{"id":66147,"date":"2015-02-09T14:35:20","date_gmt":"2015-02-09T16:35:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=66147"},"modified":"2015-02-09T14:35:20","modified_gmt":"2015-02-09T16:35:20","slug":"o-ato-de-viajar-como-exercicio-de-contemplacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2015\/o-ato-de-viajar-como-exercicio-de-contemplacao\/66147","title":{"rendered":"O ato de viajar como exerc\u00edcio de contempla\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p> Por Jos\u00e9 Tadeu Arantes Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Em sua \u00faltima entrevista, concedida em maio de 1964 ao jornalista e escritor Pedro Bloch, alguns meses antes de morrer, Cec\u00edlia Meireles (1901\u20131964), a grande poeta de Vaga M\u00fasica (1942), Mar Absoluto (1945), Romanceiro da Inconfid\u00eancia (1953) e tantas outras obras definidoras da literatura brasileira, explicou, em um longo par\u00e1grafo, seu amor pela <strong><em>viagem<\/em><\/strong>.<\/p>\n<p>\u201cCada lugar aonde chego \u00e9 uma surpresa e uma maneira diferente de ver os homens e coisas. Viajar para mim nunca foi turismo. Jamais tirei fotografia de pa\u00eds ex\u00f3tico. Viagem \u00e9 alongamento de horizonte humano\u201d, disse.<\/p>\n<p>E prosseguiu, exemplificando: \u201cNa \u00cdndia foi onde me senti mais dentro de meu mundo interior. As can\u00e7\u00f5es de Tagore, que tanta gente canta como folclore, tudo na \u00cdndia me d\u00e1 uma sensa\u00e7\u00e3o de levitar. Note que n\u00e3o visitei ali nem templos nem faquires. O impacto de Israel tamb\u00e9m foi muito forte. De um lado, aqueles homens construindo, com entusiasmo e vibra\u00e7\u00e3o, um pa\u00eds em que brotam flores no deserto e cultura nas universidades. Por outro lado, aquela humanidade que vem \u00e0 tona pelas escava\u00e7\u00f5es. Ver sair aqueles jarros, aqueles textos sagrados, o mundo dos profetas. Pisar onde pisou Isa\u00edas, andar onde andou Jeremias \u2026 Visitar Nazar\u00e9, os lugares santos! A Holanda me faz desconfiar de que devo ter parentes antigos flamengos. Em Amsterd\u00e3, passei quinze dias sem dormir. Me dava a impress\u00e3o de que n\u00e3o estava num mundo de gente. Parecia que eu vivia dentro de gravuras. Quanto a Portugal, basta dizer que minha av\u00f3 falava como Cam\u00f5es. Foi ela quem me chamou a aten\u00e7\u00e3o para a \u00cdndia, o Oriente\u201d.<\/p>\n<p>Esse olhar de viajante, que Cec\u00edlia registrou em cr\u00f4nicas duradouras, foi tamb\u00e9m a atitude que sustentou sua produ\u00e7\u00e3o po\u00e9tica. E cr\u00f4nica e poesia dialogaram em sua obra, em m\u00fatua influ\u00eancia, compondo uma identidade liter\u00e1ria inconfund\u00edvel.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o ponto de vista de Lu\u00eds Ant\u00f4nio Contatori Romano, autor do livro A poeta-viajante: uma teoria po\u00e9tica da viagem contempor\u00e2nea nas cr\u00f4nicas de Cec\u00edlia Meireles, publicado com . O livro \u00e9 resultado de pesquisa de p\u00f3s-doutorado, realizada no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) sob a orienta\u00e7\u00e3o de Tel\u00ea Ancona Lopes.<\/p>\n<p>Doutor em Teoria e Hist\u00f3ria Liter\u00e1ria pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com  sobre a passagem de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir pelo Brasil em 1960, Romano \u00e9 professor na Universidade Federal do Sul e Sudeste do Par\u00e1. Tamb\u00e9m viajante inveterado, com mais de 80 pa\u00edses visitados at\u00e9 o momento, ele chegou a publicar um livro de cr\u00f4nicas de viagem em 2007: Reminisc\u00eancias de um viajante.<\/p>\n<p>\u201cA facilidade de viajar e o grande n\u00famero de mat\u00e9rias jornal\u00edsticas dedicadas ao turismo obscureceram hoje a import\u00e2ncia da literatura de viagem como texto liter\u00e1rio. A proposta do estudo foi mostrar que, nas cr\u00f4nicas de viagem de Cec\u00edlia Meireles, existem elementos de percep\u00e7\u00e3o e linguagem que as distinguem do mero escrito tur\u00edstico, e as elevam \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de literatura\u201d, disse Romano \u00e0 Ag\u00eancia FAPESP.<\/p>\n<p>Citando o escritor alem\u00e3o Hans Magnus Enzesberger (nascido em 1929), ele sintetizou em seu livro aquilo que poderia ser chamado de atitude do turista: \u201cAs idealiza\u00e7\u00f5es rom\u00e2nticas da paisagem, da hist\u00f3ria incontada e das viagens de descoberta continuam a ser, segundo Enzesberger, as imagens-guias do turismo at\u00e9 hoje. Mas o turista almeja, ao mesmo tempo, o ating\u00edvel e o inacess\u00edvel, o distante da civiliza\u00e7\u00e3o e o seu conforto. Dessa forma, a viagem tur\u00edstica exclui riscos e torna-se imagem da imagem da viagem constru\u00edda sob o olhar rom\u00e2ntico, simulacro de segunda ordem\u201d. E, adiante, acrescenta: \u201cO souvenir \u00e9 uma poss\u00edvel garantia de que o lugar distante foi alcan\u00e7ado, n\u00e3o raro, no conforto do hotel, que \u00e9 o lar melhorado\u201d.<\/p>\n<p>Em contraposi\u00e7\u00e3o ao turista, que, segundo suas palavras, \u201c\u00e9 algu\u00e9m essencialmente preocupado com o retorno\u201d, Romano constr\u00f3i em seu livro a figura do viajante: \u201cDiferentemente do turista, o viajante se deleita n\u00e3o com o movimento entre paisagens, mas em pormenores de cada coisa contemplada (&#8230;) Assim, a singularidade do olhar do viajante se aproxima de uma \u2018experi\u00eancia po\u00e9tica\u2019\u201d.<\/p>\n<p>Eram essas pequenas ilumina\u00e7\u00f5es \u2013 se podem ser chamadas assim \u2013 que Cec\u00edlia buscava, embora, como ocorre com qualquer pessoa, tamb\u00e9m nela e em seus textos as figuras do turista e do viajante \u00e0s vezes se embaralhassem.<\/p>\n<p>\u201cHoje, \u00e9 f\u00e1cil ir a Veneza ou a Mumbai, lugares a que Cec\u00edlia Meireles tamb\u00e9m foi, mas o que a distingue \u00e9 o olhar singular e a forma como aquilo que ela registra \u00e9 plasmado na linguagem liter\u00e1ria. Por isso, suas cr\u00f4nicas de viagem jamais s\u00e3o textos datados e, portanto, ultrapassados\u201d, comentou Romano.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de poeta, Cec\u00edlia exerceu as atividades de jornalista e professora. E isso lhe proporcionou convites que vieram ao encontro de seu amor por viajar. Por exemplo, ela fez sua famosa viagem \u00e0 \u00cdndia em 1953, a convite do ent\u00e3o primeiro-ministro indiano Jawaharlal Nehru, para participar de um congresso pacifista em homenagem a Gandhi. Antes disso, na d\u00e9cada de 1940, passou algum tempo nos Estados Unidos, convidada a ministrar um curso sobre literatura e cultura brasileiras na Universidade de Austin, no Texas. E, de l\u00e1, foi ao M\u00e9xico. A essas viagens patrocinadas acrescentaram-se aquelas que a poeta fez por conta pr\u00f3pria, visitando Europa, Israel, Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p>\u201cUma marca de Cec\u00edlia \u00e9 a da contempla\u00e7\u00e3o, do impulso para ultrapassar o passageiro e atingir aquilo que fica. Nessa busca do permanente existe uma evidente valoriza\u00e7\u00e3o da arte: a arquitetura, a pintura. E tamb\u00e9m a valoriza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es interpessoais\u201d, disse Romano.<\/p>\n<p>\u201cEla tinha amizade com muita gente. Entre tantas pessoas, com v\u00e1rios escritores, do Brasil e do exterior: M\u00e1rio de Andrade, Manoel Bandeira, o mexicano Alfonso Reyes, a chilena Gabriela Mistral, o portugu\u00eas Armando C\u00f4rtes-Rodrigues, para citar apenas alguns.\u201d Possivelmente, Cec\u00edlia foi tamb\u00e9m a primeira leitora, no Brasil, de Mensagem, a obra fundamental de Fernando Pessoa, publicada em Portugal em 1934.<\/p>\n<p>Sem ter sido uma intelectual, no sentido acad\u00eamico da palavra, Cec\u00edlia tamb\u00e9m acumulou uma vasta cultura, n\u00e3o pelo gosto da erudi\u00e7\u00e3o, mas para alcan\u00e7ar uma verdade que a transcende. Na entrevista j\u00e1 citada, afirmou: \u201cViagens, folclore e idiomas s\u00e3o uma esp\u00e9cie de constante em minha vida. Comprei livros e discos de hebraico. Estudei hindi, s\u00e2nscrito. O desejo de ler Goethe no original me obrigou a estudar alem\u00e3o. N\u00e3o estudo idiomas para falar, mas para melhor penetrar a alma dos povos\u201d.<\/p>\n<p>\u201cCec\u00edlia, por amor ao instante, deseja paralis\u00e1-lo para a eternidade\u201d, sintetizou Romano no \u00faltimo par\u00e1grafo de seu livro.<\/p>\n<p>A poeta-viajante: uma teoria po\u00e9tica da viagem contempor\u00e2nea nas cr\u00f4nicas de Cec\u00edlia Meireles<br \/>\nAutor: Lu\u00eds Ant\u00f4nio Contatori Romano<br \/>\nEditora: Intermeios<br \/>\nP\u00e1ginas: 372<br \/>\nPre\u00e7o: R$ 48,00<\/p>\n<p>Mais informa\u00e7\u00f5es: <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Jos\u00e9 Tadeu Arantes Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Em sua \u00faltima entrevista, concedida em maio de 1964 ao jornalista e escritor Pedro Bloch, alguns meses antes de morrer, Cec\u00edlia Meireles (1901\u20131964), a grande poeta de Vaga M\u00fasica (1942), Mar Absoluto (1945), Romanceiro da Inconfid\u00eancia (1953) e tantas outras obras definidoras da literatura brasileira, explicou, em um [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":39993,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_genesis_hide_title":false,"_genesis_hide_breadcrumbs":false,"_genesis_hide_singular_image":false,"_genesis_hide_footer_widgets":false,"_genesis_custom_body_class":"","_genesis_custom_post_class":"","_genesis_layout":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[22],"tags":[],"class_list":{"0":"post-66147","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-brasil","8":"entry","9":"gs-1","10":"gs-odd","11":"gs-even","12":"gs-featured-content-entry"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/imagens\/viagem-turismo-ferias-mapa.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_likes_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66147","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=66147"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66147\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/media\/39993"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=66147"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=66147"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=66147"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}