{"id":68628,"date":"2015-04-01T14:23:20","date_gmt":"2015-04-01T17:23:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=68628"},"modified":"2015-04-01T14:23:20","modified_gmt":"2015-04-01T17:23:20","slug":"molecula-reduz-degeneracao-cardiaca-apos-o-infarto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2015\/molecula-reduz-degeneracao-cardiaca-apos-o-infarto\/68628","title":{"rendered":"Mol\u00e9cula reduz degenera\u00e7\u00e3o card\u00edaca ap\u00f3s o infarto"},"content":{"rendered":"<p>Karina Toledo | Ag\u00eancia FAPESP \u2013 O tratamento de ratos infartados com uma droga experimental chamada alda-1 reduziu quase pela metade a <strong><em>perda da fun\u00e7\u00e3o card\u00edaca<\/em><\/strong> em experimentos realizados na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP). Os resultados \u00a0no International Journal of Cardiology.<\/p>\n<p>Desenvolvida por pesquisadores da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, e do Instituto de Ci\u00eancias Biom\u00e9dicas (ICB-USP), a mol\u00e9cula sint\u00e9tica \u00e9 capaz de ativar uma enzima conhecida como ALDH2 (alde\u00eddo desidrogenase-2), existente na mitoc\u00f4ndria e essencial para o bom funcionamento de todas as c\u00e9lulas, inclusive as card\u00edacas.<\/p>\n<p>Os primeiros ensaios cl\u00ednicos para atestar a seguran\u00e7a do composto est\u00e3o sendo realizados nos Estados Unidos, com apoio privado.<\/p>\n<p>\u201cA enzima ALDH2 \u00e9 essencial para a metaboliza\u00e7\u00e3o dos alde\u00eddos \u2013 mol\u00e9culas extremamente reativas produzidas pelo nosso corpo que, em excesso, prejudicam a produ\u00e7\u00e3o de energia na c\u00e9lula (ATP) e causam libera\u00e7\u00e3o ainda maior de subst\u00e2ncias reativas, como os radicais livres e os pr\u00f3prios alde\u00eddos\u201d, explicou Julio Cesar Batista Ferreira, professor do Departamento de Anatomia do ICB-USP e coordenador da  pela FAPESP.<\/p>\n<p>Em um estudo anterior com ratos portadores de insufici\u00eancia card\u00edaca, o grupo havia mostrado que o tratamento com alda-1 aumentava a capacidade do cora\u00e7\u00e3o de bombear sangue (leia mais em: ).<\/p>\n<p>Neste novo trabalho, tamb\u00e9m realizado durante o  de K\u00e1tia Maria Sampaio Gomes, a terapia foi administrada no dia seguinte ao infarto e reduziu significativamente os danos progressivos \u00e0s c\u00e9lulas que levam ao desenvolvimento de insufici\u00eancia card\u00edaca.<\/p>\n<p>\u201cAntes de tratar os animais, por\u00e9m, tentamos entender o que acontece com o metabolismo de alde\u00eddos no cora\u00e7\u00e3o ap\u00f3s o infarto. Quer\u00edamos observar se a atividade da enzima ALDH2 est\u00e1 alterada, se isso afeta o ac\u00famulo de alde\u00eddos e se, de fato, tem influ\u00eancia na progress\u00e3o da doen\u00e7a\u201d, explicou o pesquisador.<\/p>\n<p>O modelo animal usado na avalia\u00e7\u00e3o consiste em induzir um infarto agudo do mioc\u00e1rdio amarrando uma das art\u00e9rias coron\u00e1rias do rato. A falta de irriga\u00e7\u00e3o sangu\u00ednea causa a morte imediata de aproximadamente 30% das c\u00e9lulas card\u00edacas. Como as c\u00e9lulas restantes passam a trabalhar dobrado para compensar a les\u00e3o, entram em colapso ap\u00f3s algum tempo. Nesse modelo, os ratos costumam apresentar sinais de insufici\u00eancia card\u00edaca depois de um m\u00eas.<\/p>\n<p>Para medir a progress\u00e3o da doen\u00e7a, os pesquisadores mediram \u2013 na primeira, na segunda e na quarta semana ap\u00f3s o infarto \u2013 a fun\u00e7\u00e3o card\u00edaca, o perfil metab\u00f3lico do cora\u00e7\u00e3o (produ\u00e7\u00e3o de ATP), a atividade da enzima ALDH2 e os n\u00edveis de alde\u00eddos presentes no sangue e no tecido card\u00edaco.<\/p>\n<p>\u201cSem nenhuma interven\u00e7\u00e3o terap\u00eautica, observamos que a fun\u00e7\u00e3o card\u00edaca foi caindo progressivamente ao longo das quatro semanas. Antes do infarto a fra\u00e7\u00e3o de eje\u00e7\u00e3o card\u00edaca estava em 81%. Ao fim da primeira semana estava em 54% e, ap\u00f3s a quarta, caiu para 44%\u201d, contou Ferreira.<\/p>\n<p>Nas c\u00e9lulas card\u00edacas que se mantiveram vi\u00e1veis ap\u00f3s o infarto, foi observado um preju\u00edzo progressivo na produ\u00e7\u00e3o de ATP, redu\u00e7\u00e3o da atividade da ALDH2. Os n\u00edveis de alde\u00eddos no sangue, que eram de 1,5 nanomoles (nmol) antes do infarto, subiram para 2,8 nmol ap\u00f3s a primeira semana e para 5 nmol, ao fim da quarta semana.<\/p>\n<p>\u201cFoi poss\u00edvel notar uma correla\u00e7\u00e3o inversa: quanto maior era o n\u00edvel de alde\u00eddos no sangue, menor era a fun\u00e7\u00e3o card\u00edaca, o que sugere que a enzima ALDH2 n\u00e3o estava funcionando adequadamente, embora sua express\u00e3o n\u00e3o tenha sido reduzida\u201d, comentou Ferreira.<\/p>\n<p>Esses achados foram validados em humanos. Pacientes que sofreram infarto agudo do mioc\u00e1rdio apresentaram em exames realizados na USP n\u00edveis mais elevados de alde\u00eddos no sangue do que indiv\u00edduos saud\u00e1veis.<\/p>\n<p>Em bi\u00f3psias card\u00edacas de portadores de cardiomiopatias isqu\u00eamica, chag\u00e1sica e idiop\u00e1tica, os pesquisadores observaram redu\u00e7\u00e3o da atividade da ALDH2 e ac\u00famulo de alde\u00eddos. Os dados dos estudos com humanos ainda n\u00e3o foram publicados.<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o do pesquisador, o conjunto de testes sugere que a dosagem de alde\u00eddos no sangue pode ser usada pelos m\u00e9dicos como um marcador da progress\u00e3o da doen\u00e7a, auxiliando no diagn\u00f3stico da insufici\u00eancia card\u00edaca.<\/p>\n<p>Tratamento protetor<\/p>\n<p>Em outro grupo de ratos, o tratamento com a mol\u00e9cula experimental alda-1 foi iniciado no dia seguinte ao procedimento para indu\u00e7\u00e3o do infarto. Quatro semanas depois, a fun\u00e7\u00e3o card\u00edaca havia ca\u00eddo de 75% para 62%. O n\u00edvel de alde\u00eddos, tanto no sangue quanto no tecido card\u00edaco, estava equivalente ao do grupo controle, ou seja, foi encontrada uma quantidade igual \u00e0 de um cora\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u201cA droga n\u00e3o evitou em 100% a perda da fun\u00e7\u00e3o card\u00edaca, pois durante o infarto morre uma quantidade consider\u00e1vel de c\u00e9lulas e o tratamento come\u00e7ou apenas no dia seguinte. Ainda assim, no t\u00e9rmino do experimento, a capacidade de bombear sangue do grupo tratado estava duas vezes melhor que a do grupo n\u00e3o tratado, mostrando que h\u00e1 uma prote\u00e7\u00e3o\u201d, comentou Ferreira.<\/p>\n<p>A alda-1 foi descoberta ainda durante o  de Ferreira, realizado em Stanford com apoio da FAPESP.<\/p>\n<p>Sob a coordena\u00e7\u00e3o de Daria Mochly-Rosen, professora do Departamento de Biologia Qu\u00edmica e de Sistemas de Stanford, o grupo da universidade norte-americana criou a startup Aldea Pharmaceuticals para tentar transformar a alda-1 em um produto comercial.<\/p>\n<p>Os ensaios cl\u00ednicos de fase 1, feito com volunt\u00e1rios saud\u00e1veis apenas para avalia\u00e7\u00e3o de toxicidade, tiveram in\u00edcio nos Estados Unidos no fim de 2014.<\/p>\n<p>Inicialmente, o foco da farmac\u00eautica \u00e9 usar o composto para tratar intoxica\u00e7\u00e3o por bebida alc\u00f3olica \u2013 uma vez que o \u00e1lcool ao ser metabolizado no organismo libera grandes quantidades de alde\u00eddos \u2013, principalmente em portadores de uma muta\u00e7\u00e3o no gene da ALDH2 que torna a enzima menos funcional.<\/p>\n<p>Essa muta\u00e7\u00e3o \u00e9 a mais frequente no mundo, afetando 600 milh\u00f5es de pessoas \u2013 cerca de 45% da popula\u00e7\u00e3o oriental. Recentemente, os pesquisadores do ICB-USP e de Stanford publicaram no Annual Review of Pharmacology and Toxicology uma\u00a0 na qual defendem a necessidade de um cuidado m\u00e9dico personalizado para esses pacientes.<\/p>\n<p>\u201cPortadores dessa muta\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas s\u00e3o mais suscet\u00edveis aos efeitos nocivos do \u00e1lcool, como tamb\u00e9m do cigarro, da polui\u00e7\u00e3o, de comidas ricas em gorduras saturadas e determinados medicamentos que favorecem a produ\u00e7\u00e3o de alde\u00eddos. A muta\u00e7\u00e3o, portanto, os torna mais propensos a desenvolver uma s\u00e9rie de doen\u00e7as degenerativas\u201d, comentou Ferreira.<\/p>\n<p>No artigo de revis\u00e3o, o grupo apresenta um question\u00e1rio que permite ao m\u00e9dico determinar se um paciente \u00e9 portador da muta\u00e7\u00e3o sem a necessidade de um exame gen\u00e9tico. O trabalho tamb\u00e9m traz uma lista de medicamentos a serem evitados por esses pacientes.<\/p>\n<p>\u201cEssa muta\u00e7\u00e3o j\u00e1 era conhecida h\u00e1 muitos anos, mas nunca havia sido considerada como um fator que poderia influenciar a progress\u00e3o de doen\u00e7as. Como desenvolvemos uma ferramenta capaz de ativar a enzima ALDH2, conseguimos mostrar sua import\u00e2ncia para o organismo\u201d, disse Ferreira.<\/p>\n<p>Foco ampliado<\/p>\n<p>Atualmente, o grupo de Ferreira realiza estudos pr\u00e9-cl\u00ednicos em parceria com a Aldea Pharmaceuticals na tentativa de estender a aplica\u00e7\u00e3o da alda-1 para outras doen\u00e7as degenerativas de origem isqu\u00eamica, como a doen\u00e7a arterial perif\u00e9rica.<\/p>\n<p>\u201cEssa experi\u00eancia de trabalhar em sinergia com empresas startups \u00e9 extremamente enriquecedora, pois estimula o processo de transfer\u00eancia de conhecimento e tecnologia gerados na academia em prol da sociedade\u201d, comentou Ferreira.<\/p>\n<p>O grupo busca parceiros brasileiros interessados no uso cl\u00ednico da alda-1. Esses estudos est\u00e3o sendo realizados no \u00e2mbito do\u00a0, uma iniciativa do ICB-USP em parceria com Stanford que visa a profissionalizar o processo de acelera\u00e7\u00e3o de projetos acad\u00eamicos inovadores.<\/p>\n<p>O artigo Aldehydic load and aldehyde dehydrogenase 2 profile during the progression of post-myocardial infarction cardiomyopathy: Benefits of Alda-1 (doi: 10.1016\/j.ijcard.2014.10.140)\u00a0pode ser lido em.<\/p>\n<p>O artigo A personalized medicine approach for Asian Americans with the Aldehyde Dehydrogenase 2*2 variant (doi: 10.1146\/annurev-pharmtox-010814-124915)\u00a0pode ser lido em .<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Karina Toledo | Ag\u00eancia FAPESP \u2013 O tratamento de ratos infartados com uma droga experimental chamada alda-1 reduziu quase pela metade a perda da fun\u00e7\u00e3o card\u00edaca em experimentos realizados na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP). Os resultados \u00a0no International Journal of Cardiology. 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