{"id":45847,"date":"2013-08-05T17:40:55","date_gmt":"2013-08-05T20:40:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=45847"},"modified":"2013-08-05T17:40:55","modified_gmt":"2013-08-05T20:40:55","slug":"vacina-brasileira-contra-a-aids-sera-testada-em-macacos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2013\/vacina-brasileira-contra-a-aids-sera-testada-em-macacos\/45847","title":{"rendered":"Vacina brasileira contra a Aids ser\u00e1 testada em macacos"},"content":{"rendered":"<p>Por Karina Toledo Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Uma <em><strong>vacina<\/strong> <\/em>brasileira contra o v\u00edrus HIV, causador da Aids, come\u00e7ar\u00e1 a ser testada em macacos no segundo semestre deste ano. Com dura\u00e7\u00e3o prevista de 24 meses, os experimentos t\u00eam o objetivo de encontrar o m\u00e9todo de imuniza\u00e7\u00e3o mais eficaz para ser usado em humanos. Conclu\u00edda essa fase, e se houver financiamento suficiente, poder\u00e3o ter in\u00edcio os primeiros ensaios cl\u00ednicos.<\/p>\n<p>Denominado HIVBr18, o imunizante foi desenvolvido e patenteado pelos pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de S\u00e3o Paulo (FMUSP) Edecio Cunha Neto, Jorge Kalil e Simone Fonseca. Atualmente, o projeto \u00e9 conduzido no \u00e2mbito do Instituto de Investiga\u00e7\u00e3o em Imunologia, um dos Institutos Nacionais de Ci\u00eancia e Tecnologia (INCTs), um programa do Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o (MCTI), apoiado pela\u00a0FAPESP no Estado de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>O trabalho teve in\u00edcio em 2001, com apoio de um\u00a0<a href=\"http:\/\/www.bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/3549\/identificacao-de-fatores-virologicos-geneticos-e-imunologicos-associados-ao-fenotipo-de-nao-progress\" target=\"_blank\">Aux\u00edlio Regular<\/a>\u00a0sob a coordena\u00e7\u00e3o de Cunha Neto. Em parceria com Kalil, o pesquisador analisou o sistema imunol\u00f3gico de um grupo especial de portadores do v\u00edrus que mantinham o HIV sob controle por mais tempo e demoravam para adoecer. No sangue dessas pessoas, a quantidade de linf\u00f3citos T do tipo CD4 \u2013 o principal alvo do HIV \u2013 permanecia mais elevada que o normal.<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 se sabia que as c\u00e9lulas TCD4 s\u00e3o respons\u00e1veis por acionar os linf\u00f3citos T do tipo CD8, produtores de toxinas que matam as c\u00e9lulas infectadas. As TCD4 acionam tamb\u00e9m os linf\u00f3citos B, produtores de anticorpos. Mas estudos posteriores mostraram que um tipo espec\u00edfico de linf\u00f3cito TCD4 poderia tamb\u00e9m ter a\u00e7\u00e3o citot\u00f3xica sobre as c\u00e9lulas infectadas. Os portadores de HIV que tinham as TCD4 citot\u00f3xicas conseguiam manter a quantidade de v\u00edrus sob controle na fase cr\u00f4nica da doen\u00e7a\u201d, contou Cunha Neto.<\/p>\n<p>Os pesquisadores ent\u00e3o isolaram pequenos peda\u00e7os de prote\u00ednas das \u00e1reas mais preservadas do v\u00edrus HIV \u2013 aquelas que se mant\u00eam est\u00e1veis em quase todas as cepas. Com aux\u00edlio de um programa de computador, selecionaram os pept\u00eddeos que tinham mais chance de serem reconhecidos pelos linf\u00f3citos TCD4 da maioria dos pacientes. Os 18 pept\u00eddeos escolhidos foram recriados em laborat\u00f3rio e codificados dentro de um plasm\u00eddeo \u2013 uma mol\u00e9cula circular de DNA.<\/p>\n<p>Testes\u00a0in vitro\u00a0feitos com amostras de sangue de 32 portadores de HIV com condi\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas e imunol\u00f3gicas bastante variadas mostraram que, em mais de 90% dos casos, pelo menos um dos pept\u00eddeos foi reconhecido pelas c\u00e9lulas TCD4. Em 40% dos casos, mais de cinco pept\u00eddeos foram identificados. Os resultados foram divulgados em 2006 na revista\u00a0<a href=\"http:\/\/journals.lww.com\/aidsonline\/pages\/articleviewer.aspx?year=2006&amp;issue=11280&amp;article=00002&amp;type=abstract\" target=\"_blank\">Aids<\/a>.<\/p>\n<p>Em outro experimento divulgado em 2010 na\u00a0<a href=\"http:\/\/www.plosone.org\/article\/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0011072\" target=\"_blank\">PLoSOne<\/a>, em parceria com Daniela Rosa, da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp), e Susan Ribeiro, da FMUSP, os pept\u00eddeos foram administrados a camundongos geneticamente modificados para expressar mol\u00e9culas do sistema imunol\u00f3gico humano. Nesse caso, 16 dos 18 pept\u00eddeos foram reconhecidos e ativaram tanto os linf\u00f3citos TCD4 como os TCD8.<\/p>\n<p>\u201cFizemos o experimento com quatro grupos de camundongos. Cada um expressava um tipo diferente da mol\u00e9cula HLA (sigla da express\u00e3o em ingl\u00eas para Ant\u00edgenos Leucocit\u00e1rios Humanos), que est\u00e1 diretamente envolvida com o reconhecimento do v\u00edrus\u201d, contou Cunha Neto.<\/p>\n<p>O grupo ent\u00e3o desenvolveu uma nova vers\u00e3o da vacina com elementos conservados de todos os subtipos do HIV do grupo principal, chamado grupo M, que mostrou-se capaz de induzir respostas imunes contra fragmentos de todos os subtipos testados at\u00e9 o momento. O trabalho foi conduzido durante o doutorado de Rafael Ribeiro.<\/p>\n<p>\u201cOs resultados sugerem que uma \u00fanica vacina poderia, em tese, ser usada em diversas regi\u00f5es do mundo, onde diferentes subtipos do HIV s\u00e3o prevalentes\u201d, afirmou Cunha Neto.<\/p>\n<p>No teste mais recente, feito com camundongos e ainda n\u00e3o publicado, os pesquisadores avaliaram a capacidade dessa nova vacina de reduzir a carga viral no organismo. \u201cO HIV normalmente n\u00e3o infecta camundongos, ent\u00e3o n\u00f3s pegamos um v\u00edrus chamado vaccinia \u2013 que \u00e9 aparentado do causador da var\u00edola \u2013 e colocamos dentro dele ant\u00edgenos do HIV\u201d, contou Cunha Neto.<\/p>\n<p>Nos animais imunizados com a vacina, a quantidade do v\u00edrus modificado encontrada foi 50 vezes menor que a do grupo controle. Agora est\u00e3o sendo realizados experimentos para descobrir se, de fato, a destrui\u00e7\u00e3o viral aconteceu por causa da ativa\u00e7\u00e3o das c\u00e9lulas TCD4 citot\u00f3xicas.<\/p>\n<p>\u201cVamos imunizar um camundongo e injetar o v\u00edrus modificado. Em seguida, separaremos os linf\u00f3citos produzidos e injetaremos em um segundo animal apenas as c\u00e9lulas TCD4. Um terceiro animal receber\u00e1 apenas as c\u00e9lulas TCD8. Depois esses dois animais que receberam os linf\u00f3citos com o v\u00edrus modificado ser\u00e3o infectados \u2013 e um terceiro receber\u00e1 apenas placebo \u2013 para podermos ver qual organismo \u00e9 capaz de combater melhor o v\u00edrus\u201d, explicou Cunha Neto.<\/p>\n<p>Os cientistas estimam que, no est\u00e1gio atual de desenvolvimento, a vacina n\u00e3o eliminaria totalmente o v\u00edrus do organismo, mas poderia manter a carga viral reduzida ao ponto de a pessoa infectada n\u00e3o desenvolver a imunodefici\u00eancia e n\u00e3o transmitir o v\u00edrus.<\/p>\n<p>Segundo Cunha Neto, a HIVBr18 tamb\u00e9m poderia ser usada para fortalecer o efeito de outras vacinas contra a Aids, como a desenvolvida pelo grupo do imunologista Michel Nussenzweig, da Rockefeller University, de Nova York, feita com uma prote\u00edna do HIV chamada gp140.<\/p>\n<p>\u201cEm um experimento conduzido pela pesquisadora Daniela Rosa, observamos que a pr\u00e9-imuniza\u00e7\u00e3o com a HIVBr18 melhora a resposta \u00e0 vacina feita com a prote\u00edna recombinante do envelope do HIV gp140, que \u00e9 a respons\u00e1vel pela entrada do v\u00edrus nas c\u00e9lulas. Uma vacina capaz de induzir a produ\u00e7\u00e3o de anticorpos contra essa prote\u00edna poderia bloquear a infec\u00e7\u00e3o pelo HIV\u201d, disse Cunha Neto.<\/p>\n<p>Macacos Rhesus<\/p>\n<p>A \u00faltima etapa do teste pr\u00e9-cl\u00ednico ser\u00e1 realizada na col\u00f4nia de macacos Rhesus do Instituto Butantan \u2013 uma parceria que envolve as pesquisadoras Susan Ribeiro, Elizabeth Valentini e Vania Mattaraia. A vantagem de fazer testes em primatas \u00e9 a semelhan\u00e7a com o sistema imunol\u00f3gico humano e o fato de eles serem suscet\u00edveis ao SIV, v\u00edrus que deu origem ao HIV.<\/p>\n<p>\u201cNosso objetivo \u00e9 testar diversos m\u00e9todos de imuniza\u00e7\u00e3o para selecionar aquele capaz de induzir a resposta imunol\u00f3gica mais forte e ent\u00e3o poder test\u00e1-lo em humanos. Al\u00e9m da vacina de DNA originalmente criada, vamos colocar os nossos pept\u00eddeos dentro de outros v\u00edrus vacinais, como o adenov\u00edrus de chimpanz\u00e9, vacina da febre amarela ou o MVA, e selecionar a melhor combina\u00e7\u00e3o de vetores\u201d, afirmou Cunha Neto.<\/p>\n<p>H\u00e1 dados que mostram, por exemplo, que a vacina com adenov\u00edrus recombinante contendo os mesmos 18 fragmentos do HIV em camundongos induz uma resposta imunol\u00f3gica de maior magnitude que a vacina de DNA.<\/p>\n<p>Segundo Cunha Neto, o objetivo \u00e9 verificar n\u00e3o apenas qual \u00e9 a formula\u00e7\u00e3o que mais ativa os linf\u00f3citos TCD4 citot\u00f3xicos como tamb\u00e9m a que mais auxilia a resposta de linf\u00f3citos TCD8 e a produ\u00e7\u00e3o de anticorpos contra a prote\u00edna gp140, do envelope do v\u00edrus.<\/p>\n<p>O ensaio cl\u00ednico de fase 1 dever\u00e1 abranger uma popula\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel e com baixo risco de contrair o HIV, que ser\u00e1 acompanhada de perto por v\u00e1rios anos. Nesse primeiro momento, al\u00e9m de avaliar a seguran\u00e7a do imunizante, o objetivo \u00e9 verificar a magnitude da resposta imune que ele \u00e9 capaz de desencadear e por quanto tempo os anticorpos permanecem no organismo.<\/p>\n<p>Se a HIVBr18 for bem-sucedida nessa primeira etapa da fase cl\u00ednica, poder\u00e1 despertar interesse comercial. A esperan\u00e7a dos cientistas \u00e9 atrair investidores privados, uma vez que o custo estimado para chegar at\u00e9 terceira fase dos testes cl\u00ednicos \u00e9 de R$ 250 milh\u00f5es. At\u00e9 o momento, somando o financiamento da FAPESP e do governo federal, foi investido cerca de R$ 1 milh\u00e3o no projeto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Karina Toledo Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Uma vacina brasileira contra o v\u00edrus HIV, causador da Aids, come\u00e7ar\u00e1 a ser testada em macacos no segundo semestre deste ano. 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