{"id":34347,"date":"2011-04-01T09:02:25","date_gmt":"2011-04-01T13:02:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=34347"},"modified":"2011-04-01T09:02:25","modified_gmt":"2011-04-01T13:02:25","slug":"nova-cultura-do-envelhecimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2011\/nova-cultura-do-envelhecimento\/34347","title":{"rendered":"Nova cultura do envelhecimento"},"content":{"rendered":"<p>O envelhecimento e a urbaniza\u00e7\u00e3o s\u00e3o tend\u00eancias demogr\u00e1ficas importantes no s\u00e9culo 21. A popula\u00e7\u00e3o urbana, que j\u00e1 corresponde \u00e0 metade da humanidade, dobrar\u00e1 at\u00e9 2050, de acordo com a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU). Por outro lado, se hoje existem cerca de 600 milh\u00f5es de pessoas com mais de 60 anos, em 2050 a popula\u00e7\u00e3o nessa faixa et\u00e1ria ser\u00e1 de quase 2 bilh\u00f5es.\u00a0A consequ\u00eancia disso \u00e9 que a sociedade precisar\u00e1 repensar o lugar dos idosos nas cidades e implantar uma <em><strong>nova cultura do envelhecimento<\/strong><\/em>. Essa \u00e9 uma das principais conclus\u00f5es dos especialistas que participaram, no dia 29 de mar\u00e7o, em S\u00e3o Paulo, da mesa-redonda &#8220;Aspectos urbanos e habitacionais em uma sociedade que envelhece&#8221;.<\/p>\n<p>O evento integrou a programa\u00e7\u00e3o do ciclo &#8220;Idosos no Brasil: Estado da Arte e Desafios&#8221;, promovido pelo Institutos de Estudos Avan\u00e7ados (IEA) da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), pelo Grupo Mais-Hospital Premier e pela Obor\u00e9 Projetos Especiais de Comunica\u00e7\u00e3o e Artes.<\/p>\n<p>Coordenada por David Braga Jr., do Grupo Modelo de Aten\u00e7\u00e3o Integral \u00e0 Sa\u00fade (Mais), a mesa-redonda \u2013 a terceira do ciclo \u2013 teve a participa\u00e7\u00e3o de Alexandre Kalache, da Academia de Medicina de Nova York (Estados Unidos), e de Guita Grin Debert, professora do Departamento de Antropologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).<\/p>\n<p>De acordo com Kalache, carioca que dirigiu por 13 anos o Programa Global de Envelhecimento e Sa\u00fade da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS), os dados da ONU mostram que a popula\u00e7\u00e3o mundial crescer\u00e1 cerca de 50% (para 9 bilh\u00f5es) at\u00e9 2050. No mesmo per\u00edodo, a popula\u00e7\u00e3o acima de 60 anos ter\u00e1 aumentado 350%, sendo que a maior parte desse aumento ocorrer\u00e1 nos pa\u00edses em desenvolvimento, cada vez mais urbanizados.<\/p>\n<p>Essa perspectiva de futuro, segundo ele, dever\u00e1 ser compreendida pela sociedade, que precisar\u00e1 desenvolver com urg\u00eancia uma \u201ccultura do envelhecimento\u201d \u2013 o que inclui mudan\u00e7as nas cidades e no comportamento ao longo da vida.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 importante destacar que 2050 n\u00e3o \u00e9 uma data distante. Os idosos de quem estamos falando s\u00e3o as pessoas que hoje j\u00e1 s\u00e3o adultas, que podem ter 20 ou 40 anos. Por isso, \u00e9 fundamental personalizar a mensagem\u201d, disse \u00e0 Ag\u00eancia FAPESP.<\/p>\n<p>Com os avan\u00e7os da medicina e da pr\u00f3pria sociedade urbana, a parcela da vida que um indiv\u00edduo passa na condi\u00e7\u00e3o de idoso ser\u00e1 cada vez maior, apontou o especialista. Com essa tend\u00eancia, j\u00e1 ocorre uma mudan\u00e7a de paradigmas em rela\u00e7\u00e3o ao que significa envelhecer. \u201cA ideia da vov\u00f3 fazendo tric\u00f4 e do vov\u00f4 de pijama, lendo jornal, \u00e9 um estere\u00f3tipo do envelhecimento que n\u00e3o nos serve mais\u201d, disse.<\/p>\n<p>Segundo Kalache, quando o prussiano Otto Von Bismarck implementou pela primeira vez a aposentadoria, no s\u00e9culo 19, a expectativa de vida na Alemanha era de 45 anos e os idosos tinham muito menos acesso \u00e0 sa\u00fade. Se continuassem trabalhando, teriam produtividade baix\u00edssima e criariam muitas dificuldades no ambiente de trabalho.<\/p>\n<p>\u201cEra plaus\u00edvel dar um dinheirinho para que o idoso ficasse em casa pelos poucos anos que lhe restavam. \u00c9 \u00f3bvio que isso n\u00e3o pode dar certo nas condi\u00e7\u00f5es atuais, muito menos nas condi\u00e7\u00f5es que teremos at\u00e9 2050. \u00c9 preciso que os jovens reinventem seu planejamento de vida\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>No modelo convencional, a primeira etapa da vida era dedicada ao aprendizado, enquanto a segunda etapa era voltada para a produ\u00e7\u00e3o e a aplica\u00e7\u00e3o do aprendizado no trabalho. A etapa final seria dedicada ao descanso e ao \u00f3cio.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o podemos mais pensar assim. A expectativa de vida \u00e9 cada vez mais longa e as pessoas ser\u00e3o idosas por um per\u00edodo cada vez maior de suas vidas. Elas ter\u00e3o condi\u00e7\u00f5es de produzir at\u00e9 uma idade bem mais avan\u00e7ada. Por outro lado, a pessoa n\u00e3o pode mais parar de adquirir conhecimento aos 25 anos de idade, pois o aprendizado fica obsoleto cada vez mais cedo\u201d, disse.<\/p>\n<p>Se a produ\u00e7\u00e3o e o trabalho ser\u00e3o uma realidade cada vez mais presente na velhice, em contrapartida a aquisi\u00e7\u00e3o de conhecimento n\u00e3o poder\u00e1 mais ficar confinada apenas \u00e0s primeiras d\u00e9cadas. \u201c\u00c9 do interesse da sociedade que a pessoa mantenha o aprendizado e que produza ao longo de toda a vida. As pessoas ter\u00e3o oportunidades \u2013 que a sociedade vai precisar oferecer \u2013 para se reciclar, estudar e se reavaliar\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>De acordo com Kalache, a capacidade funcional dos indiv\u00edduos ser\u00e1 preservada, cada vez mais, para al\u00e9m dos 65 anos. Com isso, espera-se que a aposentadoria compuls\u00f3ria possa ser revista. \u201cIsso \u00e9 saud\u00e1vel, porque o passado idealizado do id\u00edlio do pijama e do tric\u00f4 \u00e9 algo que talvez nunca tenha existido. Na maior parte dos casos, sob esse estere\u00f3tipo se escondia um idoso sem autonomia, sofrendo abusos e deprimido\u201d, disse.<\/p>\n<p>O envelhecimento e a urbaniza\u00e7\u00e3o, segundo Kalache, s\u00e3o as duas principais tend\u00eancias demogr\u00e1ficas do s\u00e9culo 21. O Brasil, segundo ele, \u00e9 um modelo adequado para se observar essa realidade.<\/p>\n<p>\u201cSomos um pa\u00eds emergente j\u00e1 urbanizado, que envelhecer\u00e1 mais do que qualquer outro. Mas temos que fazer nossa pr\u00f3pria discuss\u00e3o sobre o envelhecimento. Os modelos do Jap\u00e3o, da Dinamarca ou da Fran\u00e7a n\u00e3o nos interessam. Esses pa\u00edses enriqueceram primeiro, depois envelheceram. N\u00e3o teremos essa oportunidade. Se imitarmos esses modelos, vamos apenas perpetuar a desigualdade\u201d, disse.<\/p>\n<p>No Brasil, segundo Kalache, a popula\u00e7\u00e3o de mais de 60 anos passou de 8% para 12% nos \u00faltimos 30 anos. Na Fran\u00e7a, foram necess\u00e1rios 115 anos para que a propor\u00e7\u00e3o de idosos passasse de 7% para 14%.<\/p>\n<p>\u201cPor outro lado, a concentra\u00e7\u00e3o urbana tamb\u00e9m foi vertiginosa no Brasil. Um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o vivia em cidades em 1945 e hoje essa propor\u00e7\u00e3o passou para 87%. Vamos precisar mudar a realidade do idoso no contexto urbano \u2013 e para isso \u00e9 fundamental ouvi-lo e faz\u00ea-lo contar como \u00e9 a experi\u00eancia de ser idoso na cidade\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Kalache foi respons\u00e1vel pela publica\u00e7\u00e3o, em 2007, do Guia da OMS das Cidades Amigas dos Idosos, produzido com base em pesquisas em 35 cidades em todo o mundo, fundamentadas em entrevistas com grupos focais de idosos durante seis meses.<\/p>\n<p>Uma das experi\u00eancias do programa foi feita no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro, onde Kalache nasceu. Em 33 anos na Europa, o pesquisador fundou o Departamento de Epidemiologia do Envelhecimento da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, no Reino Unido. Hoje, trabalha na cria\u00e7\u00e3o de um Centro Internacional de Pol\u00edticas para o Envelhecimento.<\/p>\n<p>Quest\u00e3o p\u00fablica<\/p>\n<p>Guita Debert, que integra a coordena\u00e7\u00e3o da \u00e1rea de Ci\u00eancias Humanas e Sociais da FAPESP e coordena o N\u00facleo de Estudos de G\u00eanero Pagu da Unicamp, destacou que trabalhar com a velhice representa um enorme desafio, j\u00e1 que a quest\u00e3o passou por muitas modifica\u00e7\u00f5es recentes.<\/p>\n<p>Um dos principais panos de fundo dessa mudan\u00e7a \u00e9 que a velhice, que historicamente dizia respeito \u00e0 esfera privada, vem se tornando cada vez mais uma quest\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>\u201cA velhice passou a fazer parte da geografia social, por assim dizer. \u00c0 medida que a gerontologia se consolidou como saber espec\u00edfico, criado para identificar necessidades do idoso, ela se tornou um ator pol\u00edtico e tamb\u00e9m um agente do mercado de consumo\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Inicialmente focada na ideia do idoso como um indiv\u00edduo que perde os pap\u00e9is que tem na sociedade, a gerontologia passou a mudar seu enfoque a partir da d\u00e9cada de 1980.<\/p>\n<p>\u201cEm vez de um momento de perdas, a velhice passou a ser considerada um momento de lazer, de novas experi\u00eancias e projetos. A velhice foi deixando de ter o sentido de uma perda do papel na sociedade e se tornou o momento de direito ao n\u00e3o-trabalho, na qual o lazer se torna central.\u201d<\/p>\n<p>Segundo Guita, o Brasil adquiriu know-how e sofistica\u00e7\u00e3o nas op\u00e7\u00f5es de lazer e atividades para os idosos. Mas isso se limita aos \u201cjovens idosos\u201d, isto \u00e9, aquela parcela que preserva sua autonomia funcional. \u201cH\u00e1 um grande contraste. Para os idosos que t\u00eam a autonomia funcional comprometida, estamos em est\u00e1gio prec\u00e1rio, n\u00e3o oferecemos nada\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Para integrar o idoso \u00e0 cidade, segundo a pesquisadora, n\u00e3o basta levar em conta apenas a diversidade de poder aquisitivo, ra\u00e7a e local de moradia, entre outros fatores. \u00c9 necess\u00e1rio tamb\u00e9m pensar nas diferen\u00e7as de autonomia e capacidade.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 preciso avaliar sobretudo as diferen\u00e7as de custos de pol\u00edticas p\u00fablicas para os idosos \u2018jovens\u2019 e para os outros. \u00c9 hipocrisia dizer que existe uma pol\u00edtica para idosos, se ela s\u00f3 est\u00e1 beneficiando justamente a parcela que tem menos dificuldades. S\u00e3o boas iniciativas, mas t\u00eam foco apenas em uma parcela privilegiada dos idosos\u201d, disse.<\/p>\n<p>A antrop\u00f3loga destacou tamb\u00e9m que as mudan\u00e7as ocorridas no espa\u00e7o urbano recentemente podem permitir um aprimoramento da autonomia do idoso. \u201cDevemos fugir da confus\u00e3o entre morar s\u00f3 e estar submetido \u00e0 solid\u00e3o. Principalmente porque hoje \u00e9 poss\u00edvel operar com a ideia da intimidade a dist\u00e2ncia, viabilizada pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o, sobretudo eletr\u00f4nicos. E isso pode ocorrer at\u00e9 mesmo fora das rela\u00e7\u00f5es familiares.\u201d<\/p>\n<p>Segundo ela, a gerontologia ainda valoriza profundamente a ideia de manter o idoso junto \u00e0 fam\u00edlia, fechado no universo privado. \u201c\u00c9 importante rever essa ideia, quando pensamos na cidade que acolhe o idoso\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Estudos realizados em ci\u00eancias sociais, em especial na antropologia, mostram que se tinha pouca informa\u00e7\u00e3o sobre a vida do idoso h\u00e1 100 ou 200 anos, segundo Guita. Ainda assim, \u00e9 prov\u00e1vel, segundo ela, que a vida no seio da fam\u00edlia tenha sido a prefer\u00eancia do idoso apenas quando ele n\u00e3o tinha a op\u00e7\u00e3o de ser aut\u00f4nomo.<\/p>\n<p>A antrop\u00f3loga sugeriu tamb\u00e9m que seja repensada a oposi\u00e7\u00e3o entre integra\u00e7\u00e3o e segrega\u00e7\u00e3o. Segundo ela, os trabalhos sobre envelhecimento n\u00e3o confirmam a ideia de que a integra\u00e7\u00e3o com sociedade multigeracional garante o bem-estar do idoso.<\/p>\n<p>\u201cMuitas vezes, nos ambientes onde todos s\u00e3o idosos, a velhice deixa de ser uma marca identit\u00e1ria e a satisfa\u00e7\u00e3o passa a ser maior. H\u00e1 uma busca de independ\u00eancia e de estar entre os iguais, de forma similar aos adolescentes. \u00c9 importante n\u00e3o ter uma vis\u00e3o bin\u00e1ria de segrega\u00e7\u00e3o e integra\u00e7\u00e3o\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>A preserva\u00e7\u00e3o da vida na comunidade \u00e9 outra ideia predominante no senso comum, segundo Guita. Para preservar a qualidade de vida do idoso, nessa concep\u00e7\u00e3o, o indiv\u00edduo deveria permanecer sempre na mesma casa, ou bairro.<\/p>\n<p>\u201cMas isso nem sempre \u00e9 verdade, porque a din\u00e2mica urbana \u00e9 muito intensa. Os bairros podem passar por r\u00e1pidos processos de degrada\u00e7\u00e3o. Ou podem passar por um s\u00fabito enriquecimento, fazendo com que os antigos moradores desapare\u00e7am. Nesses casos, as perdas da coletividade est\u00e3o muito presentes. A ideia de que a comunidade \u00e9 sempre boa e deve permanecer deve ser revista\u201d, disse.<\/p>\n<p>A pesquisadora destacou tamb\u00e9m a import\u00e2ncia de se dar voz aos idosos. \u201cEssa j\u00e1 \u00e9 uma ideia muito presente, mas \u00e9 preciso valorizar a pluralidade de vozes. N\u00e3o se pode ouvir representantes, mas os protagonistas, em toda sua diversidade. \u00c9 preciso que haja vozes dissonantes\u201d, disse.<\/p>\n<p>Guita criticou ainda as pol\u00edticas p\u00fablicas brasileiras em rela\u00e7\u00e3o ao novo papel assumido pela fam\u00edlia quanto \u00e0 responsabilidade pelo idoso. \u201cH\u00e1 uma hipocrisia nas pol\u00edticas de distribui\u00e7\u00e3o de renda que t\u00eam enfoque familiar. Elas concentram as responsabilidades na fam\u00edlia e, em especial nas mulheres, que acabam assumindo essas obriga\u00e7\u00f5es\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Por F\u00e1bio de Castro<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O envelhecimento e a urbaniza\u00e7\u00e3o s\u00e3o tend\u00eancias demogr\u00e1ficas importantes no s\u00e9culo 21. A popula\u00e7\u00e3o urbana, que j\u00e1 corresponde \u00e0 metade da humanidade, dobrar\u00e1 at\u00e9 2050, de acordo com a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU). 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