{"id":138704,"date":"2018-04-05T00:06:15","date_gmt":"2018-04-05T03:06:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=138704"},"modified":"2018-04-04T23:21:12","modified_gmt":"2018-04-05T02:21:12","slug":"parasita-da-malaria-usa-sinais-do-ambiente-para-regular-ciclo-de-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2018\/parasita-da-malaria-usa-sinais-do-ambiente-para-regular-ciclo-de-vida\/138704","title":{"rendered":"Parasita da mal\u00e1ria usa sinais do ambiente para regular ciclo de vida"},"content":{"rendered":"<p> Karina Toledo\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Pesquisadores do Reino Unido e dos Estados Unidos come\u00e7aram a desvendar os mecanismos pelos quais o parasita causador da <strong><em>mal\u00e1ria<\/em><\/strong> regula uma etapa crucial do seu ciclo de vida: o momento em que ele para de se reproduzir dentro das c\u00e9lulas sangu\u00edneas do hospedeiro humano \u2013 causando sintomas como febre, dores e calafrios \u2013 e assume uma forma sexuada conhecida como gamet\u00f3cito, capaz de infectar o mosquito vetor.<\/p>\n<p>De acordo com um estudo\u00a0publicado recentemente na revista\u00a0, a queda nos n\u00edveis plasm\u00e1ticos de um fosfolip\u00eddeo chamado lysofosfatidilcolina parece funcionar como um sinal de que \u00e9 hora de \u201cabandonar o barco\u201d e buscar um novo hospedeiro.<\/p>\n<p>O estudo foi apresentado na Faculdade de Ci\u00eancias Farmac\u00eauticas da Universidade de S\u00e3o Paulo (FCF-USP), pelo professor de Parasitologia Molecular da Universidade de Glasgow (Esc\u00f3cia) Matthias Marti. A palestra ocorreu em mar\u00e7o, durante a S\u00e3o Paulo School For Advanced Science In Cell Biology (), evento apoiado pela FAPESP por meio da modalidade\u00a0.<\/p>\n<p>\u201cO entendimento de como ocorre a transforma\u00e7\u00e3o do parasita em gamet\u00f3cito pode apontar alvos para o desenvolvimento de f\u00e1rmacos capazes de bloquear a transmiss\u00e3o da doen\u00e7a\u201d, disse Marti em entrevista \u00e0\u00a0Ag\u00eancia FAPESP.<\/p>\n<p>Os resultados obtidos at\u00e9 o momento s\u00e3o de experimentos feitos\u00a0in vitro\u00a0com protozo\u00e1rios da esp\u00e9cie\u00a0Plasmodium falciparum, respons\u00e1vel pela maioria dos casos de mal\u00e1ria em humanos e tamb\u00e9m pelos mais graves. O objetivo era investigar quais fatores no organismo hospedeiro poderiam alertar o parasita de que seria o momento de avan\u00e7ar em seu ciclo de vida.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 muitas hip\u00f3teses para explicar o fen\u00f4meno, como a exist\u00eancia de fatores gen\u00e9ticos ou de mol\u00e9culas liberadas pelo sistema imune humano. N\u00f3s est\u00e1vamos desconfiados de que poderia ser o estado nutricional do hospedeiro. Ou seja, uma vez que o parasita percebe que h\u00e1 disponibilidade limitada de nutrientes, ele busca meios de ser transmitido para outro organismo\u201d, disse Marti.<\/p>\n<p>Para testar sua teoria, o brit\u00e2nico realizou uma s\u00e9rie de ensaios em colabora\u00e7\u00e3o com Jon Clardy, da Escola de Medicina Harvard, nos Estados Unidos, e outros colaboradores.<\/p>\n<p>Os cientistas observaram que quando o soro sangu\u00edneo convencional era adicionado \u00e0 cultura de parasitas, nenhum indiv\u00edduo se transformava em gamet\u00f3cito e todos continuavam a se reproduzir normalmente nas c\u00e9lulas sangu\u00edneas. Por\u00e9m, quando a cultura era tratada com um soro que j\u00e1 tinha previamente sido exposto aos parasitas, eles passavam a se reproduzir mais lentamente e uma parte dos indiv\u00edduos se transformava em gamet\u00f3cito.<\/p>\n<p>\u201cCertamente algo importante estava faltando, ent\u00e3o decidimos fracionar o soro e testamos seus componentes um a um nas culturas\u201d, contou Marti.<\/p>\n<p>Inicialmente, os pesquisadores imaginaram que o n\u00edvel de glicose no sangue seria o fator-chave para a mudan\u00e7a de fase parasit\u00e1ria. No entanto, os experimentos mostraram que mais gamet\u00f3citos se formavam na aus\u00eancia da lysofosfatidilcolina \u2013 um fosfolip\u00eddeo bastante abundante no sangue humano e essencial para a s\u00edntese de membranas celulares.<\/p>\n<p>\u201cNossos testes mostraram que esse fosfolip\u00eddeo \u00e9 rapidamente sequestrado pelo parasita, que quebra a mol\u00e9cula e usa seus componentes para sintetizar a membrana de novos parasitas. Na falta do nutriente, cerca de 30% dos protozo\u00e1rios que infectam as c\u00e9lulas sangu\u00edneas se transformam em gamet\u00f3citos. Os outros 70% passam a se replicar mais lentamente\u201d, explicou Marti.<\/p>\n<p>Segundo o pesquisador, o n\u00edvel de lysofosfatidilcolina no sangue normalmente cai cerca de cinco vezes durante qualquer processo infeccioso importante \u2013 sendo esse fator considerado um marcador inespec\u00edfico de inflama\u00e7\u00e3o. No caso da mal\u00e1ria, o fosfolip\u00eddeo parece funcionar como um sensor ambiental para o parasita<\/p>\n<p>\u201cO\u00a0Plasmodium\u00a0se desenvolve em um ambiente em constante altera\u00e7\u00e3o \u2013 tanto no hospedeiro humano quanto no mosquito. Ele precisa colher amostras do ambiente com frequ\u00eancia e ajustar seu metabolismo quando necess\u00e1rio\u201d, disse Marti.<\/p>\n<p>O cientista acredita que o mesmo mecanismo esteja presente no caso da esp\u00e9cie\u00a0Plasmodium vivax, principal respons\u00e1vel pelos casos de mal\u00e1ria no Brasil. No entanto, n\u00e3o foi poss\u00edvel testar a hip\u00f3tese no laborat\u00f3rio porque essa esp\u00e9cie n\u00e3o sobrevive em cultura.<\/p>\n<p>Lacunas no conhecimento<\/p>\n<p>Entender como exatamente a aus\u00eancia de lysofosfatidilcolina resulta na transforma\u00e7\u00e3o em gamet\u00f3cito \u00e9 um dos objetivos atuais do grupo coordenado por Marti. Segundo o cientista, por\u00e9m, h\u00e1 v\u00e1rias outras quest\u00f5es ainda em aberto.<\/p>\n<p>\u201cQuando tiramos o fosfolip\u00eddeo do soro, apenas uma parte dos parasitas avan\u00e7a no ciclo de vida. Por que n\u00e3o todos? Como \u00e9 decidido quais indiv\u00edduos v\u00e3o se transformar em gamet\u00f3citos e quais v\u00e3o permanecer se reproduzindo assexuadamente? \u00c9 poss\u00edvel que seja um processo aleat\u00f3rio ou que existam outras mol\u00e9culas no meio extracelular regulando o processo. N\u00e3o entendemos ainda\u201d, disse o pesquisador.<\/p>\n<p>Outra possibilidade futura \u00e9 avaliar se o tipo de dieta do hospedeiro altera os n\u00edveis de lysofosfatidilcolina e se isso influencia no processo infeccioso ou na transmiss\u00e3o do parasita. Tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel olhar em popula\u00e7\u00f5es humanas como a varia\u00e7\u00e3o no n\u00edvel do fosfolip\u00eddeo durante a infec\u00e7\u00e3o impacta o processo de transmiss\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cDuas das enzimas usadas pelo parasita para metabolizar essa mol\u00e9cula j\u00e1 s\u00e3o alvos conhecidos de drogas, que est\u00e3o atualmente em fase de ensaios cl\u00ednicos. A nova descoberta abre a possibilidade de fazer experimentos mais direcionados\u201d, comentou Marti.<\/p>\n<p>Sensores do microambiente<\/p>\n<p>Para a professora da FCF-USP e organizadora da SPCell, Celia Garcia, os estudos conduzidos por Marti oferecem uma grande contribui\u00e7\u00e3o para o entendimento dos mecanismos de sinaliza\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o do\u00a0Plasmodium\u00a0com o microambiente do hospedeiro durante o est\u00e1gio de gamet\u00f3cito.<\/p>\n<p>Em seu laborat\u00f3rio, Garcia coordena um esfor\u00e7o complementar: entender como o parasita percebe o microambiente do hospedeiro durante o per\u00edodo de desenvolvimento dentro do gl\u00f3bulo vermelho.<\/p>\n<p>\u201cO estudo da sinaliza\u00e7\u00e3o celular na rela\u00e7\u00e3o\u00a0Plasmodium-hospedeiro deu um salto nos \u00faltimos anos e v\u00e1rios trabalhos v\u00eam sendo publicados por diversos laborat\u00f3rios, refor\u00e7ando a relev\u00e2ncia deste conceito de sensores de microambientes para regular aspectos do ciclo de vida do parasita da mal\u00e1ria, o que era impens\u00e1vel e criticado anos atr\u00e1s\u201d, disse a pesquisadora.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0Lysophosphatidylcholine Regulates Sexual Stage Differentiation in the Human Malaria Parasite Plasmodium falciparum, de Matthias Marti, Jon Clardy e colaboradores, pode ser lido em:\u00a0.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Karina Toledo\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Pesquisadores do Reino Unido e dos Estados Unidos come\u00e7aram a desvendar os mecanismos pelos quais o parasita causador da mal\u00e1ria regula uma etapa crucial do seu ciclo de vida: o momento em que ele para de se reproduzir dentro das c\u00e9lulas sangu\u00edneas do hospedeiro humano \u2013 causando sintomas como febre, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":37376,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_genesis_hide_title":false,"_genesis_hide_breadcrumbs":false,"_genesis_hide_singular_image":false,"_genesis_hide_footer_widgets":false,"_genesis_custom_body_class":"","_genesis_custom_post_class":"","_genesis_layout":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[22,5],"tags":[],"class_list":{"0":"post-138704","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-brasil","8":"category-saude-e-vida","9":"entry","10":"gs-1","11":"gs-odd","12":"gs-even","13":"gs-featured-content-entry"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/imagens\/saude-doutor.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_likes_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/138704","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=138704"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/138704\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/media\/37376"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=138704"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=138704"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=138704"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}