{"id":146506,"date":"2018-07-19T00:08:22","date_gmt":"2018-07-19T03:08:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=146506"},"modified":"2018-07-19T00:08:22","modified_gmt":"2018-07-19T03:08:22","slug":"mecanismo-que-afeta-multiplicacao-de-linhagem-do-virus-da-dengue-e-descoberto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2018\/mecanismo-que-afeta-multiplicacao-de-linhagem-do-virus-da-dengue-e-descoberto\/146506","title":{"rendered":"Mecanismo que afeta multiplica\u00e7\u00e3o de linhagem do v\u00edrus da dengue \u00e9 descoberto"},"content":{"rendered":"<p> Jana\u00edna Sim\u00f5es\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0 \u2013 Uma linhagem do v\u00edrus da <strong><em>dengue<\/em><\/strong> 1 encontrada no Brasil consegue prevalecer sobre outra, apesar de se multiplicar menos nos mosquitos portadores do v\u00edrus e nas c\u00e9lulas humanas infectadas. A descoberta foi feita em uma pesquisa colaborativa\u00a0\u00a0e desenvolvida por diversas institui\u00e7\u00f5es nacionais e uma universidade dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Segundo a pesquisa, a linhagem ativa menos a resposta do sistema imunol\u00f3gico dos doentes. Sendo menos combatido, o v\u00edrus consegue se multiplicar mais no corpo humano, aumentando as chances de a pessoa ser picada por um mosquito e contagiar outras. Assim, essa linhagem consegue superar outra, com capacidade muito maior de se multiplicar em mosquitos e em pacientes.<\/p>\n<p>Os pesquisadores estudaram as linhagens 1 e 6 (L1 e L6) do v\u00edrus da dengue de tipo 1 que afetam a popula\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto, no interior de S\u00e3o Paulo. O estudo mostrou que, apesar de a L1 ter maior capacidade de multiplica\u00e7\u00e3o no mosquito e nas c\u00e9lulas, a L6 consegue minimizar e at\u00e9 desativar as respostas imunol\u00f3gicas do corpo humano, fazendo com que essa linhagem ocupe o local da L1.<\/p>\n<p>\u201cHavia tr\u00eas pr\u00e1ticas para investigar as situa\u00e7\u00f5es de multiplica\u00e7\u00e3o do v\u00edrus da dengue e explicar por que uma linhagem superava outra. Nossa pesquisa trouxe \u00e0 tona um novo fen\u00f4meno que explica como um v\u00edrus sobrevive em uma popula\u00e7\u00e3o\u201d, disse\u00a0, professor adjunto do Laborat\u00f3rio de Pesquisas em Virologia do Departamento de Doen\u00e7as Dermatol\u00f3gicas, Infecciosas e Parasit\u00e1rias da Faculdade de Medicina de S\u00e3o Jos\u00e9 do Preto (Famerp) e um dos autores de artigo publicado recentemente na\u00a0\u00a0com resultados da pesquisa.<\/p>\n<p>\u201cMas n\u00e3o se trata s\u00f3 de observar se o v\u00edrus se multiplica mais ou menos no mosquito ou na c\u00e9lula humana para entender por que uma linhagem toma o lugar de outra. Precisamos saber como o v\u00edrus interage com o ser humano como um todo\u201d, disse Nogueira, que tamb\u00e9m \u00e9 presidente da Sociedade Brasileira de Virologia, \u00e0\u00a0Ag\u00eancia FAPESP.<\/p>\n<p>O estudo traz novos conhecimentos fundamentais para a produ\u00e7\u00e3o de vacinas no combate \u00e0 doen\u00e7a. \u201cCompreender, de forma global, como o v\u00edrus interage com a popula\u00e7\u00e3o nos ajuda a entender como as vacinas funcionam e \u00e9 fundamental para podermos desenh\u00e1-las\u201d, disse.<\/p>\n<p>Sabe-se que no Brasil houve tr\u00eas introdu\u00e7\u00f5es de v\u00edrus da dengue do tipo 1: as linhagens 1, 3 e 6, todas com o mesmo gen\u00f3tipo. Em S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto, observou-se inicialmente a circula\u00e7\u00e3o da L6 pelo menos desde 2008. Em 2010, a L1 foi identificada pela primeira vez na cidade. Por um per\u00edodo, ambas circularam conjuntamente.<\/p>\n<p>Esperava-se que L1 apresentasse maior capacidade de multiplica\u00e7\u00e3o nas c\u00e9lulas e nos mosquitos transmissores, o\u00a0Aedes aegypti, j\u00e1 que ela chegou depois de L6 e conseguiu se instalar. Por\u00e9m, a partir de 2013, a L1 come\u00e7ou a diminuir at\u00e9 n\u00e3o ser mais detectada na popula\u00e7\u00e3o, contrariando a expectativa de que a nova linhagem fosse substituir a L6.<\/p>\n<p>Esse fato contrariava o conhecimento cient\u00edfico produzido a respeito da preval\u00eancia de uma linhagem sobre outra, um fen\u00f4meno chamado substitui\u00e7\u00e3o de clado (grupo de organismos originados de um \u00fanico ancestral comum).<\/p>\n<p>Ele pode ocorrer se a linhagem introduzida no meio se multiplica melhor nas c\u00e9lulas humanas do que a que j\u00e1 estava no ambiente. A outra hip\u00f3tese \u00e9 a de que a linhagem que chegou posteriormente se multiplica mais no mosquito. Em ambos os casos, diz-se que o v\u00edrus que suplantou o outro tem um \u201cfitness viral\u201d melhor.<\/p>\n<p>Fitness epidemiol\u00f3gico<\/p>\n<p>Uma terceira explica\u00e7\u00e3o surgiu a partir de um estudo feito em Porto Rico em 2015, onde se encontrou uma linhagem do v\u00edrus da dengue com um fitness viral pior do que as que j\u00e1 estavam no ambiente, mas que acabou prevalecendo sobre as demais. Descobriu-se que essa linhagem inibe o sistema interferon, prote\u00edna que induz uma resposta antiviral toda vez que algu\u00e9m \u00e9 infectado por v\u00edrus, diminuindo sua replica\u00e7\u00e3o. Nesse caso, o processo se chama fitness epidemiol\u00f3gico.<\/p>\n<p>No caso brasileiro, nada disso ocorreu. Primeiro, os pesquisadores sequenciaram os genomas das duas linhagens de v\u00edrus. Elas t\u00eam 47 amino\u00e1cidos diferentes, s\u00e3o bem distantes geneticamente, mas competiram entre si e a L6 venceu.<\/p>\n<p>\u201cAs informa\u00e7\u00f5es que t\u00ednhamos at\u00e9 ali dizia que o esperado era que a L6 se multiplicasse melhor, da\u00ed ter prevalecido, mas, quando olhamos c\u00e9lulas contaminadas de humanos e de macacos, vimos que a L1 multiplica 10 vezes mais, em m\u00e9dia, do que a L6\u201d, disse Nogueira.<\/p>\n<p>Se L1 n\u00e3o o fazia nas c\u00e9lulas humanas, a hip\u00f3tese era de que o melhor fitness viral se explicaria porque a L6 se multiplicaria melhor no mosquito. Ent\u00e3o os cientistas infectaram oralmente mosquitos cativos \u2013 criados para experimentos cient\u00edficos. Para se alimentar, os mosquitos picavam uma membrana que tinha sangue de camundongo contaminado com v\u00edrus da dengue das linhagens 1 e 6. \u201cDe novo, a L1 se multiplicou 10 vezes melhor no mosquito do que a L6\u201d, disse.<\/p>\n<p>Surgiu a possibilidade de que os mosquitos cativos talvez n\u00e3o fossem representativos em rela\u00e7\u00e3o aos encontrados no meio ambiente. Feito um novo experimento, em que ovos do mosquito foram coletados no ambiente e eclodidos em laborat\u00f3rio, chegou-se ao mesmo resultado: L1 continuava a ser mais eficiente na multiplica\u00e7\u00e3o do que L6, apesar de os estudos mostrarem que pacientes contaminados com L6 tinham uma carga viral muito maior do que os infectados pela L1.<\/p>\n<p>Sobrou, ent\u00e3o, a hip\u00f3tese do fitness epidemiol\u00f3gico, como ocorreu em Porto Rico, onde foi encontrado um v\u00edrus da dengue que codificava um RNA que inibia o interferon. N\u00e3o se confirmou a interfer\u00eancia no caso brasileiro. \u201cA\u00ed percebemos que est\u00e1vamos diante de outro mecanismo, diverso dos tr\u00eas j\u00e1 conhecidos\u201d, disse Nogueira.<\/p>\n<p>Para resolver o mist\u00e9rio, os pesquisadores passaram a fazer o estudo dos aspectos imunol\u00f3gicos da intera\u00e7\u00e3o do v\u00edrus com a resposta imune do organismo. Usando sistemas computacionais de predi\u00e7\u00e3o, verificaram que L1 conseguia ativar muito mais os linf\u00f3citos B e T, que comp\u00f5em o sistema imune, do que L6.<\/p>\n<p>A seguir, nos estudos envolvendo camundongos e c\u00e9lulas doadas por pessoas contaminadas com o v\u00edrus, os cientistas conseguiram estimular e medir a ativa\u00e7\u00e3o de respostas dos linf\u00f3citos B e T, notando que L6 ativava uma resposta mais fraca do que L1. Mediram ainda o n\u00edvel de citocinas presentes no soro recolhido dos pacientes. As citocinas t\u00eam como papel ativar, mediar ou regular a resposta imune.<\/p>\n<p>\u201cDe forma geral, observamos que a L1 multiplica muito melhor, mas tamb\u00e9m ativa fortemente o sistema imune, tanto do humano quanto do camundongo, ou seja, a L1 induz uma resposta muito grande do organismo contra o v\u00edrus. J\u00e1 a L6 se multiplica menos, mas ou ela inibe ou n\u00e3o estimula ou estimula pouco as respostas do sistema imune. Por isso, o organismo demora mais para reconhecer o v\u00edrus\u201d, disse.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as a isso, a quantidade de v\u00edrus da linhagem 6 no ser humano \u00e9, em m\u00e9dia, 10 vezes maior do que a da 1, constataram os pesquisadores. Eles tamb\u00e9m observaram que o v\u00edrus da linhagem 1 se multiplica muito mais no mosquito e tem replica\u00e7\u00e3o local muito maior ao infectar a pessoa.<\/p>\n<p>S\u00f3 que essa replica\u00e7\u00e3o induz uma ativa\u00e7\u00e3o forte de linf\u00f3citos B e T, levando ao aumento de citocinas, ou seja, gera uma forte resposta imune, capaz de inibir a replica\u00e7\u00e3o sist\u00eamica do v\u00edrus no corpo. Com isso, a carga viral \u00e9 menor, diminuindo a dissemina\u00e7\u00e3o para mosquitos, ou seja, menos gente ser\u00e1 infectada por ele.<\/p>\n<p>No caso do v\u00edrus da linhagem 6, apesar de sua menor capacidade de multiplica\u00e7\u00e3o no mosquito e tamb\u00e9m no local de replica\u00e7\u00e3o inicial ap\u00f3s picar uma pessoa, ele produz uma ativa\u00e7\u00e3o fraca de c\u00e9lulas B e T e estimula a produ\u00e7\u00e3o de citocinas que, na verdade, inibem a resposta imune, em vez de estimul\u00e1-la.<\/p>\n<p>\u201cCom isso, h\u00e1 uma replica\u00e7\u00e3o sist\u00eamica na pessoa muito maior, ou seja, uma quantidade de v\u00edrus maior na popula\u00e7\u00e3o, o que \u00e9 capaz de infectar mais mosquitos. Conclu\u00edmos ent\u00e3o que L6 tem um melhor fitness epidemiol\u00f3gico do que o L1, que, por sua vez, tem melhor fitness viral do que L6\u201d, disse Nogueira.<\/p>\n<p>A pesquisa durou dois anos e meio e envolveu um grupo de 24 pesquisadores da Famerp, da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz, das universidades federais do Rio de Janeiro (UFRJ) e Minas Gerais (UFMG), da Unesp e um colaborador estrangeiro \u2013 Nikos Vasilakis, pesquisador do Centro de Doen\u00e7as Tropicais da Universidade do Texas (Galveston), dos Estados Unidos, e tamb\u00e9m coautor do artigo.<\/p>\n<p>\u201cEmpregando an\u00e1lises epidemiol\u00f3gicas, filogen\u00e9ticas, moleculares e imunol\u00f3gicas, os autores da pesquisa demonstraram que diferen\u00e7as na resposta imune no hospedeiro determinam a din\u00e2mica da circula\u00e7\u00e3o da dengue de duas linhagens circulantes na cidade, sugerindo que os fatores que influenciam a din\u00e2mica da transmiss\u00e3o da dengue s\u00e3o muito mais complexos do que anteriormente se suspeitava\u201d, disse Vasilakis.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0Viral immunogenicity determines epidemiological fitness in a cohort of DENV-1 infection in Brazil\u00a0(doi: https:\/\/doi.org\/10.1371\/journal.pntd.0006525), de Tauyne Menegaldo Pinheiro, Maur\u00edcio Lacerda Nogueira e outros, est\u00e1 dispon\u00edvel em:\u00a0.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jana\u00edna Sim\u00f5es\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0 \u2013 Uma linhagem do v\u00edrus da dengue 1 encontrada no Brasil consegue prevalecer sobre outra, apesar de se multiplicar menos nos mosquitos portadores do v\u00edrus e nas c\u00e9lulas humanas infectadas. 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