{"id":146854,"date":"2018-07-23T23:51:29","date_gmt":"2018-07-24T02:51:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=146854"},"modified":"2018-07-23T23:51:29","modified_gmt":"2018-07-24T02:51:29","slug":"privacao-de-sono-potencializa-o-efeito-de-drogas-e-favorece-a-dependencia-quimica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2018\/privacao-de-sono-potencializa-o-efeito-de-drogas-e-favorece-a-dependencia-quimica\/146854","title":{"rendered":"Priva\u00e7\u00e3o de sono potencializa o efeito de drogas e favorece a depend\u00eancia qu\u00edmica"},"content":{"rendered":"<p> Jos\u00e9 Tadeu Arantes\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 A <strong><em>priva\u00e7\u00e3o de sono<\/em><\/strong> tornou-se um fen\u00f4meno epid\u00eamico em escala planet\u00e1ria.\u00a0\u00a0mostrou que a popula\u00e7\u00e3o adulta que dorme seis horas ou menos cresceu em 31% no per\u00edodo compreendido entre 1985 e 2012. Em entrevista ao jornal\u00a0, Matthew Walker, diretor do Centro para Ci\u00eancia do Sono Humano, da Universidade da Calif\u00f3rnia em Berkeley, destacou que a priva\u00e7\u00e3o de sono est\u00e1 disseminada na sociedade moderna e afeta cada aspecto de nossa biologia. E mencionou, entre as consequ\u00eancias, enfermidades como obesidade, diabetes, doen\u00e7as card\u00edacas, acidente vascular cerebral, doen\u00e7a de Alzheimer e c\u00e2ncer.<\/p>\n<p>Outra importante consequ\u00eancia acaba de ser demonstrada, em estudo com modelos animais feito por\u00a0\u00a0e colegas. Trata-se da potencializa\u00e7\u00e3o que a priva\u00e7\u00e3o de sono exerce sobre os efeitos da anfetamina, favorecendo o desenvolvimento de padr\u00f5es comportamentais relacionados \u00e0 depend\u00eancia qu\u00edmica. Artigo a respeito foi publicado pelos pesquisadores na revista\u00a0.<\/p>\n<p>\u201cO sono transformou-se em moeda de troca na sociedade contempor\u00e2nea. Deixamos de dormir para fazer muitas outras coisas: trabalho, divers\u00e3o, participa\u00e7\u00e3o em redes sociais etc. E a associa\u00e7\u00e3o da priva\u00e7\u00e3o do sono com o uso de drogas psicoestimulantes, como anfetamina, coca\u00edna e outras, tornou-se muito frequente \u2013 n\u00e3o apenas em \u2018baladas\u2019 e \u2018raves\u2019, mas tamb\u00e9m por parte de profissionais que precisam trabalhar por turnos, como plantonistas de hospitais, caminhoneiros e outros. Nosso estudo mostrou que a priva\u00e7\u00e3o de sono exacerba o efeito da droga e contribui para a consolida\u00e7\u00e3o do quadro de depend\u00eancia\u201d, disse Berro \u00e0\u00a0Ag\u00eancia FAPESP.<\/p>\n<p>Doutora pela Escola Paulista de Medicina \u2013 Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (EPM-Unifesp) na \u00e1rea de Medicina e Biologia do Sono, a pesquisadora conclui atualmente p\u00f3s-doutorado no Centro M\u00e9dico da University of Mississippi.<\/p>\n<p>\u201cOs estudos reportados na literatura afirmam que s\u00e3o necess\u00e1rias quatro sess\u00f5es para condicionar os animais ao uso de anfetaminas. Nossa pesquisa mostrou que, quando existe priva\u00e7\u00e3o de sono, bastam duas sess\u00f5es\u201d, disse. O estudo empregou um m\u00e9todo que possibilita investigar a chamada \u201cprefer\u00eancia condicionada por lugar\u201d.<\/p>\n<p>\u201cUtilizamos um dispositivo composto por dois compartimentos: um com paredes brancas e ch\u00e3o preto; o outro com paredes pretas e ch\u00e3o met\u00e1lico. Ministramos a droga de abuso \u2013 no caso, a anfetamina \u2013 em um desses ambientes. No dia seguinte, colocamos o animal, sem administra\u00e7\u00e3o de droga, no outro ambiente. Com isso, criamos um lugar pareado com os efeitos da droga e um lugar neutro. Depois de algumas sess\u00f5es, o animal condicionado tende a escolher o ambiente pareado, mesmo que n\u00e3o receba droga alguma\u201d, disse Berro.<\/p>\n<p>O objetivo do estudo foi verificar se a priva\u00e7\u00e3o de sono poderia levar ao condicionamento com um n\u00famero menor de sess\u00f5es do que as quatro descritas pela literatura. E isso, de fato, ocorreu.<\/p>\n<p>No total, foram utilizados 25 ratos: 13 com priva\u00e7\u00e3o de sono e 12 no grupo-controle. Ap\u00f3s duas sess\u00f5es de anfetamina, nenhum animal do grupo-controle desenvolveu condicionamento. Mas todos os animais privados de sono desenvolveram. \u201cIsso confirmou nossa hip\u00f3tese de que a priva\u00e7\u00e3o de sono \u00e9, de fato, potencializadora dos efeitos da anfetamina e contribui para o estabelecimento da depend\u00eancia qu\u00edmica\u201d, disse Berro.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 claro que \u00e9 sempre problem\u00e1tico transpor os resultados obtidos com modelos animais para humanos, mas, afinal, \u00e9 para isso que fazemos experimentos com modelos animais. No caso, nosso experimento permite afirmar que, se uma pessoa estiver privada de sono e fizer uso de anfetamina, ela ter\u00e1 maior propens\u00e3o a desenvolver o condicionamento entre os efeitos da droga e as \u2018pistas ambientais\u2019 \u2013 isto \u00e9, as caracter\u00edsticas do ambiente\u201d, disse.<\/p>\n<p>Associa\u00e7\u00e3o entre ambiente e droga<\/p>\n<p>A associa\u00e7\u00e3o entre os efeitos da droga e o ambiente \u00e9 algo muito prevalente na vida dos dependentes qu\u00edmicos. A tal ponto que o condicionamento pelas pistas ambientais constitui um dos maiores desafios no tratamento.<\/p>\n<p>\u201cMesmo quando dependentes qu\u00edmicos decidem que querem deixar a droga e t\u00eam recursos e for\u00e7a de vontade suficientes para passar tr\u00eas meses em uma cl\u00ednica de reabilita\u00e7\u00e3o, limpando o sistema, \u00e9 muito dif\u00edcil que, depois de tudo isso, eles possam regressar ao ambiente em que costumavam fazer uso da droga sem experimentar reca\u00eddas. Quando as pessoas retornam, as pistas ambientais associadas aos efeitos da droga \u2013 que podem englobar desde a audi\u00e7\u00e3o de uma simples m\u00fasica at\u00e9 o contato com um colega \u2013 s\u00e3o suficientes para que elas se lembrem dos efeitos da droga e sintam o impulso de usar de novo\u201d, disse Berro.<\/p>\n<p>Essa associa\u00e7\u00e3o entre ambiente e droga \u00e9 multifatorial. Mas tem uma forte base bioqu\u00edmica. \u201cExiste uma regi\u00e3o bem determinada do c\u00e9rebro, o n\u00facleo accumbens, na qual a utiliza\u00e7\u00e3o de drogas de abuso provoca um aumento dos n\u00edveis de dopamina. Todos os mam\u00edferos possuem essa estrutura cerebral. E o aumento dos n\u00edveis de dopamina nessa estrutura est\u00e1 associado \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de mem\u00f3rias importantes para a sobreviv\u00eancia\u201d, disse Berro.<\/p>\n<p>\u201cAlimenta\u00e7\u00e3o, rela\u00e7\u00e3o sexual, experi\u00eancias de luta ou fuga, tudo isso leva a um aumento da dopamina, criando mem\u00f3rias destinadas a perpetuar a vida do indiv\u00edduo e a exist\u00eancia da esp\u00e9cie. As drogas de abuso tamb\u00e9m provocam esse aumento. E \u00e9 ele que fornece o substrato bioqu\u00edmico para a associa\u00e7\u00e3o entre os efeitos recompensadores da droga e as pistas ambientais. Uma vez condicionada, basta que a pessoa entre em contato com o ambiente para j\u00e1 experimentar um aumento de dopamina no n\u00facleo accumbens, que a leva a recordar os efeitos da droga e a querer a droga\u201d, explicou.<\/p>\n<p>O n\u00facleo accumbens localiza-se no interior do sistema mesol\u00edmbico. Trata-se de uma regi\u00e3o antiga e primitiva do c\u00e9rebro. Desde tempos imemoriais, os humanos fazem uso de drogas que aumentam a libera\u00e7\u00e3o de dopamina nessa \u00e1rea. O mesmo ocorre com animais. Por isso a depend\u00eancia qu\u00edmica \u00e9 t\u00e3o recalcitrante. O c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal, onde existem estruturas associadas \u00e0 raz\u00e3o e \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o, \u00e9 muito mais recente. Seu poder normativo \u00e9 fraco comparado \u00e0s puls\u00f5es ancoradas no sistema l\u00edmbico.<\/p>\n<p>\u201cO principal mecanismo pelo qual a priva\u00e7\u00e3o de sono potencializa o efeito das drogas de abuso parece estar relacionado tamb\u00e9m \u00e0 via dopamin\u00e9rgica mesol\u00edmbica, da qual o n\u00facleo accumbens faz parte. Estudos mostram que a priva\u00e7\u00e3o de sono em ratos leva a um aumento nos n\u00edveis de dopamina no posenc\u00e9falo basal, \u00e1rea relacionada ao sono. Ainda n\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancias do aumento de dopamina no n\u00facleo accumbens, mas estudos comportamentais sugerem fortemente isso. A priva\u00e7\u00e3o de sono faz com que animais apresentem comportamentos que mimetizam ou potencializam aqueles causados por psicoestimulantes\u201d, disse a pesquisadora.<\/p>\n<p>\u201cAl\u00e9m disso, sabe-se que tanto em roedores quanto em humanos a priva\u00e7\u00e3o de sono altera a disponibilidade de receptores dopamin\u00e9rgicos no corpo estriado. E, em humanos, tamb\u00e9m j\u00e1 foi demonstrado que a priva\u00e7\u00e3o de sono amplifica a reatividade do sistema mesol\u00edmbico a est\u00edmulos prazerosos. Isso pode constituir uma base bioqu\u00edmica para o favorecimento da depend\u00eancia a drogas de abuso\u201d, disse.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0Sleep deprivation precipitates the development of amphetamine-induced conditioned place preference in rats[https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.neulet.2018.02.010], de La\u00eds F.Berro, Sergio B. Tufik, Roberto Frussa-Filho, Monica L. Andersen e SergioTufik, est\u00e1 publicado em\u00a0.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Tadeu Arantes\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 A priva\u00e7\u00e3o de sono tornou-se um fen\u00f4meno epid\u00eamico em escala planet\u00e1ria.\u00a0\u00a0mostrou que a popula\u00e7\u00e3o adulta que dorme seis horas ou menos cresceu em 31% no per\u00edodo compreendido entre 1985 e 2012. Em entrevista ao jornal\u00a0, Matthew Walker, diretor do Centro para Ci\u00eancia do Sono Humano, da Universidade da Calif\u00f3rnia [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":37376,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_genesis_hide_title":false,"_genesis_hide_breadcrumbs":false,"_genesis_hide_singular_image":false,"_genesis_hide_footer_widgets":false,"_genesis_custom_body_class":"","_genesis_custom_post_class":"","_genesis_layout":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[22,5],"tags":[],"class_list":{"0":"post-146854","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-brasil","8":"category-saude-e-vida","9":"entry","10":"gs-1","11":"gs-odd","12":"gs-even","13":"gs-featured-content-entry"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/imagens\/saude-doutor.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_likes_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/146854","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=146854"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/146854\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/media\/37376"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=146854"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=146854"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=146854"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}