{"id":80647,"date":"2016-02-05T10:10:47","date_gmt":"2016-02-05T12:10:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=80647"},"modified":"2016-02-04T16:34:40","modified_gmt":"2016-02-04T18:34:40","slug":"previsao-de-tempo-no-brasil-sera-mais-precisa-nos-proximos-meses","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2016\/previsao-de-tempo-no-brasil-sera-mais-precisa-nos-proximos-meses\/80647","title":{"rendered":"Previs\u00e3o de tempo no Brasil ser\u00e1 mais precisa nos pr\u00f3ximos meses"},"content":{"rendered":"<p> Elton Alisson\u00a0 | \u00a0Ag\u00eancia FAPESP \u2013 As previs\u00f5es de eventos extremos de tempo e clima no Brasil, como chuvas intensas, per\u00edodos de seca e fen\u00f4menos causados pelo <strong><em>El Ni\u00f1o<\/em><\/strong> \u2013 o aquecimento anormal das \u00e1guas superficiais e sub-superficiais do oceano Pac\u00edfico Equatorial \u2013, podem se tornar mais assertivas nos pr\u00f3ximos meses.<\/p>\n<p>O Centro de Previs\u00e3o de Tempo e Estudos Clim\u00e1ticos (CPTEC), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), come\u00e7ou a realizar este ano previs\u00f5es de tempo em escala mundial (de um a sete dias) com um novo modelo atmosf\u00e9rico de circula\u00e7\u00e3o global.<\/p>\n<p>Denominado BAM (Brazilian Global Atmospheric Model), o modelo foi desenvolvido totalmente no pa\u00eds ao longo dos \u00faltimos quatro anos por pesquisadores da Divis\u00e3o de Modelagem e Desenvolvimento (DMD) do CPTEC-Inpe.<\/p>\n<p>O BAM ser\u00e1 a componente atmosf\u00e9rica do Modelo Brasileiro do Sistema Terrestre (BESM, na sigla em ingl\u00eas), desenvolvido\u00a0para proje\u00e7\u00f5es de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, com\u00a0\u00a0().<\/p>\n<p>O modelo dever\u00e1 ser acoplado ao BESM este ano para ser usado n\u00e3o somente em proje\u00e7\u00f5es de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, mas tamb\u00e9m para a previs\u00e3o de clima sazonal (at\u00e9 tr\u00eas meses).<\/p>\n<p>\u201cAdquirimos muita experi\u00eancia no desenvolvimento da din\u00e2mica e de processos f\u00edsicos em modelos atmosf\u00e9ricos globais e, como o modelo atmosf\u00e9rico anterior ao BAM usado pelo CPTEC que estava em opera\u00e7\u00e3o desde 2010 n\u00e3o era mais adequado para resolu\u00e7\u00f5es espaciais menores ou iguais a 20 quil\u00f4metros, decidimos desenvolver um novo modelo mais adaptado para essas resolu\u00e7\u00f5es e \u00e0s condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas da Am\u00e9rica do Sul\u201d, disse Silvio Nilo Figueroa, chefe da DMD do CPTEC-Inpe e integrante do projeto, \u00e0 Ag\u00eancia FAPESP.<\/p>\n<p>De acordo com Figueroa, uma das limita\u00e7\u00f5es dos modelos globais americanos, europeus e de outros centros mundiais de meteorologia \u00e9 n\u00e3o representar muito bem duas for\u00e7antes (mudan\u00e7as impostas no balan\u00e7o de energia planet\u00e1ria que, tipicamente, causam altera\u00e7\u00f5es na temperatura global) que t\u00eam forte influ\u00eancia no tempo e clima da Am\u00e9rica do Sul: a for\u00e7ante topogr\u00e1fica, associada aos Andes, e a for\u00e7ante t\u00e9rmica, devido \u00e0 libera\u00e7\u00e3o de calor latente das nuvens na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>\u201cA maioria dos modelos num\u00e9ricos atmosf\u00e9ricos globais falha na representa\u00e7\u00e3o da cordilheira dos Andes devido ao fato de que ela \u00e9 muito estreita e sua altura varia abruptamente em poucos quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Esse problema matem\u00e1tico tem um impacto muito grande no transporte da umidade da Amaz\u00f4nia para o Sul e o Sudeste do pa\u00eds e, consequentemente, na previs\u00e3o de tempo e de clima sazonal especialmente para estas duas regi\u00f5es, explicou o pesquisador.<\/p>\n<p>\u201cAo melhorar nosso modelo clim\u00e1tico atmosf\u00e9rico global para representar melhor as regi\u00f5es montanhosas da Am\u00e9rica do Sul e a forma\u00e7\u00e3o das nuvens na Amaz\u00f4nia ser\u00e1 poss\u00edvel melhorar as previs\u00f5es de tempo e de clima sazonal no Brasil. Esse ser\u00e1 nosso grande diferencial com rela\u00e7\u00e3o a outros modelos globais e uma contribui\u00e7\u00e3o brasileira \u00e0 comunidade cientifica internacional\u201d, estimou Figueroa.<\/p>\n<p>Segundo o pesquisador, com o BAM tamb\u00e9m ser\u00e1 poss\u00edvel melhorar a representa\u00e7\u00e3o de chuva na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Por meio de projetos que est\u00e3o sendo realizados na Amaz\u00f4nia, como o  e a campanha cient\u00edfica Green Ocean Amazon () \u2013 ambos com apoio da FAPESP \u2013, ser\u00e1 poss\u00edvel ajustar o BAM para melhorar a representa\u00e7\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o de nuvens na Amaz\u00f4nia, apontou.<\/p>\n<p>\u201cCom a melhoria da representa\u00e7\u00e3o tanto da Amaz\u00f4nia como dos Andes no modelo ser\u00e1 poss\u00edvel fazer previs\u00f5es de tempo e de clima com melhor confiabilidade e qualidade para a regi\u00e3o Sudeste\u201d, avaliou.<\/p>\n<p>Melhor resolu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Outro avan\u00e7o apresentado pelo BAM, segundo Figueroa, ser\u00e1 no aumento da resolu\u00e7\u00e3o espacial com a qual as previs\u00f5es de tempo e clima feitas pelo CPTEC passar\u00e3o a ser processadas.<\/p>\n<p>O modelo atmosf\u00e9rico de circula\u00e7\u00e3o global usado at\u00e9 ent\u00e3o pela institui\u00e7\u00e3o \u2013 o AGCM3 \u2013 processava as previs\u00f5es com resolu\u00e7\u00e3o espacial de 45 quil\u00f4metros (km) e 64 camadas na vertical.<\/p>\n<p>J\u00e1 o BAM processa as previs\u00f5es com resolu\u00e7\u00e3o espacial de 20 km e 96 camadas na vertical.<\/p>\n<p>O aumento da resolu\u00e7\u00e3o espacial do modelo possibilita representar melhor a topografia, a din\u00e2mica (equa\u00e7\u00f5es do movimento da atmosfera) e a f\u00edsica (radia\u00e7\u00e3o, camada, limite, processos de superf\u00edcie e microf\u00edsica) da Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, realizar\u00e1 previs\u00f5es de tempo com mais de dois dias de anteced\u00eancia \u2013 algo que o modelo anterior n\u00e3o permitia, comparou Figueroa.<\/p>\n<p>\u201cO modelo antigo apresentava uma queda de desempenho a partir do segundo dia de previs\u00e3o. Com o BAM conseguimos fazer previs\u00f5es de tempo com mais dias de anteced\u00eancia e maior n\u00edvel de confian\u00e7a\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>O BAM ficou em modo experimental durante um ano e em fase pr\u00e9-operacional nos \u00faltimos tr\u00eas meses.<\/p>\n<p>Durante esse per\u00edodo, os pesquisadores fizeram uma avalia\u00e7\u00e3o de desempenho do modelo para previs\u00e3o de chuva sobre a regi\u00e3o Sudeste.<\/p>\n<p>Os resultados da avalia\u00e7\u00e3o indicaram que as previs\u00f5es feitas com o modelo apresentaram n\u00edveis de qualidade similares \u00e0s geradas pelo Global Forecast System (GFS), do National Center for Environmental Prediction (NCEP), dos Estados Unidos \u2013 considerado um dos melhores modelos em opera\u00e7\u00e3o no mundo.<\/p>\n<p>\u201cO BAM conseguiu prever com v\u00e1rios dias de anteced\u00eancia as fortes chuvas que ocorreram na regi\u00e3o no m\u00eas passado causadas pela Zona de Converg\u00eancia do Atl\u00e2ntico Sul [banda de nebulosidade que se estende desde o sul da regi\u00e3o Amaz\u00f4nica at\u00e9 a regi\u00e3o central do Atl\u00e2ntico Sul]\u201d, disse Figueroa.<\/p>\n<p>De acordo com o pesquisador, as previs\u00f5es feitas pelo BAM abrangem grandes \u00e1reas do globo, da ordem de 20 km. Por isso, podem n\u00e3o capturar ind\u00edcios de mudan\u00e7as do tempo para uma regi\u00e3o menor, da ordem de poucos quil\u00f4metros, como um munic\u00edpio da regi\u00e3o metropolitana de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Para realizar previs\u00f5es de tempo para essas \u00e1reas menores os modelos mais indicados s\u00e3o os regionais, com resolu\u00e7\u00e3o espacial entre 1 e 10 km, como o ETA e o BRAMS, usados pelo CPTEC.<\/p>\n<p>Os modelos globais como o BAM, contudo, servem aos modelos regionais como condi\u00e7\u00f5es de contorno (informam as condi\u00e7\u00f5es atmosf\u00e9ricas na divisa das regi\u00f5es abrangidas pelos modelos regionais). Dessa forma, a qualidade das previs\u00f5es dos modelos regionais depende tamb\u00e9m em parte da qualidade das condi\u00e7\u00f5es atmosf\u00e9ricas previstas pelo modelo global, ponderou o pesquisador.<\/p>\n<p>\u201cS\u00e3o os modelos atmosf\u00e9ricos globais que fornecem a temperatura, o vento e outras vari\u00e1veis nas bordas dos modelos regionais em intervalos de tr\u00eas a seis horas para que os modelos regionais consigam fazer previs\u00f5es para um dia dentro de suas respectivas \u00e1reas de dom\u00ednio\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>O BAM, por exemplo, fornecer\u00e1 condi\u00e7\u00f5es de contorno para os modelos regionais de 1 km que ser\u00e3o usados como for\u00e7ante para previs\u00f5es de ondas e correntes para a Ba\u00eda de Guanabara durante as Olimp\u00edadas do Rio de Janeiro, disse Figueroa.<\/p>\n<p>Capacidade de computa\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Segundo o pesquisador, o BAM est\u00e1 pronto para rodar com uma melhor resolu\u00e7\u00e3o espacial, de 10 km.\u00a0Uma das limita\u00e7\u00f5es para rodar o modelo com essa resolu\u00e7\u00e3o, contudo, \u00e9 a falta de capacidade computacional.<\/p>\n<p>A capacidade computacional do supercomputador Tup\u00e3, adquirido no final de 2010 pelo Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o (MCTI) e a FAPESP e instalado no CPTEC, j\u00e1 est\u00e1 no limite, de acordo com Figueroa ().<\/p>\n<p>Um teste realizado pelos pesquisadores do CPTEC para avaliar o desempenho do atual supercomputador para processar o modelo BAM, adaptado a uma resolu\u00e7\u00e3o espacial de 10 quil\u00f4metros, demonstrou que mesmo utilizando toda a capacidade de processamento do supercomputador Tup\u00e3, fazendo uso de seus 30 mil processadores ao longo de duas horas, foi poss\u00edvel gerar previs\u00f5es para apenas 24 horas.<\/p>\n<p>Com um computador novo 28 vezes mais potente, por exemplo, demoraria aproximadamente uma hora para fazer previs\u00f5es com at\u00e9 com sete dias de anteced\u00eancia, comparam os pesquisadores.<\/p>\n<p>Dessa forma, o atual supercomputador \u00e9 incapaz de gerar previs\u00f5es operacionais para at\u00e9 sete dias, sendo limitado tamb\u00e9m para realizar previs\u00f5es de clima sazonal com alta resolu\u00e7\u00e3o espacial, apontou Figueroa.<\/p>\n<p>\u201cO m\u00e1ximo que conseguimos com o Tup\u00e3 hoje \u00e9 rodar o BAM com resolu\u00e7\u00e3o espacial de 20 km. Mas se tiv\u00e9ssemos maior capacidade computacional conseguir\u00edamos rodar o modelo com resolu\u00e7\u00e3o espacial de 10 km\u201d, disse.<\/p>\n<p>J\u00e1 o BESM \u2013 do qual o BAM ser\u00e1 uma das componentes principais, a atmosf\u00e9rica \u2013 est\u00e1 rodando hoje com resolu\u00e7\u00e3o espacial de 180 km, aproximadamente.<\/p>\n<p>O ideal, de acordo com o pesquisador, \u00e9 que o modelo do sistema terrestre para mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e previs\u00e3o sazonal rode com 100 km ou menos de resolu\u00e7\u00e3o espacial.<\/p>\n<p>\u201cQuanto melhor a resolu\u00e7\u00e3o espacial do modelo, melhor tamb\u00e9m \u00e9 a capacidade de representar a topografia, como vales e montanhas, e o contraste entre mar e continente. Com resolu\u00e7\u00e3o espacial de 180 km, estes contrastes n\u00e3o s\u00e3o bem definidos, e a praia pode parecer terra\u201d, exemplificou Figueroa.<\/p>\n<p>Segundo o pesquisador, hoje institui\u00e7\u00f5es como o NCEP, dos Estados Unidos, por exemplo, tem capacidade para rodar seu modelo global atmosf\u00e9rico de tempo a uma resolu\u00e7\u00e3o espacial de 13 km, usando supercomputadores entre 30 e 50 vezes mais velozes que o Tup\u00e3 \u2013 na ordem de PetaFlops ou 10<sup>15<\/sup> opera\u00e7\u00f5es de ponto flutuante por segundo.<\/p>\n<p>\u201cA tend\u00eancia \u00e9 que nos pr\u00f3ximos cinco a sete anos os modelos globais estejam rodando com 1 a 2 km de resolu\u00e7\u00e3o espacial. A\u00ed n\u00e3o ser\u00e1 mais necess\u00e1rio usar modelos regionais, porque a topografia de uma regi\u00e3o, como o Vale do Para\u00edba, estar\u00e1 muito bem representada nos modelos globais\u201d, estimou Figueroa.<\/p>\n<p>A ideia \u00e9 que o BAM represente o in\u00edcio do desenvolvimento da futura gera\u00e7\u00e3o do modelo global atmosf\u00e9rico do CPTEC-Inpe, em que o mesmo modelo ser\u00e1 usado para a previs\u00e3o de tempo global, com resolu\u00e7\u00e3o menor de 5 km, e para clima sazonal e mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, com resolu\u00e7\u00f5es da ordem de 10 a 25 km, afirmou o pesquisador.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Elton Alisson\u00a0 | \u00a0Ag\u00eancia FAPESP \u2013 As previs\u00f5es de eventos extremos de tempo e clima no Brasil, como chuvas intensas, per\u00edodos de seca e fen\u00f4menos causados pelo El Ni\u00f1o \u2013 o aquecimento anormal das \u00e1guas superficiais e sub-superficiais do oceano Pac\u00edfico Equatorial \u2013, podem se tornar mais assertivas nos pr\u00f3ximos meses. 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