{"id":3807,"date":"2009-06-25T19:07:19","date_gmt":"2009-06-25T23:07:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=3807"},"modified":"2009-06-25T19:07:19","modified_gmt":"2009-06-25T23:07:19","slug":"sons-da-floresta-revelam-biodiversidade-amazonica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2009\/sons-da-floresta-revelam-biodiversidade-amazonica\/3807","title":{"rendered":"Sons da floresta revelam biodiversidade amaz\u00f4nica"},"content":{"rendered":"<p>Atrav\u00e9s dos ouvidos, pesquisadores na Amaz\u00f4nia est\u00e3o fazendo descobertas sobre a real biodiversidade da floresta amaz\u00f4nica que passaram despercebidas aos olhos de outros cientistas que se dedicaram a estud\u00e1-la. Utilizando a bioac\u00fastica, uma ferramenta tida como uma das mais \u00fateis para reconhecer e identificar na natureza a diversidade de aves e outros animais que emitem sons, eles est\u00e3o constatando que a variedade de esp\u00e9cies do bioma amaz\u00f4nico \u00e9 muito maior do que se imaginava.<\/p>\n<p>&#8220;Onde n\u00f3s ach\u00e1vamos, pela observa\u00e7\u00e3o visual, que tinha uma esp\u00e9cie s\u00f3, quando estimulamos nossa aten\u00e7\u00e3o pelo som descobrimos que tinham diversas que foram cegamente ignoradas, porque em uma primeira impress\u00e3o pareciam todas iguais&#8221;, afirma o ornit\u00f3logo e curador da cole\u00e7\u00e3o de aves do Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz\u00f4nia (Inpa), Mario Cohn-Haft. Ele abordar\u00e1 esse assunto em uma confer\u00eancia durante a 61\u00aa Reuni\u00e3o Anual da SBPC &#8211; evento que a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia (SBPC) promover\u00e1 de 12 a 17 de julho em Manaus (AM).<\/p>\n<p>De acordo com o pesquisador, que estuda os padr\u00f5es de distribui\u00e7\u00e3o de aves amaz\u00f4nicas, as pesquisas sobre a biodiversidade da Amaz\u00f4nia foram iniciadas utilizando a vis\u00e3o, o sentido humano mais desenvolvido, para identificar as esp\u00e9cies pelos seus aspectos morfol\u00f3gicos &#8211; as formas e cores. A partir da d\u00e9cada de 50, com o surgimento de potentes gravadores de som port\u00e1teis e de an\u00e1lise visual dele &#8211; denominada an\u00e1lise ac\u00fastica, em que o som \u00e9 convertido em um gr\u00e1fico, o sonograma -, se tornou poss\u00edvel tamb\u00e9m utilizar o estudo do som para catalogar a diversidade e variabilidade das esp\u00e9cies na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>&#8220;Os sons est\u00e3o possibilitando identificar a diversidade biol\u00f3gica da floresta amaz\u00f4nica, que muitas vezes \u00e9 ofuscada pelos aspectos visuais. Os animais produzem sons \u00fanicos e singulares. E o estudo desse repert\u00f3rio sonoro permite identificar as esp\u00e9cies e descrever a varia\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica delas por meio da mudan\u00e7a do som que elas fazem de um lugar para outro&#8221;, explica Cohn-Haft.<\/p>\n<p>Diferen\u00e7as gen\u00e9ticas &#8211; O uirapuru de algumas partes da Amaz\u00f4nia, por exemplo, n\u00e3o canta igual aos outros integrantes de sua esp\u00e9cie que podem ser encontrados em outros lugares da regi\u00e3o. O que caracteriza uma varia\u00e7\u00e3o de som de indiv\u00edduos da mesma esp\u00e9cie que, segundo o pesquisador, tem duas poss\u00edveis explica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A primeira \u00e9 que nesses diferentes pontos da regi\u00e3o amaz\u00f4nica o pesquisador, em trabalho de campo, pode ter amostrado apenas uma parte do repert\u00f3rio de sons dos p\u00e1ssaros que, na verdade, podem fazer os mesmos sons em qualquer lugar, induzindo o observador a concluir erroneamente que isso representa uma varia\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica da esp\u00e9cie. &#8220;\u00c9 como se ao ouvirmos pessoas dizendo &#8220;bom-dia&#8221; em lugar e &#8220;boa-noite&#8221; em outro, conclu\u00edssemos que elas falam idiomas diferentes. Mas se pass\u00e1ssemos mais tempo, pelo menos um dia e uma noite, nesses dois lugares, descobrir\u00edamos que elas falam as duas frases em ambas as partes&#8221;, explica o pesquisador.<\/p>\n<p>A segunda hip\u00f3tese \u00e9 que o som emitido por uma popula\u00e7\u00e3o desta ave em um determinado ponto da Amaz\u00f4nia \u00e9, de fato, diferente do produzido por indiv\u00edduos da mesma esp\u00e9cie localizados em outros locais da regi\u00e3o amaz\u00f4nica. O que est\u00e1 dando origem \u00e0 outra grande descoberta. &#8220;Estamos descobrindo que, quando h\u00e1 uma diferen\u00e7a de som de um local para outro de uma popula\u00e7\u00e3o da mesma esp\u00e9cie, tamb\u00e9m h\u00e1 uma diferen\u00e7a gen\u00e9tica. O animal \u00e9 outro&#8221;, revela Cohn-Haft.<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o do especialista, o estudo do som est\u00e1 se tornando uma ferramenta \u00fatil e barata para reconhecer diferen\u00e7as gen\u00e9ticas em popula\u00e7\u00f5es de animais. E, em fun\u00e7\u00e3o dessa proje\u00e7\u00e3o, est\u00e1 sendo aplicado no estudo de identifica\u00e7\u00e3o de diversas novas esp\u00e9cies de animais. &#8220;A bioac\u00fastica tem um potencial muito grande e j\u00e1 \u00e9 muito explorada em outras partes do mundo. Hoje em dia tem gente trabalhando com sons de quel\u00f4nios &#8211; tartarugas &#8211; em florestas, al\u00e9m de anuros &#8211; sapos &#8211; e at\u00e9 insetos. E n\u00f3s estamos trabalhando pesado com isso em aves&#8221;, conta.<\/p>\n<p>M\u00fasica da floresta &#8211; Segundo Cohn-Haft, o som exerce um papel crucial de comunica\u00e7\u00e3o para os animais. Eles o utilizam para enviar mensagens a outro indiv\u00edduo, normalmente da mesma esp\u00e9cie. Mas ao contr\u00e1rio do que imagina um observador humano desatento que, ao se embrenhar em uma mata ouve uma prolifera\u00e7\u00e3o de barulhos produzidos por diversos animais e acredita que s\u00e3o aleat\u00f3rios, os sons da floresta t\u00eam uma ordem e estrutura pr\u00f3prias.<\/p>\n<p>&#8220;Os animais t\u00eam cuidado para escolher o momento, a freq\u00fc\u00eancia, o timbre &#8211; se agudo ou grave &#8211; e a repetitividade do som, para n\u00e3o perder o esfor\u00e7o e desperdi\u00e7ar a energia para se comunicar. Porque o objetivo \u00e9 que o som seja ouvido por algu\u00e9m&#8221;, diz.<\/p>\n<p>O pesquisador compara os sons da floresta a uma orquestra, em que os animais, tal como os m\u00fasicos instrumentistas, executam partes e fazem vozes espec\u00edficas que se completam, formando uma sinfonia. &#8220;N\u00e3o \u00e9 cacofonia, uma barulheira s\u00f3. Tem uma ordem. E o resultado a gente s\u00f3 percebe que \u00e9 muito bonito&#8221;, avalia o especialista, ressaltando que n\u00e3o foi por acaso que grandes compositores criaram obras baseadas nos sons dos animais, como o maestro brasileiro Carlos Gomes, que comp\u00f4s &#8220;O canto do uirapuru&#8221;.<\/p>\n<p>Nicho sonoro &#8211; O tipo de ambiente, conta o pesquisador, tamb\u00e9m afeta o som produzido pelos animais. Em ambientes de floresta densa, o timbre de voz deles tende a ser mais grave para o som se propagar melhor no meio da vegeta\u00e7\u00e3o. J\u00e1 em ambientes de mata aberta ou nas pr\u00f3prias copas das \u00e1rvores, a propaga\u00e7\u00e3o do som n\u00e3o sofre a interfer\u00eancia da vegeta\u00e7\u00e3o, e os barulhos produzidos pelos animais podem ser de ondas curtas &#8211; mais agudo. Com base nisso, as altera\u00e7\u00f5es ambientais promovidas pelo homem, como o desmatamento, podem afetar em curto prazo o sucesso de comunica\u00e7\u00e3o sonora dos animais e, em longo prazo, a sobreviv\u00eancia de organismos j\u00e1 adaptados ao ambiente que sofreu mudan\u00e7as.<\/p>\n<p>Da mesma forma que existe um conceito de nicho ecol\u00f3gico, em que uma floresta \u00e9 dividida em partes onde cada esp\u00e9cie desempenha uma determinada fun\u00e7\u00e3o em seu habitat, nela tamb\u00e9m h\u00e1 nichos sonoros. Essas caracter\u00edsticas de timbre, hor\u00e1rio, repetitividade dos sons e a escolha do momento em que o p\u00e1ssaro canta s\u00e3o maneiras de evitar que sua voz suma em meio a outros barulhos e dividir o ambiente ac\u00fastico, garantindo que seu som seja ouvido.<\/p>\n<p>Mas o que exatamente cada animal quer comunicar com seus v\u00e1rios sons \u00e9 outro assunto, que tamb\u00e9m j\u00e1 est\u00e1 sendo objeto de pesquisa. &#8220;Que eles querem ser ouvidos quando vocalizam e que usam diferentes sons em diversos contextos, isso n\u00f3s j\u00e1 sabemos. Mas o que est\u00e3o dizendo um para o outro, s\u00f3 estamos come\u00e7ando a entender&#8221;, antecipa Cohn-Haft.<\/p>\n<p>Servi\u00e7o: A palestra &#8220;Os Sons da Floresta&#8221;, do bi\u00f3logo Mario Cohn-Haft, ser\u00e1 realizada no pr\u00f3ximo dia 14 de julho, \u00e0s 10h30, durante a 61\u00aa Reuni\u00e3o Anual da SBPC. O evento, cujo tema \u00e9 &#8220;Amaz\u00f4nia: Ci\u00eancia e Cultura&#8221;, ser\u00e1 realizado a partir do dia 12 em Manaus (AM), no campus da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Contar\u00e1 com 175 atividades, entre confer\u00eancias, simp\u00f3sios, mesas-redondas, grupos de trabalho, encontros e sess\u00f5es especiais, al\u00e9m de apresenta\u00e7\u00e3o de trabalhos cient\u00edficos e minicursos. Veja a programa\u00e7\u00e3o em www.sbpcnet.org.br\/manaus.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Atrav\u00e9s dos ouvidos, pesquisadores na Amaz\u00f4nia est\u00e3o fazendo descobertas sobre a real biodiversidade da floresta amaz\u00f4nica que passaram despercebidas aos olhos de outros cientistas que se dedicaram a estud\u00e1-la. 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