{"id":40024,"date":"2012-07-30T11:43:10","date_gmt":"2012-07-30T14:43:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=40024"},"modified":"2012-07-30T11:43:10","modified_gmt":"2012-07-30T14:43:10","slug":"formacao-de-professores-qualificados-passa-a-ser-a-prioridade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2012\/formacao-de-professores-qualificados-passa-a-ser-a-prioridade\/40024","title":{"rendered":"Forma\u00e7\u00e3o de professores qualificados passa a ser a prioridade"},"content":{"rendered":"<p>Seguindo a tend\u00eancia mundial, o Brasil tem passado por um processo mete\u00f3rico de expans\u00e3o do ensino superior. Mas a crescente universaliza\u00e7\u00e3o tem um efeito colateral grave: a queda da qualidade, de acordo com Liz Reisberg, do Boston College (Estados Unidos). Segundo Reisberg, nesse contexto, a <em><strong>forma\u00e7\u00e3o de professores<\/strong><\/em> qualificados passa a ser a prioridade n\u00famero um para pa\u00edses como o Brasil.<\/p>\n<p>Pesquisadora do Centro para Educa\u00e7\u00e3o Superior Internacional (CIHE, na sigla em ingl\u00eas) do Boston College, Reisberg \u00e9 considerada uma das principais especialistas em quest\u00f5es relacionadas \u00e0 internacionaliza\u00e7\u00e3o, acesso, equidade e qualidade e na reforma do ensino superior na Am\u00e9rica Latina. Sua experi\u00eancia no continente teve in\u00edcio durante o doutorado, sobre novas estrat\u00e9gias para aprimorar a qualidade do ensino superior na Argentina.<\/p>\n<p>Consultora de diversas universidades, governos e ag\u00eancias internacionais, Reisberg foi coautora do relat\u00f3rio <a href=\"http:\/\/unesdoc.unesco.org\/images\/0018\/001832\/183219e.pdf\" target=\"_blank\">Tend\u00eancias Globais da Educa\u00e7\u00e3o Superior: rastreando uma revolu\u00e7\u00e3o acad\u00eamica<\/a>, publicado em 2009 pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Educa\u00e7\u00e3o, a Ci\u00eancia e a Cultura (Unesco).<\/p>\n<p>Entre os dias 18 e 21 de julho, Reisberg participou da organiza\u00e7\u00e3o e das atividades da <a href=\"http:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/noticias\/2012\/07\/20\/sucesso-da-escola-zeferino-e-comemorado-pela-organizacao\" target=\"_blank\">1\u00aa Escola Zeferino Vaz de Educa\u00e7\u00e3o Superior<\/a> (eZVes), realizada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O evento reuniu dirigentes do ensino superior e alguns dos principais especialistas do mundo na \u00e1rea, com a finalidade de analisar e debater as tend\u00eancias e desafios desse setor educacional.<\/p>\n<p>Em S\u00e3o Paulo, Reisberg concedeu a seguinte entrevista \u00e0 Ag\u00eancia FAPESP.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 O que caracteriza de forma mais marcante as tend\u00eancias globais do ensino superior?<br \/>\nLiz Reisberg \u2013 \u00c0 medida que passamos de uma sociedade de trabalhos manuais para uma sociedade tecnol\u00f3gica, o ensino superior ganhou mais import\u00e2ncia e mais responsabilidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 inova\u00e7\u00e3o e ao desenvolvimento econ\u00f4mico. Aumentou muito a mobilidade de estudantes e pesquisadores e a coopera\u00e7\u00e3o internacional entre as institui\u00e7\u00f5es. Mas talvez a caracter\u00edstica mais marcante dessas mudan\u00e7as, especialmente na \u00faltima d\u00e9cada, seja uma tend\u00eancia \u00e0 expans\u00e3o e universaliza\u00e7\u00e3o do ensino superior. Pa\u00edses como Brasil, \u00cdndia e China est\u00e3o no centro das aten\u00e7\u00f5es, porque s\u00e3o sociedades que se modernizaram e ganharam muita import\u00e2ncia na economia internacional, gerando uma demanda muito grande de m\u00e3o de obra qualificada. O ensino superior nesses pa\u00edses se tornou uma prioridade urgente e a expans\u00e3o das universidades nesses lugares tem sido imensa, especialmente no Brasil. S\u00f3 que essa expans\u00e3o gerou tamb\u00e9m um grande problema: inserir mais gente no ensino superior tem um impacto importante nos custos e na qualidade desse ensino.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 \u00c9 poss\u00edvel conciliar expans\u00e3o e qualidade?<br \/>\nLiz Reisberg \u2013 \u00c9 muito dif\u00edcil. Acesso, custo e qualidade s\u00e3o fatores estreitamente correlacionados, n\u00e3o se pode alterar um deles sem ocorrer impactos sobre os outros. \u00c9 preciso encontrar um equil\u00edbrio, mas isso n\u00e3o tem acontecido. Brasil, \u00cdndia e China expandiram muito rapidamente e a qualidade caiu demais. \u00c9 muito f\u00e1cil controlar o equil\u00edbrio entre expans\u00e3o, custo e qualidade quando s\u00f3 se tem 5% ou 6% da popula\u00e7\u00e3o com idade universit\u00e1ria inserida no sistema de ensino superior. Mas quando se est\u00e1 na situa\u00e7\u00e3o de grande parte dos pa\u00edses hoje, com 40% ou 50% dos jovens nas universidades, a dificuldade para encontrar esse equil\u00edbrio se torna um pesadelo. No Brasil o que se tem feito \u00e9 expandir, em primeiro lugar, enquanto a preocupa\u00e7\u00e3o com a qualidade vem a reboque.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Esse impacto da expans\u00e3o na qualidade se deu tanto no campo do ensino como no campo da pesquisa?<br \/>\nLiz Reisberg \u2013 Estou me referindo ao lado educacional. A pesquisa est\u00e1 restrita a um n\u00famero muito pequeno de institui\u00e7\u00f5es. Apesar da enorme expans\u00e3o universit\u00e1ria, o Brasil provavelmente n\u00e3o aumentou seu n\u00famero de pesquisadores no mesmo ritmo. O pa\u00eds tem um grupo de elite produzindo pesquisa de classe mundial, um grupo concentrado, e muito poucas universidades. Mas n\u00e3o acho que a qualidade da pesquisa est\u00e1 afetada pela expans\u00e3o. O pa\u00eds precisa ainda aumentar o n\u00famero de pesquisadores.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Por que a expans\u00e3o exerce tanto impacto negativo na qualidade do ensino? H\u00e1 falta de professores?<br \/>\nLiz Reisberg \u2013 \u00c9 muito mais f\u00e1cil expandir o n\u00famero de estudantes que aumentar o n\u00famero de professores qualificados. Para produzir um professor novo, \u00e9 preciso pelo menos seis anos, normalmente oito anos, \u00e0s vezes dez anos. \u00c9 um processo muito longo. Podemos aumentar muito o n\u00famero de estudantes em um ano, com uma decis\u00e3o pol\u00edtica. Acho que por tr\u00e1s do problema da qualidade \u2013 em particular no Brasil, China e \u00cdndia \u2013 temos um lapso entre o n\u00famero crescente de estudantes e o n\u00famero de professores qualificados. \u00c9 um imenso desafio. Vejo o programa Ci\u00eancia Sem Fronteiras como uma tentativa de aumentar o n\u00famero de professores qualificados, mas \u00e9 preciso mais. A China est\u00e1 fazendo algo semelhante, mas n\u00e3o na mesma escala, o que \u00e9 surpreendente, porque eles precisam ainda mais de professores qualificados.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 O que poderia ser modificado na maneira como s\u00e3o formados os professores?<br \/>\nLiz Reisberg \u2013 Acho que h\u00e1 algumas solu\u00e7\u00f5es criativas que o Brasil n\u00e3o est\u00e1 aproveitando. Uma delas \u00e9 abrir mais espa\u00e7o para professores que tenham apenas o mestrado, mas n\u00e3o doutorado, formando equipes com apenas um professor doutor, que trabalharia como mentor. Esse professor s\u00eanior poderia, ao mesmo tempo, dirigir e avaliar a atua\u00e7\u00e3o dos outros docentes em sua atividade de ensino e ajud\u00e1-los a capacit\u00e1-los como pesquisadores. At\u00e9 onde sei, o Brasil n\u00e3o est\u00e1 usando esse recurso. Al\u00e9m de enviar gente para fora do pa\u00eds ou para programas de doutoramento, \u00e9 importante investir na capacita\u00e7\u00e3o dos professores que j\u00e1 t\u00eam mestrado, usando a qualifica\u00e7\u00e3o dos professores doutores como guia.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 \u00c9 poss\u00edvel elevar a qualidade do ensino ao n\u00edvel da pesquisa feita no Brasil?<br \/>\nLiz Reisberg \u2013 Sim, contanto que as prioridades sejam repensadas. Todo sistema de ensino superior tem pesquisadores, mas n\u00e3o \u00e9 correto pensar que todos os professores precisam ser excelentes pesquisadores. Eles precisam ter boas habilidades de pesquisa apenas para transmitir essas habilidades aos alunos, mas n\u00e3o \u00e9 todo professor que precisa necessariamente fazer pesquisa importante. O que precisamos \u00e9 ter bons professores. Ter bons professores \u00e9 mais importante que ter bons pesquisadores.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Por qu\u00ea?<br \/>\nLiz Reisberg \u2013 Um dos problemas que discutimos no workshop na Unicamp foi que a maior parte das pessoas que v\u00e3o \u00e0 universidade, no Brasil, est\u00e1 apenas em busca de inser\u00e7\u00e3o em uma carreira profissional. Formam-se muito mais profissionais do que pesquisadores. Esses estudantes precisam de ensino de excel\u00eancia. S\u00f3 que no Brasil o sistema recompensa apenas os bons pesquisadores, mas n\u00e3o recompensa nem incentiva os bons professores. Na maior parte dos pa\u00edses ocorre o mesmo: os docentes s\u00e3o avaliados pela quantidade de pesquisa que produzem. Esquecem que a maior parte dos alunos precisa exatamente de excel\u00eancia no ensino. Repito: nem todos os professores precisam ser \u00f3timos pesquisadores. \u00c9 preciso dar mais \u00eanfase em cultivar a excel\u00eancia no ensino. Esse \u00e9 um novo movimento no mundo, uma tend\u00eancia.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Para estimular a excel\u00eancia do ensino, ent\u00e3o, \u00e9 preciso repensar todo o sistema de ensino superior?<br \/>\nLiz Reisberg \u2013 N\u00e3o necessariamente. Muita coisa pode ser feita isoladamente. Por exemplo, durante o workshop em Campinas, o professor Peter Dourmashkin falou sobre a experi\u00eancia de ensinar F\u00edsica no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Eles perceberam que muitos estudantes no primeiro ano fracassaram, ou simplesmente desistiram da carreira, alegando dificuldades. Peter e seus colegas descobriram que o problema n\u00e3o era que a f\u00edsica era muito dif\u00edcil, mas que estava sendo mal ensinada. Tiveram que mudar completamente a maneira de ensinar e obtiveram sucesso. Tratava-se de uma situa\u00e7\u00e3o pela qual todos j\u00e1 passamos: temos um excelente pesquisador ensinando ci\u00eancia, mas talvez ele seja um p\u00e9ssimo professor. Isso desilude muitos estudantes. No MIT, uma das principais institui\u00e7\u00f5es cient\u00edficas do mundo, eles admitiram: n\u00e3o estamos fazendo um bom trabalho de ensino. Ensinar, para mim, \u00e9 de maneira geral uma atividade criticamente subvalorizada nas universidades, mas reconhecer o problema j\u00e1 \u00e9 um grande passo.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 A senhora disse que nem todo professor precisa ser um grande pesquisador. Todas as boas universidades precisam se dedicar \u00e0 pesquisa?<br \/>\nLiz Reisberg \u2013 Precisamos parar de pensar que todas as universidades se tornem institui\u00e7\u00f5es de excel\u00eancia em pesquisa e come\u00e7ar a pensar em um sistema de classe mundial. Precisamos desenhar sistemas nacionais para abordar uma gama mais ampla de necessidades para a educa\u00e7\u00e3o superior. Nem \u00e9 preciso que o Brasil invista s\u00f3 em universidades. Seria importante investir tamb\u00e9m em um n\u00edvel universit\u00e1rio mais t\u00e9cnico, de curto prazo. No Brasil, acho, h\u00e1 um grande lapso entre a escola secund\u00e1ria e a universidade. Se tiv\u00e9ssemos mais desses programas, talvez fosse poss\u00edvel atenuar essa lacuna e dar a esses jovens as habilidades que eles n\u00e3o tiveram na escola secund\u00e1ria.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Qual sua opini\u00e3o sobre o vestibular como sistema de acesso \u00e0 universidade?<br \/>\nLiz Reisberg \u2013 \u00c9 problem\u00e1tico, mas n\u00e3o conhe\u00e7o nenhum pa\u00eds que resolveu isso. O Enem poderia ser uma solu\u00e7\u00e3o interessante, mas o problema \u00e9 que acaba privilegiando os estudantes de escolas privadas, que t\u00eam melhor qualidade. \u00c9 um padr\u00e3o de qualidade interessante para selecionar os alunos, mas gera um problema de equidade. A China tem um exame nacional com foco no m\u00e9rito, o que resolve o problema da equidade. Mas a competi\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o acirrada e o estresse \u00e9 t\u00e3o grande \u2013 os candidatos chegam a estudar 13 horas por dia \u2013 que o fracasso muitas vezes leva ao suic\u00eddio. N\u00e3o acho que seja uma boa ideia. \u00c9 justo em rela\u00e7\u00e3o ao m\u00e9rito, mas destr\u00f3i a sa\u00fade mental das pessoas. \u00c9 realmente muito dif\u00edcil pensar em uma alternativa. Gosto muito do que a Unicamp est\u00e1 fazendo como o ProFis [Programa de Forma\u00e7\u00e3o Interdisciplinar Superior].<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Por que a senhora admira o ProFis?<br \/>\nLiz Reisberg \u2013 Trata-se de um curso piloto voltado para estudantes que cursaram o ensino m\u00e9dio em escolas p\u00fablicas de Campinas. Os estudantes s\u00e3o selecionados pelas notas do Enem e recebem uma vis\u00e3o integrada das v\u00e1rias \u00e1reas, por dois anos. Os que obt\u00eam sucesso podem ingressar na Unicamp sem vestibular. \u00c9 um experimento muito interessante. \u00c9 uma maneira de diminuir a lacuna entre a escola secund\u00e1ria e a universidade tamb\u00e9m. Acho que n\u00e3o \u00e9 perfeito, mas d\u00e1 mais acesso \u00e0 oportunidade de entrar uma universidade de qualidade. \u00c9 uma alternativa muito inovadora que n\u00e3o requer diminui\u00e7\u00e3o da qualidade.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 A privatiza\u00e7\u00e3o, a terceiriza\u00e7\u00e3o, a cobran\u00e7a de taxas e mensalidades em universidades p\u00fablicas foram consideradas pelo relat\u00f3rio da Unesco como tend\u00eancias. No Brasil h\u00e1 grande resist\u00eancia a isso. Qual sua opini\u00e3o sobre essa tens\u00e3o?<br \/>\nLiz Reisberg \u2013 \u00c9 uma quest\u00e3o internacional e ningu\u00e9m tem uma resposta ideal para isso tamb\u00e9m. Achamos que, em longo prazo, ter um bom sistema de educa\u00e7\u00e3o superior gratuito n\u00e3o \u00e9 algo sustent\u00e1vel. \u00c9 invi\u00e1vel manter esse sistema para sempre, especialmente com a expans\u00e3o. No Brasil, h\u00e1 uma forte cultura contr\u00e1ria \u00e0 cobran\u00e7a. A gratuidade \u00e9 vista como um direito que n\u00e3o pode ser retirado. Mas n\u00e3o se trata, nesse caso, de um dogma neoliberal: \u00e9 uma concep\u00e7\u00e3o equivocada afirmar que a universidade tem que ser gratuita, pelo simples fato de que nada \u00e9 gratuito. A quest\u00e3o \u00e9 quem est\u00e1 pagando. A ideia da gratuidade \u00e9 uma armadilha. Adoraria que a educa\u00e7\u00e3o fosse gratuita, mas isso \u00e9 insustent\u00e1vel do ponto de vista econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Dos sistemas existentes, qual poderia ser apontado como modelo?<br \/>\nLiz Reisberg \u2013 Como eu disse, nenhum \u00e9 ideal. Mas a Austr\u00e1lia tem um sistema do qual eu gosto muito. Os estudantes s\u00e3o bastante subsidiados, mas pagam algo de acordo com a renda familiar. Ou podem conseguir um empr\u00e9stimo e pagar de volta. Mas, diferentemente dos Estados Unidos \u2013 onde todos precisam ressarcir o investimento no final, com juros \u2013, na Austr\u00e1lia o pagamento \u00e9 mensal e nunca pode superar 4% da renda do indiv\u00edduo.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 As universidades t\u00eam buscado a internacionaliza\u00e7\u00e3o. H\u00e1 algo que pode ser feito para potencializar esse esfor\u00e7o?<br \/>\nLiz Reisberg \u2013 Reconheceu-se que \u00e9 imposs\u00edvel hoje viver em um universo restrito ao local e aumentaram muito as coopera\u00e7\u00f5es internacionais e interc\u00e2mbio de estudantes e pesquisadores. Uma tend\u00eancia, a partir de agora, \u00e9 investir em experi\u00eancias internacionais de per\u00edodo mais curto. Desenvolver programas que possibilitem participa\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas em programas no exterior. Pode ser por duas semanas, ou um m\u00eas, durante as f\u00e9rias. Para um estudante norte-americano, por exemplo, h\u00e1 uma grande diferen\u00e7a entre estudar antropologia em um livro e passar duas semanas no meio da floresta peruana. \u00c9 algo que tem um custo, mas n\u00e3o se compara ao dos programas mais longos. Acho que o Brasil poderia investir mais nessa dimens\u00e3o da internacionaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Com as novas tecnologias o acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o ficou muito f\u00e1cil e isso poderia abrir espa\u00e7o para uma mudan\u00e7a no conte\u00fado do que \u00e9 ensinado na universidade. Essa mudan\u00e7a est\u00e1 ocorrendo?<br \/>\nLiz Reisberg \u2013 Come\u00e7a a ocorrer, mas est\u00e1 ainda muito longe do que seria satisfat\u00f3rio. No Brasil, me parece que h\u00e1 uma \u00eanfase grande demais no conte\u00fado. O professor quer passar tudo o que sabe sobre f\u00edsica, psicologia, matem\u00e1tica. \u00c9 o modelo que fazia sentido h\u00e1 100 anos. O professor passava, na classe, essa informa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o podia ser conseguida em outro lugar. Agora, podemos encontr\u00e1-la no Google. As pessoas andam com seus computadores no bolso. Por que gastar horas de aula com esse tipo de informa\u00e7\u00e3o? Seria melhor dedicar esse tempo ao aprimoramento do esp\u00edrito cr\u00edtico, \u00e0 an\u00e1lise, incentivar criatividade, pensamento, colabora\u00e7\u00e3o. Dependendo da \u00e1rea, calcula-se que pelo menos 20% do que voc\u00ea aprende na gradua\u00e7\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 obsoleto quando voc\u00ea chega \u00e0 p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Falamos muito nisso no semin\u00e1rio e aparentemente esse movimento j\u00e1 come\u00e7ou no Brasil.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Sobre a quest\u00e3o da avalia\u00e7\u00e3o da pesquisa na universidade: como encontrar o equil\u00edbrio entre a quantidade de publica\u00e7\u00f5es e a qualidade?<br \/>\nLiz Reisberg \u2013 H\u00e1 uma grande press\u00e3o por publicar em alguns pa\u00edses, incluindo o Brasil. Se s\u00f3 recompensamos as pessoas pelo n\u00famero de artigos publicados, estamos estimulando a pesquisa de baixa qualidade e at\u00e9 mesmo estimulando a fraude dos peri\u00f3dicos que aceitam pagamento para publicar. Trata-se de uma pervers\u00e3o do sistema, semelhante \u00e0 quest\u00e3o do equil\u00edbrio entre ser bom pesquisador e ser bom professor. Precisamos nos preocupar em que atitude o sistema est\u00e1 recompensando e como essa escolha influencia a qualidade.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Para melhorar a qualidade da pesquisa \u00e9 preciso criar bons mecanismos de avalia\u00e7\u00e3o. Como fazer isso?<br \/>\nLiz Reisberg \u2013 Se eu tivesse essa resposta, sem d\u00favida ganharia o pr\u00eamio Nobel.<\/p>\n<p>Por F\u00e1bio de Castro<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Seguindo a tend\u00eancia mundial, o Brasil tem passado por um processo mete\u00f3rico de expans\u00e3o do ensino superior. Mas a crescente universaliza\u00e7\u00e3o tem um efeito colateral grave: a queda da qualidade, de acordo com Liz Reisberg, do Boston College (Estados Unidos). 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