{"id":42447,"date":"2013-02-07T14:56:08","date_gmt":"2013-02-07T16:56:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=42447"},"modified":"2013-02-07T14:56:08","modified_gmt":"2013-02-07T16:56:08","slug":"pesquisa-muda-diretrizes-para-tratamento-de-esclerose-sistemica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2013\/pesquisa-muda-diretrizes-para-tratamento-de-esclerose-sistemica\/42447","title":{"rendered":"Pesquisa muda diretrizes para tratamento de esclerose sist\u00eamica"},"content":{"rendered":"<p>Para melhor avaliar o risco do <em><strong>transplante de c\u00e9lulas-tronco<\/strong><\/em> hematopoi\u00e9ticas (TCTH) em pacientes com esclerose sist\u00eamica, uma avalia\u00e7\u00e3o card\u00edaca minuciosa \u00e9 fundamental, afirmam pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.thelancet.com\/journals\/lancet\/article\/PIIS0140-6736(12)62114-X\/fulltext\" target=\"_blank\">artigo publicado<\/a>\u00a0na revista\u00a0The Lancet. Os resultados do estudo devem mudar as diretrizes para o tratamento da doen\u00e7a em todo o mundo.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m conhecida como esclerodermia, essa enfermidade autoimune afeta progressivamente as c\u00e9lulas do tecido conjuntivo, podendo causar altera\u00e7\u00f5es vasculares e fibrose da pele e de \u00f3rg\u00e3os internos, al\u00e9m de \u00falceras. O problema \u00e9 relativamente raro, atingindo uma em cada 50 mil pessoas, mas pode ser fatal quando \u00f3rg\u00e3os como pulm\u00e3o, cora\u00e7\u00e3o ou intestino s\u00e3o gravemente comprometidos.<\/p>\n<p>\u201cO tratamento convencional consiste em aplica\u00e7\u00f5es mensais de uma droga quimioter\u00e1pica chamada ciclofosfamida \u2013 t\u00f3xica para as c\u00e9lulas do sistema imunol\u00f3gico, especialmente para os linf\u00f3citos, os mediadores da doen\u00e7a\u201d, disse Maria Carolina Oliveira, uma das autoras do estudo e pesquisadora do Centro de Terapia Celular (CTC) \u2013 um Centro de Pesquisa, Inova\u00e7\u00e3o e Difus\u00e3o (CEPID) da FAPESP instalado na Faculdade de Medicina de Ribeir\u00e3o Preto (FMRP) da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP).<\/p>\n<p>Mas, de acordo com Oliveira, essa terapia s\u00f3 consegue evitar a progress\u00e3o da doen\u00e7a em uma pequena parcela de pacientes. Cerca de um ter\u00e7o dos portadores de esclerose sist\u00eamica evolui para um quadro grave e tem indica\u00e7\u00e3o para o transplante \u2013 ainda considerado tratamento experimental.<\/p>\n<p>\u201cO objetivo \u00e9 zerar o funcionamento do sistema imunol\u00f3gico para que ele pare de agredir as c\u00e9lulas do pr\u00f3prio organismo. Para isso, aplicamos uma quimioterapia agressiva, com doses altas de ciclofosfamida associadas a outra droga chamada globulina antilinfocit\u00e1ria\u201d, explicou Oliveira.<\/p>\n<p>Antes do procedimento, c\u00e9lulas-tronco da medula \u00f3ssea do pr\u00f3prio paciente s\u00e3o coletadas e congeladas. Ap\u00f3s a quimioterapia, esse material \u00e9 reinfundido no organismo para que a produ\u00e7\u00e3o de c\u00e9lulas de defesa seja reiniciada.<\/p>\n<p>Esse tipo de abordagem terap\u00eautica tamb\u00e9m tem sido usado para o tratamento de alguns tipos de c\u00e2ncer, como linfoma, e outras doen\u00e7as autoimunes, entre elas o diabetes tipo 1 (leia mais em<a href=\"http:\/\/agencia.fapesp.br\/16321\" target=\"_blank\">agencia.fapesp.br\/16321<\/a>).<\/p>\n<p>\u201cNormalmente, a mortalidade associada a esse tipo de transplante \u00e9 de 3% a 5%. Mas, no caso de portadores de esclerose sist\u00eamica, ela \u00e9 muito maior, podendo chegar perto de 20% em alguns centros. Um dos objetivos de nosso estudo era descobrir as causas desse alto \u00edndice e os resultados indicam que, em muitos casos, est\u00e3o relacionadas a problemas card\u00edacos\u201d, disse Oliveira.<\/p>\n<p>Em parceria com cientistas da Universidade Northwestern, nos Estados Unidos, o grupo de Ribeir\u00e3o Preto analisou dados de 90 pacientes transplantados entre 2002 e 2011 \u2013 31 deles atendidos no Brasil.<\/p>\n<p>\u201cPor meio dessa an\u00e1lise retrospectiva, vimos que dois ter\u00e7os dos pacientes n\u00e3o tinham anormalidades card\u00edacas e um ter\u00e7o apresentava comprometimento card\u00edaco grave. Observamos que o desfecho do transplante nesse segundo grupo era muito pior\u201d, contou Oliveira.<\/p>\n<p>Segundo a pesquisadora, cinco pacientes morreram durante o procedimento \u2013 quatro deles por causa do cora\u00e7\u00e3o. \u201cAlguns apresentaram piora da fun\u00e7\u00e3o pulmonar sem motivo aparente ap\u00f3s o transplante. Como pulm\u00e3o e cora\u00e7\u00e3o est\u00e3o muito relacionados, acreditamos que a causa seja card\u00edaca\u201d, disse.<\/p>\n<p>A ciclofosfamida \u00e9 uma droga cardiot\u00f3xica, explicou Oliveira. Al\u00e9m disso, o procedimento sobrecarrega o cora\u00e7\u00e3o pelo uso de grandes volumes l\u00edquidos. Essa associa\u00e7\u00e3o de transplante com doen\u00e7a card\u00edaca pr\u00e9via parece aumentar o risco do procedimento, al\u00e9m de deteriorar a fun\u00e7\u00e3o cardiopulmonar p\u00f3s-transplante.<\/p>\n<p>O acompanhamento dos pacientes feito ao longo dos cinco anos seguintes ao transplante mostrou sobrevida de 78% \u2013 oito pessoas morreram em decorr\u00eancia de reca\u00edda da doen\u00e7a. A sobrevida livre de progress\u00e3o foi de 70%.<\/p>\n<p>Julio Voltarelli<\/p>\n<p>Com base nos resultados da investiga\u00e7\u00e3o, os pesquisadores prop\u00f5em que a avalia\u00e7\u00e3o card\u00edaca criteriosa \u2013 que inclui ecocardiograma, eletrocardiograma, cateterismo e resson\u00e2ncia magn\u00e9tica do cora\u00e7\u00e3o \u2013 seja adotada como pr\u00e9-requisito do tratamento de esclerose sist\u00eamica com TCTH.<\/p>\n<p>\u201cO problema muitas vezes passa despercebido. O cora\u00e7\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 comprometido, mas o paciente n\u00e3o apresenta sintomas\u201d, afirmou Oliveira.<\/p>\n<p>A pesquisadora ressaltou, no entanto, que ainda precisam ser feitos novos estudos para determinar precisamente a partir de qual n\u00edvel de dano card\u00edaco o paciente se torna ineleg\u00edvel para o transplante.<\/p>\n<p>\u201cExiste um limite de seguran\u00e7a. Estamos planejando um estudo prospectivo \u2013 tamb\u00e9m em parceria com Northwestern e talvez com centros da Fran\u00e7a e da Inglaterra \u2013 para submeter os pacientes a esses exames e depois acompanh\u00e1-los para ver como evoluem\u201d, contou.<\/p>\n<p>A edi\u00e7\u00e3o on-line da revista\u00a0The Lancet\u00a0de 28 de janeiro trouxe tamb\u00e9m um coment\u00e1rio sobre essa pesquisa assinado por tr\u00eas grandes especialistas brit\u00e2nicos da \u00e1rea: John Snowden, Mohammed Akil e David Kiely.<\/p>\n<p>\u201cTrata-se da maior an\u00e1lise j\u00e1 feita dos efeitos do TCTH em pacientes com esclerose sist\u00eamica. O seguimento de cinco anos ap\u00f3s o transplante permite fazer afirma\u00e7\u00f5es definitivas sobre a efic\u00e1cia do procedimento, pois mostrou 70% de sobrevida livre de recidiva ap\u00f3s cinco anos e melhora significativa nas medi\u00e7\u00f5es feitas em \u00f3rg\u00e3os espec\u00edficos\u201d, destacaram os especialistas.<\/p>\n<p>\u201cEm vista da alta preval\u00eancia de mortes de causa card\u00edaca relacionadas ao tratamento e da possibilidade de doen\u00e7a cardiopulmonar oculta, a avalia\u00e7\u00e3o complementar proposta \u00e9 a abordagem correta para aumentar a seguran\u00e7a\u201d, acrescentaram.<\/p>\n<p>A vers\u00e3o impressa da revista, prevista para ser publicada em fevereiro, deve trazer tamb\u00e9m o obitu\u00e1rio do pesquisador Julio Cesar Voltarelli, um dos autores do estudo que morreu em mar\u00e7o de 2012.<\/p>\n<p>Voltarelli era coordenador do Laborat\u00f3rio de Imunogen\u00e9tica e da Unidade de Transplante de Medula \u00d3ssea do Hospital das Cl\u00ednicas da FMRP-USP e liderou a pesquisa de TCTH no tratamento de doen\u00e7as autoimunes no Brasil.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0Cardiac involvement and treatment-related mortality after non-myeloablative haemopoietic stem-cell transplantation with unselected autologous peripheral blood for patients with systemic sclerosis: a retrospective analysis (doi: 10.1016\/S0140-6736(12)62114-X)\u00a0pode ser lido em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.thelancet.com\/journals\/lancet\/article\/PIIS0140-6736(12)62114-X\/fulltext\" target=\"_blank\">www.thelancet.com\/journals\/lancet\/article\/PIIS0140-6736(12)62114-X\/fulltext<\/a>.<\/p>\n<p>Por Karina Toledo<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para melhor avaliar o risco do transplante de c\u00e9lulas-tronco hematopoi\u00e9ticas (TCTH) em pacientes com esclerose sist\u00eamica, uma avalia\u00e7\u00e3o card\u00edaca minuciosa \u00e9 fundamental, afirmam pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos em\u00a0artigo publicado\u00a0na revista\u00a0The Lancet. 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