{"id":55967,"date":"2014-06-11T14:29:50","date_gmt":"2014-06-11T17:29:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=55967"},"modified":"2014-06-11T14:29:50","modified_gmt":"2014-06-11T17:29:50","slug":"jejum-intermitente-desregula-mecanismo-cerebral-de-controle-da-fome","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2014\/jejum-intermitente-desregula-mecanismo-cerebral-de-controle-da-fome\/55967","title":{"rendered":"Jejum intermitente desregula mecanismo cerebral de controle da fome"},"content":{"rendered":"<p>Por Karina Toledo Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 <em><strong>Dietas<\/strong> <\/em>que alternam ciclos de jejum prolongado e de alimenta\u00e7\u00e3o livre s\u00e3o capazes de prevenir o ganho excessivo de peso, mas tamb\u00e9m podem causar altera\u00e7\u00f5es metab\u00f3licas indesej\u00e1veis \u2013 como a desregula\u00e7\u00e3o dos mecanismos cerebrais de controle do apetite.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">As conclus\u00f5es s\u00e3o de um estudo feito com ratos no Instituto de Qu\u00edmica da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), divulgadas em um\u00a0<a style=\"color: #6c8dbe;\" href=\"http:\/\/press.endocrine.org\/doi\/abs\/10.1210\/en.2013-2057?url_ver=Z39.88-2003&amp;rfr_id=ori:rid:crossref.org&amp;rfr_dat=cr_pub%3dpubmed&amp;\" target=\"_blank\">artigo publicado<\/a>\u00a0recentemente na revista\u00a0Endocrinology.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">A pesquisa foi realizada durante o doutorado de Bruno Chausse, no \u00e2mbito do Projeto Tem\u00e1tico \u201c<a style=\"color: #6c8dbe;\" href=\"http:\/\/www.bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/29828\/bioenergetica-transporte-ionico-balanco-redox-e-metabolismo-de-dna-em-mitocondrias\/\" target=\"_blank\">Bioenerg\u00e9tica, transporte i\u00f4nico, balan\u00e7o redox e metabolismo de DNA em mitoc\u00f4ndrias<\/a>\u201d, coordenado pela professora Alicia Kowaltowski. Tamb\u00e9m est\u00e1 vinculada aos trabalhos do Centro de Pesquisa em Processos Redox em Biomedicina (Redoxoma), um dos Centros de Pesquisa, Inova\u00e7\u00e3o e Difus\u00e3o (CEPIDs) apoiados pela FAPESP.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">\u201cEstudos anteriores mostravam que os animais submetidos \u00e0 dieta intermitente comiam, ao final, quase a mesma quantidade de comida que os ratos do grupo controle, pois compensavam a priva\u00e7\u00e3o nos momentos em que o alimento estava dispon\u00edvel. Ainda assim, ganhavam menos peso. Quer\u00edamos entender, do ponto de vista metab\u00f3lico, como isso ocorria\u201d, explicou Kowaltowski.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">Durante o experimento, que durou tr\u00eas semanas, os ratos com 8 semanas de vida \u2013 considerados adultos jovens \u2013 foram divididos em dois grandes grupos. Os animais submetidos \u00e0 dieta intermitente alternavam per\u00edodos de 24 horas em jejum com per\u00edodos de 24 horas de alimenta\u00e7\u00e3o livre. O grupo controle recebia ra\u00e7\u00e3o \u00e0 vontade todo o tempo e, ap\u00f3s as tr\u00eas semanas, apresentou peso cerca de 11% maior.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">\u201cMesmo com 50% menos tempo de acesso \u00e0 comida, os animais da dieta intermitente ingeriam o equivalente a 80% da quantidade consumida pelos animais controle, o que indica a ocorr\u00eancia de hiperfagia nos momentos em que o alimento estava dispon\u00edvel\u201d, contou Chausse.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">Al\u00e9m de monitorar a quantidade de comida ingerida, os pesquisadores tamb\u00e9m observaram o consumo de \u00e1gua e a produ\u00e7\u00e3o de urina e de fezes. \u201cUma das possibilidades que precis\u00e1vamos descartar era que o excesso alimentar n\u00e3o seria absorvido e acabaria eliminado pelas fezes. Mas n\u00e3o houve diferen\u00e7a no volume de dejetos, o que refor\u00e7ou a teoria de que se tratava, de fato, de uma altera\u00e7\u00e3o metab\u00f3lica\u201d, disse Chausse.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">A pr\u00f3xima hip\u00f3tese investigada pelo grupo era de que o menor ganho de peso estaria relacionado a uma esp\u00e9cie de curto-circuito nas mitoc\u00f4ndrias, que se tornariam menos eficientes para converter a energia dos alimentos em massa corporal.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">Mas, ao comparar o funcionamento das mitoc\u00f4ndrias de tecidos importantes, como o musculoesquel\u00e9tico, o grupo n\u00e3o observou diferen\u00e7a significativa na produ\u00e7\u00e3o da mol\u00e9cula adenosina trifosfato (ATP), que armazena a energia, entre o grupo da dieta intermitente e o controle.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">O passo seguinte foi comparar a atividade metab\u00f3lica geral. Os ratos foram colocados em c\u00e2maras onde era poss\u00edvel medir o consumo de oxig\u00eanio e a produ\u00e7\u00e3o de g\u00e1s carb\u00f4nico \u2013 exame conhecido como calorimetria indireta.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">\u201cVimos que, quando os animais da dieta intermitente estavam alimentados, ocorria um aumento das taxas metab\u00f3licas e eles passavam a gastar mais energia. J\u00e1 nos dias de jejum, o organismo consumia muitos lip\u00eddeos, ou seja, eles queimavam mais gordura. Acreditamos que a associa\u00e7\u00e3o desses dois fatores explica o menor ganho de peso\u201d, disse Chausse.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">Altera\u00e7\u00f5es no hipot\u00e1lamo<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">Em parceria com o professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Licio Velloso, que coordena o Centro Multidisciplinar de Pesquisa em Obesidade e Doen\u00e7as Associadas (CMPO), o grupo da USP investigou poss\u00edveis altera\u00e7\u00f5es no hipot\u00e1lamo que poderiam ser desencadeadas pela dieta intermitente.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">Foi observado que no per\u00edodo do jejum ocorria uma diminui\u00e7\u00e3o em torno de 30% de um neurotransmissor chamado TRH, associado \u00e0 libera\u00e7\u00e3o dos horm\u00f4nios da tireoide \u2013 uma poss\u00edvel explica\u00e7\u00e3o para a varia\u00e7\u00e3o na taxa metab\u00f3lica, mas que ainda precisa ser mais bem investigada.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">\u201cMas, sobretudo, o que chamou nossa aten\u00e7\u00e3o foi o aumento significativo dos neurotransmissores AGRP e NPY, respons\u00e1veis por estimular o apetite\u201d, contou Chausse.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">Normalmente, acrescentou o pesquisador, os n\u00edveis desses neurotransmissores caem ap\u00f3s as refei\u00e7\u00f5es, mas nos animais da dieta intermitente eles continuavam duas vezes mais elevados que no grupo controle, o que sugere que os ratos continuavam com fome mesmo com o est\u00f4mago repleto de alimento.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">\u201cSuspeitamos que eles s\u00f3 n\u00e3o comiam a mesma quantidade (chegaram no m\u00e1ximo a 80%) que o grupo controle por uma quest\u00e3o de falta de espa\u00e7o no trato gastrointestinal\u201d, disse Chausse.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">Tamb\u00e9m foram avaliados os n\u00edveis dos horm\u00f4nios grelina (que estimula a fome e \u00e9 produzida \u00e0 medida que o est\u00f4mago esvazia) e leptina (um inibidor de apetite).<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">\u201cEmbora n\u00e3o tenhamos observado diferen\u00e7a na produ\u00e7\u00e3o de grelina, suspeitamos que o c\u00e9rebro dos animais da dieta intermitente se tornou mais perme\u00e1vel \u00e0 entrada dessa mol\u00e9cula. O c\u00e9rebro tamb\u00e9m estava sens\u00edvel \u00e0 a\u00e7\u00e3o da leptina, mas a produ\u00e7\u00e3o desse sinalizador de saciedade estava reduzida pela metade no grupo da dieta intermitente\u201d, contou Chausse.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">Os pesquisadores pretendem, agora, investigar se as altera\u00e7\u00f5es observadas no controle do apetite podem ser revertidas com o retorno ao padr\u00e3o normal de alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">Em uma pesquisa anterior, realizada durante o doutorado de Fernanda Cerqueira e\u00a0<a style=\"color: #6c8dbe;\" href=\"http:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S0891584911004473\" target=\"_blank\">publicada<\/a>\u00a0na revistaFree Radical Biology and Medicine, o grupo testou o efeito da dieta intermitente no longo prazo.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">Ap\u00f3s 9 meses de experimento, os animais continuavam magros, mas haviam se tornado resistentes \u00e0 a\u00e7\u00e3o da insulina. De acordo com os pesquisadores, o efeito negativo estaria associado a uma maior produ\u00e7\u00e3o de subst\u00e2ncias oxidantes, como os radicais livres de oxig\u00eanio, que danificaram os receptores de insulina nas c\u00e9lulas (leia mais em:\u00a0<a style=\"color: #6c8dbe;\" href=\"http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/2011\/09\/06\/os-perigos-do-jejum\/\" target=\"_blank\">http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/2011\/09\/06\/os-perigos-do-jejum\/<\/a>).<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">O estudo de Cerqueira mostrou ainda que, embora os animais submetidos \u00e0 dieta intermitente fossem mais leves, apresentavam a mesma taxa de gordura que os animais do grupo controle, o que indica que o menor peso se deve \u00e0 perda de massa magra.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">\u201cN\u00e3o podemos transpor, diretamente, os resultados desses estudos para os seres humanos, pois um jejum de 24 horas para um rato equivaleria a alguns dias para a nossa esp\u00e9cie. Mas os resultados indicam que esse tipo de dieta, do ponto de vista metab\u00f3lico, \u00e9 diferente de uma restri\u00e7\u00e3o cal\u00f3rica t\u00edpica [quando se reduz cerca de 20% das calorias diariamente]. Um dos achados importantes, que pode ser transposto para o ser humano, \u00e9 que nem todas as dietas que fazem perder peso s\u00e3o completamente saud\u00e1veis\u201d, avaliou Kowaltowski.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Karina Toledo Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Dietas que alternam ciclos de jejum prolongado e de alimenta\u00e7\u00e3o livre s\u00e3o capazes de prevenir o ganho excessivo de peso, mas tamb\u00e9m podem causar altera\u00e7\u00f5es metab\u00f3licas indesej\u00e1veis \u2013 como a desregula\u00e7\u00e3o dos mecanismos cerebrais de controle do apetite. 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