{"id":141863,"date":"2018-05-17T22:50:55","date_gmt":"2018-05-18T01:50:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=141863"},"modified":"2018-05-17T22:50:55","modified_gmt":"2018-05-18T01:50:55","slug":"nova-rede-pesquisa-o-clima-espacial-sobre-a-america-do-sul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2018\/nova-rede-pesquisa-o-clima-espacial-sobre-a-america-do-sul\/141863","title":{"rendered":"Nova rede pesquisa o clima espacial sobre a Am\u00e9rica do Sul"},"content":{"rendered":"<p> Peter Moon | Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 A intera\u00e7\u00e3o entre part\u00edculas solares e o campo magn\u00e9tico terrestre, bem como poss\u00edveis efeitos nocivos do clima espacial em aparelhos eletr\u00f4nicos, s\u00e3o objeto de estudo de um grupo de pesquisadores no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos (SP). Em colabora\u00e7\u00e3o com colegas de outras institui\u00e7\u00f5es latino-americanas, o grupo do Inpe trabalha na instala\u00e7\u00e3o da <strong><em>Rede Embrace de Magnet\u00f4metros<\/em><\/strong> (Embrace MagNet) na Am\u00e9rica do Sul, que, espera-se, chegar\u00e1 a mais de 20 equipamentos espalhados por toda a Am\u00e9rica Latina, incluindo o M\u00e9xico, por volta de 2022.<\/p>\n<p>O objetivo central da rede formada por magnet\u00f4metros \u2013 instrumentos utilizados em medidas de intensidade de um campo magn\u00e9tico \u2013 \u00e9 estudar particularidades e especificidades das perturba\u00e7\u00f5es no campo magn\u00e9tico sobre a Am\u00e9rica do Sul, para determinar a sua intensidade em rela\u00e7\u00e3o ao que ocorre no resto do mundo.<\/p>\n<p>\u201cO projeto visa estudar a varia\u00e7\u00e3o di\u00e1ria da din\u00e2mica da alta atmosfera [mesosfera e termosfera] e da eletrodin\u00e2mica da ionosfera em baixas latitudes e regi\u00e3o equatorial. Nosso interesse \u00e9 ver a varia\u00e7\u00e3o do campo magn\u00e9tico terrestre quando acontecem as explos\u00f5es solares e as nuvens magn\u00e9ticas atingem a Terra\u201d, disse\u00a0, coordenador-geral de Ci\u00eancias Espaciais e Atmosf\u00e9ricas do Inpe.<\/p>\n<p>De Nardin e colegas publicaram recentemente na revista\u00a0Radio Science, da American Geophysical Union, dois artigos sobre a Embrace MagNet. No\u00a0, descrevem a proposta e os objetivos cient\u00edficos da rede, bem como detalham o projeto, seus equipamentos, instala\u00e7\u00e3o e como \u00e9 feito o tratamento dos dados coletados. No\u00a0, os autores revelam os primeiros resultados cient\u00edficos da iniciativa.<\/p>\n<p>O projeto de instala\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o da Embrace MagNet \u00e9 uma iniciativa internacional sediada no Inpe e que conta com apoio da FAPESP, por meio de um\u00a0, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (CNPq), Coordena\u00e7\u00e3o de Aperfei\u00e7oamento de Pessoal de N\u00edvel Superior (Capes), Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e da Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de Goi\u00e1s (Fapeg). Na Argentina, o projeto tem apoio do Fondo para la Investigaci\u00f3n Cient\u00edfica y Tecnol\u00f3gica (FonCyT), do Consejo Nacional de Investigaciones Cient\u00edficas y T\u00e9cnicas (Conicet) e do Programas y Proyectos de Investigaci\u00f3n da Universidade de Tucum\u00e1n.<\/p>\n<p>Antes da cria\u00e7\u00e3o da Embrace MagNet, os pesquisadores sul-americanos dependiam de dados fornecidos primordialmente por institui\u00e7\u00f5es dos Estados Unidos, Europa e Jap\u00e3o para estudar as perturba\u00e7\u00f5es no campo magn\u00e9tico sobre a Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p>\u201cOs magnet\u00f4metros daquelas institui\u00e7\u00f5es est\u00e3o na Am\u00e9rica do Norte, Austr\u00e1lia, Europa e \u00c1frica. Baseado em seus dados, quando ouv\u00edamos que o campo magn\u00e9tico estava perturbado, n\u00e3o sab\u00edamos o quanto esta perturba\u00e7\u00e3o tinha efeito sobre o Brasil\u201d, disse De Nardin.<\/p>\n<p>\u201cUma medida de campo magn\u00e9tico feita no Canad\u00e1, por exemplo, n\u00e3o \u00e9 equivalente a uma medida feita no Brasil. Perturba\u00e7\u00f5es magn\u00e9ticas n\u00e3o s\u00e3o equivalentes nos hemisf\u00e9rios Norte e Sul. H\u00e1 v\u00e1rias publica\u00e7\u00f5es na literatura especializada que mostram que as auroras boreais e austrais tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o sim\u00e9tricas\u201d, disse.<\/p>\n<p>Auroras boreais e austrais<\/p>\n<p>Quando a nuvem magn\u00e9tica de uma tempestade solar interage com o campo magn\u00e9tico terrestre, a faceta mais vis\u00edvel desta rela\u00e7\u00e3o \u00e9 percebida pelos cidad\u00e3os pela forma\u00e7\u00e3o de auroras boreais e austrais na estratosfera sobre as regi\u00f5es polares. Se as auroras s\u00e3o a face vis\u00edvel do fen\u00f4meno, as intera\u00e7\u00f5es entre as part\u00edculas energizadas provenientes do sol e o campo magn\u00e9tico terrestre causam perturba\u00e7\u00f5es ao redor do globo.<\/p>\n<p>\u201cNas regi\u00f5es aurorais, a intera\u00e7\u00e3o da nuvem magn\u00e9tica com o campo magn\u00e9tico gera um sistema de correntes a 100 quil\u00f4metros de altitude que pode danificar equipamentos no solo\u201d, disse outro autor dos artigos e participante da Embrace MagNet,\u00a0, professor na Universidade do Vale do Para\u00edba (Univap).<\/p>\n<p>Fen\u00f4menos importantes no campo magn\u00e9tico s\u00e3o provocados por erup\u00e7\u00f5es solares, que liberam ao espa\u00e7o radia\u00e7\u00e3o eletromagn\u00e9tica (luz) e quantidades prodigiosas de part\u00edculas altamente energizadas. \u00c9 a chamada explos\u00e3o solar. Part\u00edculas viajando a velocidades superiores a 2 milh\u00f5es de quil\u00f4metros por hora s\u00e3o lan\u00e7adas do Sol e chegam \u00e0 Terra em poucos dias, bombardeando o campo magn\u00e9tico que envolve e protege o planeta.<\/p>\n<p>Os fen\u00f4menos solares que chegam \u00e0 Terra s\u00e3o capazes de causar interfer\u00eancias em sistemas de posicionamento por sat\u00e9lites, como o GPS. Autom\u00f3veis, avi\u00f5es e navios usam sistema de navega\u00e7\u00e3o por sat\u00e9lite. Dependendo de sua intensidade, uma tempestade pode afetar os sat\u00e9lites de GPS, degradando severamente a sua opera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O bombardeio do campo magn\u00e9tico terrestre pelo resultado das erup\u00e7\u00f5es solares pode danificar tamb\u00e9m sistemas de sensoriamento remoto por radar, al\u00e9m de induzir correntes el\u00e9tricas em transformadores de linhas de transmiss\u00e3o de energia ou afetar a prote\u00e7\u00e3o de dutos para transporte de petr\u00f3leo e g\u00e1s, causando enorme preju\u00edzo econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>No caso das usinas geradoras de energia, as consequ\u00eancias podem ser mais graves. Quando a nuvem magn\u00e9tica solar atinge o campo magn\u00e9tico terrestre gerando auroras, correntes el\u00e9tricas surgem no solo. Nas proximidades de uma hidrel\u00e9trica elas podem, por exemplo, queimar seus transformadores e desligar as linhas de transmiss\u00e3o de energia, ocasionando apag\u00f5es.<\/p>\n<p>Um caso importante como descrito acima ocorreu em 9 de mar\u00e7o de 1989, resultado de uma grande explos\u00e3o solar. Tr\u00eas dias e meio mais tarde, em 13 de mar\u00e7o, uma torrente de part\u00edculas energizadas e el\u00e9trons na ionosfera induziu poderosas correntes el\u00e9tricas no solo em diversos pontos da Am\u00e9rica do Norte. Na prov\u00edncia canadense de Quebec, a corrente queimou os transformadores do sistema de transmiss\u00e3o el\u00e9trica, provocando nove horas de apag\u00e3o. Alguns sat\u00e9lites, inclusive meteorol\u00f3gicos, perderam contato por v\u00e1rias horas. O \u00f4nibus espacial Discovery se encontrava no espa\u00e7o e apresentou problemas em seus sensores eletr\u00f4nicos.<\/p>\n<p>\u201cEstudo recentes publicados na revista\u00a0Risk Analysis\u00a0estimam que o impacto nos dias de hoje de um evento geomagn\u00e9tico como o ocorrido em 1989 causaria preju\u00edzos globais entre U$ 2,4 trilh\u00f5es e U$ 3,4 trilh\u00f5es\u201d, disse De Nardin.<\/p>\n<p>Sabe-se que usinas hidrel\u00e9tricas constru\u00eddas ao lado de grandes reservat\u00f3rios s\u00e3o alvos em potencial das correntes no solo causadas por tempestades solares, isto porque a \u00e1gua dos reservat\u00f3rios, al\u00e9m de potencializar a transmiss\u00e3o da corrente ao passar pelas turbinas da usina, transmite a corrente diretamente \u00e0 casa de for\u00e7a, onde ficam os transformadores.<\/p>\n<p>Uma corrente muito mais forte, como a que atingiu Quebec em 1989, pode queimar os transformadores de uma usina. Mas n\u00e3o \u00e9 preciso ocorrer um evento daquelas propor\u00e7\u00f5es para danificar os equipamentos. Qualquer tempestade solar causa correntes no solo que afetam os transformadores das usinas. Por isso, tais equipamentos t\u00eam especifica\u00e7\u00f5es de manuten\u00e7\u00e3o peri\u00f3dica para evitar sua completa degrada\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Atividade magn\u00e9tica solar<\/p>\n<p>A frequ\u00eancia maior ou menor de explos\u00f5es solares est\u00e1 diretamente ligada ao ciclo solar (ou ciclo de atividade magn\u00e9tica solar), que mostra a atividade do Sol em intervalos de 11 anos.<\/p>\n<p>\u201cDurante os per\u00edodos de m\u00e1xima atividade solar, a degrada\u00e7\u00e3o dos transformadores \u00e9 maior. Pesquisas publicadas pelo IEEE [Institute of Electrical and Electronics Engineers] , com base em estudos realizados na \u00c1frica do Sul, indicam que, caso n\u00e3o seja feita manuten\u00e7\u00e3o, o transformador pode chegar a explodir\u201d, disse De Nardin, que tamb\u00e9m \u00e9 vice-diretor do International Space Environment Service (ISES), um organismo internacional dedicado a coordenar os esfor\u00e7os mundiais de previs\u00e3o do clima espacial.<\/p>\n<p>O estudo do clima espacial serve, entre outros motivos, para poder estimar o n\u00edvel de estresse a que est\u00e3o sujeitos os equipamentos das geradoras de energia, das empresas de extra\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo e g\u00e1s e das constela\u00e7\u00f5es de sat\u00e9lites.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise de toda a montanha de dados coletada diariamente pela Embrace MagNet serve de subs\u00eddio para o desenvolvimento, pelos pesquisadores brasileiros, de um indicador espec\u00edfico chamado \u00edndice Ksa.<\/p>\n<p>\u201cNossa ideia \u00e9 chegar a um \u00edndice sul-americano (o sa do \u00edndice Ksa). J\u00e1 sabemos que o que ocorre no resto do mundo n\u00e3o \u00e9 o mesmo que acontece aqui\u201d, disse De Nardin.<\/p>\n<p>Quando estiver completa, a rede ser\u00e1 formada por 23 magnet\u00f4metros instalados em 16 estados brasileiros, e tamb\u00e9m na Argentina, Chile, M\u00e9xico e Uruguai. J\u00e1 foram instalados e se encontram em opera\u00e7\u00e3o 13 magnet\u00f4metros \u2013 o mais recente deles foi instalado em Medianeira (PR), no campus da Universidade Tecnol\u00f3gica Federal do Paran\u00e1 (UTFPR).<\/p>\n<p>Nova camada na ionosfera<\/p>\n<p>Al\u00e9m do estudo do campo magn\u00e9tico feito com a Embrace MagNet, o projeto do qual a rede faz parte tamb\u00e9m j\u00e1 produziu uma outra importante descoberta cient\u00edfica. \u201cDetectamos a exist\u00eancia de uma quarta camada na ionosfera, a camada F\u201d, disse Fagundes, que coordena o Projeto Tem\u00e1tico\u00a0.<\/p>\n<p>Ionosfera \u00e9 uma das camadas da atmosfera terrestre, caracterizada por conter cargas de \u00edons e el\u00e9trons, que se estende entre 60 e 500 quil\u00f4metros de altitude.<\/p>\n<p>\u201cConhec\u00edamos as camadas F1, F2 e F3. Agora, descobrimos a F4. \u00c9 a mais externa. Fica acima dos 350 quil\u00f4metros de altitude. Estamos pesquisando o que gera essa estrutura\u201d, disse Fagundes.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0The Embrace Magnetometer Network for South America: Network description and its qualification\u00a0(doi: https:\/\/doi.org\/10.1002\/2017RS006477), de Denardini, C.M., Chen, S.S., Resende, L.C.A., Moro, J., Bilibio, A.V., Fagundes, P.R., M. A. Gende, M. A. Cabrera, M. J. A. Bolzan, A. L. Padilha, N. J. Schuch, J. L. Hormaechea, L. R. Alves, P. F. Barbosa Neto, P. A. B. Nogueira, G. A. S. Pican\u00e7o e T. O. Bertollotto, est\u00e1 publicado em\u00a0.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0The embrace magnetometer network for South America: First scientific results\u00a0(doi: https:\/\/doi.org\/10.1002\/2018RS006540) est\u00e1 publicado em\u00a0.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Peter Moon | Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 A intera\u00e7\u00e3o entre part\u00edculas solares e o campo magn\u00e9tico terrestre, bem como poss\u00edveis efeitos nocivos do clima espacial em aparelhos eletr\u00f4nicos, s\u00e3o objeto de estudo de um grupo de pesquisadores no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos (SP). 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