{"id":78319,"date":"2015-12-03T17:03:50","date_gmt":"2015-12-03T19:03:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=78319"},"modified":"2015-12-03T17:03:50","modified_gmt":"2015-12-03T19:03:50","slug":"estudo-indica-que-zika-virus-esta-cada-vez-mais-eficiente-para-infectar-humanos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2015\/estudo-indica-que-zika-virus-esta-cada-vez-mais-eficiente-para-infectar-humanos\/78319","title":{"rendered":"Estudo indica que Zika v\u00edrus est\u00e1 cada vez mais eficiente para infectar humanos"},"content":{"rendered":"<p>Karina Toledo | Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Durante o caminho que percorreu do continente africano at\u00e9 a Am\u00e9rica \u2013 passando pela \u00c1sia e cruzando o oceano Pac\u00edfico \u2013, \u00a0o <strong><em>Zika v\u00edrus<\/em><\/strong> (ZIKV) passou por um processo de adapta\u00e7\u00e3o ao organismo humano, adquirindo certas caracter\u00edsticas gen\u00e9ticas que tornaram cada vez mais eficiente sua replica\u00e7\u00e3o nas c\u00e9lulas do novo hospedeiro.<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o \u00e9 de um  divulgado no site bioRxiv (pronuncia-se &#8220;bio-archive&#8221;) por pesquisadores da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) e do Institut Pasteur de Dakar, no Senegal, que chamam a esse processo adaptativo do v\u00edrus de \u201cprocesso de humaniza\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>&#8220;O ZIKV \u00e9 um agente zoon\u00f3tico africano que infecta principalmente macacos e mosquitos. Estudos anteriores sugerem que teriam ocorrido casos espor\u00e1dicos de infec\u00e7\u00e3o em humanos no passado e o v\u00edrus teria sa\u00eddo da \u00c1frica por volta da segunda metade do s\u00e9culo 20. Em 2007 ele causou\u00a0um primeiro surto em humanos e parece ter havido um processo concomitante de adapta\u00e7\u00e3o pelo qual o c\u00f3digo gen\u00e9tico do v\u00edrus passou a mimetizar os genes humanos mais expressos para produzir em maior quantidade prote\u00ednas que tornam eficiente sua replica\u00e7\u00e3o no novo hospedeiro\u201d, contou Paolo Marinho de Andrade Zanotto, professor do Instituto de Ci\u00eancias Biom\u00e9dicas (ICB) da USP e coautor do artigo.<\/p>\n<p>Entre os genes que o ZIKV passou a mimetizar de forma mais evidente destaca-se\u00a0o da prote\u00edna\u00a0NS1, cujo papel \u00e9 modular a intera\u00e7\u00e3o entre o v\u00edrus e o sistema imunol\u00f3gico humano.<\/p>\n<p>\u201cA NS1, produzida em grande quantidade, funciona como um sistema de camuflagem para flaviv\u00edrus, como o v\u00edrus da dengue, de quem o ZIKV \u00e9 o parente mais pr\u00f3ximo. Ela deixa o sistema imunol\u00f3gico desorientado. \u00c9 o mesmo princ\u00edpio usado por avi\u00f5es de guerra ao liberar pequenos fogos para despistar os m\u00edsseis guiados pelo calor da turbina\u201d, explicou Zanotto.<\/p>\n<p>Os resultados da pesquisa mostram ainda que o chamado \u201cvalor adaptativo\u201d da esp\u00e9cie (fitness) \u2013 que \u00e9 capacidade de sobreviver e gerar uma prog\u00eanie tamb\u00e9m capaz de sobreviver e de se reproduzir \u2013 cai drasticamente por volta do ano 2000, quando estaria ocorrendo forte sele\u00e7\u00e3o possivelmente associada ao processo de tr\u00e1fego entre esp\u00e9cies. A partir desse ponto, o fitness do Zika v\u00edrus passa a crescer exponencialmente. Os gr\u00e1ficos do artigo sugerem que o pat\u00f3geno j\u00e1 se tornou t\u00e3o (ou mais) eficiente para sobreviver e se reproduzir em humanos quanto era antes em macacos.<\/p>\n<p>A investiga\u00e7\u00e3o foi conduzida com \u00a0da FAPESP durante o doutorado de Caio C\u00e9sar de Melo Freire, sob a orienta\u00e7\u00e3o de Zanotto.<\/p>\n<p>O grupo analisou dados de 17 sequenciamentos completos do genoma viral \u2013 que continham informa\u00e7\u00e3o sobre o ano e o local em que o v\u00edrus foi isolado \u2013 depositados no , um banco p\u00fablico mantido pelo National Center for Biotechnology Information (NCBI), nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Com base nessas an\u00e1lises e tamb\u00e9m em um trabalho anterior do grupo,  em 2014 na revista PLoS Neglected Tropical Diseases, foi poss\u00edvel determinar o caminho percorrido pelas linhagens africanas e asi\u00e1ticas e tamb\u00e9m as altera\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas sofridas no percurso.<\/p>\n<p>Conforme explicam os autores no artigo mais recente, a linhagem africana ainda infecta predominantemente macacos e mosquitos do g\u00eanero Aedes. J\u00e1 a linhagem asi\u00e1tica est\u00e1 se espalhando por meio de uma cadeia de transmiss\u00e3o entre humanos nas ilhas do Pac\u00edfico e na Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da picada do mosquito, os cientistas apontam as rela\u00e7\u00f5es sexuais e as infec\u00e7\u00f5es perinatais como rotas alternativas de transmiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Mundo em alerta<\/p>\n<p>O primeiro surto significativo conhecido em humanos, causado pela linhagem asi\u00e1tica em 2007, ocorreu nos Estados Federados da Micron\u00e9sia. Entre 2013 e 2014 o v\u00edrus emergiu novamente e causou uma significante epidemia na Polin\u00e9sia Francesa, espalhando-se pela Oceania e chegando \u00e0 Am\u00e9rica pela Ilha de P\u00e1scoa, no Chile, em 2014. Agora, em 2015, j\u00e1 foi reportado em pelo menos 14 estados brasileiros, a maioria na Regi\u00e3o Nordeste, e tamb\u00e9m em outros pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p>\u201cAs an\u00e1lises feitas com base em dados gen\u00e9ticos sugerem que o v\u00edrus est\u00e1 se tornando mais eficiente para produzir suas prote\u00ednas em humanos, mas agora precisamos confirmar essa hip\u00f3tese com ensaios in vitro, colocando linhagens africanas e asi\u00e1ticas em culturas de c\u00e9lulas humanas para estabelecer compara\u00e7\u00f5es\u201d, comentou Zanotto.<\/p>\n<p>O pesquisador tamb\u00e9m est\u00e1 organizando uma parceria com cerca de 25 laborat\u00f3rios de diferentes regi\u00f5es do Estado de S\u00e3o Paulo para monitorar como est\u00e1 sendo o espalhamento do v\u00edrus na regi\u00e3o. V\u00e1rias unidades\u00a0dessa rede v\u00e3o trabalhar diretamente na quest\u00e3o das malforma\u00e7\u00f5es cerebrais cong\u00eanitas em associa\u00e7\u00e3o com servi\u00e7os de neonatologia.<\/p>\n<p>\u201cEstamos ajustando protocolos comuns para identificar, caracterizar e isolar o v\u00edrus. Dada a experi\u00eancia de nossos colegas na \u00c1frica, o isolamento do v\u00edrus em humanos pode apresentar problemas e provavelmente teremos de isolar tamb\u00e9m de mosquitos. Tamb\u00e9m pretendemos somar esfor\u00e7os no desenvolvimento da express\u00e3o de prote\u00ednas virais para facilitar a detec\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a e estamos articulando a\u00e7\u00f5es conjuntas e trocando informa\u00e7\u00f5es diariamente grupos internacionais. Ser\u00e1 uma tarefa pesada, mas n\u00e3o temos outra op\u00e7\u00e3o, uma vez que o v\u00edrus parece de fato estar envolvido nos casos de microcefalia\u201d, disse Zanotto.<\/p>\n<p>Na \u00faltima ter\u00e7a-feira (01\/12), a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) emitiu um alerta mundial reconhecendo a rela\u00e7\u00e3o entre a epidemia de Zika v\u00edrus e o crescimento dos casos de microcefalia e da s\u00edndrome Guillain-Barr\u00e9 no Brasil. No documento, a OMS recomendou que seus mais de 140 pa\u00edses-membros reforcem a vigil\u00e2ncia para o eventual crescimento de infec\u00e7\u00f5es, sugeriu o isolamento dos pacientes e disse para as na\u00e7\u00f5es ficarem atentas \u00e0 necessidade de se ampliar o atendimento de servi\u00e7os neurol\u00f3gicos e de cuidados espec\u00edficos a rec\u00e9m-nascidos.<\/p>\n<p>\u201cRecebemos de nossos colegas do Institut Pasteur, h\u00e1 alguns dias uma notifica\u00e7\u00e3o do Servi\u00e7o de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria em Papeete, na Polin\u00e9sia Francesa, dizendo que ap\u00f3s reavaliar os dados relacionados a crian\u00e7as gestadas durante o surto local de ZIKV em 2014 e 2015 foram encontrados 12 casos de mulheres que tiveram filhos com complica\u00e7\u00f5es neurol\u00f3gicas s\u00e9rias. Destas, quatro foram testadas e apresentaram anticorpos contra ZIKV, mas nehuma manifestou sintomas da doen\u00e7a durante a gravidez\u201d, contou Zanotto.<\/p>\n<p>De acordo com o pesquisador, \u00e9 preciso investigar se h\u00e1 uma intera\u00e7\u00e3o entre o v\u00edrus da dengue e o ZIKV no desenvolvimento da microcefalia. \u201c\u00c9 poss\u00edvel que o v\u00edrus da dengue \u2013 por ser muito comum nessas regi\u00f5es \u2013 seja apenas um fator de confus\u00e3o\u201d, avaliou.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de causar sintomas parecidos, explicou Zanotto, os v\u00edrus da dengue e Zika s\u00e3o muitos pr\u00f3ximos filogeneticamente. No estudo mais recente, o grupo mostrou que ambos compartilham peda\u00e7os da prote\u00edna NS1 considerados ep\u00edtopos, ou seja, que s\u00e3o capazes de serem reconhecidos pelos anticorpos humanos.<\/p>\n<p>\u201cComo os dados desse estudo s\u00e3o de grande relev\u00e2ncia mundial optamos por torn\u00e1-los p\u00fablico imediatamente por meio desse arquivo p\u00fablico on-line. Agora pretendemos submet\u00ea-lo para revistas cient\u00edficas\u201d, contou Zanotto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Karina Toledo | Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Durante o caminho que percorreu do continente africano at\u00e9 a Am\u00e9rica \u2013 passando pela \u00c1sia e cruzando o oceano Pac\u00edfico \u2013, \u00a0o Zika v\u00edrus (ZIKV) passou por um processo de adapta\u00e7\u00e3o ao organismo humano, adquirindo certas caracter\u00edsticas gen\u00e9ticas que tornaram cada vez mais eficiente sua replica\u00e7\u00e3o nas c\u00e9lulas do [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":40847,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_genesis_hide_title":false,"_genesis_hide_breadcrumbs":false,"_genesis_hide_singular_image":false,"_genesis_hide_footer_widgets":false,"_genesis_custom_body_class":"","_genesis_custom_post_class":"","_genesis_layout":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[22,5],"tags":[],"class_list":{"0":"post-78319","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-brasil","8":"category-saude-e-vida","9":"entry","10":"gs-1","11":"gs-odd","12":"gs-even","13":"gs-featured-content-entry"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/imagens\/dengue-combate.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_likes_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78319","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=78319"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78319\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/media\/40847"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=78319"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=78319"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=78319"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}