{"id":83723,"date":"2016-04-05T10:24:13","date_gmt":"2016-04-05T13:24:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=83723"},"modified":"2016-04-04T16:25:21","modified_gmt":"2016-04-04T19:25:21","slug":"os-maiores-alvos-da-corrupcao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2016\/os-maiores-alvos-da-corrupcao\/83723","title":{"rendered":"Os maiores alvos da corrup\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p> Heitor Shimizu, de Columbus (EUA) \u00a0| Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Tema que teima em n\u00e3o perder a atualidade, a <strong><em>corrup\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong> tem muitas facetas e tamb\u00e9m muitos custos. Em um sistema em que o favorecimento de um implica na desvantagem de outro, algu\u00e9m sempre paga a conta pela ocorr\u00eancia de benef\u00edcios impr\u00f3prios ou ilegais. E a conta \u00e9 ainda mais salgada nos pa\u00edses mais pobres.<\/p>\n<p>Segundo o economista Pranab Kumar Bardhan, professor em\u00e9rito da University of California, Berkeley, a corrup\u00e7\u00e3o tem um custo particularmente elevado para as economias em desenvolvimento, uma vez que introduz a inefici\u00eancia em um sistema que j\u00e1 est\u00e1 em desvantagem. Se a economia anda mal, a inefici\u00eancia promovida pelo corrup\u00e7\u00e3o s\u00f3 faz piorar o cen\u00e1rio.<\/p>\n<p>Amanda Lea Robinson, professora no Departamento de Ci\u00eancias Pol\u00edticas da Ohio State University, estuda quem s\u00e3o os principais alvos da corrup\u00e7\u00e3o justamente em pa\u00edses em desenvolvimento. N\u00e3o quem mais sofre ou mais paga, mas aqueles que mais t\u00eam que lidar, em seu cotidiano, com o que chama de \u201cpequena corrup\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>\u201cTrata-se do abuso de poder por oficiais de n\u00edvel inferior ou m\u00e9dio em suas intera\u00e7\u00f5es com cidad\u00e3os comuns\u201d, explicou.<\/p>\n<p>Robinson estudou um pa\u00eds em que a corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 \u201cend\u00eamica em todos os n\u00edveis de governo\u201d e onde 79% da popula\u00e7\u00e3o considera a corrup\u00e7\u00e3o um dos principais fatores que limitam o desenvolvimento: o Malawi, na \u00c1frica Oriental.<\/p>\n<p>A pesquisa, feita em colabora\u00e7\u00e3o com Brigitte Seim, professora na University of North Carolina em Chapel Hill, envolveu principalmente casos com policiais rodovi\u00e1rios. Estudo anterior apontou que 95% da popula\u00e7\u00e3o considera corrupta a pol\u00edcia no pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u201cOs oficiais pesam os benef\u00edcios potenciais de solicitar propinas \u2013 como a capacidade e a vontade do cidad\u00e3o de pagar, a certeza de pagamento e o valor da propina \u2013 contra os custos potenciais: a capacidade e a vontade do cidad\u00e3o de punir o oficial por meio de meios formais ou informais\u201d, disse.<\/p>\n<p>Segundo Robinson, um policial rodovi\u00e1rio, ao parar, em uma rodovia, um autom\u00f3vel que tenha cometido alguma infra\u00e7\u00e3o, que esteja com impostos atrasados ou em outra condi\u00e7\u00e3o que possa incorrer na aplica\u00e7\u00e3o de multa, avalia o tipo de ve\u00edculo e as caracter\u00edsticas do motorista para arriscar se pede ou propina para n\u00e3o aplicar a penalidade.<\/p>\n<p>A pesquisa envolveu seis colaboradores no Malawi, que dirigiram por estradas no pa\u00eds com diferentes autom\u00f3veis, vestimentas e acess\u00f3rios, sinalizando serem mais ricos ou mais pobres. Tamb\u00e9m usaram algum indicador de que pertenciam a algum partido pol\u00edtico ou a determinada etnia, tanto em ve\u00edculos mais caros como em mais baratos.<\/p>\n<p>\u201cNo levantamento, feito em junho de 2014, em 52% das vezes em que dirigiram pelas estradas escolhidas os colaboradores foram parados pela pol\u00edcia. Apenas em 3% dos casos a multa foi aplicada, mas em 90% deles os policiais pediram propina\u201d, disse Robinson.<\/p>\n<p>O mais \u00f3bvio seria pensar que os mais pobres enfrentam mais a corrup\u00e7\u00e3o em seu dia a dia e que, portanto, estariam mais sujeitos a serem solicitados a pagar propina, mas n\u00e3o foi o que aconteceu.<\/p>\n<p>O estudo identificou que as conex\u00f5es pol\u00edticas reduziram a chance de pagar propina em 11%, enquanto o status socioecon\u00f4mico n\u00e3o teve efeito. Segundo Robinson, isso sugere que a corrup\u00e7\u00e3o est\u00e1 mais frequentemente ligada \u00e0 pol\u00edtica do que \u00e0s condi\u00e7\u00f5es financeiras dos envolvidos.<\/p>\n<p>Nos exemplos com baixo n\u00edvel socioecon\u00f4mico e sem conex\u00f5es pol\u00edticas, 91% da amostragem resultou no pagamento de propina. Quando o motorista sinalizou alto n\u00edvel socioecon\u00f4mico, mas aus\u00eancia de conex\u00e3o pol\u00edtica, o resultado foi o mesmo.<\/p>\n<p>Alto n\u00edvel socioecon\u00f4mico e aus\u00eancia de conex\u00e3o pol\u00edtica levaram ao pagamento de propina em 86% dos casos. O menor n\u00famero de casos de propina ocorreu quando o motorista indicava ter conex\u00e3o pol\u00edtica, mas baixo n\u00edvel socioecon\u00f4mico.<\/p>\n<p>\u201cEstimamos que isso se deve aos impactos contradit\u00f3rios da riqueza sobre a corrup\u00e7\u00e3o em sociedades com muita inequidade. Indiv\u00edduos mais ricos podem aumentar os benef\u00edcios da corrup\u00e7\u00e3o por meio do pagamento de altas propinas, mas eles tamb\u00e9m aumentam os seus custos se s\u00e3o mais capazes de corromper oficiais\u201d, disse Robinson. Ou seja, da pr\u00f3xima vez, por terem mais dinheiro, poder\u00e3o pagar mais caro.<\/p>\n<p>Se por um lado o trabalho de campo feito no Malawi indicou o efeito protetor das conex\u00f5es pol\u00edticas, os pesquisadores encontraram evid\u00eancias de que a etnia tem um efeito oposto, aumentando a exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o, especialmente em contextos onde esta se mostra mais end\u00eamica.<\/p>\n<p>\u201cAchamos que esse efeito \u00e9 motivado pelos n\u00edveis elevados de confian\u00e7a entre pessoas da mesma etnia. Essa confian\u00e7a interpessoal faz com que os oficiais se sintam mais propensos a pedir propinas\u201d, disse a professora da Ohio State.<\/p>\n<p>Robinson aponta que, se esse for realmente o caso, \u201ctrata-se de outro contexto em que o capital social elevado pode ter implica\u00e7\u00f5es negativas\u201d. Segundo a pesquisadora, os \u201cefeitos perversos do capital social\u201d \u00e9 algo que pretende investigar em estudos futuros.<\/p>\n<p>Robinson conta que a pesquisa \u201cinforma a literatura cient\u00edfica, programas e pol\u00edticas que tentam documentar e abordar a discrimina\u00e7\u00e3o contra os mais pobres e menos favorecidos na sociedade\u201d e destaca que os resultados encontrados no Malawi n\u00e3o podem ser generalizados para outros contextos.<\/p>\n<p>\u201cDe qualquer modo, nossos resultados apontam que os custos da corrup\u00e7\u00e3o recaem mais sobre alguns segmentos da popula\u00e7\u00e3o do que outros. Tais pr\u00e1ticas discriminat\u00f3rias incorrem em grandes preju\u00edzos para a f\u00e1brica social de qualquer sociedade, ainda mais para aquelas que se debatem contra o subdesenvolvimento, a inequidade e as divis\u00f5es \u00e9tnicas\u201d, disse.<\/p>\n<p>Para mais informa\u00e7\u00f5es sobre a FAPESP Week Michigan-Ohio acesse .<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Heitor Shimizu, de Columbus (EUA) \u00a0| Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Tema que teima em n\u00e3o perder a atualidade, a corrup\u00e7\u00e3o tem muitas facetas e tamb\u00e9m muitos custos. Em um sistema em que o favorecimento de um implica na desvantagem de outro, algu\u00e9m sempre paga a conta pela ocorr\u00eancia de benef\u00edcios impr\u00f3prios ou ilegais. 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