{"id":132185,"date":"2018-01-22T00:08:24","date_gmt":"2018-01-22T02:08:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=132185"},"modified":"2018-01-21T19:17:50","modified_gmt":"2018-01-21T21:17:50","slug":"mosquitos-vetores-de-doencas-sao-beneficiados-com-reducao-de-areas-verdes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2018\/mosquitos-vetores-de-doencas-sao-beneficiados-com-reducao-de-areas-verdes\/132185","title":{"rendered":"Mosquitos vetores de doen\u00e7as s\u00e3o beneficiados com redu\u00e7\u00e3o de \u00e1reas verdes"},"content":{"rendered":"<p> Maria Fernanda Ziegler\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 A urbaniza\u00e7\u00e3o e a consequente redu\u00e7\u00e3o de \u00e1reas verdes nas cidades podem ser consideradas uma verdadeira festa para <strong><em>mosquitos vetores de doen\u00e7as<\/em><\/strong>, como o\u00a0Aedes aegypti\u00a0(dengue) e o\u00a0Culex quinquefasciatus\u00a0(filariose linf\u00e1tica). Mais adaptados \u00e0s \u00e1reas urbanas, eles s\u00e3o beneficiados pelo decl\u00ednio da popula\u00e7\u00e3o de outras esp\u00e9cies de mosquitos. No munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo, essa rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 diferente. Foi o que comprovou um\u00a0\u00a0por pesquisadores da Faculdade de Sa\u00fade P\u00fablica da Universidade de S\u00e3o Paulo no \u00e2mbito do programa BIOTA-FAPESP.<\/p>\n<p>Com a colabora\u00e7\u00e3o do Centro de Controle de Zoonoses e do Departamento de Parques e \u00c1reas Verdes do munic\u00edpio, foram coletados 37.972 esp\u00e9cimes da fam\u00edlia Culicidae, que compreende esp\u00e9cies conhecidas popularmente como pernilongos. As an\u00e1lises posteriores realizadas em laborat\u00f3rio mostraram que eles pertenciam a 73 esp\u00e9cies e 14 g\u00eaneros diversos.<\/p>\n<p>Embora a coleta \u2013 feita em nove parques municipais monitorados pelo estudo \u2013 indique uma rica diversidade de esp\u00e9cies na cidade, o estudo mostrou que existe um problema quanto \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o e composi\u00e7\u00e3o dessas esp\u00e9cies nas \u00e1reas verdes do munic\u00edpio.<\/p>\n<p>Entre os resultados divulgados em artigo na\u00a0\u00a0est\u00e1 a constata\u00e7\u00e3o de uma tend\u00eancia \u00e0 redu\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies de mosquitos. Com isso, vetores de pat\u00f3genos que causam doen\u00e7as em humanos acabam sendo beneficiados adaptativamente.<\/p>\n<p>Dos insetos coletados no estudo, 68% pertenciam a cinco esp\u00e9cies:\u00a0Culex nigripalpus, Aedes albopictus, Cx. quinquefasciatus, Ae. fluviatilis\u00a0e\u00a0Ae. scapularis. Outras esp\u00e9cies de vetores \u2013\u00a0Cx. declarator, Ae. aegypti, Cx. chidesteri, Limatus durhami\u00a0e\u00a0Cx. lygrus\u00a0\u2013 tamb\u00e9m foram encontradas com maior frequ\u00eancia nos parques urbanos.<\/p>\n<p>\u201cExiste uma rela\u00e7\u00e3o entre o tamanho das \u00e1reas verdes e a diversidade das esp\u00e9cies. As \u00e1reas verdes menores tendem a possuir um subconjunto das esp\u00e9cies encontradas em \u00e1reas verdes maiores, havendo uma tend\u00eancia para que a fauna de mosquitos nas \u00e1reas menores seja formada principalmente por vetores\u201d, disse um dos autores do estudo, Ant\u00f4nio Ralph Medeiros-Sousa, doutorando na Faculdade de Sa\u00fade P\u00fablica da USP com\u00a0.<\/p>\n<p>De acordo com Medeiros-Sousa, em cen\u00e1rios de fragmenta\u00e7\u00e3o e redu\u00e7\u00e3o das \u00e1reas verdes, mosquitos vetores s\u00e3o beneficiados com a extin\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies mais silvestres.<\/p>\n<p>\u201cEles s\u00e3o mais adaptados ao meio urbano e, com a redu\u00e7\u00e3o progressiva das \u00e1reas verdes, as esp\u00e9cies mais silvestres v\u00e3o desaparecendo e as mais urbanas, justamente as mais competentes para a veicula\u00e7\u00e3o de pat\u00f3genos, de certa forma dominam o territ\u00f3rio\u201d, disse.<\/p>\n<p>O estudo tamb\u00e9m mostrou que h\u00e1 uma grande varia\u00e7\u00e3o na riqueza de esp\u00e9cies entre os parques monitorados. Foram coletadas 16 esp\u00e9cies no parque do Ibirapuera, com 1,58 km2 de \u00e1rea, enquanto no Parque Anhanguera (9,5 km2) foram encontradas 47 esp\u00e9cies. Como esperado, os fragmentos menores de \u00e1rea verde s\u00e3o mais suscet\u00edveis a dist\u00farbios ambientais, que afetam principalmente a perman\u00eancia de esp\u00e9cies de baixa abund\u00e2ncia.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 bastante expressivo coletar quase 50 esp\u00e9cies de mosquitos dentro de uma \u00e1rea verde inserida em uma cidade. N\u00e3o esper\u00e1vamos esse n\u00famero. Foi uma surpresa, mesmo sabendo que algumas regi\u00f5es, como o pr\u00f3prio parque Anhanguera, teriam uma diversidade mais elevada, justamente por causa de sua \u00e1rea\u201d, disse Medeiros-Sousa.<\/p>\n<p>Mesmo com a comprova\u00e7\u00e3o da maior concentra\u00e7\u00e3o de mosquitos vetores \u2013 sete dos oito mais comuns s\u00e3o vetores de pat\u00f3genos em humanos \u2013, os pesquisadores destacam n\u00e3o ser poss\u00edvel afirmar que h\u00e1 um maior risco de transmiss\u00e3o de pat\u00f3genos, mas apenas uma maior possibilidade de contatos entre mosquitos vetores e humanos.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o quer dizer que vai ter doen\u00e7a. Existe outra parte determinante para a doen\u00e7a que \u00e9 a presen\u00e7a do pat\u00f3geno, como o v\u00edrus da dengue, Zika ou febre amarela. O estudo mostra que h\u00e1 um desequil\u00edbrio, com menor diversidade de esp\u00e9cies em \u00e1reas menores e menos preservadas\u201d, disse outro autor do estudo,\u00a0, professor associado da Faculdade de Sa\u00fade P\u00fablica da USP e orientador de Medeiros-Sousa.<\/p>\n<p>Segundo os autores, os dados reunidos pelo estudo destacam a necessidade de outros trabalhos que busquem entender como a perda de esp\u00e9cies pode afetar o risco de doen\u00e7as infecciosas em \u00e1reas urbanas.<\/p>\n<p>Ilhas verdes<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre \u00e1rea e diversidade \u00e9 explicada pela Teoria do Equil\u00edbrio da Biogeografia de Ilhas, formulada nos anos 1960 pelos ec\u00f3logos norte-americanos Robert MacArthur e Edward Osborne Wilson. De acordo com a teoria, a riqueza de esp\u00e9cies em ilhas representaria um equil\u00edbrio din\u00e2mico entre taxas de imigra\u00e7\u00e3o e extin\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o afetadas pelo tamanho e grau de isolamento da ilha. Essa mesma teoria pode ser aplicada a parques e \u00e1reas verdes urbanas, pois formam territ\u00f3rios isolados (ilhas) pela urbaniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No caso dos mosquitos, que t\u00eam curto per\u00edodo de vida e se deslocam por curtas dist\u00e2ncias \u2013 ignorando eventuais casos de dispers\u00e3o mec\u00e2nica, quando o inseto \u00e9 deslocado ao entrar em um carro, por exemplo \u2013, a extin\u00e7\u00e3o teria um impacto ainda maior no equil\u00edbrio das esp\u00e9cies.<\/p>\n<p>\u201cMostramos que o modelo da Teoria da Biogeografia de Ilhas tamb\u00e9m se aplica no munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo. Notamos tamb\u00e9m que quanto menores forem as \u00e1reas verdes, a tend\u00eancia \u00e9 haver uma maior similaridade de esp\u00e9cies, j\u00e1 que as esp\u00e9cies mais bem adaptadas ao ambiente urbano tendem a ser selecionadas. Em nosso estudo, vimos que quase 70% dos mosquitos s\u00e3o de apenas cinco esp\u00e9cies. Isso sim \u00e9 um problema\u201d, disse Marrelli.<\/p>\n<p>Os mosquitos formam um grupo muito diverso, com mais de 3,5 mil esp\u00e9cies conhecidas. Portanto, estudos sobre a diversidade de mosquitos em espa\u00e7os verdes urbanos s\u00e3o \u00fateis tanto para elucidar processos que conduzem os padr\u00f5es de diversidade nos ecossistemas urbanos como para entender o papel da biodiversidade na redu\u00e7\u00e3o ou aumento do risco de transmiss\u00e3o de pat\u00f3genos.<\/p>\n<p>No trabalho, a equipe de pesquisadores realizou coletas mensais, entre 2011 e 2013, em nove parques municipais de S\u00e3o Paulo: Alfredo Volpi, Anhanguera, Burle Marx, Chico Mendes, Ibirapuera, Piqueri, Previd\u00eancia, Santo Dias, Shangril\u00e1.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0Mosquitoes in urban green spaces: using an island biogeographic approach to identify drivers of species richness and composition\u00a0(doi:10.1038\/s41598-017-18208-x), de Ant\u00f4nio Ralph Medeiros-Sousa, Aristides Fernandes, Walter Ceretti-Junior, Andr\u00e9 Barreto Bruno Wilke e Mauro Toledo Marrelli, pode ser lido na\u00a0Scientific Reports\u00a0em\u00a0.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Fernanda Ziegler\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 A urbaniza\u00e7\u00e3o e a consequente redu\u00e7\u00e3o de \u00e1reas verdes nas cidades podem ser consideradas uma verdadeira festa para mosquitos vetores de doen\u00e7as, como o\u00a0Aedes aegypti\u00a0(dengue) e o\u00a0Culex quinquefasciatus\u00a0(filariose linf\u00e1tica). 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