{"id":150324,"date":"2018-08-28T23:28:11","date_gmt":"2018-08-29T02:28:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=150324"},"modified":"2018-08-28T23:28:11","modified_gmt":"2018-08-29T02:28:11","slug":"mutacoes-nao-hereditarias-sao-principal-causa-de-cancer-de-mama-em-mulheres-jovens","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2018\/mutacoes-nao-hereditarias-sao-principal-causa-de-cancer-de-mama-em-mulheres-jovens\/150324","title":{"rendered":"Muta\u00e7\u00f5es n\u00e3o heredit\u00e1rias s\u00e3o principal causa de c\u00e2ncer de mama em mulheres jovens"},"content":{"rendered":"<p> Maria Fernanda Ziegler\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Cerca de 80% dos casos de <strong><em>c\u00e2ncer de mama<\/em><\/strong> em mulheres jovens, com idades entre 20 e 35 anos, podem ser causados por muta\u00e7\u00f5es som\u00e1ticas \u2013 altera\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas nas c\u00e9lulas da mama que n\u00e3o t\u00eam origem heredit\u00e1ria. Foi o que constatou um estudo feito no Centro de Investiga\u00e7\u00e3o Translacional em Oncologia (LIM 24) do Instituto do C\u00e2ncer do Estado de S\u00e3o Paulo (Icesp) com apoio da FAPESP.<\/p>\n<p>O c\u00e2ncer de mama \u00e9 o tipo de c\u00e2ncer mais comum em mulheres \u2013 a estimativa \u00e9 de 59 mil novos casos no Brasil em 2018 \u2013 e ocorre principalmente naquelas que t\u00eam mais de 50 anos e j\u00e1 se encontram na menopausa.<\/p>\n<p>No entanto, 4,5% dos casos da doen\u00e7a acometem mulheres jovens, entre 20 e 35 anos de idade. Por ter diagn\u00f3stico mais dif\u00edcil e ser pouco esperado, normalmente o tratamento nesses casos \u00e9 iniciado quando a doen\u00e7a j\u00e1 est\u00e1 em est\u00e1gio mais avan\u00e7ado e apresenta maior taxa de mortalidade que em mulheres mais idosas.<\/p>\n<p>Nos resultados do estudo, publicado na revista\u00a0, s\u00e3o destacados os dois fatores mais importantes para o c\u00e2ncer de mama: o heredit\u00e1rio, quando a pessoa herda uma muta\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica dos pais, que predisp\u00f5e ao c\u00e2ncer; e as muta\u00e7\u00f5es som\u00e1ticas, que ocorrem na c\u00e9lula da mama ao longo do tempo.<\/p>\n<p>\u201cEstudamos esse segundo fator, que descobrimos ser tamb\u00e9m o mais comum em mulheres jovens com c\u00e2ncer de mama e do qual pouco se sabe\u201d, disse\u00a0, pesquisadora da Faculdade de Medicina da Universidade de S\u00e3o Paulo (FMUSP) e uma das autoras do artigo, resultado do trabalho de doutorado de\u00a0, com\u00a0\u00a0da FAPESP. O trabalho teve colabora\u00e7\u00e3o de pesquisadores do Icesp, da FMUSP, do Instituto Brasileiro de Controle do C\u00e2ncer (IBCC), do Ontario Institute for Cancer Research (Canad\u00e1) e da University of Toronto (Canad\u00e1).<\/p>\n<p>No estudo, foram analisados os casos de 79 pacientes do Icesp e IBCC com menos de 36 anos e diagnosticadas com c\u00e2ncer de mama. Treze pacientes (16,4%) apresentavam muta\u00e7\u00f5es germinativas nos genes BRCA1 e 2, que s\u00e3o altera\u00e7\u00f5es que t\u00eam a hereditariedade como base. O estudo identificou ainda outros genes herdados, que s\u00e3o menos comuns que o BRCA1 e 2.<\/p>\n<p>Dos tumores n\u00e3o heredit\u00e1rios, oito (com express\u00e3o positiva de receptores de estrog\u00eanio, ou seja, subtipo luminal) foram submetidos ao sequenciamento do exoma \u2013 parte do genoma onde est\u00e3o os genes que codificam prote\u00ednas \u2013 e integrados para an\u00e1lise a outras 29 amostras luminais existentes em outros bancos de dados.<\/p>\n<p>\u201cDentre todos os tumores que acometem pacientes jovens, 25% s\u00e3o c\u00e2ncer de mama. \u00c9 tamb\u00e9m o tipo mais comum em jovens. H\u00e1 poucos estudos nessa \u00e1rea. Enquanto existem 2 mil tumores de mama sequenciados e dispon\u00edveis em bancos de dados, apenas 29 tumores (subtipo luminal) que acometem mulheres jovens tinham sido caracterizados. Nosso grupo sequenciou outros oito e analisamos os dados conjuntamente com os outros 29 j\u00e1 existentes\u201d, disse Folgueira \u00e0\u00a0Ag\u00eancia FAPESP.<\/p>\n<p>Com a an\u00e1lise dos dados, a equipe estabeleceu informa\u00e7\u00f5es importantes sobre a ocorr\u00eancia de c\u00e2ncer de mama causado por muta\u00e7\u00f5es som\u00e1ticas em mulheres jovens. Folgueira explica que as c\u00e9lulas da mama, em especial, proliferam a cada ciclo ovulat\u00f3rio \u2013 proliferam e entram em apoptose (morte celular) \u2013, o que faz com que elas tenham maior chance de uma muta\u00e7\u00e3o ao acaso.<\/p>\n<p>\u201cMais de 40% dos casos estudados apresentaram muta\u00e7\u00e3o som\u00e1tica em gene que codifica prote\u00edna de reparo de DNA, ou seja, o surgimento do c\u00e2ncer veio de um problema em algum sistema de reparo de DNA, que se originou na pr\u00f3pria c\u00e9lula da mama e n\u00e3o foi herdado\u201d, disse Folgueira.<\/p>\n<p>BRCA1 e BRCA2<\/p>\n<p>Muta\u00e7\u00f5es ocorrem o tempo todo, seja por metabolismo celular ou duplica\u00e7\u00e3o das c\u00e9lulas (replica\u00e7\u00e3o do DNA), entre outras causas. Tanto que cabe a uma enzima espec\u00edfica \u2013 DNA polimerase \u2013 criar duas cadeias de DNA id\u00eanticas, a partir de uma \u00fanica mol\u00e9cula de DNA original. Por\u00e9m, ela pode n\u00e3o ser muito fiel \u00e0 c\u00f3pia, gerando erros nessas replica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Para que o erro do DNA polimerase n\u00e3o passe adiante, existe ainda um sistema de reparos de DNA e, de acordo com o estudo feito no Icesp, 43% dos casos de c\u00e2ncer de mama em mulheres jovens est\u00e3o relacionados a muta\u00e7\u00f5es em genes desse sistema.<\/p>\n<p>\u201cSe a c\u00e9lula prolifera bastante ela tem mais chance de ter uma muta\u00e7\u00e3o ao acaso e \u00e9 isso que parece ocorrer nos casos que estudamos\u201d, disse Folgueira.<\/p>\n<p>O problema se assemelha aos casos de muta\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas heredit\u00e1rias, onde o mais comum s\u00e3o altera\u00e7\u00f5es nos genes BRCA1 e BRCA2. Eles ficaram mundialmente conhecidos em 2013, quando a atriz norte-americana Angelina Jolie anunciou ter se submetido \u00e0 mastectomia bilateral ap\u00f3s ter descoberto, a partir de um exame com base no sequenciamento gen\u00e9tico, que teria risco elevado de desenvolver c\u00e2ncer de mama.<\/p>\n<p>\u201cOs genes BRCA1 e BRCA2 codificam prote\u00ednas importantes que participam do reparo do DNA. Quando esse sistema n\u00e3o funciona, esse DNA fica mais prop\u00edcio a sofrer muta\u00e7\u00f5es, e o ac\u00famulo delas gera uma c\u00e9lula alterada, neopl\u00e1sica, que pode desencadear o c\u00e2ncer\u201d, disse Folgueira.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de verificar que a hereditariedade n\u00e3o \u00e9 a causa principal de c\u00e2ncer de mama em mulheres jovens, o estudo constatou que em torno de 50% dos tumores apresentam muta\u00e7\u00f5es som\u00e1ticas patog\u00eanicas em genes que controlam a transcri\u00e7\u00e3o g\u00eanica e consequentemente a s\u00edntese proteica \u2013 mais problem\u00e1tica por ser uma fun\u00e7\u00e3o em que \u00e9 mais dif\u00edcil dizer se est\u00e1 associada \u00e0 doen\u00e7a ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cNo estudo, encontramos tamb\u00e9m muta\u00e7\u00f5es patog\u00eanicas em genes associados \u00e0 regula\u00e7\u00e3o positiva da transcri\u00e7\u00e3o g\u00eanica em 54% dos tumores\u201d, disse.<\/p>\n<p>Para a pesquisadora, embora a descoberta n\u00e3o altere momentaneamente o tratamento e aten\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o de mulheres jovens, ela surge como uma indica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cReparo de DNA \u00e9 muito importante e um dos tratamentos no c\u00e2ncer de mama metast\u00e1tico, os inibidores da enzima PARP, por exemplo, \u00e9 direcionado a pacientes com muta\u00e7\u00e3o germinativa em BRCA1 e BRCA2. Existem estudos cl\u00ednicos em andamento para avaliar se este tratamento pode tamb\u00e9m beneficiar pacientes que apresentam muta\u00e7\u00f5es som\u00e1ticas em outros genes de reparo, al\u00e9m de BRCA1 e BRCA2. Este seria o caso de cerca de 40% das pacientes jovens com c\u00e2ncer de mama luminal\u201d, disse Folgueira.<\/p>\n<p>A descoberta tamb\u00e9m abre caminho para novas linhas de pesquisa. \u201c\u00c9 uma indica\u00e7\u00e3o importante que a maioria dos casos n\u00e3o seja por quest\u00f5es heredit\u00e1rias. Ainda assim fica a pergunta se s\u00e3o de fato apenas muta\u00e7\u00f5es som\u00e1ticas ao acaso. Desde que nascemos estamos expostos a tudo, n\u00e3o \u00e9? O c\u00e2ncer de mama \u00e9 o mais frequente em mulheres e um dos motivos pode ser porque as c\u00e9lulas proliferam bastante e h\u00e1 mais chance de errar\u201d, disse \u00e0\u00a0Ag\u00eancia FAPESP.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0Somatic mutations in early onset luminal breast cancer\u00a0(doi: 10.18632\/oncotarget.25123), de Giselly Encinas, Veronica Y. Sabelnykova, Eduardo Carneiro de Lyra, Maria Lucia Hirata Katayama, Simone Maistro, Pedro Wilson Mompean de Vasconcellos Valle, Gl\u00e1ucia Fernanda de Lima Pereira, L\u00edvia Munhoz Rodrigues, Pedro Adolpho de Menezes Pacheco Serio, Ana Carolina Ribeiro Chaves de Gouv\u00eaa, Felipe Correa Geyer, Ricardo Alves Basso, F\u00e1tima Solange Pasini, Maria del Pilar Esteves Diz, Maria Mitzi Brentani, Jo\u00e3o Carlos Guedes Sampaio G\u00f3es, Roger Chammas, Paul C. Boutros e Maria Aparecida Azevedo Koike Folgueira, pode ser lido em\u00a0.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Fernanda Ziegler\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Cerca de 80% dos casos de c\u00e2ncer de mama em mulheres jovens, com idades entre 20 e 35 anos, podem ser causados por muta\u00e7\u00f5es som\u00e1ticas \u2013 altera\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas nas c\u00e9lulas da mama que n\u00e3o t\u00eam origem heredit\u00e1ria. 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