{"id":35582,"date":"2011-06-28T10:09:18","date_gmt":"2011-06-28T14:09:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=35582"},"modified":"2011-06-28T10:09:18","modified_gmt":"2011-06-28T14:09:18","slug":"melhor-que-morfina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2011\/melhor-que-morfina\/35582","title":{"rendered":"Melhor que morfina"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-34747\" title=\"vacina\" src=\"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/imagens\/vacina1.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"193\" srcset=\"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/imagens\/vacina1.jpg 300w, https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/imagens\/vacina1-250x160.jpg 250w, https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/imagens\/vacina1-150x96.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>Desenvolver um <em><strong>analg\u00e9sico que seja efetivo como a morfina<\/strong><\/em>, mas que n\u00e3o provoque seda\u00e7\u00e3o nem efeitos colaterais, podendo ser aplic\u00e1vel at\u00e9 mesmo para dores cr\u00f4nicas por longos per\u00edodos de tempo. Esse \u00e9 o objetivo central das pesquisas de Terrance Snutch, professor do Centro de Pesquisas do C\u00e9rebro da Universidade de British Columbia (Canad\u00e1).<\/p>\n<p>Os alvos terap\u00eauticos escolhidos por Snutch para essa tarefa s\u00e3o os canais de c\u00e1lcio \u2013 \u201ct\u00faneis\u201d formados por prote\u00ednas nas membranas das c\u00e9lulas, que permitem o tr\u00e2nsito de \u00edons de c\u00e1lcio.<\/p>\n<p>H\u00e1 alguns anos, os cientistas descobriram que esses canais est\u00e3o ligados \u00e0s vias de sinaliza\u00e7\u00e3o da dor. A estrat\u00e9gia consiste em bloque\u00e1-los, impedindo que o sinal da dor chegue ao c\u00e9rebro. A nova droga bloqueadora de canais de c\u00e1lcio dever\u00e1 ser efetiva at\u00e9 em dores neurop\u00e1ticas cr\u00f4nicas \u2013 as \u201cdores fantasma\u201d que podem ser sentidas mesmo em membros amputados.<\/p>\n<p>Especialista em neurobiologia molecular, Snutch estuda o tema h\u00e1 anos e foi o primeiro a descrever a base molecular para os canais de c\u00e1lcio nos sistemas nervoso, end\u00f3crino e cardiovascular. Possui diversas patentes relacionadas a interven\u00e7\u00f5es nos canais de c\u00e1lcio.<\/p>\n<p>At\u00e9 agora, nenhuma droga tem os canais de c\u00e1lcio como alvos diretos. Mas o laborat\u00f3rio de Snutch pretende mudar isso em breve. Depois de clonar pela primeira vez os genes que codificam os canais de c\u00e1lcio de tipo N, em 1992, o cientista montou uma empresa spin off, em 1998, e conseguiu levantar recursos para os primeiros testes cl\u00ednicos, a partir de 2004, com uma droga bloqueadora de canais de c\u00e1lcio.<\/p>\n<p>O pesquisador participou, na semana passada, em S\u00e3o Paulo, da 2nd S\u00e3o Paulo School of Translational Science \u2013 Molecular Medicine (2\u00aa Escola S\u00e3o Paulo de Ci\u00eancia Translacional \u2013 Medicina molecular), realizada pelo Hospital A.C. Camargo. O curso integra a modalidade Escola S\u00e3o Paulo de Ci\u00eancia Avan\u00e7ada (ESPCA) da FAPESP. Leia a seguir trechos da entrevista concedida por Snutch \u00e0 Ag\u00eancia FAPESP.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Quais s\u00e3o os principais problemas com as drogas para dor atualmente dispon\u00edveis no mercado?<br \/>\nTerrance Snutch \u2013 Elas n\u00e3o funcionam bem o bastante para as dores cr\u00f4nicas neurop\u00e1ticas. Esse tipo de dor \u00e9 o principal problema. Drogas como a pregabalina e a gabapentina s\u00e3o amplamente usadas, mas s\u00f3 funcionam para cerca de 40% dos pacientes. Para os outros, n\u00e3o fazem o efeito desejado.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 O que caracteriza a dor neurop\u00e1tica cr\u00f4nica?<br \/>\nSnutch \u2013 A dor neurop\u00e1tica cr\u00f4nica \u00e9 definida como uma dor para a qual n\u00e3o h\u00e1 ferimento definido. \u00c9 proveniente de algum problema no pr\u00f3prio sistema nervoso.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Esse tipo de dor tem origem no pr\u00f3prio c\u00e9rebro?<br \/>\nSnutch \u2013 No c\u00e9rebro ou nos nervos que n\u00e3o s\u00e3o acionados corretamente e disparam quando n\u00e3o deveriam. O fato \u00e9 que n\u00e3o \u00e9 causada por um ferimento. Ela existe porque algo est\u00e1 errado no sistema nervoso e desencadeia a sinaliza\u00e7\u00e3o de dor. Por defini\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma dor para a qual n\u00e3o h\u00e1 ferimento definido e que, mesmo assim, dura seis meses ou mais. Isso a torna bem diferente da dor aguda, que tem origem determinada e dura menos.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 N\u00e3o existem drogas eficientes para esse tipo de dor?<br \/>\nSnutch \u2013 Temos drogas muito pouco efetivas. Para dores agudas muito fortes \u2013 quando se tem um osso quebrado, ou uma situa\u00e7\u00e3o ap\u00f3s uma cirurgia, por exemplo \u2013 temos drogas como a morfina ou a hidromorfona, que s\u00e3o opioides muito fortes. Mas n\u00e3o se pode tomar esses opioides para dores de longo prazo.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Por qu\u00ea? Eles podem viciar?<br \/>\nSnutch \u2013 Eles causam diferentes problemas, al\u00e9m de viciar propriamente. Especialmente pelo fato de que a dose precisa ser cada vez maior, pois a mesma dose se torna cada vez menos efetiva. Ao aumentar a dose, aumentam tamb\u00e9m os efeitos colaterais. Os opioides causam depress\u00e3o respirat\u00f3ria. Isto \u00e9, eles afetam a parte do c\u00e9rebro que controla a respira\u00e7\u00e3o e, se a dose for muito alta, voc\u00ea pode parar de respirar. Causam tamb\u00e9m constipa\u00e7\u00e3o muito severa. A combina\u00e7\u00e3o do efeito das altas doses \u2013 causadas pela resposta tolerante \u2013 e dos efeitos colaterais impede que as pessoas tolerem por muito tempo.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 E quanto \u00e0s outras drogas que o senhor mencionou?<br \/>\nSnutch \u2013 As outras dispon\u00edveis, como pregabalina e gabapentina, s\u00f3 funcionam parcialmente. Ambas t\u00eam efici\u00eancia estimada em cerca de 40% dos casos de pacientes de dor neurop\u00e1tica cr\u00f4nica. Os outros n\u00e3o t\u00eam um al\u00edvio da dor. Por isso, h\u00e1 necessidade de novas drogas trabalhando com novos mecanismos.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Ent\u00e3o voc\u00eas come\u00e7aram a trabalhar com as alternativas baseadas nos canais de c\u00e1lcio. Quando foi descoberto que eles est\u00e3o envolvidos em vias de sinaliza\u00e7\u00e3o da dor?<br \/>\nSnutch \u2013 Sim. A sinaliza\u00e7\u00e3o da dor \u00e9 altamente dependente dos processos relacionados aos canais de c\u00e1lcio. Primeiro come\u00e7amos a trabalhar com um canal espec\u00edfico: o canal de c\u00e1lcio tipo N.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Como \u00e9 o mecanismo?<br \/>\nSnutch \u2013 Para que voc\u00ea sinta dor, \u00e9 preciso que algu\u00e9m estimule os receptores que est\u00e3o na pele e nos m\u00fasculos, sens\u00edveis ao toque. Esse est\u00edmulo gera um sinal el\u00e9trico que \u00e9 enviado da pele para a medula espinhal, at\u00e9 o c\u00e9rebro e volta at\u00e9 o local tocado. O que ocorre quando se tem dor \u00e9 que a estimula\u00e7\u00e3o atinge uma frequ\u00eancia muito alta nos mesmos neur\u00f4nios, com o sinal indo para o c\u00e9rebro. Os canais de c\u00e1lcio tipo N controlam se o sinal chega ao c\u00e9rebro ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 O conceito ent\u00e3o consiste em bloquear a dor antes que o est\u00edmulo chegue ao c\u00e9rebro?<br \/>\nSnutch \u2013 Teoricamente, se o sinal na medula espinhal \u2013 onde est\u00e3o os canais de c\u00e1lcio tipo N \u2013 n\u00e3o chega ao c\u00e9rebro, a pessoa n\u00e3o sente a dor. A ideia \u00e9 que bloqueando esses canais, impedindo que o sinal atinja o c\u00e9rebro, o paciente n\u00e3o sinta mais dor alguma.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 E quanto aos canais de c\u00e1lcio do tipo T?<br \/>\nSnutch \u2013 Os canais de c\u00e1lcio do tipo T n\u00e3o bloqueiam o sinal. Eles ajustam os limites da dor. Ao bloquear canal de tipo T, conseguimos aumentar o limite para dor, diminuindo a sua intensidade. No caso dos canais de tipo N, tentamos bloquear os sinais que v\u00eam para o c\u00e9rebro. Nesse caso dos canais de tipo T, tentamos modular a intensidade da dor.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Esses analg\u00e9sicos com base em canais de c\u00e1lcio est\u00e3o em testes cl\u00ednicos?<br \/>\nSnutch \u2013 Sim, no caso da droga com alvo no canal de c\u00e1lcio de tipo N estamos entrando na fase 3 dos testes cl\u00ednicos. No caso do bloqueador de canais de c\u00e1lcio de tipo T, estamos investigando compostos que modulam a sinaliza\u00e7\u00e3o da dor e j\u00e1 chegamos a uma droga que mostrou efic\u00e1cia em modelos animais, tanto para dor aguda como cr\u00f4nica.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Como foi o desenvolvimento da droga baseada em canais do tipo N?<br \/>\nSnutch \u2013 O canal de c\u00e1lcio de tipo N foi clonado pela primeira vez em 1992. Depois disso, em 1998, montei a empresa para levantar recursos e desenvolver a droga. Em 2004, come\u00e7aram os primeiros testes cl\u00ednicos. Em 2011, estamos entrando na fase de testes em pacientes. Nos primeiros testes cl\u00ednicos, utilizamos volunt\u00e1rios saud\u00e1veis e n\u00e3o portadores da dor cr\u00f4nica neurop\u00e1tica. N\u00e3o houve nenhum tipo de efeito colateral s\u00e9rio e vamos agora para a \u00faltima fase.<\/p>\n<p>Por F\u00e1bio de Castro<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desenvolver um analg\u00e9sico que seja efetivo como a morfina, mas que n\u00e3o provoque seda\u00e7\u00e3o nem efeitos colaterais, podendo ser aplic\u00e1vel at\u00e9 mesmo para dores cr\u00f4nicas por longos per\u00edodos de tempo. Esse \u00e9 o objetivo central das pesquisas de Terrance Snutch, professor do Centro de Pesquisas do C\u00e9rebro da Universidade de British Columbia (Canad\u00e1). 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