{"id":77193,"date":"2015-11-05T20:17:03","date_gmt":"2015-11-05T22:17:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=77193"},"modified":"2015-11-05T20:17:03","modified_gmt":"2015-11-05T22:17:03","slug":"envelhecimento-da-populacao-precisa-ser-priorizado-nas-politicas-publicas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2015\/envelhecimento-da-populacao-precisa-ser-priorizado-nas-politicas-publicas\/77193","title":{"rendered":"Envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o precisa ser priorizado nas pol\u00edticas p\u00fablicas"},"content":{"rendered":"<p> Jos\u00e9 Tadeu Arantes | Ag\u00eancia FAPESP \u2013 \u201cO Brasil precisa reconhecer que \u00e9 um pa\u00eds em r\u00e1pido <strong><em>processo de envelhecimento<\/em><\/strong> e fazer disso uma prioridade, tanto na defini\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas quanto na aloca\u00e7\u00e3o de recursos\u201d: a afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 de Maria L\u00facia Lebr\u00e3o, professora titular s\u00eanior da Faculdade de Sa\u00fade P\u00fablica da Universidade de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Lebr\u00e3o coordena o \u201cEstudo Sabe \u2013 Sa\u00fade, Bem-Estar e Envelhecimento\u201d, pesquisa longitudinal de m\u00faltiplas coortes sobre as condi\u00e7\u00f5es de vida e sa\u00fade dos idosos do munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo. Esse estudo multic\u00eantrico teve in\u00edcio no ano 2000, quando, por iniciativa da Organiza\u00e7\u00e3o Pan-Americana da Sa\u00fade (Opas), foram pesquisadas pessoas de 60 anos ou mais de sete grandes cidades da Am\u00e9rica Latina e do Caribe, entre elas S\u00e3o Paulo. Com  da FAPESP, o estudo foi reeditado em S\u00e3o Paulo em 2006, 2010 e est\u00e1 agora em sua quarta edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cEm 2000, visitamos quase 6 mil domic\u00edlios e entrevistamos 2.143 pessoas (coorte A). Em 2006, voltamos \u00e0s casas das pessoas visitadas anteriormente e conseguimos entrevistar 1.115 (coorte A); al\u00e9m disso, entrevistamos um novo contingente de 60 a 64 anos (coorte B). Em 2010, voltamos \u00e0s casas das pessoas visitadas em 2006, tanto da coorte A quanto da coorte B, e introduzimos mais um novo grupo de 60 a 64 anos (coorte C). Vamos seguir o mesmo procedimento nesta quarta rodada. O Sabe \u00e9, portanto, um estudo longitudinal, que vem acompanhando um mesmo contingente de idosos ao longo do tempo, e tamb\u00e9m um estudo de m\u00faltiplas coortes, pois, a cada reedi\u00e7\u00e3o, agrega um novo contingente ao anterior\u201d, explicou a pesquisadora \u00e0 Ag\u00eancia FAPESP.<\/p>\n<p>Esse duplo car\u00e1ter possibilitou que o estudo mapeasse tanto as mudan\u00e7as vividas pelos indiv\u00edduos ao longo de seu processo de envelhecimento quanto as transforma\u00e7\u00f5es pelas quais vem passando a sociedade e que se refletem nas novas caracter\u00edsticas das pessoas que alcan\u00e7am a sexta d\u00e9cada de vida.<\/p>\n<p>\u201cA coorte A \u00e9 formada por idosos mais tradicionais. Nela predominam pessoas com baixa escolaridade (50% estudaram apenas tr\u00eas anos ou menos), muitas provenientes da zona rural (70% dedicaram-se a trabalhos predominantemente f\u00edsicos) e dotadas de h\u00e1bitos muitos diferentes dos atuais (para os quais fumar e beber eram considerados coisas normais e a atividade f\u00edsica se restringia \u00e0quela incorporada ao trabalho). Hoje, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 completamente diferente\u201d, disse Lebr\u00e3o \u00e0 Ag\u00eancia FAPESP.<\/p>\n<p>Segundo a pesquisadora, a nova gera\u00e7\u00e3o de idosos est\u00e1 mais preocupada com a promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade. Tenta n\u00e3o fumar, tenta beber menos, tenta praticar exerc\u00edcios f\u00edsicos, tenta dirigir por mais tempo. \u201cAcima de tudo, s\u00e3o pessoas com um n\u00edvel de escolaridade mais alto\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>A essas caracter\u00edsticas positivas contrap\u00f5em-se os enormes desafios que o envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o apresenta para a sociedade brasileira. O percentual de idosos no pa\u00eds cresceu de 4,1%, em 1940, para 10,8%, em 2010, e dever\u00e1 chegar a 12,0%, em 2020.<\/p>\n<p>\u201cNossa transi\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica ocorreu em tr\u00eas grandes etapas. Do s\u00e9culo XIX at\u00e9 1940, tivemos altas taxas de natalidade e tamb\u00e9m altas taxas de mortalidade, que resultaram em uma popula\u00e7\u00e3o aproximadamente est\u00e1vel, com grande propor\u00e7\u00e3o de jovens. De meados da d\u00e9cada de 1940 at\u00e9 o final da d\u00e9cada de 1960, mantiveram-se altas as taxas de natalidade enquanto caiu a taxa de mortalidade, o que levou a um aumento populacional e a um aumento tamb\u00e9m do contingente jovem. A terceira tend\u00eancia, iniciada ainda em meados dos anos 1960, combinou a redu\u00e7\u00e3o da taxa de natalidade com a redu\u00e7\u00e3o da taxa de mortalidade, provocando a r\u00e1pida queda do crescimento populacional e o aumento percentual dos contingentes de adultos jovens e idosos\u201d, informou Lebr\u00e3o.<\/p>\n<p>Taxa de fecundidade<\/p>\n<p>A taxa de fecundidade brasileira caiu de 5,8 filhos por casal em 1970 para 1,8 filho por casal em 2010 \u2013 n\u00famero que n\u00e3o \u00e9 suficiente para a reposi\u00e7\u00e3o populacional. \u201cMantida a tend\u00eancia de queda, alcan\u00e7aremos um pico populacional de 218 milh\u00f5es de pessoas em 2035, ap\u00f3s o que a popula\u00e7\u00e3o brasileira come\u00e7ar\u00e1 a diminuir\u201d, prognosticou a pesquisadora. O Brasil acompanha assim a tend\u00eancia mundial, puxada pelos pa\u00edses desenvolvidos, que far\u00e1 com que a faixa da popula\u00e7\u00e3o do planeta com mais 65 anos supere em n\u00famero a faixa da popula\u00e7\u00e3o com menos de 5 anos antes de 2020.<\/p>\n<p>Em termos globais, esse envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o levou a uma transi\u00e7\u00e3o epidemiol\u00f3gica, com as doen\u00e7as infecciosas, antes prevalentes, sendo suplantadas pelas doen\u00e7as cr\u00f4nicas n\u00e3o transmiss\u00edveis. Por\u00e9m o Brasil, assim como outros pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina e Caribe, n\u00e3o teve uma transi\u00e7\u00e3o epidemiol\u00f3gica t\u00e3o linear quanto a observada nos pa\u00edses desenvolvidos. \u201cNossa transi\u00e7\u00e3o epidemiol\u00f3gica caracteriza-se por um vaiv\u00e9m. Se j\u00e1 temos muitos idosos com doen\u00e7as cr\u00f4nicas n\u00e3o transmiss\u00edveis, ainda temos tamb\u00e9m uma alta incid\u00eancia de doen\u00e7as infecciosas (dengue, febre amarela, mal\u00e1ria etc.). Pensamos, por exemplo, que a febre amarela havia sido erradicada, e, de repente, constatamos o seu ressurgimento. Esse vaiv\u00e9m exige que os recursos do sistema de sa\u00fade sejam divididos para o enfrentamento de uma dupla carga de doen\u00e7as\u201d, pontuou Lebr\u00e3o.<\/p>\n<p>Outro aspecto, ainda mais importante em termos de impacto sobre o sistema de sa\u00fade, \u00e9 que, enquanto a curva de mortalidade se desloca para idades cada vez maiores, a curva de morbidade se mant\u00e9m praticamente inalterada. Ou seja, as pessoas passaram a viver mais, por\u00e9m continuam a ficar doentes com a mesma idade em que ficavam antes. E o intervalo entre as duas linhas tende a aumentar cada vez mais, trazendo grande impacto sobre o sistema de sa\u00fade.<\/p>\n<p>\u201cSe a esperan\u00e7a de vida ao nascer passou de 52,6 anos, em 1970, para 73,4 anos, em 2010, as pessoas continuaram a ficar diab\u00e9ticas ou card\u00edacas a partir da quinta d\u00e9cada de vida. E isso j\u00e1 est\u00e1 gerando um enorme aumento da demanda dos servi\u00e7os de sa\u00fade\u201d, exemplificou a pesquisadora. \u201cO que temos que fazer \u00e9 promover sa\u00fade, para que as pessoas n\u00e3o fiquem doentes t\u00e3o cedo.\u201d<\/p>\n<p>Curva da incapacidade<\/p>\n<p>O intervalo cada vez maior entre a curva da mortalidade e a curva da morbidade faz aumentar tamb\u00e9m a curva da incapacidade. Cresce a sobrevida da pessoa doente, mas n\u00e3o s\u00e3o evitadas as intercorr\u00eancias incapacitantes da doen\u00e7a, o que, al\u00e9m de comprometer a qualidade de vida, constitui outro grav\u00edssimo problema econ\u00f4mico e social. \u201cOs servi\u00e7os p\u00fablicos n\u00e3o est\u00e3o de forma alguma capacitados para responder a essa nova realidade. A pessoa doente ou incapacitada passa a depender da fam\u00edlia e h\u00e1 cada vez menos familiares para arcar com essa responsabilidade. A fam\u00edlia extensa foi substitu\u00edda pela fam\u00edlia nuclear. Se, em 1970, para cada idoso t\u00ednhamos oito jovens, em 2020, teremos apenas dois\u201d, enfatizou Lebr\u00e3o.<\/p>\n<p>No rol das enfermidades, segundo a pesquisadora, o grande fantasma \u00e9 constitu\u00eddo pelas v\u00e1rias modalidades de dem\u00eancia, das quais a doen\u00e7a de Alzheimer constitui um dos diagn\u00f3sticos, mas n\u00e3o o \u00fanico. \u201cAcompanhando as mesmas pessoas (coorte A) ao longo do processo de envelhecimento, constatamos que o comprometimento cognitivo passou de 13,2%, em 2000, para 14,3%, em 2006, e 18,7%, em 2010\u201d, disse.<\/p>\n<p>Para o conjunto dos entrevistados de 2010 (coortes A, B e C), por ordem de preval\u00eancia, as principais enfermidades cr\u00f4nicas relatadas foram hipertens\u00e3o (66,7%), doen\u00e7as articulares (31,8%), diabetes (25,0%) e problemas card\u00edacos (22,9%).<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 importante ressaltar que, muitas vezes, as enfermidades n\u00e3o s\u00e3o diagnosticadas, nem mesmo reconhecidas como tal. Isso acontece principalmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s doen\u00e7as articulares. Existe o mito de que ter dor nas articula\u00e7\u00f5es \u00e9 uma coisa normal ap\u00f3s uma certa idade. \u2018\u00c9 coisa de velho\u2019, costuma ser dito, como se esses transtornos constitu\u00edssem uma fatalidade. Isso de forma alguma \u00e9 verdadeiro. As doen\u00e7as articulares podem ser evitadas, e tamb\u00e9m tratadas\u201d, sublinhou Lebr\u00e3o.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m muitas vezes n\u00e3o s\u00e3o reconhecidos os quadros de depress\u00e3o. \u201cTrata-se de um levantamento mais dif\u00edcil, porque a depress\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o fixa. A pessoa pode estar deprimida e, no dia da entrevista, se apresentar bem disposta. Ou ter sua condi\u00e7\u00e3o depressiva mascarada pela medica\u00e7\u00e3o. Por isso, adotamos no Sabe duas formas de avalia\u00e7\u00e3o: por meio do teste GDS (Geriatric Depression Scale) e perguntando se alguma vez um m\u00e9dico ou enfermeiro disse ao entrevistado que ele tinha depress\u00e3o. Entre os entrevistados de 2010, cerca de 17% responderam afirmativamente a essa pergunta \u2013 percentual que foi ainda mais elevado entre as mulheres\u201d, relatou a pesquisadora.<\/p>\n<p>A depress\u00e3o est\u00e1, muitas vezes, associada \u00e0 solid\u00e3o. O Sabe mostrou que cerca de 16,5% dos habitantes com 60 anos e mais do munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo moram sozinhos \u2013 as mulheres muito mais do que os homens. E que esse percentual sobe para 25%, uma em cada quatro pessoas, na faixa dos 80 anos ou mais. \u201c\u00c9 urgente a cria\u00e7\u00e3o de redes de apoio, com servi\u00e7os integrados. A pessoa pode continuar vivendo sozinha. Mas ela deve poder contar com suporte r\u00e1pido no caso de alguma intercorr\u00eancia e com suporte prolongado no dia a dia. Isso j\u00e1 existe nos pa\u00edses desenvolvidos. Por que n\u00e3o pode ser implantado tamb\u00e9m aqui?\u201d, concluiu Lebr\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Tadeu Arantes | Ag\u00eancia FAPESP \u2013 \u201cO Brasil precisa reconhecer que \u00e9 um pa\u00eds em r\u00e1pido processo de envelhecimento e fazer disso uma prioridade, tanto na defini\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas quanto na aloca\u00e7\u00e3o de recursos\u201d: a afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 de Maria L\u00facia Lebr\u00e3o, professora titular s\u00eanior da Faculdade de Sa\u00fade P\u00fablica da Universidade de S\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":21786,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_genesis_hide_title":false,"_genesis_hide_breadcrumbs":false,"_genesis_hide_singular_image":false,"_genesis_hide_footer_widgets":false,"_genesis_custom_body_class":"","_genesis_custom_post_class":"","_genesis_layout":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[22,5],"tags":[],"class_list":{"0":"post-77193","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-brasil","8":"category-saude-e-vida","9":"entry","10":"gs-1","11":"gs-odd","12":"gs-even","13":"gs-featured-content-entry"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/imagens\/retomar-forma-depois-verao.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_likes_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77193","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=77193"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77193\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21786"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=77193"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=77193"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=77193"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}