{"id":32590,"date":"2010-11-29T09:18:24","date_gmt":"2010-11-29T13:18:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=32590"},"modified":"2010-11-29T09:19:10","modified_gmt":"2010-11-29T13:19:10","slug":"carencia-de-recursos-humanos-na-amazonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2010\/carencia-de-recursos-humanos-na-amazonia\/32590","title":{"rendered":"Car\u00eancia de recursos humanos na Amaz\u00f4nia"},"content":{"rendered":"<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 A <strong><em>Amaz\u00f4nia<\/em><\/strong> legal brasileira tem um territ\u00f3rio que corresponde ao de 32 pa\u00edses da Europa ocidental, mais de 20 milh\u00f5es de habitantes e concentra a maior parte da biodiversidade do planeta. Mas a grandiosidade da regi\u00e3o n\u00e3o corresponde, nem de longe, \u00e0 estrutura de pesquisa cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica ali existente.<\/p>\n<p>De acordo com Adalberto Lu\u00eds Val, diretor do Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz\u00f4nia (Inpa), estima-se que apenas 4 mil doutores atuem em toda a Amaz\u00f4nia nas diversas \u00e1reas de pesquisa. Um efetivo menor do que o da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), que possui mais de 5 mil doutores em seus quadros.<\/p>\n<p>Em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia FAPESP, Val falou sobre a magnitude da car\u00eancia de recursos humanos na \u00e1rea de ci\u00eancia e tecnologia na Amaz\u00f4nia, que, segundo ele, \u00e9 um dos principais obst\u00e1culos ao desenvolvimento da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o para o problema, segundo ele, passa pelo incremento da estrutura cient\u00edfica na regi\u00e3o e pelas pol\u00edticas de atra\u00e7\u00e3o e fixa\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra cient\u00edfica, que, por sua vez, estabelecer\u00e1 a base para a forma\u00e7\u00e3o de novos quadros na pr\u00f3pria Amaz\u00f4nia. Esse c\u00edrculo virtuoso, no entanto, exigir\u00e1 vontade pol\u00edtica e uma articula\u00e7\u00e3o interministerial bem planejada.<\/p>\n<p>Bi\u00f3logo, Val pesquisa no Inpa, desde 1981, a respira\u00e7\u00e3o e as adapta\u00e7\u00f5es dos peixes da Amaz\u00f4nia \u00e0s modifica\u00e7\u00f5es do meio ambiente, tanto aquelas de origem natural como as causadas pelo homem. Membro da Academia Brasileira de Ci\u00eancias (ABC) e do corpo editorial de v\u00e1rias revistas cient\u00edficas, tem mais de 80 artigos publicados em peri\u00f3dicos do Brasil e exterior.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Qual a dimens\u00e3o da car\u00eancia de recursos humanos em ci\u00eancia na Amaz\u00f4nia?<br \/>\nAdalberto Lu\u00eds Val \u2013 Em 2009, coordenei o grupo que montou o documento Amaz\u00f4nia: Desafio brasileiro do s\u00e9culo 21, lan\u00e7ado pela Academia Brasileira de Ci\u00eancias, que continha proposta para um novo modelo de desenvolvimento da regi\u00e3o. Ali, foi feito um dimensionamento da car\u00eancia de m\u00e3o de obra cient\u00edfica na Amaz\u00f4nia, que foi considerado um dos entraves fundamentais para o desenvolvimento. Para se ter uma ideia, o Brasil est\u00e1 formando a cada ano cerca de 11 mil doutores, mas toda a regi\u00e3o amaz\u00f4nica tem atualmente apenas 4 mil doutores trabalhando em pesquisa. \u00c9 muito pouco, infelizmente, considerando que os nove estados da Amaz\u00f4nia correspondem a 60% do territ\u00f3rio nacional e a 10% do PIB nacional. A USP, sozinha, tem mais de 5 mil doutores. A demanda na regi\u00e3o amaz\u00f4nica \u00e9 imensa e urgente.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Qual seria a melhor alternativa para reverter esse quadro?<br \/>\nVal \u2013 Temos convic\u00e7\u00e3o de que h\u00e1 v\u00e1rias alternativas para resolver essa quest\u00e3o. No entanto, nenhuma delas isoladamente pode dar conta do problema. O primeiro ponto em que temos que pensar \u00e9 na montagem de uma estrutura de capacita\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra na pr\u00f3pria Amaz\u00f4nia. \u00c9 preciso capacitar e fixar pessoal na regi\u00e3o. N\u00e3o podemos, por outro lado, relegar a Amaz\u00f4nia \u00e0 sua pr\u00f3pria sorte. Temos que montar um sistema nacional capaz de atender a toda essa demanda. Uma campanha para inserir a Amaz\u00f4nia no Sistema de Ci\u00eancia e Tecnologia do Brasil de forma efetiva.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 O ideal \u00e9 trazer gente de outras regi\u00f5es para a Amaz\u00f4nia, ou \u00e9 preciso formar pessoal no pr\u00f3prio contexto regional?<br \/>\nVal \u2013 Os dois pontos s\u00e3o importantes. Aumentar a quantidade de gente formada na Amaz\u00f4nia \u00e9 essencial para facilitar a fixa\u00e7\u00e3o de pessoal. Por outro lado, temos que trazer recursos humanos de fora para acelerar a forma\u00e7\u00e3o dessa m\u00e3o de obra local.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 \u00c9 preciso levar mais recursos financeiros para a regi\u00e3o tamb\u00e9m?<br \/>\nVal \u2013 Sem d\u00favida \u00e9 necess\u00e1rio investir, mas \u2013 isso \u00e9 muito importante \u2013 n\u00e3o adianta despejar uma determinada quantidade de recursos na regi\u00e3o e achar que o problema vai se resolver s\u00f3 com isso. Porque falta gente. Sem gente qualificada, n\u00e3o conseguiremos dar conta da demanda por pesquisa na regi\u00e3o, mesmo que tenhamos recursos financeiros. \u00c9 preciso fazer as duas coisas. Como eu disse, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma a\u00e7\u00e3o capaz de resolver o problema isoladamente.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 \u00c9 poss\u00edvel fazer isso em pouco tempo?<br \/>\nVal \u2013 Sim, contanto que exista um modelo de desenvolvimento bem planejado. Temos que fazer a coisa da forma correta. Por exemplo: \u00e9 preciso evitar a\u00e7\u00f5es pontuais, que n\u00e3o se perenizam. Uma das nossas maiores necessidades \u00e9 atrair e fixar recursos humanos na Amaz\u00f4nia. Mas, para fazer isso, esses recursos devem ser atra\u00eddos para uma estrutura organizada em grupos. N\u00e3o temos nenhum programa na Amaz\u00f4nia, por exemplo, na \u00e1rea de farmacologia. Seria importante trazer, digamos, dez excelentes f\u00e1rmacos, que pudessem capacitar projetos na regi\u00e3o. Isso teria que ser feito dentro de um programa.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Existem pol\u00edticas p\u00fablicas sendo implementadas nesse sentido?<br \/>\nVal \u2013 Na quest\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o, sim. As pol\u00edticas est\u00e3o sendo implantadas. A Capes e o CNPq t\u00eam programas para isso. Mas \u00e9 necess\u00e1rio fixar os recursos humanos com estrat\u00e9gias mais amplas. N\u00e3o adianta apenas distribuir bolsas, porque, quando a bolsa acaba, o pesquisador quase sempre vai embora. Para contornar essa situa\u00e7\u00e3o, temos que abrir concursos p\u00fablicos e contratar pessoal. Caso contr\u00e1rio, o pesquisador que completou o per\u00edodo da sua bolsa acaba passando em concursos em outros centros com mais oferta e vai embora. \u00c9 em consequ\u00eancia dessa din\u00e2mica que temos t\u00e3o poucos doutores na Amaz\u00f4nia. Isso s\u00f3 vai mudar se houver vontade pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Que impactos a car\u00eancia de recursos humanos tem nas atividades do Inpa, por exemplo?<br \/>\nVal \u2013 No Inpa, temos desenvolvido v\u00e1rias alternativas para pesquisa associada \u00e0 inclus\u00e3o social e gera\u00e7\u00e3o de renda com base em produtos da floresta. Com isso, conseguimos gerar renda para a popula\u00e7\u00e3o e, assim, manter a floresta em p\u00e9. Por exemplo, desenvolvemos piscicultura em canais de igarap\u00e9, novas tecnologias para diagn\u00f3sticos de doen\u00e7as tropicais \u2013 como a leishmaniose \u2013, a produ\u00e7\u00e3o de pigmentos para tingir couro de peixe que n\u00e3o agridem o meio ambiente e uma s\u00e9rie de outras atividades. Desenvolvemos essas tecnologias para disponibilizar para o mercado. Voc\u00ea pode ver no site do Inpa que conseguimos muitas patentes e muitos produtos. Mas, para que essa experi\u00eancia seja multiplicada, necessitamos de mais pesquisadores. De modo geral, a Amaz\u00f4nia tem uma grande car\u00eancia de conhecimento. Precisamos, por exemplo, planejar alternativas para produ\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica com redu\u00e7\u00e3o de danos ambientais. Os programas brasileiros para isso envolvem a constru\u00e7\u00e3o de muitas hidrel\u00e9tricas. Mas onde constru\u00ed-las? Com mais pesquisa cient\u00edfica, poder\u00edamos saber onde os impactos ambientais seriam menores. H\u00e1 infinitos exemplos.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 De quem deveria partir a iniciativa para organizar essas pol\u00edticas p\u00fablicas que ainda fazem falta?<br \/>\nVal \u2013 Na realidade, isso passa por v\u00e1rios minist\u00e9rios. O mais importante \u00e9 que precisa ser uma a\u00e7\u00e3o integradora, capaz de articular a\u00e7\u00f5es em v\u00e1rios minist\u00e9rios: Ci\u00eancia e Tecnologia, Educa\u00e7\u00e3o, Meio Ambiente, Sa\u00fade, Ex\u00e9rcito, Minas e Energia&#8230; O que precisamos \u00e9 ter um \u00f3rg\u00e3o que centralize as a\u00e7\u00f5es de todos esses minist\u00e9rios para formular uma a\u00e7\u00e3o conjunta, \u00fanica. Caso contr\u00e1rio, cada um dos minist\u00e9rios vai puxar as iniciativas para um caminho diferente. Os interesses s\u00e3o bastante divergentes e \u00e9 preciso ter um espa\u00e7o definido para dialogar.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 A Reuni\u00e3o da SBPC de 2009, realizada em Manaus, concluiu que investir em ci\u00eancia na Amaz\u00f4nia \u00e9 uma prioridade e, para isso, seria preciso estabelecer parcerias entre comunidade cient\u00edfica, institutos de pesquisas, sociedade civil organizada, setor privado, governo e cidad\u00e3os. Desde ent\u00e3o houve avan\u00e7os nesse aspecto?<br \/>\nVal \u2013 Desde a Reuni\u00e3o da SBPC tivemos algum progresso, mas um progresso ainda t\u00edmido, porque o tamanho da necessidade \u00e9 descomunal, muito maior do que tudo o que fizemos. Tivemos um resultado pr\u00e1tico, que foi a cria\u00e7\u00e3o da Universidade Federal do Leste do Par\u00e1, com a contrata\u00e7\u00e3o de novos professores, com gente nova que veio de fora, seguindo a diretriz que estamos comentando. Acredito que a solu\u00e7\u00e3o passa por a\u00ed, mas precisamos de v\u00e1rias dessas universidades e de uma grande quantidade de Institutos de Tecnologia na regi\u00e3o \u2013 que teriam a fun\u00e7\u00e3o de transformar em novos produtos e processos a informa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica produzida na universidade. Por enquanto, a evolu\u00e7\u00e3o est\u00e1 sendo muito t\u00edmida.<\/p>\n<p>Por F\u00e1bio de Castro<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ag\u00eancia FAPESP \u2013 A Amaz\u00f4nia legal brasileira tem um territ\u00f3rio que corresponde ao de 32 pa\u00edses da Europa ocidental, mais de 20 milh\u00f5es de habitantes e concentra a maior parte da biodiversidade do planeta. Mas a grandiosidade da regi\u00e3o n\u00e3o corresponde, nem de longe, \u00e0 estrutura de pesquisa cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica ali existente. 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