{"id":120468,"date":"2017-09-05T00:07:27","date_gmt":"2017-09-05T03:07:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=120468"},"modified":"2017-09-04T16:36:22","modified_gmt":"2017-09-04T19:36:22","slug":"pesquisador-alerta-para-risco-de-surgirem-novos-sorotipos-de-zika","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2017\/pesquisador-alerta-para-risco-de-surgirem-novos-sorotipos-de-zika\/120468","title":{"rendered":"Pesquisador alerta para risco de surgirem novos sorotipos de Zika"},"content":{"rendered":"<p> Karina Toledo, de Campos do Jord\u00e3o\u00a0|\u00a0Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 O v\u00edrus <strong><em>Zika<\/em><\/strong> est\u00e1 se modificando t\u00e3o rapidamente em pacientes brasileiros que h\u00e1 risco de surgir num futuro breve sorotipos diferentes do pat\u00f3geno, como j\u00e1 acontece no caso da dengue. Tal fato poderia dificultar a obten\u00e7\u00e3o de uma vacina, bem como comprometer a efic\u00e1cia dos testes para diagn\u00f3stico j\u00e1 desenvolvidos.<\/p>\n<p>O alerta foi feito pelo professor do Instituto de Ci\u00eancias Biom\u00e9dicas da Universidade de S\u00e3o Paulo (ICB-USP)\u00a0, que proferiu a confer\u00eancia de abertura da Reuni\u00e3o Anual da Federa\u00e7\u00e3o de Sociedades de Biologia Experimental (). O evento segue at\u00e9 o dia 6 de setembro em Campos do Jord\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cHoje existe apenas um \u00fanico Zika e, uma vez infectada, a pessoa se torna imune. Mas o v\u00edrus est\u00e1 em franca muta\u00e7\u00e3o e n\u00e3o seria surpresa se em breve surgirem o Zika 2, 3, 4&#8230;\u201d, disse Durigon em entrevista \u00e0\u00a0Ag\u00eancia FAPESP.<\/p>\n<p>A afirma\u00e7\u00e3o est\u00e1 baseada na an\u00e1lise de dados de tr\u00eas pacientes assintom\u00e1ticos \u2013 dois homens e uma mulher \u2013 que foram acompanhados de perto durante meses pela equipe do ICB-USP. Semanalmente, os pesquisadores colhiam amostras de sangue, saliva, urina e, no caso dos homens, esperma.<\/p>\n<p>O material era enviado para os Estados Unidos onde, por meio de uma parceria com o ex\u00e9rcito norte-americano, o genoma completo do pat\u00f3geno era sequenciado. O estudo foi feito no \u00e2mbito da Rede de Pesquisa sobre Zika V\u00edrus em S\u00e3o Paulo (Rede Zika), que conta com apoio da FAPESP.<\/p>\n<p>\u201cSemana a semana, n\u00f3s compar\u00e1vamos o que havia de diferente no genoma viral. Chegamos a ver no mesmo paciente cepas compartimentadas, ou seja, o v\u00edrus presente no s\u00eamen era diferente do que havia na urina. Em todos os casos, o pat\u00f3geno que encontramos no est\u00e1gio final da infec\u00e7\u00e3o n\u00e3o era o mesmo que entrou no paciente\u201d, contou Durigon.<\/p>\n<p>Segundo o pesquisador, os pacientes do sexo masculino permaneceram eliminando o Zika em grandes quantidades pelo esperma por at\u00e9 seis meses. Um deles apresentou o v\u00edrus na saliva durante tr\u00eas meses.<\/p>\n<p>\u201cO Zika continuou se replicando nas c\u00e9lulas do test\u00edculo durante todo esse tempo e, por microscopia eletr\u00f4nica, pudemos perceber que os espermatozoides j\u00e1 se formavam infectados. H\u00e1 risco, portanto, de ocorrer uma concep\u00e7\u00e3o com esperma contaminado. Se a gravidez vai para frente nesses casos e quais as consequ\u00eancias para o feto \u00e9 algo que n\u00e3o temos ideia\u201d, comentou Durigon.<\/p>\n<p>A possibilidade de transmiss\u00e3o sexual, segundo o pesquisador, amplia fortemente a capacidade do v\u00edrus de se disseminar. Na avalia\u00e7\u00e3o de Durigon, \u00e9 preciso urgentemente mudar a cultura m\u00e9dica, que ainda centra os cuidados pr\u00e9-natais nas mulheres.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o adianta testar apenas as gestantes para a presen\u00e7a do v\u00edrus, recomendar apenas \u00e0s mulheres que usem repelente e evitem \u00e1reas de risco durante a gesta\u00e7\u00e3o e deixar os homens \u00e0 vontade, seguindo a vida normalmente. Elas podem ser contaminadas pelos pr\u00f3prios parceiros e isso \u00e9 algo que os m\u00e9dicos ainda n\u00e3o est\u00e3o atentos\u201d, alertou.<\/p>\n<p>Exame sorol\u00f3gico<\/p>\n<p>Durante a confer\u00eancia, Durigon relembrou o in\u00edcio da forma\u00e7\u00e3o da Rede Zika em S\u00e3o Paulo e relatou como a r\u00e1pida articula\u00e7\u00e3o entre comunidade cient\u00edfica e ag\u00eancia de fomento possibilitou avan\u00e7ar o conhecimento sobre o Zika.<\/p>\n<p>\u201cO v\u00edrus foi isolado pela primeira vez no Brasil em novembro de 2015, pelo pesquisador Pedro Vasconcelos do Instituto Evandro Chagas, no Par\u00e1. Nosso grupo do ICB-USP pediu uma amostra, que veio pelo correio quando ainda mont\u00e1vamos nossa decora\u00e7\u00e3o de Natal\u201d, contou Durigon.<\/p>\n<p>Foram ent\u00e3o acionados os pesquisadores paulistas que entre 2000 e 2007 fizeram parte da Rede de Diversidade Gen\u00e9tica de V\u00edrus (VGDN), um projeto apoiado pela FAPESP que viabilizou no Estado de S\u00e3o Paulo a instala\u00e7\u00e3o de uma importante infraestrutura para pesquisas na \u00e1rea de virologia.<\/p>\n<p>\u201cMuitos dos integrantes dessa rede tinham em 2015 projetos apoiados em andamento, com outros temas. A Funda\u00e7\u00e3o rapidamente aprovou aditivos para esses projetos e todos os esfor\u00e7os foram centrados no estudo do Zika. Dessa forma, rapidamente, conseguimos cultivar os isolados virais em laborat\u00f3rio e distribuir para v\u00e1rios grupos de pesquisa do pa\u00eds\u201d, lembrou.<\/p>\n<p>Segundo Durigon, a r\u00e1pida rea\u00e7\u00e3o da comunidade cient\u00edfica paulista inspirou grupos de outros estados e tamb\u00e9m outras ag\u00eancias de fomento \u2013 possibilitando a cria\u00e7\u00e3o de uma Rede Zika em \u00e2mbito nacional.<\/p>\n<p>Entre os avan\u00e7os alcan\u00e7ados desde ent\u00e3o est\u00e3o o desenvolvimento de testes moleculares para diagn\u00f3stico (capaz de detectar o RNA viral nas amostras de pacientes durante a infec\u00e7\u00e3o), a comprova\u00e7\u00e3o de que o v\u00edrus causa uma s\u00edndrome cong\u00eanita que pode ou n\u00e3o incluir microcefalia, o desenvolvimento de vacinas experimentais e, finalmente, a valida\u00e7\u00e3o de um teste sorol\u00f3gico (capaz de detectar no sangue anticorpos contra o v\u00edrus mesmo passada a infec\u00e7\u00e3o) que n\u00e3o d\u00e1 rea\u00e7\u00e3o cruzada com anticorpos contra a dengue.<\/p>\n<p>\u201cFinalmente, depois de dois anos, podemos dizer com orgulho que n\u00f3s conseguimos um teste sorol\u00f3gico realmente eficaz para detectar o Zika. J\u00e1 validamos em mais de mil amostras da popula\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto, no interior de S\u00e3o Paulo, e em 800 amostras de pacientes de Salvador (BA), entre eles mulheres que tiveram filhos com e sem microcefalia, pacientes que j\u00e1 tiveram febre amarela e dengue. Se esse teste consegue identificar o Zika em Salvador, funciona em qualquer parte do mundo\u201d, disse Durigon.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m integram a equipe que desenvolveu o m\u00e9todo sorol\u00f3gico os pesquisadores do ICB-USP Paolo Zanotto e Lu\u00eds Carlos de Souza Ferreira (leia mais em:\u00a0).<\/p>\n<p>O pr\u00f3ximo passo, segundo o pesquisador, \u00e9 coletar mais amostras do Estado de S\u00e3o Paulo e capital para investigar qual foi o real n\u00famero de pessoas infectadas at\u00e9 o momento na regi\u00e3o. Como at\u00e9 80% dos casos podem ser assintom\u00e1ticos, sem o teste sorol\u00f3gico torna-se imposs\u00edvel saber o real tamanho da epidemia e a porcentagem da popula\u00e7\u00e3o que ainda \u00e9 suscet\u00edvel ao v\u00edrus.<\/p>\n<p>\u201cS\u00e3o Paulo, aparentemente, ainda teve pouco Zika. Em Salvador os testes est\u00e3o mostrando que grande parte da popula\u00e7\u00e3o j\u00e1 foi contaminada, gestantes inclusive, e por isso houve muitos casos de microcefalia. \u00c9 prov\u00e1vel que Bahia, Pernambuco e Para\u00edba fiquem pelo menos uns quatro anos sem muitos casos, at\u00e9 que surja uma nova popula\u00e7\u00e3o suscet\u00edvel. Mas em S\u00e3o Paulo ainda n\u00e3o sabemos\u201d, avaliou.<\/p>\n<p>A grande preocupa\u00e7\u00e3o hoje, segundo Durigon, s\u00e3o as crian\u00e7as nascidas de m\u00e3es que tiveram Zika durante a gesta\u00e7\u00e3o sem saber. \u201cA crian\u00e7a pode ter uma les\u00e3o cerebral, mas n\u00e3o ter microcefalia, e n\u00e3o vai ser acompanhada cuidadosamente. O problema s\u00f3 vai aparecer quando ela apresentar dificuldades motoras ou de aprendizado l\u00e1 na frente. Podemos ter uma gera\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as com complica\u00e7\u00f5es das mais variadas e n\u00e3o vamos saber como enfrent\u00e1-las\u201d, alertou.<\/p>\n<p>Assim que o teste sorol\u00f3gico estiver dispon\u00edvel em larga escala, disse Durigon, \u00e9 importante que o maior n\u00famero poss\u00edvel de crian\u00e7as nascidas no per\u00edodo sejam testadas. Os casos positivos devem ser avaliados com mais cautela e submetidos a exames de imagem. \u201cO que estamos vendo \u00e9 apenas a ponta do iceberg e n\u00e3o sabemos o que ainda tem por baixo\u201d, afirmou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Karina Toledo, de Campos do Jord\u00e3o\u00a0|\u00a0Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 O v\u00edrus Zika est\u00e1 se modificando t\u00e3o rapidamente em pacientes brasileiros que h\u00e1 risco de surgir num futuro breve sorotipos diferentes do pat\u00f3geno, como j\u00e1 acontece no caso da dengue. 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