{"id":135314,"date":"2018-02-20T00:06:41","date_gmt":"2018-02-20T03:06:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=135314"},"modified":"2018-02-19T15:22:26","modified_gmt":"2018-02-19T18:22:26","slug":"antimicrobiano-usado-em-cosmeticos-pode-ser-opcao-contra-a-malaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2018\/antimicrobiano-usado-em-cosmeticos-pode-ser-opcao-contra-a-malaria\/135314","title":{"rendered":"Antimicrobiano usado em cosm\u00e9ticos pode ser op\u00e7\u00e3o contra a mal\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<p> Karina Toledo\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Um estudo conduzido na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) revelou que o triclosan \u2013 composto antimicrobiano encontrado em sabonetes, cremes dentais, desodorantes e muitos outros produtos \u2013 \u00e9 capaz de inibir genes-alvo do parasita causador da <strong><em>mal\u00e1ria<\/em><\/strong> em duas fases cruciais do seu ciclo de vida em humanos: o hep\u00e1tico, quando se reproduz nas c\u00e9lulas do f\u00edgado, e o eritrocit\u00e1rio, nas c\u00e9lulas do sangue.<\/p>\n<p>, a pesquisa foi feita em colabora\u00e7\u00e3o com as Universidades de Cambridge e de Manchester, no Reino Unido, al\u00e9m da Universidade de Gotemburgo, na Su\u00e9cia, e da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP). Resultados foram divulgados na revista\u00a0.<\/p>\n<p>No texto, os autores destacam que o triclosan, usado h\u00e1 40 anos, \u00e9 considerado seguro pelas autoridades sanit\u00e1rias. O fato de a subst\u00e2ncia combater at\u00e9 mesmo parasitas resistentes aos medicamentos hoje usados, como mostrou o novo estudo, o torna um \u201cexcitante candidato para o desenvolvimento de um antimal\u00e1rico com a\u00e7\u00e3o tanto sobre a fase aguda da doen\u00e7a [no sangue] quanto sobre a fase cr\u00f4nica [no f\u00edgado]\u201d.<\/p>\n<p>\u201cO composto em si poderia ser uma op\u00e7\u00e3o terap\u00eautica, por\u00e9m acredito ser mais interessante desenvolver mol\u00e9culas an\u00e1logas, ou seja, com pequenas altera\u00e7\u00f5es estruturais que podem torn\u00e1-lo ainda mais eficiente no combate ao parasita\u201d, disse Elizabeth Bilsland, professora do Departamento de Biologia Estrutural e Funcional do Instituto de Biologia da Unicamp e col\u00edder do projeto, \u00e0\u00a0Ag\u00eancia FAPESP.<\/p>\n<p>Causada por protozo\u00e1rios do g\u00eanero\u00a0Plasmodium, a mal\u00e1ria mata por ano quase meio milh\u00e3o de pessoas em todo o mundo \u2013 a grande maioria no continente africano. Quase 90% dos casos fatais s\u00e3o atribu\u00eddos \u00e0 infec\u00e7\u00e3o pelo\u00a0P. falciparum. No Brasil, 85% dos casos s\u00e3o causados pela esp\u00e9cie\u00a0P. vivax, que, embora induza sintomas mais brandos, pode permanecer dormente no f\u00edgado durante anos e provocar reca\u00eddas, dificultando a erradica\u00e7\u00e3o da enfermidade por aumentar o tempo que o doente permanece no est\u00e1gio contagioso.<\/p>\n<p>A tafenoquina e a primaquina s\u00e3o as principais drogas usadas hoje para tratar a fase hep\u00e1tica da mal\u00e1ria vivax \u2013 em associa\u00e7\u00e3o com outros f\u00e1rmacos que atacam o parasita na fase eritrocit\u00e1ria.<\/p>\n<p>No entanto, cerca de 10% dos doentes apresentam uma muta\u00e7\u00e3o no gene que codifica a enzima G6PD e desenvolvem efeitos colaterais severos durante o tratamento com esses dois f\u00e1rmacos. Nos casos mais graves, pode ocorrer a destrui\u00e7\u00e3o das c\u00e9lulas vermelhas do sangue (hem\u00f3lise) e at\u00e9 mesmo a morte.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 urgente o desenvolvimento de novos medicamentos capazes de atacar o\u00a0Plasmodium\u00a0tanto na sua fase hep\u00e1tica quanto na eritrocit\u00e1ria, pois existem relatos de parasitas resistentes a cada um dos antimal\u00e1ricos no mercado. Tendo diferentes alvos, a chance de desenvolvimento de resist\u00eancia ao medicamento \u00e9 menor\u201d, disse Bilsland.<\/p>\n<p>Mecanismo de a\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Dados da literatura cient\u00edfica de 2001 j\u00e1 mostravam que o triclosan \u00e9 capaz de inibir, no\u00a0Plasmodium, a a\u00e7\u00e3o de uma enzima chamada FAS-II, al\u00e9m de curar camundongos com mal\u00e1ria.<\/p>\n<p>No entanto, estudos subsequentes revelaram que essa enzima n\u00e3o \u00e9 essencial para o crescimento do parasita em cultura. Como explicou Bilsland, os testes haviam sido feitos com protozo\u00e1rios na fase eritrocit\u00e1ria.<\/p>\n<p>\u201cNa verdade, a FAS-II s\u00f3 \u00e9 importante para a sobreviv\u00eancia do parasita na fase hep\u00e1tica. Agora, mostramos por meio de ensaios com leveduras que o triclosan tamb\u00e9m inibe a enzima DHFR, um alvo essencial para a fase eritrocit\u00e1ria do parasita\u201d, contou a pesquisadora.<\/p>\n<p>A descoberta do segundo mecanismo de a\u00e7\u00e3o do triclosan pelos grupos da Unicamp, Manchester e Cambridge ocorreu quase por acaso, quando conduziam uma triagem em larga escala de compostos aprovados para uso humano pelo FDA (Food and Drug Administration, a ag\u00eancia de vigil\u00e2ncia sanit\u00e1ria norte-americana). O objetivo era descobrir drogas capazes de inibir a enzima DHFR de\u00a0Plasmodium.<\/p>\n<p>\u201cDesenvolvemos um m\u00e9todo no qual substitu\u00edmos genes de leveduras por genes humanos ou por genes-alvo de parasitas causadores de doen\u00e7as como mal\u00e1ria, Chagas e esquistossomose. Marcamos nossas linhagens com prote\u00ednas fluorescentes de cores variadas. Desse modo, por exemplo, sabemos que a levedura com gene humano \u00e9 vermelha, a com gene de\u00a0Plasmodium\u00a0\u00e9 azul, a com gene de\u00a0Trypanosoma\u00a0\u00e9 verde e a com gene de\u00a0Schistosoma, amarela\u201d, contou Bilsland.<\/p>\n<p>Assim, acrescentou, \u00e9 poss\u00edvel cultivar as diferentes variedades de leveduras modificadas em um mesmo po\u00e7o de uma placa com centenas de po\u00e7os e trat\u00e1-las simultaneamente com milhares de drogas, gra\u00e7as a um rob\u00f4 cientista conhecido como \u201cEve\u201d desenvolvido pelo grupo do professor Ross King, da Universidade de Manchester.<\/p>\n<p>\u201cObservamos em quais casos a levedura com o gene de\u00a0Plasmodium\u00a0morreu e a com gene humano sobreviveu. Assim, triamos compostos com a\u00e7\u00e3o especificamente antiparasit\u00e1ria. Nosso melhor resultado, tanto com DHFR normal como resistente a antimal\u00e1ricos, foi com o triclosan\u201d, explicou Bilsland.<\/p>\n<p>Diversos ensaios bioqu\u00edmicos, simula\u00e7\u00f5es computacionais e ensaios com leveduras foram realizados para validar a a\u00e7\u00e3o do triclosan contra a enzima DHFR. Os resultados indicam que a subst\u00e2ncia \u00e9 eficaz at\u00e9 mesmo em parasitas resistentes \u00e0 pirimetamina, reconhecido inibidor de DHFR usado na preven\u00e7\u00e3o e tratamento de mal\u00e1ria.<\/p>\n<p>\u201cMostramos ainda que o triclosan tem 20 vezes mais afinidade pela enzima do parasita do que pela equivalente humana \u2013 uma boa caracter\u00edstica para um candidato a f\u00e1rmaco\u201d, disse Bilsland.<\/p>\n<p>O Laborat\u00f3rio de Biologia Sint\u00e9tica em que os testes de otimiza\u00e7\u00e3o do triclosan como antimal\u00e1rico est\u00e3o sendo feitos foi montado na Unicamp com aux\u00edlio do Programa de Apoio a Jovens Pesquisadores da FAPESP.<\/p>\n<p>Humaniza\u00e7\u00e3o de leveduras<\/p>\n<p>Uma das vantagens de usar leveduras modificadas como modelo de estudo \u00e9 eliminar a necessidade de cultivar os parasitas\u00a0in vitro\u00a0\u2013 o que, segundo Bilsland, no caso do\u00a0P. vivax\u00a0\u00e9 virtualmente imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>\u201cEle n\u00e3o cresce em condi\u00e7\u00f5es de laborat\u00f3rio, ent\u00e3o \u00e9 preciso extrair sangue de pacientes infectados e fazer os ensaios no local [Amaz\u00f4nia, no caso brasileiro] durante apenas um ou dois dias no m\u00e1ximo\u201d, explicou.<\/p>\n<p>A mesma metodologia tem sido empregada para buscar novos compostos capazes de inibir a express\u00e3o de genes importantes de parasitas como\u00a0Trypanosoma cruzi\u00a0(doen\u00e7a de Chagas),\u00a0Trypanosoma brucei\u00a0(doen\u00e7a do sono) e\u00a0Brugia malayi\u00a0(elefant\u00edase) \u2013 al\u00e9m de bact\u00e9rias como a\u00a0Staphylococcus aureus.<\/p>\n<p>Em outra linha de pesquisa, o grupo da Unicamp tem se dedicado a modificar as caracter\u00edsticas da membrana plasm\u00e1tica de leveduras para deix\u00e1-la parecida com a membrana de c\u00e9lulas humanas. \u201cA ideia, nesse caso, \u00e9 investigar como os f\u00e1rmacos entram e saem do sistema nervoso central humano. Esse conhecimento \u00e9 importante para o desenvolvimento de drogas capazes de tratar doen\u00e7as neurodegenerativas, bem como a fase cerebral da mal\u00e1ria ou da doen\u00e7a do sono, que s\u00e3o as mais fatais\u201d, disse Bilsland.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0Plasmodium dihydrofolate reductase is a second enzyme target for the antimalarial action of triclosan\u00a0(doi: 10.1038\/s41598-018-19549-x), de Elizabeth Bilsland, Liisa van Vliet, Kevin Williams, Jack Feltham, Marta P. Carrasco, Wesley L. Fotoran, Eliana F. G. Cubillos, Gerhard Wunderlich, Morten Gr\u00f8tli, Florian Hollfelder, Victoria Jackson, Ross D. King e Stephen G. Oliver, pode ser lido em:\u00a0.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Karina Toledo\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Um estudo conduzido na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) revelou que o triclosan \u2013 composto antimicrobiano encontrado em sabonetes, cremes dentais, desodorantes e muitos outros produtos \u2013 \u00e9 capaz de inibir genes-alvo do parasita causador da mal\u00e1ria em duas fases cruciais do seu ciclo de vida em humanos: o hep\u00e1tico, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":37376,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_genesis_hide_title":false,"_genesis_hide_breadcrumbs":false,"_genesis_hide_singular_image":false,"_genesis_hide_footer_widgets":false,"_genesis_custom_body_class":"","_genesis_custom_post_class":"","_genesis_layout":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[22,5],"tags":[],"class_list":{"0":"post-135314","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-brasil","8":"category-saude-e-vida","9":"entry","10":"gs-1","11":"gs-odd","12":"gs-even","13":"gs-featured-content-entry"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/imagens\/saude-doutor.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_likes_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/135314","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=135314"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/135314\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/media\/37376"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=135314"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=135314"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=135314"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}