{"id":145866,"date":"2018-07-11T00:49:12","date_gmt":"2018-07-11T03:49:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=145866"},"modified":"2018-07-11T00:49:12","modified_gmt":"2018-07-11T03:49:12","slug":"nova-molecula-e-candidata-para-tratamento-contra-a-malaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2018\/nova-molecula-e-candidata-para-tratamento-contra-a-malaria\/145866","title":{"rendered":"Nova mol\u00e9cula \u00e9 candidata para tratamento contra a mal\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<p> Maria Fernanda Ziegler\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Uma nova mol\u00e9cula, sintetizada em laborat\u00f3rio, figura como forte candidata para o desenvolvimento de f\u00e1rmaco contra a <strong><em>mal\u00e1ria<\/em><\/strong>. A possibilidade de um novo medicamento traz esperan\u00e7a a milhares de pacientes infectados pelo\u00a0Plasmodium falciparum, um dos protozo\u00e1rios causadores da mal\u00e1ria, sobretudo pelo fato de os testes mostrarem que a mol\u00e9cula foi capaz de matar, inclusive, a cepa resistente aos antimal\u00e1ricos convencionais.<\/p>\n<p>A mol\u00e9cula apresenta baixa toxicidade e alto poder de seletividade, atuando apenas no protozo\u00e1rio e n\u00e3o em outras c\u00e9lulas do organismo do hospedeiro. \u00c9 derivada da classe das marinoquinolinas, com destacada atividade biol\u00f3gica, e foi desenvolvida no Centro de Pesquisa e Inova\u00e7\u00e3o em Biodiversidade e F\u00e1rmacos () \u2013 um Centro de Pesquisa, Inova\u00e7\u00e3o e Difus\u00e3o () financiado pela FAPESP. O estudo tamb\u00e9m recebeu o apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (CNPq) e do Instituto Serrapilheira.<\/p>\n<p>Em artigo publicado no\u00a0, os pesquisadores descrevem a a\u00e7\u00e3o inibit\u00f3ria da mol\u00e9cula na fase sangu\u00ednea e hep\u00e1tica do ciclo assexuado do protozo\u00e1rio, respons\u00e1vel pelos sinais e sintomas da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos estudos realizados com cepas de cultivo\u00a0in vitro, os pesquisadores tamb\u00e9m testaram a mol\u00e9cula em camundongos. \u201cNos testes, j\u00e1 no quinto dia de estudo a mol\u00e9cula conseguiu reduzir 62% da quantidade de parasitas no sangue (parasitemia). Ao fim dos 30 dias de teste, todos os camundongos que ingeriram doses da mol\u00e9cula sobreviveram\u201d, disse\u00a0, professor no Instituto de F\u00edsica de S\u00e3o Carlos (IFSC) da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) e um dos autores do artigo, \u00e0\u00a0Ag\u00eancia FAPESP.<\/p>\n<p>Os testes foram realizados em modelo animal infectado por\u00a0P. berghei, visto que o\u00a0P. falciparum\u00a0n\u00e3o infecta camundongos.<\/p>\n<p>Inspira\u00e7\u00e3o vinda do mar<\/p>\n<p>A mol\u00e9cula candidata a virar f\u00e1rmaco foi sintetizada tendo como base compostos naturais encontrados em bact\u00e9rias marinhas, conhecidas como marinoquinolinas, que foram avaliadas quando descobertas contra a mal\u00e1ria, doen\u00e7a de chagas e tuberculose. No entanto, os produtos naturais apresentaram apenas a\u00e7\u00e3o de moderada a fraca contra os pat\u00f3genos.<\/p>\n<p>\u201cO n\u00facleo dessas mol\u00e9culas, conhecido por pirroloquinolina [que cont\u00e9m o n\u00facleo 3H-pirrolo[2,3-c]quinol\u00ednico], nos chamou a aten\u00e7\u00e3o. Esta \u00e9 uma estrutura rara dentre produtos naturais e pouco abordada na literatura cient\u00edfica\u201d, disse\u00a0, professor no Instituto de Qu\u00edmica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).<\/p>\n<p>Em 2012, o grupo de pesquisadores da Unicamp publicou uma das primeiras s\u00ednteses das marinoquinolinas naturais na literatura.<\/p>\n<p>\u201cDurante o trabalho de s\u00edntese percebemos o enorme potencial farmacol\u00f3gico dessas mol\u00e9culas. Fizemos ent\u00e3o novas modifica\u00e7\u00f5es estruturais na parte pirroloquinolina, empregando eficientes processos catal\u00edticos, e a partir da estrutura obtida criamos uma nova mol\u00e9cula com pot\u00eancia ampliada em centenas de vezes contra o\u00a0P. falciparum\u00a0e sem aumentar sua toxicidade\u201d, disse Guido.<\/p>\n<p>Duarte Correia conta que, no estudo, foram testadas as 50 primeiras mol\u00e9culas desenvolvidas a partir das marinoquinolinas. \u201cEsse trabalho, no entanto, n\u00e3o para nessa publica\u00e7\u00e3o. Temos ainda uma s\u00e9rie de outros compostos sendo desenvolvidos\u201d, disse.<\/p>\n<p>O grupo est\u00e1 caracterizando ainda o potencial dessa classe para tratar a mal\u00e1ria causada por\u00a0Plasmodium vivax, a forma da mal\u00e1ria mais prevalente no Brasil, e est\u00e1 desenvolvendo a parte de farmacocin\u00e9tica do projeto \u2013 a rea\u00e7\u00e3o do organismo ao medicamento.<\/p>\n<p>\u201cSe as propriedades do composto, como solubilidade, absor\u00e7\u00e3o, distribui\u00e7\u00e3o, metabolismo e excre\u00e7\u00e3o n\u00e3o forem adequadas, ele pode ser acumulado no organismo e se tornar t\u00f3xico para o paciente, o que inviabilizaria o medicamento. Ap\u00f3s terminarmos essa etapa, nosso objetivo \u00e9 fazer testes pr\u00e9-cl\u00ednicos e cl\u00ednicos\u201d, disse Guido.<\/p>\n<p>Morto de fome<\/p>\n<p>Os mecanismos de a\u00e7\u00e3o da mol\u00e9cula ainda n\u00e3o s\u00e3o totalmente conhecidos. Sabe-se, por\u00e9m, que entre eles est\u00e1 uma via cl\u00e1ssica de inibi\u00e7\u00e3o do parasita, conhecida como metabolismo de hemozo\u00edna.<\/p>\n<p>Essa estrat\u00e9gia consiste em manter baixa a concentra\u00e7\u00e3o desse composto que \u00e9 t\u00f3xico para o parasita. Quando o parasita se instala no hospedeiro, ele infecta primeiramente as hem\u00e1cias (gl\u00f3bulos vermelhos), pois a hemoglobina presente nessas c\u00e9lulas \u00e9 a \u00fanica fonte de energia que ele tem para consumir. Mas a hemoglobina cont\u00e9m uma mol\u00e9cula de cofator ligada em sua estrutura chamada grupo heme, que na forma livre \u2013 quando est\u00e1 desligado da hemoglobina \u2013 \u00e9 altamente t\u00f3xico para os parasitas.<\/p>\n<p>Anos de evolu\u00e7\u00e3o deram ao parasita a capacidade de desenvolver um mecanismo que polimeriza esse grupo, livrando-se assim de sua toxicidade. \u201cEssa estrat\u00e9gia do parasita de obter energia sem se intoxicar funciona mais ou menos como jogar a poeira para baixo do tapete. O grupo heme continua l\u00e1, mas em uma forma polimerizada e insol\u00favel que n\u00e3o \u00e9 t\u00f3xica para o parasita\u201d, disse Guido.<\/p>\n<p>A mol\u00e9cula desenvolvida pelo grupo de pesquisadores do CIBFar atua, entre outros mecanismos, impedindo essa polimeriza\u00e7\u00e3o e, assim, o parasita \u00e9 intoxicado pelo grupo heme.<\/p>\n<p>\u201cA mol\u00e9cula atua impedindo a forma\u00e7\u00e3o do pol\u00edmero hemozo\u00edna, que \u00e9 a forma que o parasita desenvolveu para se livrar da toxicidade do grupo heme. Ao impedir a forma\u00e7\u00e3o da hemozo\u00edna o parasita morre\u201d, disse\u00a0, professora na Faculdade de Ci\u00eancias Farmac\u00eauticas da Universidade de S\u00e3o Paulo e tamb\u00e9m autora do artigo. Garcia trabalhou em parceria com o CIBFar e foi respons\u00e1vel pelos testes do mecanismo de a\u00e7\u00e3o da mol\u00e9cula no parasita.<\/p>\n<p>Cepas resistentes<\/p>\n<p>Outro indicador de que a derivada de marinoquinolina \u00e9 forte candidata a f\u00e1rmaco est\u00e1 no fato de ela conseguir matar cepas resistentes a tr\u00eas dos principais medicamentos contra a mal\u00e1ria: cloroquina, pirimetamina e sulfadoxina.<\/p>\n<p>\u201cA cloroquina tem sido pouco usada para o tratamento da mal\u00e1ria falciparum, a mal\u00e1ria respons\u00e1vel pelos casos mais graves e fatais da doen\u00e7a, e a expectativa \u00e9 que a artemisinina siga o mesmo caminho. Atualmente, a artemisinina \u00e9 o principal f\u00e1rmaco em uso para o tratamento da mal\u00e1ria. Embora ainda eficaz, \u00e9 um f\u00e1rmaco com os anos contados por causa da resist\u00eancia, e essas cepas resistentes est\u00e3o se alastrando em toda a \u00c1sia. Existe, portanto, uma preocupa\u00e7\u00e3o mundial em desenvolver f\u00e1rmacos para a mal\u00e1ria e eu acho que o Brasil \u00e9 um pa\u00eds que tem potencial de emergir nessa \u00e1rea\u201d, disse Garcia.<\/p>\n<p>De acordo com dados da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) a mal\u00e1ria mata hoje 445 mil pessoas por ano. \u201cSe hoje, com o medicamento eficaz, temos um n\u00famero t\u00e3o alto de mortes, se n\u00e3o houver o desenvolvimento de novos f\u00e1rmacos no futuro a mal\u00e1ria pode matar muito mais. \u00c9 a parasitose que mais mata no mundo ainda que atualmente tenha tratamento relativamente eficaz\u201d, disse Guido.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0Discovery of Marinoquinolines as Potent and Fast-Acting Plasmodium falciparum Inhibitors with in Vivo Activity\u00a0(doi: 10.1021\/acs.jmedchem.8b00143), de Anna Caroline Campos Aguiar, Michele Panciera, Eric Francisco Sim\u00e3o dos Santos, Maneesh Kumar Singh, Mariana Lopes Garcia, Guilherme Eduardo de Souza, Myna Nakabashi, Jos\u00e9 Luiz Costa, C\u00e9lia R. S. Garcia, Glaucius Oliva, Carlos Roque Duarte Correia e Rafael Victorio Carvalho Guido, pode ser lido no\u00a0Journal of Medicinal Chemistry\u00a0em\u00a0.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Fernanda Ziegler\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Uma nova mol\u00e9cula, sintetizada em laborat\u00f3rio, figura como forte candidata para o desenvolvimento de f\u00e1rmaco contra a mal\u00e1ria. 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