{"id":60939,"date":"2014-10-10T11:52:09","date_gmt":"2014-10-10T14:52:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=60939"},"modified":"2014-10-10T11:52:09","modified_gmt":"2014-10-10T14:52:09","slug":"treinamento-para-diagnostico-precoce-de-transtornos-mentais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2014\/treinamento-para-diagnostico-precoce-de-transtornos-mentais\/60939","title":{"rendered":"Treinamento para diagn\u00f3stico precoce de transtornos mentais"},"content":{"rendered":"<p>Por Jussara Mangini Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Um grupo de pesquisadores do (INPD) desenvolveu, testou e comprovou a efic\u00e1cia e a viabilidade de um treinamento para capacitar m\u00e9dicos e enfermeiros de Unidades B\u00e1sicas de Sa\u00fade (UBS) a identificar <em><strong>transtornos mentais<\/strong><\/em> em crian\u00e7as e adolescentes.<\/p>\n<p>O objetivo \u00e9 oferecer ao sistema de sa\u00fade brasileiro um modelo de treinamento fact\u00edvel para melhorar o progn\u00f3stico dos problemas de sa\u00fade mental.<\/p>\n<p>\u201cTranstornos mentais s\u00e3o muito prevalentes na popula\u00e7\u00e3o geral, come\u00e7am na inf\u00e2ncia, s\u00e3o fruto de altera\u00e7\u00f5es do desenvolvimento cerebral, podem se tornar cr\u00f4nicos e levar \u00e0 incapacita\u00e7\u00e3o na vida adulta. Uma das formas de mudar este cen\u00e1rio \u00e9 capacitar profissionais do programa Sa\u00fade da Fam\u00edlia para identificar precocemente aqueles que precisam de ajuda, prestar servi\u00e7o e tratar os casos mais simples e encaminhar adequadamente os casos mais complexos\u201d, disse Eur\u00edpedes Constantino Miguel Filho, professor titular e chefe do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) e coordenador do estudo \u201c\u201d.<\/p>\n<p>Desenvolvido no \u00e2mbito do  (PPSUS), o trabalho se baseia na recomenda\u00e7\u00e3o global da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) de interven\u00e7\u00e3o precoce para evitar o agravamento dos transtornos mentais na vida adulta.<\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia sugerida pela OMS \u00e9 a capacita\u00e7\u00e3o de profissionais de unidades de aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria \u00e0 sa\u00fade \u2013 voltados a a\u00e7\u00f5es preventivas, curativas e de aten\u00e7\u00e3o ao indiv\u00edduo e a comunidades\u00a0\u2013,\u00a0que, no modelo assistencial brasileiro, equivale \u00e0s equipes de Sa\u00fade da Fam\u00edlia das UBS e inclui m\u00e9dicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem e agentes comunit\u00e1rios de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Pesquisas apontam que a maioria dos adultos que tiveram problemas de sa\u00fade mental j\u00e1 apresentava sintomas durante a inf\u00e2ncia ou adolesc\u00eancia. Estat\u00edsticas brasileiras tamb\u00e9m indicam que entre 7% e 12% dos indiv\u00edduos com menos de 19 anos \u2013 o que corresponde a uma faixa de 4 milh\u00f5es a 7,5 milh\u00f5es de crian\u00e7as e adolescentes \u2013 apresentam comportamentos que merecem aten\u00e7\u00e3o, podendo ou n\u00e3o configurar um transtorno com necessidade de algum tipo de tratamento.<\/p>\n<p>Somam-se a esses n\u00fameros dois agravantes. O primeiro \u00e9 a escassez de psiquiatras especializados em inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia. A Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Psiquiatria aponta a exist\u00eancia de 300 desses profissionais no pa\u00eds, o equivalente a um psiquiatra para cada 75 unidades b\u00e1sicas de sa\u00fade. O segundo \u00e9 a previs\u00e3o da OMS de que, em 2020, os transtornos mentais ser\u00e3o a principal causa de incapacita\u00e7\u00e3o relacionada \u00e0 perda de produtividade, causando dificuldades de aprendizado (no caso de crian\u00e7as e jovens) e dificuldade de socializa\u00e7\u00e3o e empregabilidade (no caso de adultos), al\u00e9m do sofrimento e preju\u00edzo social para os pacientes e suas fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Os sistemas de sa\u00fade devem estar preparados para identificar precocemente transtornos mentais. A pesquisadora Rosane Lowenthal, uma das respons\u00e1veis pelo treinamento do INPD, afirmou que \u00e9 poss\u00edvel que uma crian\u00e7a que passa em consulta mais de uma vez com queixa de dor de barriga \u2013 ou dor de cabe\u00e7a recorrente ou dificuldade de dormir \u2013, e n\u00e3o apresenta nenhuma evid\u00eancia cl\u00ednica que justifique os sintomas, pode estar com um quadro de ansiedade ou estresse, por exemplo. Caso passe despercebido, o risco \u00e9 se agravar e trazer complica\u00e7\u00f5es futuras.<\/p>\n<p>Lowenthal disse que h\u00e1 servi\u00e7os p\u00fablicos especializados \u2013 como os Centros de Aten\u00e7\u00e3o Psicossocial (CAPs) \u2013 que podem ser procurados diretamente pelos pais, sem necessidade de encaminhamento m\u00e9dico. Al\u00e9m disso, o projeto busca preparar as equipes das UBS para identificar e tratar casos mais simples.<\/p>\n<p>Existe resist\u00eancia, por\u00e9m, em consultar um psiquiatra infantil e isso tem raz\u00f5es culturais. \u201cAntigamente nem se falava em transtornos mentais na inf\u00e2ncia. Hoje ainda \u00e9 comum pessoas n\u00e3o acreditarem que uma crian\u00e7a possa ser depressiva. Aceita-se que ela seja tristinha, quietinha, que n\u00e3o d\u00ea trabalho, mas dificilmente suspeita-se que, por tr\u00e1s desse comportamento, de car\u00e1ter internalizante, possa haver ind\u00edcios de algum transtorno\u201d, disse Lowenthal.<\/p>\n<p>Uma vez capacitadas, as equipes das UBS podem ajudar a ampliar os diagn\u00f3sticos e a oferta de tratamento adequado tamb\u00e9m \u00e0queles que resistem em buscar atendimento especializado por temer o estigma que circunda essas doen\u00e7as.<\/p>\n<p>Para o psic\u00f3logo Daniel Fatori, doutorando que colaborou com a pesquisa, os transtornos mentais na inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia podem ser diagnosticados precocemente na UBS e tratados adequadamente no pr\u00f3prio local ou, em casos mais graves, encaminhados para servi\u00e7os especializados.<\/p>\n<p>Ferramentas de treinamento<\/p>\n<p>Em S\u00e3o Paulo, 25 profissionais participaram do treinamento-piloto \u2013 12 m\u00e9dicos e 13 enfermeiros de 13 equipes de sa\u00fade da fam\u00edlia de cinco UBS da regi\u00e3o oeste da capital paulista: Vila Dalva, Jardim D\u2019Abril, Jaguar\u00e9, S\u00e3o Jorge e Jardim Boa Vista.<\/p>\n<p>O treinamento foi conduzido em um m\u00f3dulo de teleduca\u00e7\u00e3o, criado com o apoio da \u00e1rea de Telemedicina da Faculdade de Medicina da USP, seguido de um m\u00f3dulo presencial. Para o ambiente interativo de aprendizagem foram produzidos cinco v\u00eddeos com at\u00e9 10 minutos, contendo entrevistas com especialistas e ilustra\u00e7\u00f5es, apresentando informa\u00e7\u00f5es sobre sintomas dos transtornos mentais mais prevalentes na inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia \u2013 depress\u00e3o, ansiedade, d\u00e9ficit de aten\u00e7\u00e3o e hiperatividade, transtorno de conduta e transtornos globais do desenvolvimento (TGD).<\/p>\n<p>Outros dois v\u00eddeos traziam entrevistas sobre a estrutura do sistema de sa\u00fade mental na inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia no Brasil.<\/p>\n<p>Os participantes tamb\u00e9m aprenderam a usar o Question\u00e1rio de Capacidades e Dificuldades para rastreamento de sa\u00fade mental na inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia, que auxilia m\u00e9dicos e n\u00e3o m\u00e9dicos a decidir se uma crian\u00e7a ou jovem deve ser encaminhado para um servi\u00e7o especializado ou se deve ser acompanhado no pr\u00f3prio servi\u00e7o de aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria. Durante a capacita\u00e7\u00e3o, os participantes contaram com o suporte de um tutorial, com recursos visuais e auditivos, explicando o objetivo do question\u00e1rio e o passo a passo de seu preenchimento.<\/p>\n<p>As aulas do m\u00f3dulo presencial se baseiam na adapta\u00e7\u00e3o para a realidade brasileira do treinamento \u201cMental health communication skills for child and adolescente primary care\u201d, desenvolvido por Lawrence Wissow, professor da Johns Hopkins School of Public Health, nos Estados Unidos, j\u00e1 utilizado em pa\u00edses da \u00c1frica e do Oriente M\u00e9dio.<\/p>\n<p>A adapta\u00e7\u00e3o desse treinamento \u00e9 resultado da tese de doutorado de Lowenthal, em um projeto da Universidade Mackenzie em parceria com a Johns Hopkins, orientado por Cristiane Silvestre de Paula.<\/p>\n<p>Nessa etapa, foram realizadas duas sess\u00f5es de treinamento, uma para cada grupo de profissionais, em dias diferentes. A cada turma foi ministrada uma aula expositiva com 8 horas de dura\u00e7\u00e3o, na pr\u00f3pria UBS, com recursos audiovisuais com exemplos de situa\u00e7\u00f5es que acontecem diariamente nos consult\u00f3rios das unidades.<\/p>\n<p>Avalia\u00e7\u00e3o do aprendizado<\/p>\n<p>Um dos objetivos da pesquisa era saber se o treinamento funcionaria igualmente para m\u00e9dicos e para enfermeiros. Para tanto, foram aplicados question\u00e1rios antes e depois das etapas de treinamento como o objetivo de avaliar o grau de conhecimento de cada participante sobre transtornos mentais e sobre a organiza\u00e7\u00e3o do sistema de sa\u00fade mental no Brasil.<\/p>\n<p>Para conferir os principais aspectos aprendidos, na plataforma interativa foi solicitado tamb\u00e9m um texto de 500 palavras a cada um. Outro instrumento procurou avaliar poss\u00edveis mudan\u00e7as de conhecimento, atitudes e pr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>\u201cDe forma geral, houve aquisi\u00e7\u00e3o de conhecimento com aumento estatisticamente significante (21,65 pontos) ap\u00f3s o treinamento tanto entre m\u00e9dicos quanto entre enfermeiros. Observou-se que, mesmo tendo n\u00edveis diferentes de conhecimento, o aumento do aprendizado sobre transtornos mentais foi proporcionalmente similar para m\u00e9dicos e enfermeiros\u201d, disse Lowenthal.<\/p>\n<p>O fato de duplas de m\u00e9dicos e enfermeiros de uma mesma equipe estarem capacitadas com os mesmos conceitos te\u00f3ricos aumenta a cumplicidade entre eles e a chance de trocas e discuss\u00f5es de casos no dia a dia do atendimento cl\u00ednico, observaram os autores.<\/p>\n<p>Impacto do treinamento na qualidade do atendimento<\/p>\n<p>A satisfa\u00e7\u00e3o do p\u00fablico com o atendimento recebido, ap\u00f3s a capacita\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m foi avaliada. Constatou-se que as m\u00e3es das crian\u00e7as com idade entre 5 e 9 anos, atendidas por m\u00e9dicos e enfermeiros treinados, perceberam mudan\u00e7as de tratamento no que se refere \u00e0 cordialidade e melhoria do exame cl\u00ednico. Esta avalia\u00e7\u00e3o foi resultado de uma pesquisa realizada com o apoio de 60 agentes comunit\u00e1rios de sa\u00fade em 960 domic\u00edlios.<\/p>\n<p>Segundo Fatori, as m\u00e3es relataram que se sentiram mais acolhidas e tiveram a sensa\u00e7\u00e3o de que at\u00e9 o tempo de espera foi menor.<\/p>\n<p>Na an\u00e1lise da pesquisadora e psiquiatra da inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia Ana Soledade Graef-Martins, que participou de diversas etapas do estudo, quando se cria um estado positivo de emo\u00e7\u00e3o as pessoas tendem a ver tudo melhor. \u201cObservamos que esse treinamento pode beneficiar tamb\u00e9m o atendimento a outras fam\u00edlias\u201d, disse Graef-Martins.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia-piloto serviu de base para a amplia\u00e7\u00e3o da capacita\u00e7\u00e3o a mais 128 profissionais de quatro cidades \u2013 Goi\u00e2nia (GO), Fortaleza (CE), Recife (PE) e Caet\u00e9 (MG).<\/p>\n<p>A replica\u00e7\u00e3o pelo pa\u00eds resultou do p\u00f3s-doutorado de Lowenthal, pela Unifesp. As avalia\u00e7\u00f5es de impacto do treinamento nessas regi\u00f5es foram semelhantes \u00e0s de S\u00e3o Paulo. \u201cEsse modelo de capacita\u00e7\u00e3o se mostrou fact\u00edvel, com custos pequenos e cuja amplia\u00e7\u00e3o para outros profissionais n\u00e3o implicaria custos adicionais de elabora\u00e7\u00e3o de material did\u00e1tico\u201d, disse Miguel Filho.<\/p>\n<p>Profissionais de sa\u00fade podem ler mais informa\u00e7\u00f5es no site .<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Jussara Mangini Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Um grupo de pesquisadores do (INPD) desenvolveu, testou e comprovou a efic\u00e1cia e a viabilidade de um treinamento para capacitar m\u00e9dicos e enfermeiros de Unidades B\u00e1sicas de Sa\u00fade (UBS) a identificar transtornos mentais em crian\u00e7as e adolescentes. 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