{"id":130673,"date":"2018-01-05T00:16:00","date_gmt":"2018-01-05T02:16:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=130673"},"modified":"2018-01-05T00:16:00","modified_gmt":"2018-01-05T02:16:00","slug":"via-metabolica-envolvida-na-resposta-imune-ao-zika-tambem-participa-de-neurogenese","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2018\/via-metabolica-envolvida-na-resposta-imune-ao-zika-tambem-participa-de-neurogenese\/130673","title":{"rendered":"Via metab\u00f3lica envolvida na resposta imune ao Zika tamb\u00e9m participa de neurog\u00eanese"},"content":{"rendered":"<p> Karina Toledo\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) identificaram no soro sangu\u00edneo de pacientes com <strong><em>Zika<\/em><\/strong> mol\u00e9culas que servem como marcadores dessa infec\u00e7\u00e3o viral. O achado permitiu ao grupo desvendar uma importante via de sinaliza\u00e7\u00e3o celular envolvida na resposta imune contra o Zika. Os resultados da pesquisa \u2013 que conta com a participa\u00e7\u00e3o da Rede Zika, apoiada pela FAPESP \u2013 foram divulgados na revista\u00a0.<\/p>\n<p>\u201cEssa mesma via de sinaliza\u00e7\u00e3o celular est\u00e1 envolvida na neurog\u00eanese, o processo de forma\u00e7\u00e3o de novos neur\u00f4nios, e est\u00e1 muito ativa durante o desenvolvimento embrion\u00e1rio. Sabemos que alguns v\u00edrus, entre eles o Zika, liberam uma prote\u00edna capaz de bloquear essa cascata de sinaliza\u00e7\u00e3o para escapar do sistema imune \u2013 o que pode estar associado tamb\u00e9m \u00e0 microcefalia e outras malforma\u00e7\u00f5es do sistema nervoso central\u201d, disse Carlos Fernando Melo, autor principal do artigo.<\/p>\n<p>A pesquisa envolveu 79 participantes, sendo 35 com diagn\u00f3stico confirmado de Zika por meio de testes moleculares capazes de detectar o RNA viral em amostras de sangue durante a fase aguda da infec\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Outros 34 pacientes inclu\u00eddos no estudo apresentavam, no momento da coleta do material para an\u00e1lise, sintomas parecidos com os causados pelo Zika, como febre, conjuntivite e dor de cabe\u00e7a. No entanto, tiveram resultado negativo nos testes diagn\u00f3sticos para esse v\u00edrus e tamb\u00e9m para os causadores da dengue e da febre chikungunya. O terceiro grupo de participantes foi composto por 10 indiv\u00edduos sadios, sem qualquer sintoma infeccioso.<\/p>\n<p>O trabalho de coleta e an\u00e1lise das amostras foi realizado durante o doutorado de Melo, com\u00a0\u00a0e orienta\u00e7\u00e3o de\u00a0, professor na Faculdade de Ci\u00eancias Farmac\u00eauticas (FCF) e coordenador do Laborat\u00f3rio Innovare de Biomarcadores da Unicamp.<\/p>\n<p>\u201cSeparamos as amostras em dois grupos: um contendo apenas os casos positivos para o Zika e outro, considerado o grupo-controle, que continha tanto material de pacientes sintom\u00e1ticos cujo teste havia dado negativo como o de volunt\u00e1rios saud\u00e1veis. Fizemos isso justamente para evitarmos marcadores n\u00e3o espec\u00edficos do Zika, que poderiam estar relacionados a infec\u00e7\u00f5es causadas por outros pat\u00f3genos\u201d, explicou Melo.<\/p>\n<p>O soro sangu\u00edneo dos participantes foi analisado em um espectr\u00f4metro de massas \u2013 equipamento que mede a massa das mol\u00e9culas e, com base nessa informa\u00e7\u00e3o, permite identificar cada composto presente na amostra. Em seguida, os dados foram interpretados com aux\u00edlio de um modelo estat\u00edstico conhecido como an\u00e1lise discriminante ortogonal por m\u00ednimos quadrados parciais (OPLS-DA, na sigla em ingl\u00eas).<\/p>\n<p>\u201cEssa metodologia nos permite tabular, por ordem de import\u00e2ncia, o que h\u00e1 de diferente nas amostras. Desse modo, conseguimos identificar os metab\u00f3litos capazes de diferenciar os dois grupos. Para nossa surpresa, encontramos nas amostras de pacientes infectados os pept\u00eddeos angiotensina 1-7 e angiotensina I, que fazem parte do chamado sistema renina-angiotensina\u201d, disse Melo.<\/p>\n<p>Segundo o pesquisador, o conjunto de pept\u00eddeos, enzimas e receptores celulares que formam o sistema renina-angiotensina est\u00e1 associado principalmente com o controle da press\u00e3o arterial e do volume de l\u00edquidos no corpo. Por\u00e9m, estudos recentes mostraram que alguns elementos desse sistema t\u00eam fun\u00e7\u00e3o importante na resposta imune contra v\u00edrus.<\/p>\n<p>Como relataram os autores no artigo, experimentos feitos por outros grupos mostraram que ratos infectados com o v\u00edrus da dengue e tratados com losartana ou enalapril \u2013 medicamentos contra hipertens\u00e3o que atuam como inibidores da enzima que converte angiotensina I em angiotensina II (ECA) \u2013 apresentaram sintomas mais severos da doen\u00e7a viral.<\/p>\n<p>Em outro teste, ratos modificados geneticamente para n\u00e3o expressar a ECA foram infectados com o v\u00edrus sincicial respirat\u00f3rio e, ap\u00f3s algum tempo, apresentaram carga viral cinco vezes maior que a dos ratos-controle (capazes de expressar a ECA).<\/p>\n<p>\u201cOs dados da literatura cient\u00edfica sugerem que, no caso do Zika, os pept\u00eddeos angiotensina 1-7 e angiotensina I est\u00e3o envolvidos na resposta imune celular. Eles dariam o sinal para que tenha in\u00edcio, nas c\u00e9lulas infectadas, o processo de autofagia [no qual as estruturas do meio intracelular s\u00e3o degradadas], de modo a impedir a replica\u00e7\u00e3o do v\u00edrus. Mas \u00e9 uma hip\u00f3tese que ainda precisa ser confirmada\u201d, explicou Melo.<\/p>\n<p>Os cientistas tamb\u00e9m encontraram nas amostras positivas um grupo de mediadores lip\u00eddicos que integram justamente a cascata de sinaliza\u00e7\u00e3o iniciada pela angiotensina quando esta se liga ao seu receptor celular. Na avalia\u00e7\u00e3o de Melo, esse achado corrobora a participa\u00e7\u00e3o desses pept\u00eddeos do sistema renina-angiotensina na resposta imune contra o Zika.<\/p>\n<p>Um in\u00edcio, dois desfechos<\/p>\n<p>A via de sinaliza\u00e7\u00e3o que, em teoria, leva \u00e0s c\u00e9lulas infectadas pelo v\u00edrus a se autodevorarem para barrar a infec\u00e7\u00e3o \u00e9 mediada por uma prote\u00edna conhecida como mTOR (alvo da rapamicina em mam\u00edferos, na sigla em ingl\u00eas). Em determinadas circunst\u00e2ncias, essa mesma prote\u00edna pode regular o in\u00edcio do processo de neurog\u00eanese. Os fatores que determinam se a sinaliza\u00e7\u00e3o seguir\u00e1 para um ou outro lado ainda n\u00e3o s\u00e3o bem compreendidos.<\/p>\n<p>\u201cSabemos que nos adultos a neurog\u00eanese est\u00e1 bem menos ativa do que nos embri\u00f5es em desenvolvimento. Pretendemos agora estudar melhor a via da mTOR para entender quando e como ocorre a sinaliza\u00e7\u00e3o para autofagia ou para neurog\u00eanese\u201d, disse Melo.<\/p>\n<p>Segundo o pesquisador, esse conhecimento poder\u00e1 abrir caminho para o desenvolvimento de terapias capazes de bloquear a infec\u00e7\u00e3o pelo Zika antes de o v\u00edrus causar danos ao sistema nervoso central.<\/p>\n<p>Outra possibilidade futura seria usar marcadores encontrados no sangue para auxiliar cl\u00ednicos no processo de diagn\u00f3stico. \u201cUsando essa mesma abordagem, mas com outras ferramentas tecnol\u00f3gicas, poderemos obter um conjunto de marcadores capaz de discriminar os casos positivos. Mas, para isso, precisamos de parceiros na \u00e1rea de tecnologia da informa\u00e7\u00e3o, processamento de dados e tamb\u00e9m de apoio financeiro para continuar a pesquisa\u201d, disse Diogo de Oliveira, p\u00f3s-doutorando na Unicamp e coautor do artigo.<\/p>\n<p>Para Catharino, o trabalho apresenta a descri\u00e7\u00e3o fisiopatol\u00f3gica mais completa da infec\u00e7\u00e3o pelo Zika em humanos j\u00e1 feita. \u201cGra\u00e7as \u00e0s ferramentas metabol\u00f4micas, conseguimos identificar marcadores n\u00e3o usuais da infec\u00e7\u00e3o [pept\u00eddeos e lip\u00eddeos em vez de prote\u00ednas e DNA] de forma r\u00e1pida e direta, sem a necessidade de modelos ou culturas celulares. Esta \u00e9 uma ferramenta bastante aplic\u00e1vel, por\u00e9m ainda desconhecida\u201d, disse.<\/p>\n<p>Segundo o coordenador, o estudo s\u00f3 foi poss\u00edvel gra\u00e7as \u00e0 colabora\u00e7\u00e3o com pesquisadores da Zika-Unicamp Network. \u201cEstamos desenvolvendo com essa mesma rede um m\u00e9todo de diagn\u00f3stico para dois tipos de fluidos biol\u00f3gicos. Mas o avan\u00e7o depende de parceiros e de recursos financeiros\u201d, disse Catharino.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0Serum Metabolic Alterations upon Zika Infection\u00a0(doi: https:\/\/doi.org\/10.3389\/fmicb.2017.01954), de Carlos Fernando O. R. Melo, Jeany Delafiori, Diogo N. de Oliveira, Tatiane M. Guerreiro, Cibele Z. Esteves, Estela de O. Lima, Victoria Pando-Robles, Rodrigo R. Catharino e Rede Zika, est\u00e1 publicado em\u00a0.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Karina Toledo\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) identificaram no soro sangu\u00edneo de pacientes com Zika mol\u00e9culas que servem como marcadores dessa infec\u00e7\u00e3o viral. O achado permitiu ao grupo desvendar uma importante via de sinaliza\u00e7\u00e3o celular envolvida na resposta imune contra o Zika. 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