{"id":81920,"date":"2016-03-07T10:24:51","date_gmt":"2016-03-07T13:24:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=81920"},"modified":"2016-03-06T16:26:30","modified_gmt":"2016-03-06T19:26:30","slug":"idade-compromete-sistema-imune-e-reduz-eficacia-de-vacinas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2016\/idade-compromete-sistema-imune-e-reduz-eficacia-de-vacinas\/81920","title":{"rendered":"Idade compromete sistema imune e reduz efic\u00e1cia de vacinas"},"content":{"rendered":"<p> Jos\u00e9 Tadeu Arantes \u00a0| \u00a0Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Mais de 10% dos indiv\u00edduos que comp\u00f5em a popula\u00e7\u00e3o brasileira atual t\u00eam idade superior a 60 anos. E, a exemplo do que j\u00e1 ocorre no Jap\u00e3o e nos pa\u00edses europeus, essa porcentagem dever\u00e1 aumentar nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas. Um dos desafios que o envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o apresenta relaciona-se com o poss\u00edvel aumento das comorbidades. Problemas card\u00edacos, respirat\u00f3rios, de mobilidade, de cogni\u00e7\u00e3o s\u00e3o alguns exemplos de morbidades que podem se associar no idoso, levando, eventualmente, \u00e0 incapacita\u00e7\u00e3o de um indiv\u00edduo ainda produtivo. Al\u00e9m disso, v\u00e1rios estudos t\u00eam mostrado que a resposta imune de defesa contra pat\u00f3genos e tumores tamb\u00e9m se apresenta diminu\u00edda em idosos. Assim, uma porcentagem de indiv\u00edduos com mais de 60 anos n\u00e3o fica imunizada ap\u00f3s a <strong><em>vacina\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong>. Quanto maior a idade, maior o n\u00famero de indiv\u00edduos que, apesar de vacinados contra influenza, s\u00e3o internados por infec\u00e7\u00f5es respirat\u00f3rias associadas a pat\u00f3genos.<\/p>\n<p>Um estudo conduzido na cidade de S\u00e3o Paulo procurou avaliar se a popula\u00e7\u00e3o idosa residente no munic\u00edpio apresentava as mesmas altera\u00e7\u00f5es no sistema imune observadas no Jap\u00e3o e nos pa\u00edses europeus. E buscou saber tamb\u00e9m se aPropionibacterium acnes (P.acnes), a bact\u00e9ria causadora da acne, poderia ser utilizada para estimular o sistema imune de idosos, tornando-se assim, em condi\u00e7\u00f5es controladas, um adjuvante para vacinas ou outras terapias.<\/p>\n<p>A pesquisa, \u201c\u201d, coordenada por Valquiria Bueno, professora de imunologia da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp), teve o apoio da FAPESP.<\/p>\n<p>\u201cTrabalhamos com culturas de c\u00e9lulas in vitro, utilizando, como material biol\u00f3gico, amostras de sangue de idosos fornecidas pelo Estudo Sabe (Sa\u00fade, Bem-Estar e Envelhecimento), da Faculdade de Sa\u00fade P\u00fablica da Universidade de S\u00e3o Paulo, tamb\u00e9m pela FAPESP\u201d, disse Bueno \u00e0 Ag\u00eancia FAPESP.<\/p>\n<p>\u201cAtivamos essas culturas com fito-hemaglutinina, um mit\u00f3geno [indutor de mitose ou divis\u00e3o celular] bem conhecido na literatura, e as estimulamos tamb\u00e9m com P.acnes, para saber se, ap\u00f3s o est\u00edmulo, as c\u00e9lulas de idosos apresentavam respostas semelhantes \u00e0s das c\u00e9lulas de pessoas mais jovens\u201d, prosseguiu a pesquisadora.<\/p>\n<p>A primeira constata\u00e7\u00e3o foi que, embora o perfil imunol\u00f3gico de nossa popula\u00e7\u00e3o seja muito heterog\u00eaneo, o padr\u00e3o celular de envelhecimento em S\u00e3o Paulo \u00e9 muito semelhante \u00e0quele descrito no Jap\u00e3o e nos pa\u00edses europeus. Quando se consideram os valores m\u00e9dios, aqui tamb\u00e9m os idosos t\u00eam diminu\u00eddas suas taxas de prolifera\u00e7\u00e3o celular e de produ\u00e7\u00e3o de citocinas [mol\u00e9culas envolvidas na comunica\u00e7\u00e3o entre as c\u00e9lulas durante o desencadeamento das respostas imunes]. Isso significa que o sistema imunol\u00f3gico desses indiv\u00edduos apresenta menor capacidade de responder aos ant\u00edgenos [prote\u00ednas capazes de desencadear a resposta imune] presentes nas vacinas ou em novas infec\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cQuando vacinamos algu\u00e9m, esperamos que as c\u00e9lulas circulantes do sistema imune sejam capazes de responder aos ant\u00edgenos. Isto \u00e9, que proliferem e produzam citocinas e anticorpos para combater essas prote\u00ednas estranhas. Ao faz\u00ea-lo, as c\u00e9lulas mudam seu fen\u00f3tipo, transformando-se de c\u00e9lulas naives [inexperientes] em c\u00e9lulas efetoras [experientes], ficando, depois, armazenadas no organismo como c\u00e9lulas de mem\u00f3ria. Nos idosos, por\u00e9m, esse mecanismo apresenta-se parcialmente modificado\u201d, informou Bueno.<\/p>\n<p>Tal processo, chamado de \u201cimunosenesc\u00eancia\u201d, caracteriza-se, na amostra, pela diminui\u00e7\u00e3o da porcentagem de c\u00e9lulas naives, capazes de reconhecer e responder a ant\u00edgenos novos, e pelo aumento da porcentagem de c\u00e9lulas de mem\u00f3ria que n\u00e3o s\u00e3o capazes de responder a pat\u00f3genos diferentes daqueles contra os quais j\u00e1 se especializaram. Por isso, a resposta a vacinas, novas infec\u00e7\u00f5es e tumores torna-se menos eficaz.<\/p>\n<p>Terapias diferenciadas por g\u00eanero<\/p>\n<p>\u201cUm achado importante do nosso estudo foi que a tend\u00eancia \u00e0 imunosenesc\u00eancia \u00e9 mais acentuada em homens do que em mulheres da mesma faixa et\u00e1ria. Os homens tendem a acumular mais c\u00e9lulas de mem\u00f3ria e a apresentar maior redu\u00e7\u00e3o de c\u00e9lulasnaives, al\u00e9m de menor produ\u00e7\u00e3o de citocinas. Esse achado sugere que, para indiv\u00edduos idosos, as terapias talvez tenham que ser utilizadas de forma diferente de acordo com o \u2018g\u00eanero\u2019\u201d, afirmou a pesquisadora.<\/p>\n<p>\u201cNossos dados encontram apoio em estudos realizados no Jap\u00e3o, nos quais se observou ainda que as mulheres necessitaram de doses menores de vacina do que os homens para produzir a mesma concentra\u00e7\u00e3o de anticorpos protetores\u201d, continuou.<\/p>\n<p>A pesquisa realizada com c\u00e9lulas in vitro na Unifesp tamb\u00e9m corroborou dados obtidos em estudo populacional realizado na Faculdade de Ci\u00eancias M\u00e9dicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM-Unicamp): \u201c\u201d. Esse estudo, coordenado por , mostrou que a incid\u00eancia de doen\u00e7as respirat\u00f3rias em pessoas vacinadas \u00e9 de 4% para mulheres e de 7% para homens, na faixa dos 60 anos, e pouco menor do que 30% para mulheres e quase 50% para homens, na faixa dos 80 anos.<\/p>\n<p>\u201cA vacina\u00e7\u00e3o tem que continuar a ser realizada, \u00e9 claro. Mas \u00e9 preciso fazer algo mais, no intuito de melhorar a resposta vacinal\u201d, comentou Bueno. \u201cUm procedimento testado em grupo controlado de idosos no Jap\u00e3o foi substituir a dose \u00fanica anual de vacina contra influenza por duas ou tr\u00eas doses menores, escalonadas em intervalos de seis ou quatro meses. O parcelamento da vacina estimula o sistema imune v\u00e1rias vezes. E, aparentemente, isso tem um efeito melhor do que a ministra\u00e7\u00e3o da dose inteira de uma vez s\u00f3.\u201d<\/p>\n<p>Apesar de poder ser aprimorado, seguindo talvez o exemplo do Jap\u00e3o, o sistema de vacina\u00e7\u00e3o p\u00fablica adotado no Brasil, baseado em campanhas maci\u00e7as, \u00e9 melhor do que o de alguns pa\u00edses europeus. Na Espanha, por exemplo, a rede p\u00fablica s\u00f3 vacina os idosos quando estes se encontram hospitalizados.<\/p>\n<p>Na investiga\u00e7\u00e3o do eventual emprego da P.acnes como adjuvante vacinal, a pesquisa contou com a colabora\u00e7\u00e3o da professora Ieda Maria Longo Maug\u00e9ri, da Escola Paulista de Medicina (EPM) da Unifesp, que conduz atualmente o estudo \u201cEfeito adjuvante daPropionibacterium acnes e de sua fra\u00e7\u00e3o polissacar\u00eddica purificada sobre a imunogenicidade de uma vacina para o v\u00edrus da imunodefici\u00eancia humana tipo 1 (HIV-1)\u201d, tamb\u00e9m  pela FAPESP.<\/p>\n<p>\u201cVerificamos que a P.acnes aumentou discretamente a prolifera\u00e7\u00e3o de linf\u00f3citos B [produtores de anticorpos]. Mas o mesmo n\u00e3o ocorreu em rela\u00e7\u00e3o aos linf\u00f3citos T [produtores de citocinas e estimuladores de outras c\u00e9lulas]\u201d, disse Bueno.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 prov\u00e1vel que a P.acnes tenha estruturas capazes de se ligar aos receptores do tipo toll dos linf\u00f3citos B, induzindo, assim, sua prolifera\u00e7\u00e3o. J\u00e1 no caso dos linf\u00f3citos T, eu acredito que seja preciso haver c\u00e9lulas dendr\u00edticas [apresentadoras de ant\u00edgenos] intermediando o processo para que o ant\u00edgeno presente na bact\u00e9ria inativada possa ter o efeito adjuvante desejado. Ent\u00e3o, para um aumento da resposta vacinal, al\u00e9m da P.acnes, a vacina precisaria conter tamb\u00e9m c\u00e9lulas dendr\u00edticas\u201d, conjecturou a pesquisadora.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos resultados obtidos, o projeto possibilitou que Valquiria Bueno e colaboradores estabelecessem uma ampla rede de contatos com pesquisadores de outras institui\u00e7\u00f5es, como o grupo que desenvolve o , coordenado pela professora Maria L\u00facia Lebr\u00e3o na Universidade de S\u00e3o Paulo, e o Institute of Inflammation and Ageing, dirigido pela professora Janet Lord, na Universidade de Birmingham, Reino Unido.<\/p>\n<p>Uma colabora\u00e7\u00e3o entre a equipe brasileira e a equipe brit\u00e2nica est\u00e1 atualmente em curso, apoiada pela FAPESP mediante conv\u00eanio com o British Council e o Newton Fund. Os times parceiros est\u00e3o finalizando a reda\u00e7\u00e3o de um livro, The Ageing Immune System and Health, previsto para ser publicado ainda em 2016 pela editora Springer, e organizando o workshop \u201cAgeing and health: how to get there?\u201d, agendado para 16 a 18 de mar\u00e7o na Unifesp.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Tadeu Arantes \u00a0| \u00a0Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Mais de 10% dos indiv\u00edduos que comp\u00f5em a popula\u00e7\u00e3o brasileira atual t\u00eam idade superior a 60 anos. E, a exemplo do que j\u00e1 ocorre no Jap\u00e3o e nos pa\u00edses europeus, essa porcentagem dever\u00e1 aumentar nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas. 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