{"id":145082,"date":"2018-06-29T00:36:14","date_gmt":"2018-06-29T03:36:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=145082"},"modified":"2018-06-29T00:36:14","modified_gmt":"2018-06-29T03:36:14","slug":"empreendedores-precoces","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2018\/empreendedores-precoces\/145082","title":{"rendered":"Empreendedores precoces"},"content":{"rendered":"<p> Bruno de Pierro\u00a0 |\u00a0 Pesquisa FAPESP\u00a0\u2013 Um relat\u00f3rio elaborado pela Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE) mostra que o <strong><em>empreendedorismo<\/em><\/strong> praticado por universit\u00e1rios ou rec\u00e9m-formados tem destaque em pa\u00edses como Canad\u00e1, Austr\u00e1lia, \u00cdndia e Brasil. Nessas na\u00e7\u00f5es, a propor\u00e7\u00e3o de estudantes que fundam empresas de base tecnol\u00f3gica, as startups, \u00e9 superior a 10% do total de empreendedores \u2013 uma taxa superior a de pa\u00edses como Estados Unidos, Israel, Reino Unido e Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>A OCDE avaliou o perfil de startups registradas na base de dados Crunchbase, que re\u00fane informa\u00e7\u00f5es de aproximadamente 447 mil empresas inovadoras em 199 pa\u00edses. No caso do Brasil, contabilizaram-se apenas 290 startups, mas 12% delas tinham sido fundadas por estudantes de gradua\u00e7\u00e3o ou rec\u00e9m-formados. Embora apresentem uma taxa de mortalidade expressiva, essas empresas servem como um term\u00f4metro da import\u00e2ncia da inova\u00e7\u00e3o entre os jovens e chamam a aten\u00e7\u00e3o de grandes companhias interessadas em novos modelos de neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Observou-se que, nos pa\u00edses analisados, os segmentos de jogos, transporte, educa\u00e7\u00e3o e com\u00e9rcio on-line apresentam maior incid\u00eancia de empreendedorismo estudantil. N\u00e3o por coincid\u00eancia, s\u00e3o \u00e1reas cujas inova\u00e7\u00f5es est\u00e3o geralmente atreladas a softwares e aplicativos, e n\u00e3o exigem grande aporte de investimento para dar in\u00edcio \u00e0s atividades. J\u00e1 em setores como biotecnologia, sa\u00fade, energia e alimentos, as startups geralmente s\u00e3o criadas por pessoas mais experientes, que fazem ou conclu\u00edram a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Rafael Ribeiro, diretor da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Startups (ABStartups), enxerga uma conjun\u00e7\u00e3o de fatores para explicar o interesse dos estudantes ou rec\u00e9m-formados.<\/p>\n<p>\u201cOs jovens costumam ser mais tolerantes ao risco e isso faz com que poss\u00edveis fracassos os motivem a seguir adiante\u201d, avalia. \u201cSomado a isso, o cen\u00e1rio de crise econ\u00f4mica torna o empreendedorismo uma op\u00e7\u00e3o atraente e uma promessa de independ\u00eancia financeira.\u201d<\/p>\n<p>De acordo com o documento da OCDE, o empreendedorismo estudantil tamb\u00e9m desperta interesse gra\u00e7as ao sucesso de empresas que se tornaram l\u00edderes mundiais, como o Facebook, a Microsoft e a Apple. Embora consideradas casos excepcionais, elas foram iniciadas quando seus fundadores \u2013 Mark Zuckerberg, Bill Gates e Steve Jobs, respectivamente \u2013 ainda estavam na gradua\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o foi conclu\u00edda por nenhum deles.<\/p>\n<p>O cientista da computa\u00e7\u00e3o Jo\u00e3o Machini, de 29 anos, tem no curr\u00edculo tr\u00eas empresas que ajudou a fundar no final da gradua\u00e7\u00e3o no Instituto de Matem\u00e1tica e Estat\u00edstica da Universidade de S\u00e3o Paulo (IME-USP). A mais recente, criada h\u00e1 quatro anos, \u00e9 a WorldPackers, uma startup que disponibiliza vagas de trabalho volunt\u00e1rio no mundo todo. \u201cTrata-se de um sistema colaborativo de albergues, pousadas e ONGs [organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais] em que os viajantes trocam di\u00e1rias por servi\u00e7os tempor\u00e1rios\u201d, explica.<\/p>\n<p>A plataforma tem mais de 1 milh\u00e3o de usu\u00e1rios, que pagam uma taxa anual de US$ 49 para utilizar o servi\u00e7o. Filho de professores universit\u00e1rios, Machini cogitou seguir carreira acad\u00eamica, mas desistiu quando ainda fazia inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. \u201cO empreendedorismo \u00e9 muito din\u00e2mico. Para que uma nova ideia seja validada, \u00e9 preciso estar pr\u00f3ximo dos consumidores, e isso as startups fazem melhor do que as grandes firmas, que t\u00eam processos internos mais burocr\u00e1ticos.\u201d<\/p>\n<p>Uma tend\u00eancia que ganhou impulso \u00e9 o surgimento de programas criados por empresas como Microsoft, Google, Telef\u00f4nica e Bradesco para acelerar o desenvolvimento de tecnologias em startups. \u201cGrandes companhias t\u00eam interesse em conhecer e absorver novos modelos de neg\u00f3cio criados em empresas nascentes. Muitas delas, como Uber, Airbnb e Nubank, para citar uma brasileira, cresceram rapidamente a ponto de amea\u00e7ar mercados tradicionais\u201d, explica Jaercio Barbosa, coordenador da Escola Superior de Empreendedorismo (ESE) do Servi\u00e7o Brasileiro de Apoio \u00e0s Micro e Pequenas Empresas de S\u00e3o Paulo (Sebrae-SP). \u201cProgramas de acelera\u00e7\u00e3o estimulam os jovens a criar empresas\u201d, observa Barbosa.<\/p>\n<p>A disponibilidade de incubadoras de empresas em universidades tamb\u00e9m tem um papel importante. \u201cOs estudantes encontram nesses ambientes apoio institucional e orienta\u00e7\u00e3o para aplicar conhecimento na forma de consultorias de tecnologia, administra\u00e7\u00e3o e formata\u00e7\u00e3o comercial\u201d, explica Guilherme Ary Plonski, coordenador cient\u00edfico do N\u00facleo de Pol\u00edtica e Gest\u00e3o Tecnol\u00f3gica da USP.<\/p>\n<p>Criar uma startup durante a gradua\u00e7\u00e3o, no entanto, pode se revelar uma decis\u00e3o precoce e a\u00e7odada, ressalva Mariana Zanatta Inglez, gerente da Incubadora de Empresas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). \u201cH\u00e1 casos de alunos que n\u00e3o conseguem conciliar os estudos com a vida de empreendedor\u201d, diz. \u201cIsso pode prejudicar a forma\u00e7\u00e3o do estudante, que ainda n\u00e3o est\u00e1 maduro o suficiente para comandar uma empresa.\u201d<\/p>\n<p>Alex Matioli, de 27 anos, cursa administra\u00e7\u00e3o de empresas na Unicamp e divide o tempo entre as aulas, o emprego em uma luderia \u2013 um bar especializado em jogos de tabuleiro \u2013 e a Rubian, startup que fundou em 2015. \u201cO objetivo \u00e9 desenvolver extratos bioativos para aplica\u00e7\u00e3o em cosm\u00e9ticos e nutrac\u00eauticos, um tipo de suplemento alimentar.\u201d A empresa realiza pesquisas com urucum e maracuj\u00e1 em parceria com a Unicamp, com apoio do\u00a0, da FAPESP.<\/p>\n<p>Para o estudante, um obst\u00e1culo que precisou superar foi a falta de recursos para tirar a empresa do papel. \u201cN\u00e3o queria contar apenas com a ajuda financeira dos meus pais, por isso comecei a trabalhar em um bar e a juntar dinheiro. Tamb\u00e9m foi fundamental a ajuda de um mentor empresarial, que se tornou s\u00f3cio e investidor da Rubian.\u201d<\/p>\n<p>Uma pesquisa divulgada no ano passado pelo Sebrae revela que apenas 28,4% dos estudantes cursaram na universidade uma disciplina relacionada ao empreendedorismo e, entre as que oferecem tais mat\u00e9rias, pouco mais da metade trata mais de reflex\u00f5es sobre \u201cter inspira\u00e7\u00e3o\u201d do que apresenta conhecimento pr\u00e1tico. \u201cO Brasil tem poucas escolas com a miss\u00e3o de formar empreendedores\u201d, sublinha Jaercio Barbosa, da ESE Sebrae-SP.<\/p>\n<p>Outro estudo realizado em 2016 pelas universidades de Berna e St. Gallen, na Su\u00ed\u00e7a, aplicou um question\u00e1rio a mais de 122 mil estudantes de mil universidades em 50 pa\u00edses. Observou-se que 80,3% dos alunos pretendiam trabalhar como funcion\u00e1rios imediatamente ap\u00f3s conclu\u00edrem a gradua\u00e7\u00e3o. Apenas 8,8% demonstraram vontade de fundar a pr\u00f3pria empresa ao terminarem os estudos. No entanto, 38,2% disseram que abririam um neg\u00f3cio depois de cinco anos de formados \u2013 tempo suficiente para fazer uma p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o ou adquirir experi\u00eancia no mercado de trabalho.<\/p>\n<p>Maturidade<\/p>\n<p>Vin\u00edcius Freitas, aluno de administra\u00e7\u00e3o de empresas do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), fez est\u00e1gio de dois anos no mercado financeiro antes de fundar uma empresa. \u201cTrabalhei com gente mais experiente e isso acelerou meu aprendizado. Se tivesse empreendido sem passar pelo est\u00e1gio, as chances de meu neg\u00f3cio falhar seriam maiores.\u201d Aos 24 anos, Freitas \u00e9 um dos s\u00f3cios da LiveHere, startup com sede em Campinas que faz a media\u00e7\u00e3o entre propriet\u00e1rios de im\u00f3veis e estudantes. \u201cTemos uma plataforma que simplifica a contrata\u00e7\u00e3o de alugu\u00e9is, sem que os estudantes precisem apresentar fiador ou cheque cau\u00e7\u00e3o para alugar um im\u00f3vel\u201d, explica.<\/p>\n<p>O levantamento da OCDE mostra que em pa\u00edses mais desenvolvidos, como Su\u00ed\u00e7a, Dinamarca, Alemanha e Estados Unidos, a propor\u00e7\u00e3o de startups criadas por pessoas com doutorado \u00e9 bem maior do que no Brasil. Nos Estados Unidos, empresas fundadas por indiv\u00edduos em torno dos 40 anos costumam dar mais certo do que aquelas concebidas por estudantes, na casa dos 20 anos, segundo estudo publicado em abril por pesquisadores do MIT e da Universidade de Northwestern no reposit\u00f3rio do National Bureau of Economic Research (NBER).<\/p>\n<p>\u201cEmpreendedores mais maduros geralmente t\u00eam um olhar mais especializado, que \u00e9 fundamental para desenvolver inova\u00e7\u00f5es mais robustas\u201d, observa Lucimar Dantas, gerente da Incubadora de Empresas do Instituto Alberto Luiz Coimbra de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe-UFRJ).<\/p>\n<p>No Brasil, boa parte dos empreendedores estudantis ainda n\u00e3o completou ou tem apenas o bacharelado, como mostra a OCDE. \u201cIsso influencia negativamente o teor de inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica da empresa\u201d, explica Fabio Kon, professor de empreendedorismo digital do IME-USP e membro da Coordena\u00e7\u00e3o Adjunta de Pesquisa para Inova\u00e7\u00e3o da FAPESP. Para ele, n\u00e3o \u00e9 o caso de desencorajar os estudantes mais novos a criar startups. Mas argumenta que \u00e9 preciso discutir abertamente as limita\u00e7\u00f5es do modelo de empreendedorismo estudantil porque a mortalidade dessas empresas costuma ser maior e pode atrapalhar o desempenho acad\u00eamico do estudante.<\/p>\n<p>Rafael Ribeiro, da ABStartups, observa que o caminho para os empreendedores muito jovens \u00e9 \u00e1rduo. \u201cMuitos tendem a falhar quando n\u00e3o t\u00eam mentoria e ajuda adequada\u201d, diz Ribeiro. \u201cTodo aluno deve aprender a se relacionar com a comunidade de startups para encurtar a sua curva de aprendizagem e conseguir validar seu produto ou servi\u00e7o no mercado consumidor.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bruno de Pierro\u00a0 |\u00a0 Pesquisa FAPESP\u00a0\u2013 Um relat\u00f3rio elaborado pela Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE) mostra que o empreendedorismo praticado por universit\u00e1rios ou rec\u00e9m-formados tem destaque em pa\u00edses como Canad\u00e1, Austr\u00e1lia, \u00cdndia e Brasil. 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