{"id":132727,"date":"2018-01-29T00:34:22","date_gmt":"2018-01-29T02:34:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=132727"},"modified":"2018-01-28T17:04:35","modified_gmt":"2018-01-28T19:04:35","slug":"particulas-ultrafinas-de-aerossol-intensificam-as-chuvas-na-amazonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2018\/particulas-ultrafinas-de-aerossol-intensificam-as-chuvas-na-amazonia\/132727","title":{"rendered":"Part\u00edculas ultrafinas de aerossol intensificam as chuvas na Amaz\u00f4nia"},"content":{"rendered":"<p> Karina Toledo\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Um estudo divulgado no dia 25 de janeiro na revista\u00a0\u00a0revelou como a presen\u00e7a atmosf\u00e9rica de part\u00edculas ultrafinas de aerossol \u2013 aquelas com di\u00e2metro menor do que 50 nan\u00f4metros (ou bilion\u00e9simos de metro) \u2013 pode intensificar o processo de forma\u00e7\u00e3o de nuvens e tamb\u00e9m as <strong><em>chuvas que caem sobre a regi\u00e3o amaz\u00f4nica<\/em><\/strong>.<\/p>\n<p>De acordo com os autores do artigo, sempre se acreditou que essas nanopart\u00edculas tinham papel desprez\u00edvel na regula\u00e7\u00e3o do ciclo hidrol\u00f3gico \u2013 o que, de fato, \u00e9 verdade em regi\u00f5es continentais polu\u00eddas, como as cidades europeias, norte-americanas ou mesmo S\u00e3o Paulo. Na Amaz\u00f4nia, por\u00e9m, seu papel \u00e9 diferente.<\/p>\n<p>\u201cA descoberta permite compreender melhor como a polui\u00e7\u00e3o urbana afeta os processos relacionados \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de tempestades convectivas na Amaz\u00f4nia e deve aumentar a acuidade dos modelos clim\u00e1ticos e de previs\u00e3o do tempo\u201d, disse Luiz Augusto Toledo Machado, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e coautor do estudo.<\/p>\n<p>A investiga\u00e7\u00e3o teve in\u00edcio em 2014 e foi conduzida no \u00e2mbito da campanha cient\u00edfica Green Ocean Amazon ().<\/p>\n<p>O apoio da FAPESP ao trabalho agora publicado se deu por meio de tr\u00eas projetos \u2013 um\u00a0, professor do Instituto de F\u00edsica da Universidade de S\u00e3o Paulo (IF-USP),\u00a0, tamb\u00e9m do IF-USP, e\u00a0.<\/p>\n<p>Como explicou Barbosa, os dados usados no artigo foram coletados durante a esta\u00e7\u00e3o chuvosa de 2014 \u2013 entre os meses de mar\u00e7o e abril \u2013, per\u00edodo em que a Amaz\u00f4nia est\u00e1 livre das queimadas e, portanto, em que a \u00fanica fonte de polui\u00e7\u00e3o relevante \u00e9 a cidade de Manaus.<\/p>\n<p>\u201cManaus \u00e9 uma cidade com cerca de 2 milh\u00f5es de habitantes, mais de 500 mil ve\u00edculos e abastecida por termel\u00e9tricas. \u00c9, portanto, uma grande fonte poluidora cercada de floresta pristina. Nosso principal s\u00edtio experimental foi instalado em Manacapuru \u2013 cidade situada a 80 quil\u00f4metros da capital amaz\u00f4nica e que, alternadamente, recebe a pluma de polui\u00e7\u00e3o carregada pelos ventos al\u00edsios e tamb\u00e9m ar limpo da floresta\u201d, disse Barbosa.<\/p>\n<p>Com o aux\u00edlio de instrumentos capazes de medir a concentra\u00e7\u00e3o de aeross\u00f3is na atmosfera e calcular o tamanho das part\u00edculas, bem como o de radares que medem o tamanho das got\u00edculas de nuvem, a quantidade de chuva e a velocidade com que o vapor \u00e9 levado da superf\u00edcie terrestre para a nuvem, o grupo comparou como ocorria o processo de convec\u00e7\u00e3o (movimento vertical dos gases causado pela transfer\u00eancia de calor) e de forma\u00e7\u00e3o de nuvens quando a pluma de Manaus estava ou n\u00e3o presente sobre Manacapuru.<\/p>\n<p>\u201cAs part\u00edculas de aerossol s\u00e3o essenciais no processo de forma\u00e7\u00e3o de nuvens porque s\u00e3o elas que oferecem uma superf\u00edcie para o vapor d\u2019\u00e1gua se condensar. As got\u00edculas formadas pela condensa\u00e7\u00e3o s\u00e3o pequenas, mas elas acabam colidindo umas com as outras e, assim, crescendo. As gotas aumentam de tamanho e, quando ficam pesadas o suficiente, precipitam\u201d, explicou Barbosa.<\/p>\n<p>Normalmente, apenas as part\u00edculas maiores do que 50 nan\u00f4metros atuam como n\u00facleos de condensa\u00e7\u00e3o de nuvens (CCN, na sigla em ingl\u00eas). Segundo os pesquisadores, \u00e9 mais f\u00e1cil para o vapor se condensar nas part\u00edculas grandes por ser menor a menor tens\u00e3o superficial, a for\u00e7a de atra\u00e7\u00e3o entre as mol\u00e9culas de \u00e1gua que permite aos mosquitos pousar na superf\u00edcie de um lago.<\/p>\n<p>\u201cEm cidades mais polu\u00eddas, ou na \u00e9poca seca na Amaz\u00f4nia, h\u00e1 muitas part\u00edculas na atmosfera e, portanto, existe uma forte competi\u00e7\u00e3o pelo vapor d\u2019\u00e1gua que emana da superf\u00edcie terrestre. Portanto, a popula\u00e7\u00e3o de got\u00edculas que se forma tem maior n\u00famero e menor tamanho do que teria se n\u00e3o houvesse polui\u00e7\u00e3o. Assim, ela demora mais tempo at\u00e9 crescer o suficiente para chover\u201d, explicou Machado.<\/p>\n<p>Por esse motivo, acrescentou o pesquisador, a nuvem acaba se desenvolvendo muito no sentido vertical e, como a parte de cima \u00e9 mais fria, ocorre a forma\u00e7\u00e3o de gelo. \u201cA intensa forma\u00e7\u00e3o de gelo favorece o desenvolvimento de tempestades, ou seja, de nuvens intensas com raios\u201d, disse.<\/p>\n<p>O processo descrito pelo pesquisador \u00e9 conhecido pelos especialistas em clima como\u00a0cloud invigoration, algo como intensifica\u00e7\u00e3o da nuvem. O trabalho publicado na\u00a0Science\u00a0revelou que na regi\u00e3o amaz\u00f4nica as nanopart\u00edculas tamb\u00e9m podem influenciar nesse processo, o que era desconhecido.<\/p>\n<p>Como na floresta tropical a umidade relativa e a temperatura do ar s\u00e3o muito altas, e como h\u00e1 poucas part\u00edculas grandes na atmosfera no per\u00edodo chuvoso, o vapor em excesso acaba se condensando tamb\u00e9m nas nanopart\u00edculas e o processo de\u00a0cloud invigoration\u00a0ocorre na parte baixa da nuvem, onde a \u00e1gua est\u00e1 no estado l\u00edquido. Esse processo de forma\u00e7\u00e3o de gotas de chuva libera calor latente que acelera o movimento vertical do ar, aumentando a intensidade da tempestade.<\/p>\n<p>\u201cPara se ter uma ideia, a velocidade do vento dobrava quando havia muitas nanopart\u00edculas na atmosfera\u201d, disse Rodrigo Souza, professor da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) que tamb\u00e9m participou do estudo.<\/p>\n<p>Trabalhos de modelagem foram feitos pelo grupo para confirmar a hip\u00f3tese levantada com base nos dados atmosf\u00e9ricos coletados. O modelo atmosf\u00e9rico usado foi o Weather Research and Forecasting (), um programa de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o, mas que falhava em representar alguns aspectos importantes do ciclo hidrol\u00f3gico da Amaz\u00f4nia por ter sido desenvolvido com base em observa\u00e7\u00f5es do hemisf\u00e9rio Norte.<\/p>\n<p>\u201cFoi preciso adaptar o modelo para a nossa regi\u00e3o\u201d, disse o professor Helber Gomes, da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).<\/p>\n<p>Preenchendo lacunas<\/p>\n<p>\u201cNunca entendemos como podem ocorrer aguaceiros t\u00e3o frequentes na Amaz\u00f4nia se a regi\u00e3o tem t\u00e3o poucos n\u00facleos de condensa\u00e7\u00e3o de nuvens \u2013 algo na ordem de 300 ou 350 part\u00edculas por cent\u00edmetro c\u00fabico [S\u00e3o Paulo, por exemplo, chega a ter de 10 mil a 20 mil]. Mas \u00e9 porque nunca hav\u00edamos considerado o papel dessas part\u00edculas ultrafinas de aerossol\u201d, comentou Artaxo, coautor do artigo.<\/p>\n<p>De acordo com o pesquisador, a descoberta mostra que os cientistas que estudam as regi\u00f5es tropicais n\u00e3o devem se basear apenas em conceitos desenvolvidos em pa\u00edses de clima temperado. \u201cPrecisamos olhar para as particularidades da Amaz\u00f4nia. \u00c9 poss\u00edvel que no passado, quando a atmosfera global ainda n\u00e3o estava polu\u00edda pelas emiss\u00f5es humanas, esse fen\u00f4meno de intensifica\u00e7\u00e3o de tempestades tamb\u00e9m ocorresse em outras regi\u00f5es do planeta. Mas n\u00e3o sabemos ao certo e precisamos aprofundar as investiga\u00e7\u00f5es\u201d, disse Artaxo.<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o de Machado, os achados dever\u00e3o alterar n\u00e3o apenas os modelos clim\u00e1ticos como tamb\u00e9m o modo como teorias s\u00e3o formuladas e dados atmosf\u00e9ricos s\u00e3o coletados.<\/p>\n<p>\u201cAgora que foi mostrada a import\u00e2ncia das nanopart\u00edculas no processo de intensifica\u00e7\u00e3o da chuva nunca mais vamos estudar as nuvens da mesma maneira. Isso modifica a forma de pensar todo o processo\u201d, comentou.<\/p>\n<p>O grupo ainda pretende trabalhar em novos dados e modelos para investigar at\u00e9 que ponto as conclus\u00f5es v\u00e1lidas para a Amaz\u00f4nia podem ser extrapoladas para outras regi\u00f5es do globo. \u201cSabemos que \u00e9 preciso uma energia brutal para levar todo esse vapor d\u2019\u00e1gua para 12 a 14 quil\u00f4metros de altura. Essa energia vem do sol e est\u00e1 dispon\u00edvel na Amaz\u00f4nia\u201d, disse Artaxo.<\/p>\n<p>O trabalho de coleta e an\u00e1lise dos dados contou com a participa\u00e7\u00e3o de cientistas do Brasil, Estados Unidos, Israel, China e Alemanha. Parte das medidas foi feita com o avi\u00e3o americano Gulfstream-1 (G1), pertencente ao Pacific Northwest Laboratory (PNNL).<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m apoiaram a campanha GOAmazon a Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) e o Departamento de Energia dos Estados Unidos (DoE, na sigla em ingl\u00eas), al\u00e9m de outros parceiros.<\/p>\n<p>Realizado em 2014 e 2015, o experimento teve entre seus objetivos investigar o efeito da polui\u00e7\u00e3o urbana de Manaus sobre as nuvens amaz\u00f4nicas e avan\u00e7ar no conhecimento sobre os processos de forma\u00e7\u00e3o de chuva e a din\u00e2mica da intera\u00e7\u00e3o entre a biosfera amaz\u00f4nica e a atmosfera. Com base nos achados, os pesquisadores pretendem estimar mudan\u00e7as futuras no balan\u00e7o radiativo, na distribui\u00e7\u00e3o de energia, no clima regional e seus impactos para o clima global (leia mais em:\u00a0).<\/p>\n<p>O artigo\u00a0Substantial Convection and Precipitation Enhancement by Ultrafine Aerosol Particles\u00a0(don: 10.1126\/science.aan8461), de Jiwen Fan, Daniel Rosenfeld, Yuwei Zhang, Scott E. Giangrande, Zhanqing Li, Luiz A. T. Machado, Scot T. Martin, Yan Yang, Jian Wang, Paulo Artaxo, Henrique M. J. Barbosa, Ramon C. Braga, Jennifer M. Comstock, Zhe Feng, Wenhua Gao, Helber B. Gomes, Fan Mei, Christopher P\u00f6hlker, Mira L. P\u00f6hlker, Ulrich P\u00f6schl e Rodrigo A. F. de Souza, pode ser lido\u00a0em\u00a0.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Karina Toledo\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Um estudo divulgado no dia 25 de janeiro na revista\u00a0\u00a0revelou como a presen\u00e7a atmosf\u00e9rica de part\u00edculas ultrafinas de aerossol \u2013 aquelas com di\u00e2metro menor do que 50 nan\u00f4metros (ou bilion\u00e9simos de metro) \u2013 pode intensificar o processo de forma\u00e7\u00e3o de nuvens e tamb\u00e9m as chuvas que caem sobre a regi\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":26302,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_genesis_hide_title":false,"_genesis_hide_breadcrumbs":false,"_genesis_hide_singular_image":false,"_genesis_hide_footer_widgets":false,"_genesis_custom_body_class":"","_genesis_custom_post_class":"","_genesis_layout":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[22],"tags":[],"class_list":{"0":"post-132727","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-brasil","8":"entry","9":"gs-1","10":"gs-odd","11":"gs-even","12":"gs-featured-content-entry"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/imagens\/previsao-tempo-clima-temperatura-.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_likes_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/132727","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=132727"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/132727\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/media\/26302"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=132727"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=132727"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=132727"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}