{"id":67931,"date":"2015-03-17T14:21:56","date_gmt":"2015-03-17T17:21:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=67931"},"modified":"2015-03-17T14:21:56","modified_gmt":"2015-03-17T17:21:56","slug":"guia-alimentar-para-a-populacao-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2015\/guia-alimentar-para-a-populacao-brasileira\/67931","title":{"rendered":"Guia alimentar para a popula\u00e7\u00e3o brasileira"},"content":{"rendered":"<p>Karina Toledo | Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Para quem deseja uma boa alimenta\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda que n\u00e3o envolva a prepara\u00e7\u00e3o culin\u00e1ria, defende o professor da Faculdade de Sa\u00fade P\u00fablica da Universidade de S\u00e3o Paulo (FSP-USP) , coordenador t\u00e9cnico do novo <em><strong><\/strong><\/em>.<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea n\u00e3o precisa cozinhar a pr\u00f3pria comida, algu\u00e9m pode prepar\u00e1-la para voc\u00ea, mas ela n\u00e3o pode basicamente ser feita pela ind\u00fastria de alimentos\u201d, argumenta Monteiro.<\/p>\n<p>Resultado de parceria entre o N\u00facleo de Pesquisas Epidemiol\u00f3gicas em Nutri\u00e7\u00e3o e Sa\u00fade da FSP-USP e o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, o guia foi lan\u00e7ado em novembro de 2014, em substitui\u00e7\u00e3o \u00e0 edi\u00e7\u00e3o de 2006. Em vez de trabalhar com grupos alimentares e por\u00e7\u00f5es recomendadas, a publica\u00e7\u00e3o sugere como base da alimenta\u00e7\u00e3o os alimentos frescos \u2013 como frutas, carnes, legumes e ovos \u2013 ou minimamente processados \u2013 como arroz, feij\u00e3o e frutas secas. Recomenda ainda evitar os alimentos ultraprocessados, como macarr\u00e3o instant\u00e2neo, salgadinhos de pacote e refrigerantes.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca de seu lan\u00e7amento, o guia teve repercuss\u00e3o discreta na imprensa brasileira, mas despertou aten\u00e7\u00e3o nos Estados Unidos, recebendo elogios de renomados especialistas na \u00e1rea de nutri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em seu blog , Marion Nestle, professora da New York University \u2013 que, apesar do sobrenome, n\u00e3o tem nenhuma rela\u00e7\u00e3o com a multinacional su\u00ed\u00e7a \u2013, afirmou que \u201cas orienta\u00e7\u00f5es s\u00e3o not\u00e1veis pelo fato de serem baseadas em alimentos que os brasileiros de todas as classes sociais comem todos os dias e considerarem as implica\u00e7\u00f5es sociais, culturais, econ\u00f4micas e ambientais das escolhas alimentares\u201d.<\/p>\n<p>Michael Pollan, professor da University of California em Berkeley, e autor de livros como Food Rules: An Eater\u2019s Manual (2010) e In Defense of Food: An Eater\u2019s Manifesto (2008), disse que \u201cas novas diretrizes brasileiras s\u00e3o revolucion\u00e1rias\u201d por serem \u201corganizadas em torno de comida (e refei\u00e7\u00f5es!), n\u00e3o em torno de nutrientes\u201d.<\/p>\n<p>\u201cOs Estados Unidos precisam seguir o exemplo do Brasil: parar de falar sobre nutrientes e come\u00e7ar a falar sobre comida! Este \u00e9 um documento de refer\u00eancia\u201d, disse o endocrinologista pedi\u00e1trico Robert Lustig, professor da University of California em San Francisco, conforme reportado pela revista especializada .<\/p>\n<p>No m\u00eas passado, quando foi divulgada a vers\u00e3o mais atual das \u00a0\u2013 um calhama\u00e7o de 571 p\u00e1ginas recheadas com revis\u00f5es da literatura cient\u00edfica \u2013, o guia brasileiro voltou a ser destaque nos Estados Unidos. Em uma\u00a0, por exemplo, foi apontado como \u201cas melhores diretrizes nutricionais do mundo\u201d.<\/p>\n<p>Em entrevista concedida \u00e0 Ag\u00eancia FAPESP, o pesquisador contou como foi o processo de levantamento das evid\u00eancias cient\u00edficas que d\u00e3o o embasamento te\u00f3rico ao guia, redigido por pesquisadores do N\u00facleo de Pesquisas Epidemiol\u00f3gicas em Nutri\u00e7\u00e3o e Sa\u00fade (Nupens) da USP, com a colabora\u00e7\u00e3o de especialistas de todo o Brasil.<\/p>\n<p>A grande preocupa\u00e7\u00e3o, destacou Monteiro, foi criar um instrumento \u00fatil para qualquer cidad\u00e3o e n\u00e3o apenas para os especialistas em nutri\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m de criar uma classifica\u00e7\u00e3o original para os alimentos com base no grau de processamento, o guia traz informa\u00e7\u00f5es sobre os impactos ambientais das escolhas alimentares. Fala ainda sobre a import\u00e2ncia de um ambiente adequado para as refei\u00e7\u00f5es e recomenda que as pessoas comam em boa companhia.<\/p>\n<p>A seguir, os principais trechos da entrevista com o pesquisador:<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Como funciona a nova classifica\u00e7\u00e3o dos alimentos proposta pelo Guia alimentar para a popula\u00e7\u00e3o brasileira?<br \/>\nCarlos Augusto Monteiro \u2013 O entendimento de que alimentos processados podem acarretar problemas para a sa\u00fade \u00e9 antigo, mas impreciso, pois n\u00e3o especifica os tipos de processamento e a natureza dos problemas. Para preencher essa lacuna, nosso n\u00facleo de pesquisa na USP criou uma classifica\u00e7\u00e3o de alimentos baseada no grau de processamento industrial e que contempla quatro grupos. No primeiro grupo, que deve ser a base da alimenta\u00e7\u00e3o, est\u00e3o os alimentos in natura, como frutas e hortali\u00e7as. S\u00e3o adquiridos para consumo sem qualquer altera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s deixarem a natureza. Tamb\u00e9m est\u00e3o inclu\u00eddos no primeiro grupo os alimentos minimamente processados, aqueles que antes de sua aquisi\u00e7\u00e3o foram submetidos a altera\u00e7\u00f5es m\u00ednimas, como gr\u00e3os secos, polidos e empacotados ou mo\u00eddos na forma de farinhas, cortes de carne resfriados ou congelados e leite pasteurizado. A segunda categoria corresponde a subst\u00e2ncias extra\u00eddas de alimentos in natura ou diretamente da natureza e usadas pelas pessoas em prepara\u00e7\u00f5es culin\u00e1rias, como \u00f3leos, gorduras, a\u00e7\u00facar e sal. Essas subst\u00e2ncias, quando utilizadas, em pequenas quantidades, para temperar e cozinhar alimentos in natura ou minimamente processados, propiciam diversidade e sabor \u00e0s prepara\u00e7\u00f5es culin\u00e1rias, sem comprometer sua composi\u00e7\u00e3o nutricional. No terceiro grupo est\u00e3o os produtos fabricados essencialmente com a adi\u00e7\u00e3o de sal ou a\u00e7\u00facar a um alimento in natura ou minimamente processado, como legumes em conserva, frutas em calda, queijos e p\u00e3es. O consumo desse grupo deve ser limitado a pequenas quantidades, como acompanhamento, e n\u00e3o em substitui\u00e7\u00e3o a alimentos minimamente processados e prepara\u00e7\u00f5es culin\u00e1rias. A quarta categoria, que deve ser evitada, \u00e9 a dos alimentos ultraprocessados, como refrigerantes, biscoitos e salgadinhos de pacote. Esses produtos s\u00e3o formula\u00e7\u00f5es criadas pela moderna ind\u00fastria de alimentos, com pouco ou nenhum alimento verdadeiro e grandes quantidades de \u00f3leo, sal e a\u00e7\u00facar, al\u00e9m de muitas outras subst\u00e2ncias. Essas subst\u00e2ncias s\u00e3o derivadas de constituintes de alimentos ou de outras mat\u00e9rias org\u00e2nicas e incluem amidos modificados, isolados de prote\u00ednas, soro de leite, gordura hidrogenada e todo o grupo dos aditivos qu\u00edmicos. Os aditivos usados na manufatura de alimentos ultraprocessados t\u00eam como fun\u00e7\u00e3o prolongar quase indefinidamente a dura\u00e7\u00e3o dos produtos e torn\u00e1-los t\u00e3o ou mais atraentes do que os alimentos verdadeiros.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Por que devemos evitar os alimentos ultraprocessados?<br \/>\nMonteiro \u2013 O ultraprocessamento permite fazer produtos de muito baixo custo e de grande aceitabilidade, durabilidade e conveni\u00eancia. Isso \u00e9 conseguido por meio de processos tecnol\u00f3gicos muito sofisticados e uso de ingredientes relativamente baratos, como a\u00e7\u00facar, gorduras, sal e aditivos. Al\u00e9m de ter um perfil nutricional intrinsicamente desequilibrado (muito s\u00f3dio, muito a\u00e7\u00facar, muita gordura n\u00e3o saud\u00e1vel), os processos e os ingredientes utilizados no ultraprocessamento levam a produtos que confundem o controle natural da fome e saciedade e que, nesta medida, promovem a obesidade. Primeiro, porque s\u00e3o produtos que cont\u00eam grande quantidade de calorias por volume. Segundo, porque, sendo praticamente pr\u00e9-digeridos e contendo pouca ou nenhuma fibra alimentar, s\u00e3o absorvidos muito rapidamente. Terceiro porque s\u00e3o hiperpalat\u00e1veis. De fato, alimentos ultraprocessados s\u00e3o manufaturados para que sejam &#8220;irresist\u00edveis&#8221; e isso \u00e9 comumente mencionado na propaganda desses produtos. Por \u00faltimo, h\u00e1 a quest\u00e3o da seguran\u00e7a dos aditivos alimentares.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Os aditivos alimentares n\u00e3o s\u00e3o seguros?<br \/>\nMonteiro \u2013 Embora a ind\u00fastria s\u00f3 utilize aditivos alimentares legalmente permitidos, as avalia\u00e7\u00f5es que geram essas permiss\u00f5es s\u00e3o muito limitadas, n\u00e3o levando em conta efeitos de longo prazo e efeitos de intera\u00e7\u00f5es entre aditivos. Estudos recentes v\u00eam mostrando, por exemplo, que ado\u00e7antes artificiais e emulsificantes, aditivos muito comuns em alimentos ultraprocessados, podem alterar a microflora intestinal e destruir a camada de muco que protege o epit\u00e9lio intestinal, levando ao aumento do risco de colite, obesidade, diabetes e outras doen\u00e7as cr\u00f4nicas. Por conta do crescimento exponencial das vendas de alimentos ultraprocessados, h\u00e1 centenas de novos aditivos entrando no mercado todos os anos. Mesmo que apenas uma propor\u00e7\u00e3o \u00ednfima desses aditivos seja prejudicial \u00e0 sa\u00fade, as consequ\u00eancias para a sa\u00fade p\u00fablica podem ser muito graves. \u00c9 urgente que haja uma regula\u00e7\u00e3o mais criteriosa dos aditivos alimentares.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 O guia tamb\u00e9m aponta desvantagens ambientais do consumo excessivo de alimentos ultraprocessados, certo?<br \/>\nMonteiro \u2013 O ultraprocessamento de alimentos \u00e9 muito ruim para o ambiente tamb\u00e9m, pois gera uma grande quantidade de res\u00edduos s\u00f3lidos e requer maior consumo de \u00e1gua e de energia em compara\u00e7\u00e3o aos alimentos minimamente processados. Tamb\u00e9m representa risco \u00e0 diversidade de esp\u00e9cies. Como a l\u00f3gica da ind\u00fastria \u00e9 reduzir custos, compram apenas um tipo de laranja, um tipo de milho ou de soja. Quando consumimos diretamente os alimentos, percebemos a diferen\u00e7a entre, por exemplo, variedades de laranjas, de feij\u00f5es ou de batatas. A cultura culin\u00e1ria garante a perpetua\u00e7\u00e3o dessa variedade. J\u00e1 quando consumimos formula\u00e7\u00f5es industriais feitas com base em subst\u00e2ncias extra\u00eddas dos alimentos, n\u00e3o conseguimos notar diferen\u00e7as. Por exemplo, quando a formula\u00e7\u00e3o \u00e9 feita com base em amido, n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a se este amido vem de um ou outro tipo de milho ou mesmo se vem do arroz ou da soja. Dentre os alimentos minimamente processados, o impacto ambiental n\u00e3o \u00e9 homog\u00eaneo e, neste sentido, o guia recomenda que a alimenta\u00e7\u00e3o esteja baseada em uma variedade de alimentos de origem vegetal, que s\u00e3o os de menor impacto ambiental, e que as carnes vermelhas, em particular, sejam consumidas em pequenas quantidades.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Por que julgaram importante incluir orienta\u00e7\u00f5es sobre o ambiente onde se come e sobre o comer acompanhado?<br \/>\nMonteiro \u2013 Quando comemos sozinho, \u00e9 maior a probabilidade de ligar uma televis\u00e3o ou pegar um jornal para ler. H\u00e1 estudos que mostram que o comer sem prestar aten\u00e7\u00e3o na comida (mindless eating, no idioma ingl\u00eas) prejudica os sensores naturais que nos indicam que a quantidade do que comemos j\u00e1 \u00e9 suficiente. Quando se compartilha a refei\u00e7\u00e3o com mais pessoas, ampliamos naturalmente a variedade de alimentos, que \u00e9 essencial para a boa alimenta\u00e7\u00e3o. E tamb\u00e9m reduz custo. Se cada um come sozinho, a op\u00e7\u00e3o mais econ\u00f4mica pode ser comprar algo pronto e p\u00f4r no micro-ondas. Essas orienta\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o comuns nos guias alimentares e por isso o guia brasileiro tem atra\u00eddo tanta aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Como foi o processo de elabora\u00e7\u00e3o do guia?<br \/>\nMonteiro \u2013 O processo de elabora\u00e7\u00e3o levou tr\u00eas anos e envolveu uma intera\u00e7\u00e3o cont\u00ednua e prof\u00edcua entre os t\u00e9cnicos do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade e os pesquisadores do nosso n\u00facleo na USP. Ao longo deste processo, pudemos contar com a colabora\u00e7\u00e3o de muitos especialistas em \u00e1reas como nutri\u00e7\u00e3o, antropologia, epidemiologia, ci\u00eancia de alimentos e jornalismo. Caprichamos muito na comunica\u00e7\u00e3o, pois a ideia era alcan\u00e7ar diretamente as pessoas. Essa \u00e9 outra caracter\u00edstica que faz esse guia ser diferente dos demais. Ele n\u00e3o \u00e9 feito para profissionais de sa\u00fade, mas para todas as pessoas. Claro que profissionais de sa\u00fade, em particular nutricionistas, ser\u00e3o fundamentais na dissemina\u00e7\u00e3o do conte\u00fado do guia, mas a premissa que adotamos foi a de que as pessoas precisam aumentar sua autonomia no que se refere \u00e0 escolha dos alimentos. O processo de constru\u00e7\u00e3o do guia foi muito rico, envolvendo oficinas com a participa\u00e7\u00e3o de especialistas de todo o Brasil, associa\u00e7\u00f5es profissionais, associa\u00e7\u00f5es de defesa dos consumidores, organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais, al\u00e9m de uma consulta p\u00fablica da qual emergiram mais de 3 mil coment\u00e1rios e sugest\u00f5es, que foram intensamente utilizados na vers\u00e3o final do guia publicada pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Como foi a contribui\u00e7\u00e3o da FAPESP para a elabora\u00e7\u00e3o do guia?<br \/>\nMonteiro \u2013 Muito importante. Por exemplo, nosso principal especialista em antropologia foi o canadense Jean Claude Moubarac, que veio ao Brasil com uma Bolsa de . Como parte do \u00a0de Maria Laura da Costa Louzada, avaliamos o impacto do consumo de alimentos ultraprocessados sobre a qualidade da dieta brasileira em macro e micronutrientes e os resultados dessa avalia\u00e7\u00e3o foram fundamentais para orientar as principais recomenda\u00e7\u00f5es do guia. A colabora\u00e7\u00e3o de Carla Adriano Martins, outra \u00a0foi essencial em outro componente inovador do guia brasileiro: basear as recomenda\u00e7\u00f5es em refei\u00e7\u00f5es reais efetivamente praticadas pela popula\u00e7\u00e3o brasileira, utilizando fotografias do desjejum, almo\u00e7o e jantar dessa popula\u00e7\u00e3o. Durante a fase final de elabora\u00e7\u00e3o do guia, a FAPESP ainda concedeu uma  \u00e0 colombiana Diana Celmira Parra Perez, interessada em levar para o seu pa\u00eds a experi\u00eancia brasileira.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 O guia brasileiro tem sido apontado por jornalistas e especialistas norte-americanos como um exemplo. O que ele tem de diferente em rela\u00e7\u00e3o ao guia recentemente lan\u00e7ado nos Estados Unidos?<br \/>\nMonteiro \u2013 O guia norte-americano em vig\u00eancia, que \u00e9 de 2010, d\u00e1 grande valor, ou \u00e0s vezes valor exclusivo, \u00e0s evid\u00eancias cient\u00edficas obtidas por ensaios cl\u00ednicos totalmente controlados, como se faz quando as autoridades de sa\u00fade devem fazer recomenda\u00e7\u00f5es sobre novos medicamentos, novas vacinas ou novas modalidades de t\u00e9cnicas cir\u00fargicas. Quando se faz isso com a comida, \u00e9 preciso reduzir a alimenta\u00e7\u00e3o aos nutrientes individuais que dela fazem parte, como prote\u00ednas, ferro, vitaminas, fibras. Vou exagerar para que fique mais claro. Quando o guia alimentar dos Estados Unidos orienta o consumo de uma certa quantidade de um determinado alimento \u00e9 porque este consumo propicia uma certa quantidade de um determinado nutriente que se mostrou protetor de uma determinada doen\u00e7a em v\u00e1rios ensaios cl\u00ednicos controlados. O problema \u00e9 que este enfoque restringe muito as dimens\u00f5es da alimenta\u00e7\u00e3o e os mecanismos que a relacionam \u00e0 sa\u00fade. A rela\u00e7\u00e3o, por exemplo, entre alimenta\u00e7\u00e3o e obesidade envolve o conte\u00fado de gordura na alimenta\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m o de fibras, a densidade energ\u00e9tica do alimento, o sabor, a textura, a aten\u00e7\u00e3o no comer etc. As dimens\u00f5es culturais, sociais e ambientais da alimenta\u00e7\u00e3o, que direta ou indiretamente tamb\u00e9m influenciam a sa\u00fade s\u00e3o esquecidas. A nova proposta do guia americano, recentemente colocada em consulta p\u00fablica, traz v\u00e1rios avan\u00e7os e admite que as dimens\u00f5es culturais, sociais e ambientais da alimenta\u00e7\u00e3o devem ser levadas em conta nas escolhas alimentares. Mas ainda n\u00e3o \u00e9 um instrumento que seja \u00fatil para as pessoas em geral. Da forma como foi elaborado, fica restrito a estudiosos da nutri\u00e7\u00e3o, que ter\u00e3o de fazer a transmiss\u00e3o e a tradu\u00e7\u00e3o do conhecimento. J\u00e1 o guia brasileiro pretende informar as pessoas diretamente.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 A pir\u00e2mide alimentar foi definitivamente abolida?<br \/>\nMonteiro \u2013 A pir\u00e2mide j\u00e1 havia sido abolida na vers\u00e3o do guia norte-americano de 2010, que apresentava um modelo de prato ideal, com um quarto ocupado por frutas, um quarto por hortali\u00e7as, um quarto por gr\u00e3os e o quarto final por alimentos fontes de prote\u00edna, como feij\u00f5es, carne, peixes e ovos, al\u00e9m de um copo de leite ao lado do prato. O problema \u00e9 que 60% das calorias consumidas pelos norte-americanos correspondem a produtos ultraprocessados e n\u00e3o h\u00e1 uma orienta\u00e7\u00e3o clara sobre o consumo desses alimentos. A quest\u00e3o do processamento dos alimentos acaba ficando escamoteada no guia americano. Quando ele recomenda o consumo de gr\u00e3os, admite o consumo de produtos ultraprocessados como &#8220;cereais matinais&#8221;, muitas vezes contendo mais a\u00e7\u00facar do que qualquer cereal. Mesmo quando o guia americano refere a prefer\u00eancia por cereais integrais, ele acaba admitindo biscoitos feitos com farinha integral misturada a a\u00e7\u00facar, gordura hidrogenada e outras subst\u00e2ncias e aditivos. J\u00e1 o guia brasileiro deixa claro que \u00e9 preciso evitar todo o tipo de alimento ultraprocessado e, para tanto, n\u00e3o se pode abrir m\u00e3o da prepara\u00e7\u00e3o caseira dos alimentos. Afinal, alimentos ultraprocessados s\u00e3o feitos para substituir prepara\u00e7\u00f5es culin\u00e1rias. Felizmente, no Brasil, diferentemente dos Estados Unidos, a maior parte das pessoas ainda se alimenta de alimentos minimamente processados e prepara\u00e7\u00f5es culin\u00e1rias feitas com esses alimentos. E o guia brasileiro quer contribuir para que isso n\u00e3o se modifique.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 A dieta da popula\u00e7\u00e3o brasileira caminha no sentido de se parecer com a da popula\u00e7\u00e3o norte-americana?<br \/>\nMonteiro \u2013 Estamos em um momento de transi\u00e7\u00e3o. Nossos estudos populacionais sobre a dieta brasileira mostram que em 2009 a propor\u00e7\u00e3o de alimentos ultraprocessados consumidos no Brasil correspondia a 28% do total de calorias. Em 2003 era 23% e nos anos 1980 era menos do que 20%. Esse consumo est\u00e1 crescendo muito, mas ainda hoje 70% das calorias que o brasileiro consome v\u00eam de alimentos minimamente processados e de prepara\u00e7\u00f5es culin\u00e1rias. Ainda estamos \u201cdo lado de c\u00e1\u201d e por isso o guia alimentar \u00e9 muito importante. \u00c9 importante levar informa\u00e7\u00e3o, pois muitas pessoas n\u00e3o t\u00eam ideia das implica\u00e7\u00f5es de suas escolhas alimentares. Talvez saibam em parte, no que se refere ao impacto sobre a sa\u00fade. O guia mostra porque o consumo de alimentos ultraprocessados \u00e9 ruim tamb\u00e9m para a sociedade, para o ambiente e para a biodiversidade. Mas sabemos que n\u00e3o basta apenas informar a popula\u00e7\u00e3o. O guia deixa clara a import\u00e2ncia de pol\u00edticas p\u00fablicas que amparem as escolhas alimentares saud\u00e1veis, como a taxa\u00e7\u00e3o e o controle da publicidade dos produtos ultraprocessados. Mas essas medidas s\u00f3 v\u00e3o ser aprovadas quando houver demanda da sociedade.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Que tipo de pol\u00edticas p\u00fablicas seriam necess\u00e1rias?<br \/>\nMonteiro \u2013 A primeira delas seria regular o marketing dos alimentos ultraprocessados. No Brasil, o fator que mais faz aumentar o consumo desses produtos nem \u00e9 tanto o pre\u00e7o, pois o custo da caloria que vem dos alimentos ultraprocessados ainda \u00e9 maior do que a caloria de um alimento in natura e das prepara\u00e7\u00f5es culin\u00e1rias. Na Inglaterra, por exemplo, \u00e9 o oposto e por isso l\u00e1 quem cozinha \u00e9 a elite. No Brasil, o principal respons\u00e1vel pela amplia\u00e7\u00e3o no consumo de ultraprocessados \u00e9 o marketing sofisticado, que \u00e9 muito caro, mas muito eficiente e ao alcance das empresas transnacionais que dominam o lucrativo mercado dos ultraprocessados. Essas empresas investem, como a ind\u00fastria do cigarro fez no passado, de forma a glamorizar o alimento ultraprocessado e as redes de fast-food. O alvo principal \u00e9 o jovem. O jovem que n\u00e3o participa desse consumo sente-se mal, inferior. V\u00e1rios pa\u00edses est\u00e3o regulando o marketing de ultraprocessados: Fran\u00e7a, Su\u00e9cia, Canad\u00e1. Se o alimento tem muito a\u00e7\u00facar, muito sal ou muita gordura, n\u00e3o pode anunciar, sobretudo para crian\u00e7a e para adolescente. A segunda quest\u00e3o \u00e9 a da oferta. S\u00e3o necess\u00e1rias pol\u00edticas para garantir o acesso, pol\u00edticas de abastecimento, e o Brasil est\u00e1 fazendo bastante coisa nessa \u00e1rea, mas pode fazer mais. A alimenta\u00e7\u00e3o escolar de qualidade e baseada em alimentos minimamente processados \u00e9 um dos destaques mais festejados da pol\u00edtica brasileira de alimenta\u00e7\u00e3o e nutri\u00e7\u00e3o. O terceiro fator \u00e9 a pol\u00edtica fiscal. \u00c9 preciso taxar sobretudo alguns alimentos ultraprocessados. Esse tipo de pol\u00edtica funciona e reduz o consumo. O M\u00e9xico, um dos pa\u00edses com maiores taxas de obesidade e de diabetes de todo o mundo, come\u00e7ou no ano passado a taxar todas as bebidas ado\u00e7adas e todos os snacks com alto teor de a\u00e7\u00facar e gordura. Outro ponto poss\u00edvel \u00e9 oferecer algum tipo de subs\u00eddio para alimentos naturais mais caros, como hortali\u00e7as. Talvez melhor ainda seja refor\u00e7ar o apoio aos pequenos agricultores, dar assist\u00eancia t\u00e9cnica. \u00c9 important\u00edssimo proteger a agricultura familiar, pois \u00e9 ela que produz a nossa comida e, nessa \u00e1rea, as pol\u00edticas p\u00fablicas brasileiras s\u00e3o tamb\u00e9m muito elogiadas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Karina Toledo | Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Para quem deseja uma boa alimenta\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda que n\u00e3o envolva a prepara\u00e7\u00e3o culin\u00e1ria, defende o professor da Faculdade de Sa\u00fade P\u00fablica da Universidade de S\u00e3o Paulo (FSP-USP) , coordenador t\u00e9cnico do novo . \u201cVoc\u00ea n\u00e3o precisa cozinhar a pr\u00f3pria comida, algu\u00e9m pode prepar\u00e1-la para voc\u00ea, mas ela [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":36215,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_genesis_hide_title":false,"_genesis_hide_breadcrumbs":false,"_genesis_hide_singular_image":false,"_genesis_hide_footer_widgets":false,"_genesis_custom_body_class":"","_genesis_custom_post_class":"","_genesis_layout":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[22,5],"tags":[],"class_list":{"0":"post-67931","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-brasil","8":"category-saude-e-vida","9":"entry","10":"gs-1","11":"gs-odd","12":"gs-even","13":"gs-featured-content-entry"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/imagens\/alimento-pao-salgados.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_likes_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/67931","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=67931"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/67931\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/media\/36215"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=67931"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=67931"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=67931"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}