{"id":48207,"date":"2013-10-03T20:53:38","date_gmt":"2013-10-03T23:53:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=48207"},"modified":"2013-10-03T20:53:38","modified_gmt":"2013-10-03T23:53:38","slug":"insetos-conseguem-prever-tempestades-e-ventanias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2013\/insetos-conseguem-prever-tempestades-e-ventanias\/48207","title":{"rendered":"Insetos conseguem prever tempestades e ventanias"},"content":{"rendered":"<p>Por Elton Alisson Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Na \u00cdndia e no Jap\u00e3o h\u00e1 um ditado popular que diz que \u201cformigas carregando ovos barranco acima, \u00e9 a chuva que se aproxima\u201d. J\u00e1 no Brasil, outro prov\u00e9rbio afirma que \u201cquando aumenta a umidade do ar, cupins e formigas saem de suas tocas para acasalar\u201d.\u00a0Um estudo publicado na edi\u00e7\u00e3o do dia 2 de outubro da revista\u00a0PLoS One\u00a0\u2013 realizado por pesquisadores da Escola Superior de Agricultura \u201cLuiz de Queiroz\u201d (Esalq), da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), de Piracicaba (SP), em parceria com colegas da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro), de Guarapuava (PR), e da University of Western Ontario, do Canad\u00e1 \u2013 comprovou que os <em><strong>insetos preveem mudan\u00e7as clim\u00e1ticas<\/strong><\/em> e d\u00e3o indica\u00e7\u00f5es disso com modifica\u00e7\u00f5es no comportamento.<\/p>\n<p>Os pesquisadores observaram que besouros da esp\u00e9cie\u00a0Diabrotica speciosa\u00a0\u2013 conhecido popularmente como \u201cbrasileirinho\u201d ou \u201cpatriota\u201d, por terem cor verde e pintas amarelas \u2013, al\u00e9m de pulg\u00f5es-da-batata (Macrosiphum euphorbiae) e lagartas da pastagem (Pseudaletia unipuncta), t\u00eam capacidade de detectar queda na press\u00e3o atmosf\u00e9rica \u2013 que, na maioria dos casos, \u00e9 um sinal de chuva iminente. E, ao perceberem isso, modificam o comportamento sexual, diminuindo a disposi\u00e7\u00e3o de cortejar e acasalar.<\/p>\n<p>\u201cDemonstramos que os insetos, de fato, t\u00eam capacidade de detectar mudan\u00e7as no tempo por meio da queda da press\u00e3o atmosf\u00e9rica,\u00a0de se antecipar e\u00a0buscar abrigo\u00a0para se proteger das m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, como temporais e ventanias, por exemplo\u201d, disse Jos\u00e9 Maur\u00edcio Sim\u00f5es Bento, professor do Departamento de Entomologia e Acarologia da Esalq e um dos autores do estudo, \u00e0\u00a0Ag\u00eancia FAPESP.<\/p>\n<p>\u201cCertamente esses animais est\u00e3o mais preparados para enfrentar as mudan\u00e7as repentinas no tempo que, provavelmente, ocorrer\u00e3o com maior frequ\u00eancia e intensidade no mundo nos pr\u00f3ximos anos em raz\u00e3o das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas globais\u201d, avaliou Bento, um dos pesquisadores principais do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/2206\/bases-tecnologicas-para-identificacao-sintese-e-uso-de-semioquimicos-na-agricultura\" target=\"_blank\">Instituto Nacional de Ci\u00eancia e Tecnologia de Semioqu\u00edmicos na Agricultura<\/a>\u00a0\u2013 um dos INCTs financiados pela FAPESP e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (CNPq).<\/p>\n<p>Para realizar o estudo, os pesquisadores selecionaram tr\u00eas diferentes esp\u00e9cies de insetos \u2013 o besouro \u201cbrasileirinho\u201d, o pulg\u00e3o-da-batata e a lagarta da pastagem \u2013, que pertencem a ordens bem distintas e que variam significativamente em termos de massa corp\u00f3rea e morfologia.<\/p>\n<p>O besouro \u201cbrasileirinho\u201d tem estrutura mais robusta e possui cut\u00edcula dura e, por isso, \u00e9 mais resistente a condi\u00e7\u00f5es de tempo severas, como chuvas fortes e ventanias. J\u00e1 o pulg\u00e3o-da-batata tem estrutura mais fr\u00e1gil e \u00e9 menos resistente a eventos clim\u00e1ticos extremos.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 existiam evid\u00eancias de que os insetos ajustam seus comportamentos associados com o voo e\u00a0com a\u00a0alimenta\u00e7\u00e3o\u00a0\u00e0s mudan\u00e7as na velocidade dos ventos, os pesquisadores decidiram avaliar o efeito das condi\u00e7\u00f5es atmosf\u00e9ricas especificamente sobre o comportamento de \u201cnamoro\u201d e acasalamento dessas tr\u00eas esp\u00e9cies quando sujeitas a mudan\u00e7as naturais ou manipuladas experimentalmente da press\u00e3o atmosf\u00e9rica.<\/p>\n<p>Os experimentos em condi\u00e7\u00f5es naturais (sem a manipula\u00e7\u00e3o da press\u00e3o) e sob condi\u00e7\u00f5es controladas, em laborat\u00f3rio, revelaram que, ao detectar uma queda brusca na press\u00e3o atmosf\u00e9rica, por exemplo, as f\u00eameas diminuem ou simplesmente deixam de manifestar um comportamento conhecido como \u201cchamamento\u201d, no qual liberam ferom\u00f4nio para atrair machos para o acasalamento.<\/p>\n<p>Os machos, por sua vez, passam a apresentar menor interesse sexual, n\u00e3o respondem aos est\u00edmulos das f\u00eameas e procuram abrigos para se proteger da mudan\u00e7a de tempo capaz de ocorrer nas pr\u00f3ximas horas. Passado o mau tempo, os insetos retomam as atividades de cortejo, namoro e acasalamento.<\/p>\n<p>\u201cEsse comportamento de perda moment\u00e2nea do interesse no acasalamento horas antes de uma tempestade representa uma capacidade adaptativa que, ao mesmo tempo, reduz a probabilidade de les\u00f5es e mortes desses animais \u2013 uma vez que s\u00e3o organismos diminutos e muito vulner\u00e1veis a condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas adversas, como temporais, chuvas pesadas e ventanias \u2013 e assegura a reprodu\u00e7\u00e3o e a perpetua\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies\u201d, afirmou Bento.<\/p>\n<p>Experimentos<\/p>\n<p>Os experimentos em condi\u00e7\u00f5es naturais foram realizados na Esalq e no INCT de Semioqu\u00edmicos na Agricultura, ambos em Piracicaba. Os pesquisadores utilizaram um\u00a0olfat\u00f4metro com estrutura em Y, colocando\u00a0uma f\u00eamea em uma das duas extremidades menores\u00a0e, na outra,\u00a0um controle (que fica vago). Posteriormente, uma corrente de ar\u00a0foi passada no interior do sistema, de forma que o ferom\u00f4nio\u00a0fosse levado para a extremidade principal, onde o macho\u00a0estava colocado.<\/p>\n<p>Dependendo da dire\u00e7\u00e3o seguida pelo\u00a0 macho\u00a0quando a corrente de ar com ferom\u00f4nio\u00a0era liberada \u2013 a extremidade onde estava a f\u00eamea ou a outra,\u00a0do controle \u2013,\u00a0era poss\u00edvel avaliar se\u00a0ele estava\u00a0sendo atra\u00eddo ou n\u00e3o pelo ferom\u00f4nio emitido pela f\u00eamea.<\/p>\n<p>Nos experimentos com o besouro \u201cbrasileirinho\u201d, os pesquisadores constataram que, sob condi\u00e7\u00f5es de press\u00e3o atmosf\u00e9rica est\u00e1vel ou crescente, o inseto caminhava normalmente em dire\u00e7\u00e3o ao tubo por onde a corrente de ar com o ferom\u00f4nio da f\u00eamea estava sendo liberado. J\u00e1 na condi\u00e7\u00e3o de queda de press\u00e3o, o inseto apresentava menor movimenta\u00e7\u00e3o e interesse em seguir em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 f\u00eamea.<\/p>\n<p>O grupo tamb\u00e9m observou que, quando mantido em contato direto com as f\u00eameas em condi\u00e7\u00e3o de queda da press\u00e3o atmosf\u00e9rica, os machos tamb\u00e9m n\u00e3o empenharam esfor\u00e7o para acasalar. Tal comportamento, de acordo com Bento, pode ser explicado pela sensa\u00e7\u00e3o de risco de vida do inseto.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 como se, diante de uma situa\u00e7\u00e3o de perigo iminente, esses animais colocassem a quest\u00e3o da sobreviv\u00eancia em primeiro lugar \u2013 porque \u00e9 o que garante a perpetua\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie \u2013 e deixassem o acasalamento para um segundo plano, por ser uma atividade que pode ser retomada ap\u00f3s a passagem do mau tempo\u201d, avaliou.<\/p>\n<p>Os pesquisadores tamb\u00e9m avaliaram o n\u00famero de vezes que o pulg\u00e3o-da-batata e a lagarta da pastagem atenderam ao\u00a0\u201cchamamento\u201d das respectivas f\u00eameas, sob diferentes condi\u00e7\u00f5es atmosf\u00e9ricas. Os resultados foram semelhantes aos obtidos com o besouro \u201cbrasileirinho\u201d.<\/p>\n<p>O comportamento dos insetos estudados foi afetado significativamente por mudan\u00e7as na press\u00e3o do ar, obtida pelos pesquisadores por meio de dados fornecidos de hora em hora pelo site do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).<\/p>\n<p>Ao perceber que os dados fornecidos pela institui\u00e7\u00e3o indicavam uma queda ou aumento brusco da press\u00e3o atmosf\u00e9rica da regi\u00e3o de Piracicaba, os pesquisadores davam in\u00edcio aos experimentos para verificar se os insetos apresentavam mudan\u00e7as no comportamento de chamamento e de c\u00f3pula e faziam as compara\u00e7\u00f5es com as condi\u00e7\u00f5es de press\u00e3o est\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u201cConseguimos verificar, dessa forma, que o comportamento sexual dos insetos varia em fun\u00e7\u00e3o do efeito da press\u00e3o atmosf\u00e9rica, uma vez que todas as outras condi\u00e7\u00f5es \u2013 como a temperatura, umidade e a luz \u2013 foram controladas nos experimentos\u201d, afirmou Bento.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s constatar essa mudan\u00e7a de comportamento sexual dos insetos em condi\u00e7\u00f5es naturais, o grupo da Esalq fez uma parceria com colegas canadenses do Departamento de Biologia da University of Western Ontario para realizar novos ensaios comportamentais em laborat\u00f3rio, mais precisamente\u00a0em uma c\u00e2mara barom\u00e9trica de grandes dimens\u00f5es, que permite controlar a press\u00e3o atmosf\u00e9rica, al\u00e9m da temperatura, umidade e luz.<\/p>\n<p>Segundo Bento, os testes conduzidos sob controle de press\u00e3o comprovaram as observa\u00e7\u00f5es feitas em condi\u00e7\u00f5es naturais.<\/p>\n<p>F\u00eanomeno extensivo<\/p>\n<p>De acordo com o pesquisador, o fato de as tr\u00eas esp\u00e9cies de insetos analisadas no estudo terem modificado o comportamento sexual em resposta \u00e0s altera\u00e7\u00f5es na press\u00e3o do ar sugere que o fen\u00f4meno pode ser extensivo, de maneira geral, \u00e0s demais esp\u00e9cies de insetos, e que esses animais s\u00e3o adaptados para enfrentar as m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es meteorol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 havia outros trabalhos cient\u00edficos sugerindo mudan\u00e7as de comportamento de animais em fun\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as no tempo, mas foram realizados\u00a0com uma \u00fanica esp\u00e9cie, especificamente, e n\u00e3o poderiam ser generalizados para as demais esp\u00e9cies do grupo\u201d, disse Bento.<\/p>\n<p>\u201cNosso estudo demonstrou que, no caso dos insetos, esse fen\u00f4meno parece ser extensivo \u00e0s outras esp\u00e9cies\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>O grupo de pesquisadores da Esalq investiga agora os mecanismos que os insetos utilizam para detectar mudan\u00e7as na press\u00e3o atmosf\u00e9rica e desenvolver o comportamento adaptativo de interromper o acasalamento ao pressentir mudan\u00e7as no tempo.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0Weather forecasting by insects: modified sexual behaviour in response to atmospheric pressure changes\u00a0(doi: 10.1371\/journal.pone.0075004), de Bento e outros, pode ser lido na\u00a0PLoS One\u00a0em<a href=\"http:\/\/www.plosone.org\/article\/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0075004\" target=\"_blank\">http:\/\/www.plosone.org\/article\/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0075004<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Elton Alisson Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Na \u00cdndia e no Jap\u00e3o h\u00e1 um ditado popular que diz que \u201cformigas carregando ovos barranco acima, \u00e9 a chuva que se aproxima\u201d. 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