{"id":48252,"date":"2013-10-04T16:48:09","date_gmt":"2013-10-04T19:48:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=48252"},"modified":"2013-10-04T16:48:09","modified_gmt":"2013-10-04T19:48:09","slug":"pesquisadores-levam-raios-para-a-tela-do-cinema","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2013\/pesquisadores-levam-raios-para-a-tela-do-cinema\/48252","title":{"rendered":"Pesquisadores levam raios para a tela do cinema"},"content":{"rendered":"<p>Por Elton Alisson Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 o funcion\u00e1rio aposentado do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) Jos\u00e9 Vicente Moreira voltava do trabalho para casa de bicicleta, em uma tarde chuvosa em S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos, no in\u00edcio dos anos 1990, quando um <em><strong>raio<\/strong><\/em> caiu sobre uma \u00e1rvore. Em seguida, o raio atingiu uma cerca el\u00e9trica e, depois, foi na dire\u00e7\u00e3o de Moreira, partindo a bicicleta ao meio e o arremessando a uns dez metros de dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Moreira ganhou com o acidente n\u00e3o apenas pinos e placas de metal em uma das pernas \u2013 onde diz sentir dor em dias frios \u2013, mas duas filhas e um neto, resultados do casamento com a mulher que o socorreu, que ele chama carinhosamente de \u201cos descendentes do raio\u201d.<\/p>\n<p>Moreira \u00e9 um dos personagens reais que tiveram suas vidas transformadas por descargas el\u00e9tricas e est\u00e3o retratados no filme\u00a0<a href=\"http:\/\/www.fragmentosdepaixao.net.br\/\" target=\"_blank\">Fragmentos de paix\u00e3o<\/a>, que tem estreia prevista para o dia 11 de outubro nos cinemas da rede Cinemark nas cidades de S\u00e3o Paulo, S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos, Rio de Janeiro, Porto Alegre (RJ) e Manaus (AM).<\/p>\n<p>Produzido pelo Grupo de Eletricidade Atmosf\u00e9rica (Elat) do Inpe, o filme conta com imagens de raios capturadas por meio de c\u00e2meras de alta velocidade \u2013 capazes de registrar at\u00e9 4 mil quadros (frames) por segundo \u2013, utilizadas em um\u00a0<a href=\"http:\/\/www.bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/6603\/deteccao-de-sinais-de-variabilidade-relacionados-a-mudancas-climaticas-na-incidencia-de-descargas-at\/\" target=\"_blank\">Projeto Tem\u00e1tico<\/a>\u00a0apoiado pela FAPESP. \u00c9 o primeiro longa-metragem brasileiro sobre o fen\u00f4meno meteorol\u00f3gico.<\/p>\n<p>\u201cExistem alguns document\u00e1rios sobre raios produzidos em pa\u00edses como os Estados Unidos, mas ainda n\u00e3o havia nenhum feito no Brasil, que \u00e9 o campe\u00e3o mundial de ocorr\u00eancia desse fen\u00f4meno\u201d, disse a diretora e roteirista do filme, a jornalista Iara Cardoso, \u00e0\u00a0Ag\u00eancia FAPESP.<\/p>\n<p>\u201cAs produ\u00e7\u00f5es feitas sobre o tema s\u00e3o muito t\u00e9cnicas e voltadas, praticamente, para os pr\u00f3prios pares [pesquisadores especialistas no tema]. Por isso, decidimos fazer um filme diferente desse formato, no qual os raios fossem retratados de uma forma compreens\u00edvel pelo p\u00fablico geral\u201d, disse Cardoso.<\/p>\n<p>Para realizar o filme, Cardoso e o coordenador do Elat, o pesquisador Osmar Pinto Junior, fizeram um levantamento, ao longo de tr\u00eas anos, de refer\u00eancias sobre a hist\u00f3ria dos raios no Brasil em bibliotecas em S\u00e3o Paulo, no Rio de Janeiro e no exterior.<\/p>\n<p>A partir da pesquisa hist\u00f3rica feita com mais de 200 fontes \u2013 entre livros, registros cient\u00edficos, relatos de descendentes de personalidades e documentos hist\u00f3ricos \u2013, Cardoso escreveu o roteiro do filme, que apresenta o fen\u00f4meno sob uma perspectiva cient\u00edfica, cultural e hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o havia praticamente nada de historiografia sobre raios no Brasil. Fizemos o levantamento a partir do zero e, no futuro, a ideia \u00e9 publicar um livro sobre o material que reunimos para preserv\u00e1-lo\u201d, contou Cardoso, que \u00e9 filha de Pinto Junior.<\/p>\n<p>Uma das constata\u00e7\u00f5es da pesquisa hist\u00f3rica foi que o primeiro registro fotogr\u00e1fico de raio no pa\u00eds \u00e9 de Henrique Charles Morize (1860-1930), feito em 9 de novembro de 1885, no alto do ent\u00e3o Morro do Castelo, no Rio de Janeiro, onde est\u00e1 situado hoje o aeroporto Santos Dumont.<\/p>\n<p>Pesquisador e posteriormente diretor do Observat\u00f3rio Nacional do Rio de Janeiro, o cientista franc\u00eas, radicado no Brasil, tamb\u00e9m foi o primeiro a descrever corpos opacos no interior de um organismo vivo por meio do uso de raios X em uma tese, apresentada em 1898, em um concurso para a c\u00e1tedra de F\u00edsica Experimental na Escola Polit\u00e9cnica do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Outra participa\u00e7\u00e3o importante de Morize na hist\u00f3ria da ci\u00eancia brasileira foi a observa\u00e7\u00e3o, em 29 de maio de 1919, do eclipse total do Sol, na cidade de Sobral, no interior do Cear\u00e1, quando foram obtidas as maiores provas do \u201cefeito Einstein\u201d \u2013 como era denominada a deflex\u00e3o da luz pela gravidade. O pr\u00f3prio Albert Einstein, em uma visita a Morize no Observat\u00f3rio Nacional em 9 de maio de 1925, reconheceu a import\u00e2ncia do estudo feito em Sobral.<\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o tive a oportunidade de conhec\u00ea-lo, mas os familiares que conviveram com ele relatam que era um cientista por excel\u00eancia e um homem muito curioso\u201d, diz, no filme, Henrique Carlos Morize, engenheiro eletricista e bisneto do cientista franco-brasileiro.<\/p>\n<p>Antes de Morize ter registrado pela primeira vez o fen\u00f4meno em imagem, contudo, j\u00e1 havia relatos textuais sobre raios no Brasil desde a descoberta do pa\u00eds, em 1500, narra o filme.<\/p>\n<p>S\u00e9culos mais tarde, em 1839, Charles Darwin descreveu em\u00a0A viagem do Beagle\u00a0as impress\u00f5es sobre a primeira tempestade tropical que vivenciou em Salvador, em 1832, durante sua passagem pela capital da Bahia a bordo do navio HMS Beagle, para uma segunda expedi\u00e7\u00e3o de levantamento topogr\u00e1fico na Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p>\u201c\u00c0 noite, do conv\u00e9s, presenciei um espet\u00e1culo extraordin\u00e1rio. A escurid\u00e3o da noite era interrompida por raios muito luminosos\u201d, escreveu Darwin em uma das passagens do di\u00e1rio da viagem, transcrita no filme.<\/p>\n<p>Pesquisa sobre raio<\/p>\n<p>De acordo com os autores do filme, s\u00f3 passados mais de 200 anos das primeiras observa\u00e7\u00f5es de raios feitas no Brasil, no entanto, \u00e9 que o fen\u00f4meno come\u00e7ou a ser estudado cientificamente no s\u00e9culo 18 por cientistas como o norte-americano Benjamin Franklin (1706-1790).<\/p>\n<p>No Brasil, os primeiros estudos sobre raios foram feitos por pesquisadores do Observat\u00f3rio Nacional do Rio de Janeiro, que interrompeu as pesquisas sobre o tema. A lacuna na pesquisa\u00a0foi preenchida com a cria\u00e7\u00e3o do Elat do Inpe, em 1995, que se tornou refer\u00eancia mundial em estudos sobre raios, destaca o filme.<\/p>\n<p>Alguns dos resultados de estudos realizados por pesquisadores do Elat \u2013 muitos dos quais com\u00a0<a href=\"http:\/\/www.bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/245\/osmar-pinto-junior\/\" target=\"_blank\">apoio<\/a>\u00a0da FAPESP \u2013 foram a constata\u00e7\u00e3o de que, por ano, caem cerca de 50 milh\u00f5es de raios no Brasil e aproximadamente 500 pessoas s\u00e3o atingidas \u2013 em m\u00e9dia, 130 s\u00e3o v\u00edtimas fatais.<\/p>\n<p>Um dos casos c\u00e9lebres de v\u00edtimas fatais de raios no Brasil, relatado no filme, \u00e9 o de Cec\u00edlia de Assis Brasil (1916-1928). Filha de Joaquim Francisco de Assis Brasil (1857-1938), ministro da Agricultura no primeiro governo de Get\u00falio Vargas (1882-1954), Cec\u00edlia morreu ao ser atingida por um raio, em cima de um cavalo, durante uma cavalgada.<\/p>\n<p>Segundo os relatos, Cec\u00edlia foi atingida por um raio de final de tempestade \u2013 quando o temporal j\u00e1 havia cessado. De acordo com Pinto Junior, esse tipo de raio costuma ser mais intenso do que as descargas el\u00e9tricas que ocorrem durante as chuvas.<\/p>\n<p>\u201cMuitas pessoas morrem atingidas por raio no Brasil nessa circunst\u00e2ncia [ao sair do lugar em que estavam abrigadas passada a tempestade, quando s\u00e3o atingidas por descargas el\u00e9tricas mais intensas no final de temporais]\u201d, ressalta o pesquisador no filme.<\/p>\n<p>Para estimar quantas pessoas morrem atingidas por ano no Brasil e as circunst\u00e2ncias das mortes, os pesquisadores do Elat realizaram um estudo com base em dados coletados pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, pela Defesa Civil, pelo pr\u00f3prio Inpe e por reportagens publicadas na imprensa brasileira no per\u00edodo de 2000 a 2009 sobre v\u00edtimas fatais de descargas el\u00e9tricas no pa\u00eds.<\/p>\n<p>O estudo revelou que, nesse per\u00edodo, foram registrados 1.321 casos de v\u00edtimas fatais de raios no Brasil \u2013 o que representa uma m\u00e9dia de 132 casos por ano. Do total de v\u00edtimas, 81% eram do sexo masculino e 19% do sexo feminino.<\/p>\n<p>A regi\u00e3o Sudeste apresentou o maior n\u00famero de mortes \u2013 representando 29% dos casos \u2013, seguida pelas regi\u00f5es Central (com 19%), Norte e Nordeste (com 18% cada) e Sul (com 17%) do pa\u00eds.<\/p>\n<p>O estudo foi publicado em janeiro de 2013 na revista\u00a0Atmospheric Research. Al\u00e9m de embasar o roteiro do filme, a pesquisa tamb\u00e9m resultou em uma cartilha educativa sobre como se proteger contra os raios, que o Elat est\u00e1 preparando, contou Cardoso.<\/p>\n<p>\u201cAs estimativas sobre o n\u00famero de pessoas atingidas e de v\u00edtimas fatais de raios no Brasil eram totalmente baseadas em dados internacionais\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>\u201cO estudo permitiu termos os n\u00fameros nacionais e detalharmos cada vez mais as circunst\u00e2ncias das mortes por raios no Brasil. Com isso, ser\u00e1 poss\u00edvel tamb\u00e9m indicar com maior precis\u00e3o o que deve ser feito no pa\u00eds para as pessoas se protegerem dos raios\u201d, avaliou Cardoso.<\/p>\n<p>Campe\u00e3o de descargas<\/p>\n<p>As pesquisas sobre raios no Brasil nas \u00faltimas d\u00e9cadas tamb\u00e9m revelaram que o Amazonas \u00e9 o estado campe\u00e3o em incid\u00eancia de raios no pa\u00eds \u2013 com, em m\u00e9dia, 11 milh\u00f5es por ano \u2013 e derrubaram alguns mitos sobre o fen\u00f4meno, destaca o filme.<\/p>\n<p>Um desses mitos era de que um raio n\u00e3o cai duas vezes no mesmo lugar. \u201cAs marcas de raios no Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, derrubam essa tese\u201d, diz Pinto Junior no filme.<\/p>\n<p>O longa tamb\u00e9m chama a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que, com as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas globais, os raios tender\u00e3o a ocorrer com maior frequ\u00eancia no pa\u00eds nos pr\u00f3ximos anos e setores como o de distribui\u00e7\u00e3o de energia e de avia\u00e7\u00e3o dever\u00e3o se preparar cada vez mais para se proteger de seus poss\u00edveis impactos.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0Lightning casualty demographics in Brazil and their implications for safety rules\u00a0(doi: 10.1016\/j.atmosres.2012.12.006), de Iara Cardoso e outros, pode ser lido na revista\u00a0Atmospheric Researchem\u00a0<a href=\"http:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S016980951200436X\" target=\"_blank\">www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S016980951200436X<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Elton Alisson Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 o funcion\u00e1rio aposentado do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) Jos\u00e9 Vicente Moreira voltava do trabalho para casa de bicicleta, em uma tarde chuvosa em S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos, no in\u00edcio dos anos 1990, quando um raio caiu sobre uma \u00e1rvore. 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