{"id":123323,"date":"2017-10-13T00:38:23","date_gmt":"2017-10-13T03:38:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=123323"},"modified":"2017-10-12T18:36:25","modified_gmt":"2017-10-12T21:36:25","slug":"como-o-sistema-nervoso-controla-o-comportamento-alimentar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2017\/como-o-sistema-nervoso-controla-o-comportamento-alimentar\/123323","title":{"rendered":"Como o sistema nervoso controla o comportamento alimentar"},"content":{"rendered":"<p> Por Elton Alisson\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Como o sistema nervoso controla o <strong><em>comportamento alimentar<\/em><\/strong> de forma que, tempos depois de ingerir um determinado alimento \u2013 geralmente cal\u00f3rico \u2013, o gosto, o cheiro e as sensa\u00e7\u00f5es despertadas levam a querer consumi-lo novamente? Essa quest\u00e3o intrigou o pesquisador brasileiro Ivan de Araujo, professor associado dos departamentos de Psiquiatria e Fisiologia Celular e Molecular da Yale School of Medicine, nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>A fim de encontrar respostas para essa pergunta, Araujo tem realizado uma s\u00e9rie de estudos com o objetivo de identificar circuitos neurais associados \u00e0 fome, saciedade, palatabilidade e ao prazer proporcionado pelos alimentos, al\u00e9m de esmiu\u00e7ar mecanismos pelos quais o sistema nervoso controla o comportamento alimentar.<\/p>\n<p>Araujo esteve no fim de setembro no Brasil para participar como palestrante da S\u00e3o Paulo School of Advanced Science on Reverse Engineering of Processed Foods, na Faculdade de Engenharia de Alimentos da Universidade Estadual de Campinas (FEA-Unicamp).<\/p>\n<p>Um dos objetivos do evento, realizado com apoio da FAPESP, na modalidade\u00a0\u00a0(ESPCA), foi discutir novas formas de desenvolver alimentos processados de modo que possam auxiliar na solu\u00e7\u00e3o de problemas de sa\u00fade ou aumentar a saciedade, por exemplo, a fim de diminuir a ingest\u00e3o cal\u00f3rica.<\/p>\n<p>\u201cMeu interesse \u00e9, basicamente, entender melhor de onde surge a motiva\u00e7\u00e3o para a ingest\u00e3o de nutrientes e tentar identificar que tipo de informa\u00e7\u00e3o \u00e9 transmitida para o sistema nervoso quando as pessoas ingerem um alimento, se lembram dele depois e querem consumi-lo mais e mais\u201d, disse Araujo \u00e0\u00a0Ag\u00eancia FAPESP.<\/p>\n<p>O pesquisador e seu grupo come\u00e7aram inicialmente a estudar o sistema gustat\u00f3rio com o intuito de verificar como as sensa\u00e7\u00f5es da cavidade oral chegam ao c\u00e9rebro e modificam nosso comportamento alimentar.<\/p>\n<p>Em experimentos explorat\u00f3rios, realizados com camundongos geneticamente modificados \u2013 que n\u00e3o detectam o gosto de nutrientes como o a\u00e7\u00facar \u2013, os cientistas constataram que, a despeito de n\u00e3o terem essa capacidade, esses animais, assim como os humanos, demonstraram a habilidade de formar prefer\u00eancias por um alimento em fun\u00e7\u00e3o muito mais de seu valor nutricional do que da palatabilidade.<\/p>\n<p>\u201cFoi a primeira indica\u00e7\u00e3o para n\u00f3s de que deveria existir uma esp\u00e9cie de codifica\u00e7\u00e3o no sistema nervoso por meio da qual o c\u00e9rebro consegue dissociar um est\u00edmulo sensorial, vindo da cavidade oral, de um est\u00edmulo nutricional, vindo do trato gastrointestinal\u201d, disse Araujo, que graduou-se pela Universidade de Bras\u00edlia, tem mestrado pela University of Edinburgh e doutorado pela University of Oxford.<\/p>\n<p>A fim de comprovar essa hip\u00f3tese, o pesquisador, em colabora\u00e7\u00e3o com colegas do Instituto de Ci\u00eancias Biom\u00e9dicas da Universidade de S\u00e3o Paulo (ICB-USP) e do Centro de Matem\u00e1tica, Computa\u00e7\u00e3o e Cogni\u00e7\u00e3o da Universidade Federal do ABC (CMCC-UFABC), realizou uma s\u00e9rie de experimentos com camundongos em que se constatou que a sensa\u00e7\u00e3o de prazer da ingest\u00e3o e o valor cal\u00f3rico e nutricional dos alimentos evocam circuitos neuronais diferentes.<\/p>\n<p>Enquanto os circuitos neuronais da parte ventral do estriado s\u00e3o os respons\u00e1veis pela percep\u00e7\u00e3o da sensa\u00e7\u00e3o de prazer (hedonia) proporcionada pelo sabor doce, por exemplo, os neur\u00f4nios da parte dorsal s\u00e3o encarregados de reconhecer o valor cal\u00f3rico e nutricional dos alimentos adocicados, observaram os pesquisadores no estudo, que teve a participa\u00e7\u00e3o de Tatiana Lima Ferreira, do CMCC-UFABC.<\/p>\n<p>Ferreira realizou est\u00e1gio de pesquisa de p\u00f3s-doutorado no laborat\u00f3rio de Araujo em Yale com\u00a0\u00a0(leia mais em\u00a0).<\/p>\n<p>\u201cConstatamos que existe uma esp\u00e9cie de divis\u00e3o de trabalho no sistema de recompensa dopamin\u00e9rgico [neur\u00f4nios que produzem o neurotransmissor dopamina, associado ao prazer e \u00e0 recompensa] no c\u00e9rebro, onde certas c\u00e9lulas parecem interessadas no valor de palatabilidade de um alimento, enquanto outras respondem mais especificamente ao valor nutricional, ou seja, \u00e0 quantidade de calorias ou de metab\u00f3litos daquele alimento\u201d, disse Araujo.<\/p>\n<p>\u201cO gosto e o valor nutricional de um alimento s\u00e3o dissociados e codificados de maneira diferente e paralelamente no sistema nervoso central por esse grupo de c\u00e9lulas que computam a recompensa da ingest\u00e3o\u201d, disse.<\/p>\n<p>Conex\u00e3o com o trato gastrointestinal<\/p>\n<p>Os experimentos com camundongos tamb\u00e9m indicaram que o trato gastrointestinal poderia estar conectado de alguma forma com o sistema de recompensa do sistema nervoso central. Isso porque, ao colocar nutrientes no trato gastrointestinal dos animais, essa a\u00e7\u00e3o provocava a libera\u00e7\u00e3o de dopamina no c\u00e9rebro deles.<\/p>\n<p>\u201cSab\u00edamos que existia uma conex\u00e3o biol\u00f3gica entre o nutriente no trato gastrointestinal e o aumento de dopamina no c\u00e9rebro dos animais. Mas n\u00e3o sab\u00edamos qual o circuito que os conecta\u201d, disse Araujo.<\/p>\n<p>A resposta foi encontrada em um tipo de lesma do mar, pertencente ao g\u00eanero\u00a0Aplysia. O molusco tem sido muito utilizado em experimentos por n\u00e3o ter o c\u00e9rebro muito desenvolvido, com poucos e grandes neur\u00f4nios. O animal \u00e9 capaz de aprender e lembrar. Dessa forma, \u00e9 poss\u00edvel localizar em diferentes animais neur\u00f4nios que fazem sempre a mesma coisa, o que \u00e9 imposs\u00edvel em um roedor, comparou Araujo.<\/p>\n<p>\u201cCom\u00a0Aplysia\u00a0se demonstrou que, quando um animal aprende algo novo, as conex\u00f5es entre neur\u00f4nios mudam. Eric Kandel utilizou\u00a0Aplysia\u00a0como modelo em seus estudos\u201d, disse. Neurocientista austr\u00edaco naturalizado norte-americano, Kandel recebeu o Nobel de Fisiologia ou Medicina em 2000 por pesquisa sobre forma\u00e7\u00e3o de mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Ao estudar\u00a0Aplysia, Araujo e colaboradores perceberam que os neur\u00f4nios que comp\u00f5em o que seria o nervo vago do trato gastrointestinal do animal liberam dopamina e que isso modifica o comportamento do molusco.<\/p>\n<p>A partir dessa constata\u00e7\u00e3o, os pesquisadores decidiram verificar se isso tamb\u00e9m ocorria nos mam\u00edferos, que tamb\u00e9m possuem esse nervo que percorre uma grande parte do corpo, indo do c\u00e9rebro ao abd\u00f4men, e desempenha fun\u00e7\u00f5es motoras e sensoriais.<\/p>\n<p>\u201cApesar de o nervo vago dos mam\u00edferos n\u00e3o possuir dopamina, pensamos que de alguma forma ele participa da libera\u00e7\u00e3o desse neurotransmissor no c\u00e9rebro desse animais tamb\u00e9m. Isso nos inspirou a olhar para esse grupo de c\u00e9lulas do trato gastrointestinal\u201d, disse Araujo.<\/p>\n<p>Por meio de experimentos em que estimulam com laser c\u00e9lulas sensoriais do trato gastrointestinal de camundongos, os pesquisadores pretendem identificar e entender qual \u00e9 via de sinaliza\u00e7\u00e3o que conecta o trato gastrointestinal com o sistema de recompensa no c\u00e9rebro dos mam\u00edferos.<\/p>\n<p>\u201cQueremos descrever essa via de sinaliza\u00e7\u00e3o, manipular e ganhar controle sobre as c\u00e9lulas sensoriais do trato gastrointestinal de forma que seja poss\u00edvel criar experimentalmente sensa\u00e7\u00f5es gastrointestinais por meio da estimula\u00e7\u00e3o com laser, por exemplo\u201d, disse Araujo.<\/p>\n<p>Os resultados preliminares dos experimentos indicaram que a estimula\u00e7\u00e3o dessas c\u00e9lulas por laser ativa o sistema de recompensa do c\u00e9rebro, contou o pesquisador.<\/p>\n<p>\u201cO entendimento cl\u00e1ssico do nervo vago \u00e9 de que ele agiria para conter o consumo. Mas, na verdade, ele comunica o c\u00e9rebro que um evento importante aconteceu. O animal se lembra disso depois e age de acordo\u201d, disse.<\/p>\n<p>A descoberta abre a perspectiva do desenvolvimento de alimentos que estimulem eficientemente esse grupo de c\u00e9lulas sensoriais do trato gastrointestinal de modo a diminuir a ingest\u00e3o cal\u00f3rica.<\/p>\n<p>Segundo Araujo, ao descobrir as c\u00e9lulas sensoriais do trato gastrointestinal e os receptores que expressam, poder\u00e1 ser poss\u00edvel desenvolver alimentos que maximizem a atividade delas de modo que o c\u00e9rebro n\u00e3o inicie um comportamento compensat\u00f3rio e contribua para aumentar a ingest\u00e3o cal\u00f3rica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Elton Alisson\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Como o sistema nervoso controla o comportamento alimentar de forma que, tempos depois de ingerir um determinado alimento \u2013 geralmente cal\u00f3rico \u2013, o gosto, o cheiro e as sensa\u00e7\u00f5es despertadas levam a querer consumi-lo novamente? 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