{"id":48305,"date":"2013-10-07T13:28:01","date_gmt":"2013-10-07T16:28:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=48305"},"modified":"2013-10-07T13:28:01","modified_gmt":"2013-10-07T16:28:01","slug":"resgate-do-prazer-da-boa-leitura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2013\/resgate-do-prazer-da-boa-leitura\/48305","title":{"rendered":"Resgate do prazer da boa leitura"},"content":{"rendered":"<p>Por Jos\u00e9 Tadeu Arantes Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Retratos de um Brasil que n\u00e3o existe mais: esta poderia ser uma das muitas chaves de leitura da cole\u00e7\u00e3o \u201c<em><strong>Reserva Liter\u00e1ria<\/strong><\/em>\u201d, produzida pela Com-Arte, editora laborat\u00f3rio ligada \u00e0 Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes da Universidade de S\u00e3o Paulo (ECA-USP), em parceria com a Editora da Universidade de S\u00e3o Paulo (Edusp).<\/p>\n<p>Reunindo obras menores de escritores maiores, como os deliciososContos Cariocas, de Artur Azevedo (1855-1908), ou obras maiores de escritores menores, como o encorpado romance\u00a0Mau-olhado, de Veiga Miranda (1881-1936), e o mais experimental\u00a0Marta, de Medeiros e Albuquerque (1867-1934), a cole\u00e7\u00e3o publica textos de dom\u00ednio p\u00fablico que est\u00e3o h\u00e1 muitas d\u00e9cadas afastados das estantes das livrarias.<\/p>\n<p>Em uma narrativa que alterna p\u00e1ginas de fina observa\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica com outras que s\u00e3o de descri\u00e7\u00f5es quase cient\u00edficas dos recursos naturais ou dos of\u00edcios humanos,\u00a0Mau-olhado, publicado em 1919 por Jo\u00e3o Pedro da Veiga Miranda, e reeditado apenas uma vez, em 1925, retrata um Brasil novecentista, rural, escravista, bruto, supersticioso e violento, com seus personagens esmagados por conven\u00e7\u00f5es sociais que se abatem sobre suas vidas como se fossem fatalidades da natureza.<\/p>\n<p>Veiga Miranda, nascido em Campanha, Minas Gerais, mas formado em engenharia civil em S\u00e3o Paulo, emprestou \u00e0 atividade liter\u00e1ria a s\u00f3lida forma\u00e7\u00e3o cient\u00edfica adquirida na Escola Polit\u00e9cnica. Dedicando-se tamb\u00e9m \u00e0 pol\u00edtica, veio a ser vereador e prefeito de Ribeir\u00e3o Preto (SP), antes de ser convidado, pelo ent\u00e3o presidente Epit\u00e1cio Pessoa, a assumir o Minist\u00e9rio da Marinha, em 1921.<\/p>\n<p>Decepcionado com a pol\u00edtica, dedicou-se ao ensino, ao jornalismo e \u00e0 literatura. Titular da cadeira 35 da Academia Paulista de Letras, pleiteou, em 1934, o ingresso na Academia Brasileira de Letras. Mas a for\u00e7a pol\u00edtica de seu oponente, o ga\u00facho Jo\u00e3o Neves da Fontoura, protegido por Get\u00falio Vargas, fez com que sua candidatura fosse preterida.<\/p>\n<p>Contos Cariocas, publicado postumamente e uma \u00fanica vez, em 1928, oferece ao leitor outro recorte: o Rio de Janeiro na transi\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XIX ao XX, do Imp\u00e9rio \u00e0 Rep\u00fablica, das rela\u00e7\u00f5es escravistas ao trabalho livre.<\/p>\n<p>Tudo \u00e9 transit\u00f3rio nesses contos ligeiros, em que os personagens transitam entre os empregos ocasionais e a franca boemia, entre os bons costumes e as derrapadas morais, com a\u00e7\u00f5es que traduzem um misto de ingenuidade e ast\u00facia quando se trata de cavar algum dinheiro ou conquistar um cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As pens\u00f5es, as confeitarias, os teatros, as casas de moda, os passeios p\u00fablicos comp\u00f5em o cen\u00e1rio urbano de um Rio de Janeiro em que Copacabana \u00e9 ainda uma promessa e Ipanema, uma vila distante. O texto, leve, espirituoso, divertido, flui agilmente pela escrita de mestre de Artur Azevedo.<\/p>\n<p>Irm\u00e3o mais velho de Alu\u00edsio Azevedo, o ousado autor de\u00a0O Corti\u00e7o, e amigo de Machado de Assis, com quem participou da funda\u00e7\u00e3o da Academia Brasileira de Letras, Artur Nabantino Gon\u00e7alves de Azevedo foi um dos escritores mais populares de seu tempo, tendo produzido mais de uma centena de pe\u00e7as de teatro, contos e poesias, al\u00e9m de desenvolver intensa atividade jornal\u00edstica.<\/p>\n<p>Em 1955, na comemora\u00e7\u00e3o do 100\u00ba anivers\u00e1rio de seu nascimento, Josu\u00e9 Montello, que ent\u00e3o ocupava a cadeira 29 da Academia, de que Artur fora o fundador, afirmou que o seu homenageado \u201cviveu sorrindo e n\u00e3o ganhou com a morte a gravidade f\u00fanebre\u201d.<\/p>\n<p>Flerte com a psican\u00e1lise<\/p>\n<p>Um Brasil que aspira ao cosmopolitismo e \u00e0 modernidade, mas no qual uma coisa e outra assentam mal, como uma roupa dois n\u00fameros acima do tamanho, \u00e9 o que se mostra nas p\u00e1ginas de\u00a0Marta, o romance publicado em 1920 por Jos\u00e9 Joaquim de Campos da Costa de Medeiros e Albuquerque, e reeditado duas vezes, em 1922 e 1932, antes da edi\u00e7\u00e3o atual.<\/p>\n<p>Como o pr\u00f3prio pa\u00eds que lhe serve de pano de fundo, indeciso entre o passado e o futuro, o romance, com sua trama inveross\u00edmil, flerta com muitas tend\u00eancias associadas \u00e0 vanguarda intelectual da \u00e9poca, o simbolismo, o decadentismo e a psican\u00e1lise, anunciando uma est\u00e9tica modernista que n\u00e3o chega a se concretizar inteiramente.<\/p>\n<p>Filho da elite pernambucana, da qual herdou o nome quilom\u00e9trico, que ele, ironizando, comparava a um trem, Medeiros e Albuquerque fez contato direto com a cultura europeia ao acompanhar o pai em viagem e, depois, como aluno da Escola Acad\u00eamica de Lisboa.<\/p>\n<p>De volta ao Brasil, seus m\u00faltiplos interesses o encaminharam em dire\u00e7\u00f5es e sentidos t\u00e3o diversos quanto a leitura de Schopenhauer e as aulas de Hist\u00f3ria Natural ministradas por Em\u00edlio Goeldi, a proposta de uma reforma ortogr\u00e1fica eminentemente fon\u00e9tica, que n\u00e3o prosperou, e estudos sobre o hipnotismo, a partir dos trabalhos de Charcot.<\/p>\n<p>Dedicou-se ao ensino, ao jornalismo, \u00e0 pol\u00edtica e \u00e0 literatura, tornando-se membro fundador da Academia Brasileira de Letras. Mas, a despeito dessa atividade multifacetada, ele \u00e9 hoje lembrado, quase que exclusivamente, devido \u00e0 autoria da letra do Hino da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Mem\u00f3ria militante<\/p>\n<p>A publica\u00e7\u00e3o elegante (com miolo em papel p\u00f3len de elevada gramatura, capa dura, guardas e sobrecapa) e a edi\u00e7\u00e3o primorosa (com ensaios introdut\u00f3rios, perfis dos autores, bibliografias, frontisp\u00edcios das edi\u00e7\u00f5es originais e numerosas notas de rodap\u00e9) fazem da cole\u00e7\u00e3o \u201cReserva Liter\u00e1ria\u201d uma fonte de prazer para quem gosta de ler e manusear bons livros.<\/p>\n<p>\u201cPor ser uma editora laborat\u00f3rio, a Com-Arte pode editar livros que as editoras comerciais raramente editariam\u201d, explica Plinio Martins Filho, docente da ECA-USP, diretor presidente da Editora da Universidade de S\u00e3o Paulo (Edusp) e professor respons\u00e1vel pela Com-Arte.<\/p>\n<p>\u201cNossas cole\u00e7\u00f5es resultam diretamente do curso de editora\u00e7\u00e3o da ECA. Existe nele uma disciplina, a ecd\u00f3tica, que trata de todos os aspectos da edi\u00e7\u00e3o de textos\u201d, disse Martins Filho. \u201cEnt\u00e3o, o professor Jos\u00e9 de Paula Ramos Jr. seleciona o livro; ensina os alunos a fazer a edi\u00e7\u00e3o, atualizando a ortografia, levantando a biografia do autor, produzindo notas para informar o significado de palavras menos usuais ou de refer\u00eancias a personagens e situa\u00e7\u00f5es da \u00e9poca etc. E, na produ\u00e7\u00e3o f\u00edsica do livro, contamos com a ajuda de algumas gr\u00e1ficas, que nos oferecem seu servi\u00e7o a um pre\u00e7o quase simb\u00f3lico, ficando a distribui\u00e7\u00e3o a cargo da Edusp.\u201d<\/p>\n<p>A tiragem, no caso da cole\u00e7\u00e3o \u201cReserva Liter\u00e1ria\u201d, \u00e9 de mil exemplares por edi\u00e7\u00e3o. E a expectativa da editora \u00e9 lan\u00e7ar ao menos dois t\u00edtulos por ano. Para 2014, est\u00e3o programados os romances\u00a0Navios Iluminados, de Ranulpho Prata, e\u00a0O Feiticeiro, de Xavier Marques.<\/p>\n<p>Outra cole\u00e7\u00e3o da Com-Arte, com tiragem de 500 exemplares por edi\u00e7\u00e3o, \u00e9 a s\u00e9rie \u201cMem\u00f3ria Militante\u201d, dirigida pelos professores Marisa Midori Deaecto, Lincoln Secco e Pl\u00ednio Martins Filho, com depoimentos ou textos de participantes das lutas pol\u00edticas travadas no Brasil contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>\u201cCoincidentemente, os tr\u00eas primeiros livros dessa cole\u00e7\u00e3o foram escritos por pessoas que tiveram rela\u00e7\u00e3o com a USP: Catullo Branco, j\u00e1 falecido, formado pela Escola Polit\u00e9cnica; Wilson do Nascimento Barbosa, professor titular aposentado da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas; e Paul Israel Singer, professor titular aposentado da Faculdade de Economia, Administra\u00e7\u00e3o e Contabilidade\u201d, diz Martins Filho.<\/p>\n<p>O pr\u00f3ximo livro da s\u00e9rie, j\u00e1 no prelo, \u00e9\u00a0Um grito de coragem: mem\u00f3rias da luta armada, de Renato Martinelli.<\/p>\n<p>Mais informa\u00e7\u00f5es:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.eca.usp.br\/comarte\" target=\"_blank\">www.eca.usp.br\/comarte<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Jos\u00e9 Tadeu Arantes Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Retratos de um Brasil que n\u00e3o existe mais: esta poderia ser uma das muitas chaves de leitura da cole\u00e7\u00e3o \u201cReserva Liter\u00e1ria\u201d, produzida pela Com-Arte, editora laborat\u00f3rio ligada \u00e0 Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes da Universidade de S\u00e3o Paulo (ECA-USP), em parceria com a Editora da Universidade de S\u00e3o Paulo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":34821,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_genesis_hide_title":false,"_genesis_hide_breadcrumbs":false,"_genesis_hide_singular_image":false,"_genesis_hide_footer_widgets":false,"_genesis_custom_body_class":"","_genesis_custom_post_class":"","_genesis_layout":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[22],"tags":[],"class_list":{"0":"post-48305","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-brasil","8":"entry","9":"gs-1","10":"gs-odd","11":"gs-even","12":"gs-featured-content-entry"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/imagens\/livro1.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_likes_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48305","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=48305"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48305\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/media\/34821"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=48305"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=48305"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=48305"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}