{"id":58833,"date":"2014-08-25T16:02:54","date_gmt":"2014-08-25T19:02:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=58833"},"modified":"2014-08-25T16:02:54","modified_gmt":"2014-08-25T19:02:54","slug":"conhecimento-indigena-e-preservado-em-livro-de-papel-sintetico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2014\/conhecimento-indigena-e-preservado-em-livro-de-papel-sintetico\/58833","title":{"rendered":"Conhecimento ind\u00edgena \u00e9 preservado em livro de papel sint\u00e9tico"},"content":{"rendered":"<p>Por Karina Toledo Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Um papel sint\u00e9tico feito de pl\u00e1stico reciclado \u2013 resultado de uma pesquisa desenvolvida com\u00a0<a style=\"color: #6c8dbe;\" href=\"http:\/\/www.bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/18903\/estudos-em-filmes-multicamadas-de-compositos-de-termoplasticos-virgens-e-reciclados-para-aplicacoes-\/\" target=\"_blank\">apoio da FAPESP<\/a>\u00a0\u2013 est\u00e1 ajudando a preservar o conhecimento sobre <em><strong>plantas medicinais<\/strong> <\/em>transmitido oralmente h\u00e1 s\u00e9culos pelos paj\u00e9s do povo Huni Ku? do rio Jord\u00e3o, no Acre.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">Descri\u00e7\u00f5es de 109 esp\u00e9cies usadas na terap\u00eautica ind\u00edgena, bem como informa\u00e7\u00f5es sobre a regi\u00e3o de ocorr\u00eancia e as formas de tratamento, foram reunidas no livro\u00a0Una Is? Kayawa, Livro da Cura, produzido pelo Instituto de Pesquisa do Jardim Bot\u00e2nico do Rio de Janeiro (IJBRJ) e pela Editora Dantes.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">A obra teve uma tiragem de 3 mil exemplares em papel comum, cuch\u00ea, voltada ao grande p\u00fablico e lan\u00e7ada recentemente no Rio de Janeiro e em S\u00e3o Paulo. Outros mil exemplares, destinados exclusivamente aos \u00edndios, foram feitos com papel sint\u00e9tico, que \u00e9 imperme\u00e1vel e tem a textura de papel cuch\u00ea, com o intuito de aumentar a durabilidade no ambiente \u00famido da floresta. O lan\u00e7amento foi realizado com uma grande festa em uma das aldeias dos Huni Ku? do rio Jord\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">O trabalho de pesquisa e organiza\u00e7\u00e3o das informa\u00e7\u00f5es durou dois anos e meio e foi coordenado pelo bot\u00e2nico Alexandre Quinet, do Jardim Bot\u00e2nico do Rio de Janeiro. O grande idealizador do projeto, por\u00e9m, foi o paj\u00e9 Agostinho Manduca Mateus ?ka Muru, que morreu pouco tempo antes de a obra ser conclu\u00edda.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">\u201cO paj\u00e9 ?ka Muru era um cientista da floresta, observador das plantas. H\u00e1 mais de 20 anos ele vinha reunindo esse conhecimento at\u00e9 ent\u00e3o oral em seus caderninhos. Buscando informa\u00e7\u00f5es com os mais antigos e transmitindo para os aprendizes de paj\u00e9. Ele tinha o sonho de registrar tudo em um livro impresso, como os brancos fazem, e deixar dispon\u00edvel para as gera\u00e7\u00f5es futuras\u201d, contou Quinet.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">Tamb\u00e9m conhecidos pelos nomes de \u201cKaxinaw\u00e1\u201d\u00a0\u2013 termo que os \u00edndios n\u00e3o gostam\u00a0\u2013 , \u201cgente verdadeira\u201d ou \u201cgente do cip\u00f3\u201d, os Huni Ku? formam o grupo ind\u00edgena mais numeroso do Acre. Sua presen\u00e7a vai at\u00e9 parte do Peru. No Brasil, somam mais de 7 mil indiv\u00edduos, divididos em 12 diferentes terras. O \u201clivro da cura\u201d retrata a terap\u00eautica praticada nas 33 aldeias de uma dessas terras ind\u00edgenas que se estende pelo rio Jord\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">Al\u00e9m das informa\u00e7\u00f5es sobre as plantas, a obra apresenta, por meio de relatos e desenhos, um pouco da cultura do povo Huni Ku?, como seus h\u00e1bitos alimentares, suas m\u00fasicas e suas concep\u00e7\u00f5es sobre doen\u00e7a e espiritualidade. Todo o conte\u00fado est\u00e1 escrito em \u201chatxa ku?\u201d \u2013 l\u00edngua falada nas aldeias do rio Jord\u00e3o \u2013 e traduzido para o portugu\u00eas.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">De acordo com Quinet, foram feitas cinco viagens \u00e0 regi\u00e3o acreana para a realiza\u00e7\u00e3o da pesquisa, al\u00e9m de quatro per\u00edodos de resid\u00eancia de tradutores Huni Ku? no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">\u201cRealizamos uma oficina que durou 15 dias e reuniu os 22 paj\u00e9s das aldeias do rio Jord\u00e3o. Os cap\u00edtulos do livro s\u00e3o, na verdade, transcri\u00e7\u00f5es literais dos temas abordados por eles, organizados dentro da sistem\u00e1tica ind\u00edgena. Apenas sofreram revis\u00f5es para facilitar a compreens\u00e3o\u201d, contou Quinet.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">Das 351 esp\u00e9cies elencadas pelos paj\u00e9s como medicinais, os pesquisadores coletaram 196 amostras \u2013 resultando na sele\u00e7\u00e3o das 109 plantas que integram o livro. O material bot\u00e2nico foi identificado de acordo com as t\u00e9cnicas taxon\u00f4micas e depositado no herb\u00e1rio do Instituto de Pesquisa do Jardim Bot\u00e2nico do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">A partir do nome cient\u00edfico das esp\u00e9cies, os pesquisadores tamb\u00e9m levantaram na literatura cient\u00edfica, quando poss\u00edvel, o uso feito por outros povos do mundo. O trabalho contou com a colabora\u00e7\u00e3o de 21 taxonomistas de institui\u00e7\u00f5es brasileiras e internacionais.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">\u201cO objetivo inicial do paj\u00e9 ?ka Muru era criar um material de ensino para aprendizes de paj\u00e9, visando a facilitar a localiza\u00e7\u00e3o das plantas nos jardins medicinais. Mas o livro tamb\u00e9m tem o objetivo de difundir a cultura da tribo e a import\u00e2ncia de preservar a floresta de forma ampla. Buscaram o Jardim Bot\u00e2nico para que esse conhecimento pudesse ser universalizado dentro de bases cient\u00edficas\u201d, disse Quinet.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">Vitopaper<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">Para representar o conte\u00fado escrito em \u201chatxa ku?\u201d, a editora Anna Dantes criou uma fonte tipogr\u00e1fica especial inspirada nas letras manuscritas nos cadernos ind\u00edgenas. Tamb\u00e9m foi dela a ideia de produzir uma edi\u00e7\u00e3o especial em papel sint\u00e9tico.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">\u201cLogo na primeira reuni\u00e3o feita com os paj\u00e9s na floresta eu pude observar que os livros enviados para os povos ind\u00edgenas sofrem muitos danos por causa da umidade e tornam-se muito perec\u00edveis. As p\u00e1ginas v\u00e3o entortando e grudando umas nas outras. Tamb\u00e9m s\u00e3o danificadas pela presen\u00e7a de pequenos animais, como cupins. Era um projeto muito ambicioso, que demandaria um grande esfor\u00e7o, e n\u00e3o poder\u00edamos criar um produto que desapareceria em pouco tempo\u201d, disse Dantes.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">Dantes contou que foi a primeira vez que trabalhou com o Vitopaper, material produzido pela empresa Vitopel e originalmente desenvolvido por Sati Manrich, pesquisadora da Universidade Federal de S\u00e3o Carlos (UFSCar)<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">\u201cQuando iniciamos o projeto, em 2003, nossa ideia era encontrar uma solu\u00e7\u00e3o comum a dois grandes problemas: derrubada de \u00e1rvores para a produ\u00e7\u00e3o de celulose e a dificuldade de dar um destino adequado ao grande volume de lixo pl\u00e1stico produzido nos centros urbanos\u201d, contou Manrich.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">No processo desenvolvido por ela na universidade, o pl\u00e1stico oriundo de embalagens de alimentos, produtos de limpeza ou garrafas de \u00e1gua \u00e9 higienizado e mo\u00eddo. Recebe, ent\u00e3o, a adi\u00e7\u00e3o de part\u00edculas minerais para a obten\u00e7\u00e3o de propriedades \u00f3pticas \u2013 como brilho, brancura, contraste, dispers\u00e3o e absor\u00e7\u00e3o de luz \u2013 e resist\u00eancia mec\u00e2nica ao rasgamento, tra\u00e7\u00e3o e dobras.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">A mistura \u00e9 colocada em uma m\u00e1quina extrusora a altas temperaturas, onde amolece e se funde. No final, o material transforma-se em uma folha grande fina, semelhante a um papel fabricado com celulose, que \u00e9 enrolada e cortada de acordo com a aplica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">Segundo a Vitopel, para cada tonelada de Vitopaper produzido s\u00e3o retiradas das ruas e lix\u00f5es 750 quilos de res\u00edduos pl\u00e1sticos. Al\u00e9m disso, segundo Manrich, cerca de 30 \u00e1rvores deixam de ser derrubadas.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">\u201cGostaria que esse exemplo fosse adotado n\u00e3o apenas para imortalizar o conhecimento dos \u00edndios como tamb\u00e9m na produ\u00e7\u00e3o de livros did\u00e1ticos, pois eles teriam uma durabilidade muito maior\u201d, afirmou Manrich.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">Una Is? Kayawa, Livro da Cura<br \/>\nOrganizadores: Agostinho Manduca Mateus ?ka Muru e Alexandre Quinet<br \/>\nLan\u00e7amento: 2014<br \/>\nPre\u00e7o: R$ 120,00<br \/>\nP\u00e1ginas: 260<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">Mais informa\u00e7\u00f5es:\u00a0<a style=\"color: #6c8dbe;\" href=\"https:\/\/www.facebook.com\/UnaIsiKayawa?fref=ts\">www.facebook.com\/UnaIsiKayawa?fref=ts<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Karina Toledo Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Um papel sint\u00e9tico feito de pl\u00e1stico reciclado \u2013 resultado de uma pesquisa desenvolvida com\u00a0apoio da FAPESP\u00a0\u2013 est\u00e1 ajudando a preservar o conhecimento sobre plantas medicinais transmitido oralmente h\u00e1 s\u00e9culos pelos paj\u00e9s do povo Huni Ku? do rio Jord\u00e3o, no Acre. 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