{"id":57575,"date":"2014-07-25T13:42:16","date_gmt":"2014-07-25T16:42:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=57575"},"modified":"2014-07-25T13:42:16","modified_gmt":"2014-07-25T16:42:16","slug":"reservas-extrativistas-enfrentam-o-desafio-da-sucessao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2014\/reservas-extrativistas-enfrentam-o-desafio-da-sucessao\/57575","title":{"rendered":"Reservas extrativistas enfrentam o desafio da sucess\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Por Elton Alisson, de Rio Branco (AC) Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 As <em><strong>reservas extrativistas<\/strong> <\/em>representam um fator importante em termos de prote\u00e7\u00e3o da Floresta Amaz\u00f4nica, abrangendo atualmente 24 milh\u00f5es de hectares \u2013 \u00e1rea equivalente a 5% do territ\u00f3rio do bioma. Alguns dos principais desafios para a continuidade do projeto, contudo, ser\u00e3o dar condi\u00e7\u00f5es sociais e econ\u00f4micas para que a atual gera\u00e7\u00e3o de jovens que vive nessas unidades de conserva\u00e7\u00e3o permane\u00e7a na floresta e assuma o papel de lideran\u00e7a desempenhado por seus pais e av\u00f3s nas \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">A avalia\u00e7\u00e3o foi feita por Mary Allegretti, professora da Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR), em palestra sobre os 25 anos de cria\u00e7\u00e3o das reservas extrativistas, durante a 66\u00aa Reuni\u00e3o Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia (SBPC), com o tema \u201cCi\u00eancia e Tecnologia em uma Amaz\u00f4nia sem fronteiras\u201d, no campus da Universidade Federal do Acre (UFAC), em Rio Branco.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">\u201cA cria\u00e7\u00e3o das reservas extrativistas na Amaz\u00f4nia, em 1989, representou uma revolu\u00e7\u00e3o porque, se elas n\u00e3o tivessem sido institu\u00eddas, os seringueiros \u2013 hoje chamados de extrativistas \u2013 teriam sa\u00eddo da floresta e ido para as periferias das cidades, e os recursos naturais da floresta teriam se transformado em mat\u00e9rias-primas e n\u00e3o em meio de vida\u201d, avaliou Allegretti.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">\u201cTer, hoje, 5% da Floresta Amaz\u00f4nica protegida por comunidades tradicionais, vivendo em 89 unidades de conserva\u00e7\u00e3o, \u00e9 um marco hist\u00f3rico, resultado do esfor\u00e7o coletivo feito nas \u00faltimas d\u00e9cadas por trabalhadores rurais analfabetos, sem poderes pol\u00edticos e econ\u00f4micos e sem armas, que decidiram enfrentar uma luta \u00e1rdua contra a derrubada da floresta\u201d, afirmou.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">Esses trabalhadores rurais, egressos principalmente do Nordeste, chegaram \u00e0 Amaz\u00f4nia para trabalhar na extra\u00e7\u00e3o de l\u00e1tex dos seringais da floresta, para produ\u00e7\u00e3o de borracha, em dois grandes fluxos migrat\u00f3rios.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">O primeiro foi durante o primeiro ciclo da borracha da Amaz\u00f4nia, entre 1880 e 1920, no chamado \u201ctempo dos seringais\u201d. Nesse per\u00edodo, em que houve um exterm\u00ednio em massa de popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas na floresta amaz\u00f4nica, os seringais se estabeleceram no bioma por meio de barrac\u00f5es e eram submetidos a um regime de servid\u00e3o por d\u00edvidas. \u201cEsse ciclo terminou com a entrada da Mal\u00e1sia e, consequentemente, a sa\u00edda da Amaz\u00f4nia do mercado internacional de borracha\u201d, disse Alegretti.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">J\u00e1 o segundo fluxo migrat\u00f3rio de seringueiros na Amaz\u00f4nia, ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), quando, em raz\u00e3o do bloqueio do acesso \u00e0 produ\u00e7\u00e3o da borracha na \u00c1sia, houve uma nova procura pelo produto amazonense e os seringueiros passaram a ser chamados de \u201csoldados da borracha\u201d. Esse ciclo foi interrompido logo ap\u00f3s o fim da guerra, em 1946, com o surgimento da crise da borracha no mercado internacional.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">Segundo Allegretti, naquele per\u00edodo come\u00e7ou a ser desencadeado um processo de desagrega\u00e7\u00e3o dos barrac\u00f5es que permitiu aos seringueiros viver com certa autonomia, como uma esp\u00e9cie de campesinato na floresta.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">\u201cOs seringueiros continuaram vivendo na floresta em condi\u00e7\u00f5es de subsist\u00eancia, sem ter um produto principal, como a borracha, mas sem precisar depender do patr\u00e3o. Foi ent\u00e3o que o processo de constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade na floresta amaz\u00f4nica come\u00e7ou a ocorrer\u201d, disse.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">O processo, no entanto, foi interrompido com o estabelecimento do Regime Militar no pa\u00eds, em 1964. Um dos pressupostos dos militares era o de que a Amaz\u00f4nia representava uma esp\u00e9cie de vazio demogr\u00e1fico que precisava ser preenchido por uma s\u00e9rie de investimentos em infraestrutura que estimulariam a coloniza\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">Uma das consequ\u00eancias do processo expansionista na floresta foi o surgimento de uma onda de choques com os seringueiros que ali j\u00e1 habitavam e come\u00e7aram a ser expulsos por fazendeiros que chegavam \u00e0 regi\u00e3o, contou Allegretti.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">\u201cNa \u00e9poca, surgiram sindicatos de trabalhadores rurais nos munic\u00edpios de Brasileia e Xapuri, no Acre, que come\u00e7aram a defender o conceito de que os seringueiros que j\u00e1 estavam vivendo na florestas eram posseiros e, como tal, tinham direitos ao territ\u00f3rio onde viviam\u201d, disse.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">Chico Mendes<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">De acordo com Allegretti, o primeiro grande confronto entre os fazendeiros e os seringueiros se deu em 1976, quando Wilson de Souza Pinheiro (1933-1980), l\u00edder original do movimento sindicalista, defendeu a ideia de que os seringueiros deveriam permanecer na floresta e defender os lugares onde viviam por meio dos chamados \u201cempates\u201d contra o desmatamento.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">Um dos apoiadores de Pinheiro, segundo a pesquisadora, foi Chico Mendes (1944-1988), nascido em Xapuri, no Acre, filho de nordestinos e seringueiros. Diferentemente da maioria dos seringueiros, Mendes era alfabetizado e assumiu a lideran\u00e7a do movimento ap\u00f3s o assassinato de Pinheiro, em 1980.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">\u201cUma das principais estrat\u00e9gias implementadas por Chico Mendes para fortalecer o movimento, que enfraqueceu com o assassinato de Pinheiro, foi aumentar e criar, juntamente com os empates, escolas p\u00fablicas, cooperativas e postos de sa\u00fade na floresta\u201d, contou Allegretti, que conviveu com o ambientalista durante suas pesquisas.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">Em raz\u00e3o de suas ideias e de sua manifesta\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria ao asfaltamento da BR-264, Mendes ganhou proje\u00e7\u00e3o nacional e internacional. Seu assassinato, em 22 de dezembro de 1998, gerou grande repercuss\u00e3o internacional, que culminou com a assinatura, em 1990, de um decreto que criou as quatro primeiras reservas extrativistas no pa\u00eds, segundo a pesquisadora.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">\u201cFoi preciso ter ocorrido o assassinato de Chico Mendes e de v\u00e1rias outras lideran\u00e7as para que as reservas extrativistas na Amaz\u00f4nia existissem por for\u00e7a de uma lei\u201d, disse.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">De acordo com Allegretti, uma das conquistas obtidas por meio de reservas florestais ao longo dos \u00faltimos 25 anos foi a diminui\u00e7\u00e3o dos conflitos agr\u00e1rios entre os extrativistas e os fazendeiros na Floresta Amaz\u00f4nica.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">Isso porque o Estado passou a exercer o papel de mediador nesses conflitos, uma vez que \u00e9 respons\u00e1vel por garantir o bem-estar e a seguran\u00e7a das comunidades que vivem nessas reservas. \u201cH\u00e1, no entanto, uma dificuldade do Estado em enxergar e assimilar os extrativistas como protagonistas na gest\u00e3o das reservas extrativistas\u201d, disse Allegretti.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Elton Alisson, de Rio Branco (AC) Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 As reservas extrativistas representam um fator importante em termos de prote\u00e7\u00e3o da Floresta Amaz\u00f4nica, abrangendo atualmente 24 milh\u00f5es de hectares \u2013 \u00e1rea equivalente a 5% do territ\u00f3rio do bioma. 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