{"id":19931,"date":"2009-12-12T19:17:00","date_gmt":"2009-12-12T23:17:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=19931"},"modified":"2009-12-12T19:17:00","modified_gmt":"2009-12-12T23:17:00","slug":"vao-livre-do-masp-recebe-esculturas-de-abelardo-da-hora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2009\/vao-livre-do-masp-recebe-esculturas-de-abelardo-da-hora\/19931","title":{"rendered":"V\u00e3o Livre do MASP recebe esculturas de Abelardo da Hora"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-19932\" title=\"Abelardo da Hora\" src=\"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/imagens\/Abelardo-da-Hora.jpg\" alt=\"Abelardo da Hora\" width=\"300\" height=\"326\" srcset=\"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/imagens\/Abelardo-da-Hora.jpg 300w, https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/imagens\/Abelardo-da-Hora-172x187.jpg 172w, https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/imagens\/Abelardo-da-Hora-276x300.jpg 276w, https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/imagens\/Abelardo-da-Hora-138x150.jpg 138w, https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/imagens\/Abelardo-da-Hora-103x112.jpg 103w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>O escultor, desenhista, gravador, gravurista e ceramista Abelardo da Hora, um dos raros expressionistas brasileiros ainda em atividade, abre no dia 15 de dezembro em S\u00e3o Paulo, a exposi\u00e7\u00e3o retrospectiva de seus 60 anos de carreira. Vinte e cinco toneladas em esculturas, gravuras, desenhos e cer\u00e2micas estar\u00e3o no v\u00e3o do MASP at\u00e9 o dia 14 de fevereiro. O nome da mostra \u2013 \u201cAmor e Solidariedade\u201d \u2013 \u00e9 uma refer\u00eancia \u00e0 dualidade da obra de Abelardo, em que figuras esqu\u00e1lidas de retirantes nordestinos convivem, no mesmo espa\u00e7o, com pe\u00e7as de nus femininos feitas de concreto polido e bronze. \u201cO amor eu dedico \u00e0s mulheres e a solidariedade ao povo\u201d, explica o artista.\u00a0 Depois de S\u00e3o Paulo, as pe\u00e7as de Abelardo v\u00e3o para Jo\u00e3o Pessoa, Recife, Caracas, Paris (Museu George Pompidou) e Bruxelas.<\/p>\n<p>Boa parte do trabalho de Abelardo da Hora tem um forte componente pol\u00edtico, que se confunde com sua pr\u00f3pria trajet\u00f3ria de vida. Ligado ao Partido Comunista, ele foi preso umas 70 vezes e tem seu nome ligado \u00e0 cria\u00e7\u00e3o do Movimento de Cultura Popular (MCP), no Recife, que influenciou outras iniciativas do g\u00eanero no Pa\u00eds. Ao mesmo tempo, nunca deixou de lado a sensualidade dos nus femininos.<\/p>\n<p>Esse contraste sempre marcou a carreira de Abelardo, mas o essencial, segundo os cr\u00edticos, \u00e9 que ele nunca se curvou aos modismos. Preferiu comover-se tanto ao retratar as condi\u00e7\u00f5es subumanas da sociedade nordestina como corpos femininos que transmitem ao mesmo tempo sensualidade e recato. \u201cQuando ele modela um bra\u00e7o de uma de suas deusas temos a sensa\u00e7\u00e3o \u00fanica de ser distinguido com o privil\u00e9gio de assistir ao nascimento de V\u00eanus, de Ceres, da beleza e da fecundidade, na hora em que Deus criou a carne\u201d, observa o pintor e disc\u00edpulo Jos\u00e9 Cl\u00e1udio. \u201cSua arte, sens\u00edvel aos valores pl\u00e1sticos e visuais do modernismo, n\u00e3o \u00e9 epis\u00f3dica nem faz concess\u00f5es\u201d, acrescenta M\u00e1rio Barata, um dos maiores conhecedores do conjunto de uma obra que inclui mais de mil trabalhos espalhados pelo mundo.<\/p>\n<p>Esculturas e desenhos de Abelardo estiveram ou est\u00e3o em locais t\u00e3o distantes quanto Ulan Bator, na Mong\u00f3lia, no Semin\u00e1rio Metodista do Tenenesse (EUA), no Euro Museu da Rep\u00fablica Tcheca e no jardim do marchand Abelardo Rodrigues, no Cosme Velho, Rio. O Recife tornou-se seu museu a c\u00e9u aberto, com figuras expostas em parques, pra\u00e7as e na entrada de edif\u00edcios. \u201cAbelardo da Hora define sua arte n\u00e3o como finalidade hedon\u00edstica e experimental, mas como linguagem-brado e como gesto de trincheira\u201d, afirmou o cr\u00edtico Jos\u00e9 Geraldo Vieira.<\/p>\n<p>Nascido em 1924, na Usina Tiuma, em S\u00e3o Louren\u00e7o da Mata, bem perto da capital pernambucana, chegou ainda crian\u00e7a ao Recife, em 1932. Desse per\u00edodo inicial na cidade grande, conheceu as brincadeiras de crian\u00e7as pobres do bairro da Caxang\u00e1, que iriam influenciar parte de seu trabalho na vida adulta.<\/p>\n<p>Mais tarde, num ambiente em que j\u00e1 brilhavam artistas do porte de Vicente do Rego Monteiro (1889-1970) e C\u00edcero Dias (1907-2003), Abelardo cursou Artes Decorativas no Col\u00e9gio Industrial Professor Agamenon Magalh\u00e3es, estudou escultura na Escola de Belas Artes de Pernambuco e tamb\u00e9m concluiu o bacharelado na Faculdade de Direito de Olinda. Mas nunca exerceu a profiss\u00e3o de advogado. Mesmo porque a chance de virar artista profissional bateu-lhe a porta em 1942 quando o industrial Ricardo Monteiro Brennand entusiasmou-se por sua obra. Resultado: entre 1943 e 1945, morou na casa dos Brennand e, nos espa\u00e7os do Engenho de S\u00e3o Jo\u00e3o da V\u00e1rzea, realizou v\u00e1rios trabalhos em cer\u00e2mica, jarros florais e pratos com motivos regionais em relevo e terracota.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed o trabalho de Abelardo da Hora come\u00e7ou a marcar a toda uma gera\u00e7\u00e3o de artistas e intelectuais de Pernambuco. Tanto em est\u00e9tica quanto em pol\u00edtica, teve forte influ\u00eancia nas carreiras de artistas pl\u00e1sticos que desenvolveram trajet\u00f3rias brilhantes em todo o Pa\u00eds. Nesse time est\u00e3o o amigo de inf\u00e2ncia Francisco Brennand, al\u00e9m de Wellington Virgolino, Corbiniano, Ionaldo, Gilvan Samico e Jos\u00e9 Cl\u00e1udio.<\/p>\n<p>Depois de uma passagem pelo Rio, na d\u00e9cada de 40, Abelardo voltou a Pernambuco para realizar, em abril de 1948, uma exposi\u00e7\u00e3o de esculturas na Associa\u00e7\u00e3o dos Empregados do Com\u00e9rcio, sob o patroc\u00ednio da Prefeitura do Recife. Depois do sucesso da exposi\u00e7\u00e3o, criou com o artista pl\u00e1stico H\u00e9lio Feij\u00f3 (1913-1991) a Sociedade de Arte Moderna do Recife (SAMR). Em 1952, fundou o Atelier Coletivo, grupo que iria influir profundamente na produ\u00e7\u00e3o cultural de Pernambuco.<\/p>\n<p>O Atelier Coletivo, como se v\u00ea, n\u00e3o trataria apenas de artes pl\u00e1sticas. De seus quadros faziam parte, por exemplo, os escritores Aderbal Jurema (1912-1986) e Hermilo Borba Filho (1917-1976) e o teatr\u00f3logo Luiz Mendon\u00e7a. Mas foi com quadros e esculturas que o movimento cresceu, com a promo\u00e7\u00e3o de sal\u00f5es de arte em Pernambuco e participa\u00e7\u00e3o em outros espa\u00e7os do Pa\u00eds, como o Clube da Gravura de Porto Alegre, dirigido por Carlos Scliar. Da capital ga\u00facha, a exposi\u00e7\u00e3o ganhou o mundo. Percorreu todos os pa\u00edses da Europa, a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, China, Israel e Mong\u00f3lia.<\/p>\n<p>O atelier n\u00e3o foi o \u00fanico movimento art\u00edstico que Abelardo criou ou ajudou a criar. \u00c9 o caso do Movimento de Cultura Popular (MCP), quando ele era chefe da Divis\u00e3o de Parques e Jardins da Prefeitura do Recife na administra\u00e7\u00e3o de Miguel Arraes, entre 1960 e 1962. O MCP tamb\u00e9m refletia um sentido altamente engajado e seu objetivo era \u201campliar a politiza\u00e7\u00e3o das massas, despertando-as para a luta social\u201d, conforme preconizavam seus participantes. O movimento tinha v\u00e1rios pilares al\u00e9m das artes pl\u00e1sticas, com destaque para a literatura, por meio da participa\u00e7\u00e3o de escritores, jornalistas e poetas como Ariano Suassuna, Carlos Pena Filho, Alo\u00edsio Falc\u00e3o e Hermilo Borba Filho. Havia at\u00e9 mesmo um trabalho de alfabetiza\u00e7\u00e3o, comandado pelo jovem educador Paulo Freire (1921-1997), e entusiastas no Brasil inteiro &#8211; Darcy Ribeiro, o mais exaltado desses admiradores \u00e0 dist\u00e2ncia, chegou a prescrever a id\u00e9ia para todo o Pa\u00eds. Mas ai veio o golpe de 1964 e a festa do MCP acabou.<\/p>\n<p>No auge do Movimento de Cultura Popular, em 1962, Abelardo criaria um de seus trabalhos mais pungentes: a s\u00e9rie de 22 desenhos de bico-de-pena \u201cMeninos do Recife\u201d, que foi lan\u00e7ada em \u00e1lbum como nota de apresenta\u00e7\u00e3o de Miguel Arraes. Um desses desenhos ilustra a edi\u00e7\u00e3o francesa do livro \u201cGeografia da Fome\u201d, a pedido de seu autor, o m\u00e9dico e professor Josu\u00e9 de Castro (1908-1973). Os desenhos mostram a mis\u00e9ria das crian\u00e7as de rua, com seus p\u00e9s descal\u00e7os na lama, pernas e bra\u00e7os finos, barrigas inchadas, rostos angulosos e magros e vestimentas de molambo.<\/p>\n<p>Depois de 1964, quando seus \u201cMeninos do Recife\u201d foram apreendidos pelos militares &#8211; e parte da cole\u00e7\u00e3o queimada em frente ao jornal Di\u00e1rio de Pernambuco, junto com exemplares da cartilha de Alfabetiza\u00e7\u00e3o do MCP &#8211; Abelardo, j\u00e1 fora do PCB, teve duas outras incurs\u00f5es fora de seu Estado natal: S\u00e3o Paulo e Paris. Nos dois casos, teve que deixar a fam\u00edlia no Recife. Na capital paulista foi acolhido pela amiga arquiteta Lina Bo Bardi e seu marido, Pietro Maria Bardi, diretor do Museu de Arte de S\u00e3o Paulo (MASP). O escultor conhecera Lina, no in\u00edcio dos anos 1960, quando ela dirigia o Museu Solar do Unh\u00e3o, em Salvador. Com ajuda do casal, ele conseguiu emprego como cen\u00f3grafo na antiga TV Tupi.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo trabalhava na instala\u00e7\u00e3o do Museu Lasar Segall, que seria inaugurado em 1969, e na s\u00e9rie de desenhos \u201cDan\u00e7as Brasileiras de Carnaval\u201d. A pedido de Bardi, tamb\u00e9m participou com novos desenhos da mostra que abriu a Galeria Mirante das Artes, em 1967, e organizou uma exposi\u00e7\u00e3o de artistas pernambucanos no Museu de Arte Contempor\u00e2nea da USP, dirigido por Walter Zanini. A mostra era basicamente um reencontro de Abelardo com alguns seus antigos disc\u00edpulos &#8211; Samico, Maria Carmen, Anchises Azevedo e Wellington Virgolino.<\/p>\n<p>Mais uma vez de volta ao Recife, em 1968, Abelardo mudou radicalmente de vida e foi trabalhar na empresa de pesca de seu irm\u00e3o Luciano. Diante das persegui\u00e7\u00f5es promovidas pelo regime, n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es de sobreviver de arte. Quando a repress\u00e3o baixou um pouco de tom, Abelardo retomou a atividade art\u00edstica em sua casa-atelier na Rua do Sossego e ali produziu uma sequ\u00eancia de esculturas de corpos femininos deitados, que balizaria o \u201coutro lado\u201d de sua obra &#8211; o toque da sensualidade em cimento e bronze. \u201cMulher, objeto de Repouso\u201d foi a primeira dessa s\u00e9rie.\u00a0 Depois desse per\u00edodo recifense, Abelardo passou uma temporada em Paris, para retornar ao Recife no in\u00edcio dos 1980.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O escultor, desenhista, gravador, gravurista e ceramista Abelardo da Hora, um dos raros expressionistas brasileiros ainda em atividade, abre no dia 15 de dezembro em S\u00e3o Paulo, a exposi\u00e7\u00e3o retrospectiva de seus 60 anos de carreira. Vinte e cinco toneladas em esculturas, gravuras, desenhos e cer\u00e2micas estar\u00e3o no v\u00e3o do MASP at\u00e9 o dia 14 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_genesis_hide_title":false,"_genesis_hide_breadcrumbs":false,"_genesis_hide_singular_image":false,"_genesis_hide_footer_widgets":false,"_genesis_custom_body_class":"","_genesis_custom_post_class":"","_genesis_layout":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[22],"tags":[],"class_list":{"0":"post-19931","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","6":"category-brasil","7":"entry","8":"has-post-thumbnail","9":"gs-1","10":"gs-odd","11":"gs-even","12":"gs-featured-content-entry"},"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_likes_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19931","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19931"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19931\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19931"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19931"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19931"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}