{"id":128455,"date":"2017-12-11T00:47:14","date_gmt":"2017-12-11T02:47:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=128455"},"modified":"2017-12-11T00:47:14","modified_gmt":"2017-12-11T02:47:14","slug":"impacto-do-ecoturismo-a-fauna-silvestre-deve-ser-mais-bem-investigado-diz-cientista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2017\/impacto-do-ecoturismo-a-fauna-silvestre-deve-ser-mais-bem-investigado-diz-cientista\/128455","title":{"rendered":"Impacto do ecoturismo \u00e0 fauna silvestre deve ser mais bem investigado, diz cientista"},"content":{"rendered":"<p> Karina Toledo | Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 O <strong><em>ecoturismo<\/em><\/strong> costuma ser visto como uma forma sustent\u00e1vel de explorar o patrim\u00f4nio natural de um pa\u00eds \u2013 preservando a integridade dos ecossistemas, gerando renda para as comunidades locais e, desse modo, contribuindo para a conserva\u00e7\u00e3o da vida selvagem.<\/p>\n<p>Mas na avalia\u00e7\u00e3o da ec\u00f3loga Helena de Godoy Bergallo, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), esse tipo de atividade pode causar impactos consider\u00e1veis \u00e0 fauna, que precisam ser mais bem compreendidos pela ci\u00eancia e minimizados por meio de uma gest\u00e3o mais eficaz.<\/p>\n<p>O tema foi debatido durante o Workshop sobre\u00a0\u00a0\u2013 promovido em S\u00e3o Paulo, no dia 23 de novembro, pela coordena\u00e7\u00e3o do Programa FAPESP de Pesquisas em Caracteriza\u00e7\u00e3o, Conserva\u00e7\u00e3o, Restaura\u00e7\u00e3o e Uso Sustent\u00e1vel da Biodiversidade (BIOTA). Segundo os organizadores, o objetivo do evento foi estimular a aplica\u00e7\u00e3o de boa ci\u00eancia para aprimorar a gest\u00e3o da fauna silvestre \u2013 bem como envolver a academia e outros setores da sociedade nesse debate.<\/p>\n<p>\u201cConhecemos bem os impactos diretos observ\u00e1veis do ecoturismo, mas n\u00e3o sabemos qual \u00e9 a dimens\u00e3o do problema. Qual \u00e9 o efeito que a mortalidade de alguns indiv\u00edduos pode ter sobre a popula\u00e7\u00e3o de uma esp\u00e9cie e sobre o ecossistema? A escala de aceitabilidade dos impactos costuma ser baseada em motivos est\u00e9ticos e n\u00e3o cient\u00edficos. Faltam estudos\u201d, disse Bergallo.<\/p>\n<p>Entre os problemas citados pela pesquisadora est\u00e1 o aumento na mortalidade de animais relacionado a atividades como pesca e ca\u00e7a ou \u00e0 colis\u00e3o com ve\u00edculos e embarca\u00e7\u00f5es. Segundo Bergallo, n\u00e3o s\u00e3o raros os casos de peixes-boi vitimados por h\u00e9lices de barcos, por exemplo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a pesquisadora menciona as altera\u00e7\u00f5es no habitat e na composi\u00e7\u00e3o de plantas decorrentes da constru\u00e7\u00e3o de pousadas, restaurantes e demais infraestrutura necess\u00e1ria para receber turistas. \u201cO pisoteamento da vegeta\u00e7\u00e3o nas trilhas causa a compacta\u00e7\u00e3o do solo e a modifica\u00e7\u00e3o das plantas. Pode haver perda de esp\u00e9cies nativas e entrada de invasoras, redu\u00e7\u00e3o na flora\u00e7\u00e3o e frutifica\u00e7\u00e3o. J\u00e1 a onda formada pelos barcos pode promover a intrus\u00e3o de sal em comunidades que n\u00e3o toleram esse mineral\u201d, contou.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 frequente ocorrer distor\u00e7\u00e3o do h\u00e1bito alimentar dos animais, seja por causa da comida oferecida pelos turistas ou por iscas usadas pelos organizadores dos passeios para atrair esp\u00e9cies como o boto-rosa, por exemplo. Muitas vezes, alguns indiv\u00edduos s\u00e3o mantidos em cativeiro para que o visitante possa ter um contato mais pr\u00f3ximo com a fauna.<\/p>\n<p>Outras fontes de impacto podem passar despercebidas pelos humanos, disse a pesquisadora, como a luz artificial e os sons emitidos por barcos, aeronaves e ve\u00edculos terrestres.<\/p>\n<p>\u201cAs pessoas costumam achar lindo quando veem os cet\u00e1ceos surfando ao lado de embarca\u00e7\u00f5es, mas na verdade eles est\u00e3o estressados com todo aquele barulho. H\u00e1 ainda o exemplo das ariranhas perturbadas por barcos durante o per\u00edodo de alimenta\u00e7\u00e3o no Peru e o do anf\u00edbio fossorial da esp\u00e9cie\u00a0Spea hammondii, induzido a emergir de buracos onde se esconde pelo som dos ve\u00edculos, provavelmente por ser semelhante ao de chuvas fortes\u201d, disse.<\/p>\n<p>Como consequ\u00eancias desses impactos, Bergallo mencionou a migra\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies que n\u00e3o toleram a presen\u00e7a humana; a redu\u00e7\u00e3o no tempo que o animal tem para se alimentar e a eleva\u00e7\u00e3o no gasto energ\u00e9tico (ambas relacionadas ao tempo perdido tentando fugir dos humanos); comportamento social aberrante (aumento na agressividade entre indiv\u00edduos de uma mesma esp\u00e9cie e disputa pela fonte de alimento introduzida pelo homem); maior vulnerabilidade de algumas esp\u00e9cies a competidores e predadores; abandono de filhotes e perturba\u00e7\u00e3o no padr\u00e3o reprodutivo.<\/p>\n<p>\u201cSabemos que popula\u00e7\u00f5es pequenas, de reprodu\u00e7\u00e3o lenta, e esp\u00e9cies raras s\u00e3o as mais afetadas. Mas ainda h\u00e1 poucos estudos ligando o impacto sobre determinados indiv\u00edduos aos efeitos sobre as popula\u00e7\u00f5es. Tamb\u00e9m s\u00e3o necess\u00e1rios estudos que ajudem a avaliar a capacidade de suporte de diferentes ecossistemas para que seja poss\u00edvel estabelecer o n\u00famero m\u00e1ximo de visitantes nesses locais\u201d, disse Bergallo.<\/p>\n<p>Para a cientista, o ecoturismo tem um potencial limitado de contribuir com a conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade e apenas com boa gest\u00e3o e melhor regulamenta\u00e7\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel obter benef\u00edcios reais com a atividade.<\/p>\n<p>\u201cA legisla\u00e7\u00e3o brasileira e o Plano Nacional de Turismo n\u00e3o trazem uma regulamenta\u00e7\u00e3o espec\u00edfica para o ecoturismo. \u00c9 preciso pensar na cria\u00e7\u00e3o de normas \u00e9ticas \u2013 a exemplo das existentes nas comunidades de observadores de aves\u201d, defendeu Bergallo.<\/p>\n<p>Lacunas no conhecimento<\/p>\n<p>Como explicou Luciano Verdade, membro da coordena\u00e7\u00e3o do BIOTA e pesquisador do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP\/Cena), o workshop realizado na sede da FAPESP visa promover a intera\u00e7\u00e3o entre o que se produz de pesquisa cient\u00edfica que pode ser aplicada na gest\u00e3o da fauna com as diversas demandas existentes na sociedade.<\/p>\n<p>\u201cO Brasil tem uma pol\u00edtica p\u00fablica excessivamente conservadora no que toca \u00e0 governan\u00e7a da fauna. A filosofia \u00e9: pro\u00edba tudo e trate todas as esp\u00e9cies como amea\u00e7adas. Mas, al\u00e9m da prote\u00e7\u00e3o em si, existe uma diversidade maior de demandas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 fauna. H\u00e1 animais que vivem em conflito com a agropecu\u00e1ria, a silvicultura ou mesmo com a sa\u00fade p\u00fablica. Por outro lado, h\u00e1 outros que podem gerar riqueza e inclus\u00e3o social se explorados de forma biologicamente sustent\u00e1vel. O panorama \u00e9 mais complexo\u201d, disse Verdade.<\/p>\n<p>O pesquisador ressaltou ainda a necessidade de desenvolver projetos de monitoramento que permitam detectar de forma precoce e eficiente eventuais mudan\u00e7as no estado das popula\u00e7\u00f5es silvestres.<\/p>\n<p>\u201cEsse processo [a boa gest\u00e3o da fauna] pode ser limitado quando n\u00e3o sabemos ao certo o que fazer por falta de base conceitual. H\u00e1 momentos que sabemos o que fazer, mas falta tecnologia para saber como fazer. A inova\u00e7\u00e3o, portanto, deve ser estimulada. H\u00e1 ainda diversas situa\u00e7\u00f5es em que sabemos o que fazer e como, mas n\u00e3o onde, quando e com quem. Nesse caso falta uma estrutura de governan\u00e7a. Nossa tentativa hoje \u00e9 contribuir para uma percep\u00e7\u00e3o mais clara do que nos limita\u201d, disse Verdade.<\/p>\n<p>Segundo Carlos Alfredo Joly, professor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e membro da coordena\u00e7\u00e3o do BIOTA, o debate poder\u00e1 auxiliar na defini\u00e7\u00e3o de temas para futuras chamadas de propostas lan\u00e7adas no \u00e2mbito do programa.<\/p>\n<p>\u201cO BIOTA geralmente faz duas chamadas por ano, sem contar aquelas lan\u00e7adas com parceiros nacionais e internacionais. A defini\u00e7\u00e3o da tem\u00e1tica nasce dessas discuss\u00f5es com a comunidade cient\u00edfica\u201d, contou Joly.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos impactos do ecoturismo, tamb\u00e9m foi abordada no evento a gest\u00e3o de esp\u00e9cies invasoras, como \u00e9 o caso do javali. Segundo Virg\u00ednia Santiago, da Embrapa Su\u00ednos e Aves, a popula\u00e7\u00e3o de javalis tem se expandido expressivamente desde os anos 1990, competindo por recursos com esp\u00e9cies nativas. Os riscos sanit\u00e1rios associados a esse fen\u00f4meno, disse a pesquisadora, ainda s\u00e3o desconhecidos.<\/p>\n<p>O pesquisador Walfrido Moraes Tomas, do Laborat\u00f3rio de Vida Selvagem da Embrapa Pantanal, lembrou que em 2017 completou 50 anos a lei que proibiu a ca\u00e7a no Brasil (exceto a de subsist\u00eancia).<\/p>\n<p>Segundo ele, a ca\u00e7a existe no territ\u00f3rio nacional desde a chegada da esp\u00e9cie humana e ainda hoje \u00e9 onipresente, apesar de formalmente proibida.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o conseguimos evitar o uso descontrolado e nada sabemos sobre seus efeitos sobre popula\u00e7\u00f5es. N\u00e3o h\u00e1 n\u00fameros oficiais. Com a proibi\u00e7\u00e3o da ca\u00e7a, n\u00e3o constru\u00edmos na academia as carreiras espec\u00edficas para a gest\u00e3o de fauna, n\u00e3o foi estabelecida uma demanda por profissionais com este perfil. N\u00e3o estabelecemos, portanto, nenhuma base cient\u00edfica que possa dar suporte \u00e0s tomadas de decis\u00e3o\u201d, afirmou Tomas.<\/p>\n<p>Mauro Galetti, professor do Departamento de Ecologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Rio Claro, falou sobre como a defauna\u00e7\u00e3o pode contribuir para o agravamento das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Segundo ele, a redu\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es de grandes frug\u00edvoros nas florestas tropicais \u2013 os \u00fanicos animais capazes de dispersar sementes de maior porte \u2013 resulta na substitui\u00e7\u00e3o de \u00e1rvores de madeira dura por esp\u00e9cies com menor capacidade para armazenar carbono (leia mais em:\u00a0).<\/p>\n<p>A bi\u00f3loga Cl\u00e1udia Schalmann, da Companhia Ambiental do Estado de S\u00e3o Paulo (Cetesb), abordou quest\u00f5es relacionadas \u00e0 fauna silvestre nos processos de licenciamento ambiental de projetos e empreendimentos paulistas. Destacou a import\u00e2ncia de medidas mitigadoras do impacto, como evitar a entrada de animais dom\u00e9sticos nas \u00e1reas verdes, manter a conectividade do fragmento florestal do lote com o entorno e criar passagens de fauna (elevadas ou subterr\u00e2neas) em rodovias, entre outras.<\/p>\n<p>A gest\u00e3o de esp\u00e9cies amea\u00e7adas foi tema da palestra de Marcio Martins, professor do Departamento de Ecologia do Instituto de Bioci\u00eancias da USP, que explicou como foi elaborado o\u00a0, organizado pelo Instituto Chico Mendes de Conserva\u00e7\u00e3o da Biodiversidade (ICMBio).<\/p>\n<p>Todas as apresenta\u00e7\u00f5es foram transmitidas ao vivo e as grava\u00e7\u00f5es est\u00e3o dispon\u00edveis na \u00edntegra pelo site:\u00a0.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Karina Toledo | Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 O ecoturismo costuma ser visto como uma forma sustent\u00e1vel de explorar o patrim\u00f4nio natural de um pa\u00eds \u2013 preservando a integridade dos ecossistemas, gerando renda para as comunidades locais e, desse modo, contribuindo para a conserva\u00e7\u00e3o da vida selvagem. 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