00e1guas, que leva calor do Atl\u00e2ntico Sul para o Atl\u00e2ntico Norte, poder\u00e1 diminuir quase pela metade ainda neste s\u00e9culo. 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