{"id":165843,"date":"2019-01-16T21:38:19","date_gmt":"2019-01-16T23:38:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=165843"},"modified":"2019-01-16T21:38:19","modified_gmt":"2019-01-16T23:38:19","slug":"transplante-de-utero-contra-infertilidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2019\/transplante-de-utero-contra-infertilidade\/165843","title":{"rendered":"Transplante de \u00fatero contra infertilidade"},"content":{"rendered":"<p> Carlos Fioravanti\u00a0 |\u00a0 Revista Pesquisa FAPESP\u00a0\u2013 Nos pr\u00f3ximos meses, se tudo der certo, duas mulheres com idade entre 30 e 35 anos que n\u00e3o conseguem ter filhos devem se submeter a um <strong><em>transplante de \u00fatero<\/em><\/strong> de doadoras mortas no Hospital das Cl\u00ednicas (HC) da Faculdade de Medicina da Universidade de S\u00e3o Paulo (FM-USP) e, depois, tentar\u00e3o engravidar.<\/p>\n<p>A perspectiva se deve aos bons resultados do primeiro transplante desse tipo realizado pela equipe do Departamento de Gastroenterologia da faculdade: a menina que nasceu 15 meses depois dessa cirurgia bem-sucedida completou 1 ano em 15 de dezembro de 2018 e, como a m\u00e3e, est\u00e1 saud\u00e1vel.<\/p>\n<p>O transplante de \u00fatero de doadora morta realizado na USP foi o primeiro a dar certo no mundo, depois de cerca de 10 tentativas, com a mesma abordagem, nos Estados Unidos, na Turquia e na Rep\u00fablica Checa. Com doadoras vivas, desde 2013, houve 39 transplantes, resultando em 11 beb\u00eas nascidos vivos. \u00c0 medida que alcan\u00e7ar uma escala mais ampla e for legitimado como modalidade terap\u00eautica pelo sistema p\u00fablico de sa\u00fade, esse procedimento poder\u00e1 se constituir em uma alternativa de tratamento para a infertilidade, que afeta de 10% a 15% das mulheres.<\/p>\n<p>\u201cEsse \u00e9 um grande avan\u00e7o para a ginecologia e a obstetr\u00edcia brasileiras, ainda que as indica\u00e7\u00f5es sejam bastante limitadas\u201d, comentou o cirurgi\u00e3o fetal\u00a0, professor da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp), que n\u00e3o participou do trabalho. Esse tipo de transplante \u00e9 indicado para mulheres sem \u00fatero, em raz\u00e3o de problemas cong\u00eanitos ou cirurgias.<\/p>\n<p>A mulher de 32 anos que passou pelo transplante no HC, em 20 de setembro de 2016, n\u00e3o tinha o \u00f3rg\u00e3o por causa da chamada s\u00edndrome de Mayer-Rokitansky-K\u00fcster-Hauser, embora os ov\u00e1rios produzissem \u00f3vulos. A doadora havia tido tr\u00eas filhos de partos naturais e morrido de hemorragia cerebral aos 45 anos.<\/p>\n<p>A receptora menstruou pela primeira vez 37 dias ap\u00f3s o transplante e, dois meses depois, engravidou, por meio da transfer\u00eancia do embri\u00e3o. Uma das contribui\u00e7\u00f5es cient\u00edficas desse trabalho foi indicar que o implante do embri\u00e3o poderia ser feito antes de completar um ano do transplante de \u00fatero, o per\u00edodo aguardado pelas outras equipes com doadoras vivas, o que reduz os custos de medicamentos e os cuidados m\u00e9dicos.<\/p>\n<p>O \u00fatero implantado n\u00e3o sofreu rejei\u00e7\u00e3o ap\u00f3s o transplante nem durante a gesta\u00e7\u00e3o e foi retirado ap\u00f3s o parto para que a mulher pudesse parar de tomar os medicamentos imunossupressores e amamentar, de acordo com o artigo publicado pela equipe do HC em 4 de dezembro de 2018 da revista\u00a0Lancet.<\/p>\n<p>\u201cO risco de dar problemas parece baixo\u201d, comentou o cirurgi\u00e3o\u00a0, coordenador do servi\u00e7o de transplante de f\u00edgado do Departamento de Gastroenterologia da FM-USP. Sobre sua mesa de trabalho ele mant\u00e9m uma fotografia da menina que nasceu de 36 semanas, por cesariana, com 2,5 quilogramas.<\/p>\n<p>\u201cO \u00fatero \u00e9 um \u00f3rg\u00e3o bastante resistente\u201d, observou Andraus. Esse trabalho, que ele coordenou ao lado do ginecologista\u00a0, tamb\u00e9m da USP, indicou que o \u00f3rg\u00e3o, em formato de pera, pode se manter em bom estado por oito horas depois de retirado da doadora; \u00e9 o mesmo tempo que outros \u00f3rg\u00e3os, como f\u00edgado e p\u00e2ncreas, e quase o triplo do que o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estrat\u00e9gia brasileira<\/p>\n<p>Em 2015, um artigo na\u00a0Lancet\u00a0descreveu o primeiro transplante de \u00fatero com doadora viva, realizado em fevereiro de 2013, e o parto de um beb\u00ea em setembro de 2014, ambos realizados por um grupo da Universidade de Gotemburgo, na Su\u00e9cia. Depois de ler o trabalho, Ejzenberg perguntou a Andraus se n\u00e3o poderiam trabalhar juntos para fazer esse tipo de transplante. Andraus aceitou.<\/p>\n<p>\u201cDesde o in\u00edcio achei que era um assunto inovador e merecia aten\u00e7\u00e3o especial\u201d, comentou o cirurgi\u00e3o\u00a0, professor da FM-USP e chefe da Divis\u00e3o de Transplantes de F\u00edgado e \u00d3rg\u00e3os do Aparelho Digestivo do HC.<\/p>\n<p>O grupo preferiu trabalhar com doadoras falecidas, com base no programa brasileiro de doa\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os de pessoas mortas, que viabilizou a capta\u00e7\u00e3o de 3.625 rins, 1.485 f\u00edgados, 266 cora\u00e7\u00f5es e 31 p\u00e2ncreas de janeiro a setembro de 2018, segundo a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Transplante de \u00d3rg\u00e3os (Abto). Al\u00e9m disso, a retirada do \u00f3rg\u00e3o seria mais r\u00e1pida e de custo menor do que com doadoras vivas.<\/p>\n<p>D\u2019Albuquerque teve de detalhar a experi\u00eancia de seu grupo, que faz 120 transplantes de f\u00edgado por ano, para Ejzenberg e Andraus serem aceitos em um curso pr\u00e1tico, em ovelhas, em 2016 na Universidade de Gotemburgo. Com base em um dos casos que viram na Su\u00e9cia \u2013 a mulher n\u00e3o engravidou porque ela e o marido se separaram e ele n\u00e3o autorizou a implanta\u00e7\u00e3o do embri\u00e3o \u2013, a equipe do HC adotou uma inova\u00e7\u00e3o \u00e9tica no formul\u00e1rio de consentimento: o marido pode tomar decis\u00f5es junto com a mulher at\u00e9 o momento do transplante, mas depois cabe somente \u00e0 mulher decidir se quer ou n\u00e3o implantar o embri\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o conseguir\u00edamos avan\u00e7ar sem o apoio das equipes do servi\u00e7o estadual e nacional de transplante de \u00f3rg\u00e3os, que autorizaram o transplante e entrevistaram as fam\u00edlias das poss\u00edveis doadoras\u201d, comentou Andraus. Ainda para se prepararem, fizeram a retirada de \u00fatero de sete doadoras mortas, trabalho em geral feito durante a madrugada, ap\u00f3s a equipe de transplante retirar f\u00edgado e rins, \u00f3rg\u00e3os considerados priorit\u00e1rios.<\/p>\n<p>A equipe brasileira apresentou os resultados do trabalho em setembro de 2017 em um congresso em Gotemburgo. Em dezembro, uma semana antes do nascimento da menina em S\u00e3o Paulo, m\u00e9dicos da Universidade de Dallas, nos Estados Unidos, anunciaram o primeiro parto nas Am\u00e9ricas de um beb\u00ea \u2013 um menino \u2013 nascido ap\u00f3s transplante de \u00fatero de uma doadora viva.<\/p>\n<p>A falta de doadoras vivas ou mortas, com idade at\u00e9 45 anos e que j\u00e1 tenham tido filhos, como prova da fertilidade do \u00fatero, persiste como um dos problemas a serem enfrentados. Segundo D\u2019Albuquerque, depois de acumular mais casos bem-sucedidos, outra batalha ser\u00e1 a incorpora\u00e7\u00e3o da cirurgia pelo Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS). \u201cEntre o stent [pr\u00f3tese expans\u00edvel usada para desobstruir art\u00e9rias] surgir e ser aprovado pelo SUS foram oito anos\u201d, exemplificou.<\/p>\n<p>Leia mais em:\u00a0<\/p>\n<p>http:\/\/agencia.fapesp.br\/noticias\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Fioravanti\u00a0 |\u00a0 Revista Pesquisa FAPESP\u00a0\u2013 Nos pr\u00f3ximos meses, se tudo der certo, duas mulheres com idade entre 30 e 35 anos que n\u00e3o conseguem ter filhos devem se submeter a um transplante de \u00fatero de doadoras mortas no Hospital das Cl\u00ednicas (HC) da Faculdade de Medicina da Universidade de S\u00e3o Paulo (FM-USP) e, depois, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":148106,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_genesis_hide_title":false,"_genesis_hide_breadcrumbs":false,"_genesis_hide_singular_image":false,"_genesis_hide_footer_widgets":false,"_genesis_custom_body_class":"","_genesis_custom_post_class":"","_genesis_layout":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[22,388,5],"tags":[],"class_list":{"0":"post-165843","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-brasil","8":"category-destaques","9":"category-saude-e-vida","10":"entry","11":"gs-1","12":"gs-odd","13":"gs-even","14":"gs-featured-content-entry"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/imagens\/saude-operacao.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_likes_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/165843","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=165843"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/165843\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/media\/148106"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=165843"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=165843"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=165843"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}