{"id":80534,"date":"2016-02-03T10:24:41","date_gmt":"2016-02-03T12:24:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=80534"},"modified":"2016-02-02T19:26:09","modified_gmt":"2016-02-02T21:26:09","slug":"estudo-evidencia-relacao-entre-doencas-mentais-e-metabolicas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2016\/estudo-evidencia-relacao-entre-doencas-mentais-e-metabolicas\/80534","title":{"rendered":"Estudo evidencia rela\u00e7\u00e3o entre doen\u00e7as mentais e metab\u00f3licas"},"content":{"rendered":"<p> Karina Toledo\u00a0 | \u00a0Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Estudos recentes t\u00eam mostrado que doen\u00e7as psiqui\u00e1tricas \u2013 entre elas o transtorno bipolar e a depress\u00e3o \u2013 est\u00e3o frequentemente associadas a <strong><em>dist\u00farbios metab\u00f3licos<\/em><\/strong> como diabetes do tipo 2, dislipidemia e obesidade. As evid\u00eancias cient\u00edficas sugerem ainda que tanto a condi\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica pode influenciar na evolu\u00e7\u00e3o do quadro metab\u00f3lico como o contr\u00e1rio tamb\u00e9m comumente acontece.<\/p>\n<p>Essa correla\u00e7\u00e3o foi observada por pesquisadores da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp) em um trabalho recentemente\u00a0no Journal of Psychiatric Research.<\/p>\n<p>Os dados do estudo feito com 59 portadores de transtorno bipolar apontaram que os pacientes com n\u00edveis considerados baixos de adiponectina \u2013 horm\u00f4nio produzido pelo tecido adiposo que ajuda a regular o metabolismo de glicose e de lip\u00eddeos \u2013 apresentavam um quadro psiqui\u00e1trico mais grave do que aqueles com n\u00edveis mais altos dessa prote\u00edna.<\/p>\n<p>\u201cNo hist\u00f3rico desses pacientes com baixa adiponectina, observamos maior frequ\u00eancia de epis\u00f3dios de humor alterado, maior n\u00famero de interna\u00e7\u00f5es psiqui\u00e1tricas, persist\u00eancia de sintomas depressivos e pior funcionamento psicossocial. Eles tamb\u00e9m tinham mais dist\u00farbios metab\u00f3licos, como intoler\u00e2ncia \u00e0 glicose, diabetes e dislipidemias\u201d, contou a professora da Escola Paulista de Medicina Elisa Brietzke, coordenadora do  apoiado pela FAPESP.<\/p>\n<p>Se os achados forem confirmados por estudos futuros, avaliou Brietzke, a dosagem de adiponectina no sangue de pacientes com transtorno bipolar poder\u00e1 funcionar como um biomarcador auxiliar no progn\u00f3stico e no tratamento \u2013 sendo que n\u00edveis baixos desse horm\u00f4nio seriam um indicativo de uma doen\u00e7a mais grave tanto do ponto de vista psiqui\u00e1trico quanto metab\u00f3lico.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, segundo a pesquisadora, os resultados abrem caminho para novos estudos voltados a testar interven\u00e7\u00f5es que modulem os n\u00edveis de adiponectina nos pacientes bipolares.<\/p>\n<p>A pesquisa foi realizada na Unifesp durante o doutorado de Rodrigo Mansur, atualmente fellow da Universidade de Toronto, no Canad\u00e1. O objetivo inicial foi comparar em volunt\u00e1rios sadios e em portadores de transtorno bipolar os n\u00edveis sangu\u00edneos de adiponectina e de leptina \u2013 outro horm\u00f4nio secretado pelo tecido adiposo com importante papel na regula\u00e7\u00e3o metab\u00f3lica e no controle do apetite.<\/p>\n<p>\u201cEsses horm\u00f4nios agem tanto de forma local como sist\u00eamica. Receptores dessas mol\u00e9culas s\u00e3o expressos em m\u00faltiplas regi\u00f5es cerebrais e a ativa\u00e7\u00e3o deles produz efeitos fisiol\u00f3gicos relevantes. Ambos parecem fazer parte do controle da resposta inflamat\u00f3ria. Altera\u00e7\u00f5es na produ\u00e7\u00e3o desses horm\u00f4nios t\u00eam sido descritas em doen\u00e7as metab\u00f3licas, como obesidade e diabetes tipo 2. Nossa linha de pesquisa foca na interface entre transtornos mentais e doen\u00e7as metab\u00f3licas, portanto, temos interesse particular em mediadores, mecanismos e sistemas que conectam o c\u00e9rebro e a periferia\u201d, explicou Mansur.<\/p>\n<p>De maneira geral, n\u00e3o foram observadas na pesquisa diferen\u00e7as significativas nos n\u00edveis desses dois horm\u00f4nios quando comparados os pacientes bipolares e os volunt\u00e1rios sadios \u2013 exceto quando se observou apenas as mulheres. As portadoras de transtorno bipolar tinham n\u00edveis mais baixos de adiponectina que as mulheres sem a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o de Brietzke, por\u00e9m, o resultado mais interessante foi visto quando comparados apenas os n\u00edveis hormonais dos portadores da doen\u00e7a. \u201cFoi clara a divis\u00e3o em dois subgrupos: um com adiponectina mais baixa e doen\u00e7a mais grave, e outro com o n\u00edvel hormonal mais elevado e quadro mais leve\u201d, comentou a pesquisadora.<\/p>\n<p>Mansur acrescentou que as diferen\u00e7as foram observadas independentemente de fatores de confus\u00e3o, como idade, tabagismo e uso de medica\u00e7\u00f5es psicotr\u00f3picas.<\/p>\n<p>\u201cA principal interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 a de que existe uma associa\u00e7\u00e3o direta entre multimorbidade metab\u00f3lica e curso mais grave e complicado do transtorno bipolar. Dessa maneira, a adiponectina pode ser entendida como um indicador de disfun\u00e7\u00e3o metab\u00f3lica. Mas tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel que, dado a import\u00e2ncia da sinaliza\u00e7\u00e3o cerebral de adiponectina, esta mol\u00e9cula tamb\u00e9m tenha um efeito direto na estrutura e funcionamento cerebral e, consequentemente, na cl\u00ednica do transtorno bipolar\u201d, comentou.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 leptina n\u00e3o foram observadas diferen\u00e7as significativas em nenhum dos grupos.<\/p>\n<p>Centro versus periferia<\/p>\n<p>Os estudos realizados pelo grupo da Unifesp se baseiam na hip\u00f3tese de que o metabolismo perif\u00e9rico e o central s\u00e3o integrados e, portanto, a presen\u00e7a de uma comorbidade metab\u00f3lica \u2013 como diabetes do tipo 2 \u2013 no transtorno bipolar poderia ser resultado \u2013 e\/ou resultar \u2013 em funcionamento cerebral alterado.<\/p>\n<p>\u201cEvid\u00eancias de m\u00faltiplas linhas de pesquisa indicam que doen\u00e7as metab\u00f3licas, mesmo quando n\u00e3o acompanhadas de transtornos psiqui\u00e1tricos, envolvem anormalidades cerebrais, como disfun\u00e7\u00e3o dos circuitos que regulam o processamento emocional e cognitivo. As doen\u00e7as mentais, incluindo a depress\u00e3o e a esquizofrenia, s\u00e3o diferencialmente afetadas por condi\u00e7\u00f5es metab\u00f3licas, mesmo ap\u00f3s controle para fatores de risco tradicionais, como sedentarismo, dieta, tabagismo e uso de medica\u00e7\u00f5es\u201d, contou Mansur.<\/p>\n<p>De acordo com os pesquisadores, portanto, o chamado modelo monoamin\u00e9rgico \u2013 focado apenas em neurotransmissores e em terapias com antidepressivos e antipsic\u00f3ticos \u2013 tem se mostrado altamente insuficiente.<\/p>\n<p>\u201cEssas terapias s\u00e3o capazes de ajudar uma parcela significativa da popula\u00e7\u00e3o acometida por doen\u00e7as mentais, mas falham com frequ\u00eancia. Estudos mostram, por exemplo, taxas de resposta insatisfat\u00f3ria no transtorno bipolar de at\u00e9 50%. Existe uma necessidade urgente de desenvolver modelos te\u00f3ricos mais abrangentes para compreender a fisiopatologia dos transtornos psiqui\u00e1tricos e substanciar o desenvolvimento de terapias genuinamente inovadoras e transformadoras\u201d, afirmou Mansur.<\/p>\n<p>Atualmente, no Canad\u00e1, o pesquisador participa de um estudo voltado a testar a droga liraglutida \u2013 originalmente desenvolvida contra diabetes tipo 2 \u2013 no tratamento de d\u00e9ficits cognitivos em indiv\u00edduos com transtornos de humor.<\/p>\n<p>A liraglutida \u00e9 um agonista do receptor do GLP-1, horm\u00f4nio indutor de saciedade produzido no intestino delgado, cuja secre\u00e7\u00e3o \u00e9 estimulada pela ingest\u00e3o de alimentos. O GLP-1 tamb\u00e9m facilita o uso de glicose em m\u00faltiplos tecidos, inclusive no sistema nervoso.<\/p>\n<p>De acordo com Mansur, estudos pr\u00e9-cl\u00ednicos mostraram que a liraglutida tamb\u00e9m tem efeitos neuroprotetores e neuroproliferativos, protegendo neur\u00f4nios de insultos e estimulando o crescimento de dendritos e conex\u00f5es sin\u00e1pticas. Esses dados sugerem um poss\u00edvel efeito pr\u00f3-cognitivo.<\/p>\n<p>\u201cNossos dados preliminares t\u00eam mostrado uma melhora cognitiva global, envolvendo testes que medem fun\u00e7\u00e3o executiva, mem\u00f3ria e velocidade de processamento. N\u00f3s tamb\u00e9m observamos um efeito no c\u00e9rebro, um aumento em um marcador de integridade neuronal, que se correlaciona bem com essa melhora cognitiva. Um aspecto interessante \u00e9 que a melhora tem sido mais intensa nos pacientes com resist\u00eancia \u00e0 insulina, sugerindo que essa popula\u00e7\u00e3o com problemas metab\u00f3licos seja mais responsiva a uma interven\u00e7\u00e3o cujo alvo \u00e9 uma via metab\u00f3lica\u201d, disse Mansur.<\/p>\n<p>Mansur ressalta, no entanto, que se trata ainda de um estudo-piloto, com um pequeno n\u00famero de pacientes e sem um grupo placebo. \u201cApesar de promissores, os resultados s\u00e3o preliminares e ainda est\u00e3o em desenvolvimento\u201d, acrescentou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Karina Toledo\u00a0 | \u00a0Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Estudos recentes t\u00eam mostrado que doen\u00e7as psiqui\u00e1tricas \u2013 entre elas o transtorno bipolar e a depress\u00e3o \u2013 est\u00e3o frequentemente associadas a dist\u00farbios metab\u00f3licos como diabetes do tipo 2, dislipidemia e obesidade. 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