{"id":40993,"date":"2020-07-23T15:25:25","date_gmt":"2020-07-23T18:25:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=40993"},"modified":"2020-07-23T23:51:41","modified_gmt":"2020-07-24T02:51:41","slug":"estudo-mostra-como-a-privacao-do-sono-afeta-a-imunidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2020\/estudo-mostra-como-a-privacao-do-sono-afeta-a-imunidade\/40993","title":{"rendered":"Estudo mostra como a priva\u00e7\u00e3o do sono afeta a imunidade"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/imagens\/clima-saude-idoso.jpg\" alt=\"\" width=\"1280\" height=\"720\" class=\"aligncenter size-full wp-image-195971\" srcset=\"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/imagens\/clima-saude-idoso.jpg 1280w, https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/imagens\/clima-saude-idoso-250x140.jpg 250w, https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/imagens\/clima-saude-idoso-400x225.jpg 400w, https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/imagens\/clima-saude-idoso-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/imagens\/clima-saude-idoso-150x85.jpg 150w, https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/imagens\/clima-saude-idoso-696x392.jpg 696w, https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/imagens\/clima-saude-idoso-1068x601.jpg 1068w\" sizes=\"auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><\/p>\n<p>A import\u00e2ncia do sono para o bom funcionamento do <em><strong>sistema imunol\u00f3gico<\/strong><\/em> \u00e9 conhecida, mas pouco se sabe sobre os mecanismos envolvidos. Uma nova pesquisa tem mostrado como diferentes tipos de priva\u00e7\u00e3o de sono interferem nas defesas do organismo.<\/p>\n<p>Para mimetizar situa\u00e7\u00f5es comuns na sociedade, na primeira fase da pesquisa os pesquisadores submeteram volunt\u00e1rios tanto \u00e0 priva\u00e7\u00e3o total por 48 horas \u2013 similar \u00e0 que ocorre com pessoas que trabalham em sistema de plant\u00e3o noturno \u2013 como \u00e0 priva\u00e7\u00e3o seletiva de sono REM (movimento r\u00e1pido de olhos, na sigla em ingl\u00eas), fase do sono em que prevalecem os sonhos, por quatro noites seguidas.<\/p>\n<p>\u201cNas \u00faltimas d\u00e9cadas, houve diminui\u00e7\u00e3o progressiva e importante na m\u00e9dia da dura\u00e7\u00e3o do sono, principalmente na segunda metade da noite, quando prevalece o sono REM\u201d, disse Francieli Ruiz da Silva, autora principal do estudo, feito durante o  na Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp) com Bolsa da FAPESP.<\/p>\n<p>O estudo, orientado pelo professor Sergio Tufik, foi realizado no , um Centro de Pesquisa, Inova\u00e7\u00e3o e Difus\u00e3o (CEPID) apoiado pela FAPESP.<\/p>\n<p>\u201cO objetivo foi avaliar a altera\u00e7\u00e3o no perfil imunol\u00f3gico dos volunt\u00e1rios causada pela falta de sono. Para isso, realizamos leucograma \u2013 exame que mede a quantidade de leuc\u00f3citos no sangue \u2013 antes e depois do experimento\u201d, disse Ruiz.<\/p>\n<p>Ao longo de uma semana, 30 volunt\u00e1rios saud\u00e1veis, entre 18 e 30 anos, permaneceram no laborat\u00f3rio distribu\u00eddos em tr\u00eas grupos. Aqueles do grupo controle dormiram normalmente e tiveram seu padr\u00e3o de sono monitorado por meio do exame de polissonografia.<\/p>\n<p>Os integrantes do grupo submetido \u00e0 priva\u00e7\u00e3o seletiva tamb\u00e9m tiveram o sono monitorado e foram acordados por uma campainha toda vez que o exame indicava a aproxima\u00e7\u00e3o da fase REM.<\/p>\n<p>\u201cA primeira noite foi tranquila, mas \u00e0 medida que a demanda do organismo por sono REM foi se acumulando, foi ficando dif\u00edcil. Esse est\u00e1gio aparecia cada vez mais cedo, efeito conhecido como rebote de sono REM. Na quarta noite, eles mal cochilavam e j\u00e1 entravam na fase REM\u201d, contou Ruiz.<\/p>\n<p>J\u00e1 o grupo da priva\u00e7\u00e3o total manteve-se alerta por 48 horas com a ajuda de videogames, jogos de cartas, internet e eventuais chacoalhadas. Nas tr\u00eas noites seguintes, dormiram normalmente e foram monitorados pela polissonografia para registrar o efeito rebote de sono.<\/p>\n<p>Enquanto o grupo controle n\u00e3o apresentou altera\u00e7\u00e3o no perfil imunol\u00f3gico, como esperado, os volunt\u00e1rios do grupo submetido \u00e0 priva\u00e7\u00e3o total tiveram uma eleva\u00e7\u00e3o no n\u00famero de leuc\u00f3citos, especificamente de neutr\u00f3filos, o primeiro tipo celular que responde \u00e0 maioria das infec\u00e7\u00f5es. Tamb\u00e9m houve aumento de linf\u00f3citos T CD4, respons\u00e1veis pela imunidade adaptativa, espec\u00edfica para cada doen\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cConsiderando que os leuc\u00f3citos desempenham a fun\u00e7\u00e3o de defesa ao primeiro sinal de invas\u00e3o por pat\u00f3genos, observamos que a priva\u00e7\u00e3o total de sono desencadeou um sinal de alerta no organismo. Ele entendeu como uma agress\u00e3o e respondeu a um fantasma\u201d, disse Ruiz.<\/p>\n<p>Essa altera\u00e7\u00e3o foi revertida ap\u00f3s as primeiras 24 horas de recupera\u00e7\u00e3o do sono. \u201cMas, para nossa surpresa, o n\u00famero de linf\u00f3citos n\u00e3o voltou ao normal ap\u00f3s as tr\u00eas noites de recupera\u00e7\u00e3o\u201d, contou.<\/p>\n<p>No grupo privado de sono REM, foi observada uma diminui\u00e7\u00e3o da imunoglobulina A (IgA) circulante no sangue durante todo o per\u00edodo do experimento. Esse efeito permaneceu ap\u00f3s as tr\u00eas noites de recupera\u00e7\u00e3o do sono.<\/p>\n<p>\u201cEssa imunoglobulina, presente na secre\u00e7\u00e3o de mucosas, est\u00e1 diretamente relacionada \u00e0 prote\u00e7\u00e3o contra a invas\u00e3o por pat\u00f3genos. Isso poderia explicar por que a priva\u00e7\u00e3o de sono REM poderia estar relacionada a uma maior suscetibilidade a doen\u00e7as como gripes e resfriados j\u00e1 descrita na literatura\u201d, disse.<\/p>\n<p>Os resultados do experimento foram publicados em  na revista Innate Immunity e apresentados na 23\u00aa Reuni\u00e3o Anual da Associated Professional Sleep Societies, realizada nos Estados Unidos em 2009.<\/p>\n<p>O trabalho tamb\u00e9m foi premiado pela European Federation of Immunological Societies durante o 2\u00ba European Congress of Immunology, realizado na Alemanha no mesmo ano.<\/p>\n<p>Desafio imunol\u00f3gico<\/p>\n<p>Em uma segunda fase da pesquisa, realizada com animais, os pesquisadores do Instituto do Sono investigaram os efeitos da priva\u00e7\u00e3o de sono no desenvolvimento de resposta espec\u00edfica a um desafio imunol\u00f3gico.<\/p>\n<p>\u201cPrecis\u00e1vamos de um est\u00edmulo que desencadeasse uma resposta vigorosa e optamos por um modelo de transplante de pele entre duas linhagens diferentes e geneticamente incompat\u00edveis de camundongos\u201d, disse Ruiz.<\/p>\n<p>Nesse modelo, de acordo com Ruiz, a rejei\u00e7\u00e3o do tecido enxertado pelo organismo do receptor \u00e9 certa. Mas, enquanto os animais do grupo controle levaram entre 8 e 10 dias para expelir o tecido estranho, aqueles submetidos \u00e0 priva\u00e7\u00e3o de sono, seja ela total ou apenas da fase REM, levaram entre 15 e 18 dias.<\/p>\n<p>\u201cIsso representa um aumento de 80% no tempo de sobrevida do tecido, o que equivale ao efeito de drogas imunossupressoras como a ciclosporina\u201d, disse Ruiz.<\/p>\n<p>Para entender o que estava causando o preju\u00edzo na resposta imunol\u00f3gica, os pesquisadores analisaram os \u00f3rg\u00e3os linfoides dos animais e verificaram uma redu\u00e7\u00e3o de 76,4% no n\u00famero de linf\u00f3cito T CD4 no grupo submetido \u00e0 priva\u00e7\u00e3o de sono REM. No grupo que sofreu priva\u00e7\u00e3o total, a queda foi de 34% em rela\u00e7\u00e3o ao grupo controle.<\/p>\n<p>\u201cOs linf\u00f3citos T s\u00e3o essenciais para que o processo de rejei\u00e7\u00e3o aconte\u00e7a. Eles s\u00e3o ativados pelas c\u00e9lulas apresentadoras de ant\u00edgenos (APCs) e, ent\u00e3o, migram dos \u00f3rg\u00e3os linfoides para a regi\u00e3o afetada, onde desencadeiam o processo inflamat\u00f3rio que culmina com a rejei\u00e7\u00e3o\u201d, explicou Ruiz.<\/p>\n<p>As an\u00e1lises mostraram que nos dois grupos houve redu\u00e7\u00e3o de aproximadamente 40% no n\u00famero de linf\u00f3citos T no infiltrado inflamat\u00f3rio do enxerto de pele, ou seja, havia menos c\u00e9lulas de defesa na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Isso pode ser explicado por uma menor express\u00e3o da mol\u00e9cula MHC 2, essencial para a comunica\u00e7\u00e3o entre as APCs e os linf\u00f3citos. Al\u00e9m disso, houve redu\u00e7\u00e3o de 40% na quantidade de receptores para a interleucina 2 (IL-2) na circula\u00e7\u00e3o sangu\u00ednea.<\/p>\n<p>\u201cQuando o linf\u00f3cito migra para a \u00e1rea afetada, precisa se proliferar para atacar o tecido. Para isso libera a IL-2, principal mediador para essa prolifera\u00e7\u00e3o. Portanto, uma menor quantidade desses receptores no sangue indica menor prolifera\u00e7\u00e3o de linf\u00f3citos e preju\u00edzo ao processo de rejei\u00e7\u00e3o\u201d, disse Ruiz.<\/p>\n<p>Para ter certeza de que o poss\u00edvel estresse causado pela priva\u00e7\u00e3o de sono n\u00e3o estava por tr\u00e1s da imunossupress\u00e3o, os pesquisadores avaliaram os n\u00edveis de corticosterona no sangue dos animais.<\/p>\n<p>\u201cEsse horm\u00f4nio, nos camundongos, \u00e9 o equivalente ao cortisol em humanos. Como os n\u00edveis n\u00e3o estavam mais elevados nos roedores privados de sono do que no grupo controle, acreditamos que o estresse n\u00e3o tenha interferido nos resultados\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>O pr\u00f3ximo passo da pesquisa \u00e9 investigar por que a priva\u00e7\u00e3o de sono diminui a express\u00e3o de MHC 2 e a prolifera\u00e7\u00e3o dos linf\u00f3citos. Al\u00e9m disso, Ruiz pretende investigar, durante o , tamb\u00e9m com Bolsa da FAPESP, o efeito da priva\u00e7\u00e3o de sono na imunidade de pessoas que trabalham em turno e trocam o dia pela noite.<\/p>\n<p>\u201cA literatura indica que o sono durante o dia n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o reparador como o noturno. Nossa inten\u00e7\u00e3o \u00e9 vacinar esses volunt\u00e1rios e ver como a invers\u00e3o dos per\u00edodos de descanso interfere na imuniza\u00e7\u00e3o\u201d, disse.<\/p>\n<p>Os resultados dos experimentos com camundongos realizados durante o doutorado de Ruiz foram apresentados na 27\u00aa Reuni\u00e3o Anual da Federa\u00e7\u00e3o de Sociedades de Biologia experimental (FeSBE), realizada em agosto.<\/p>\n<p>Por Karina Toledo<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A import\u00e2ncia do sono para o bom funcionamento do sistema imunol\u00f3gico \u00e9 conhecida, mas pouco se sabe sobre os mecanismos envolvidos. 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