{"id":115061,"date":"2017-06-13T00:09:22","date_gmt":"2017-06-13T03:09:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=115061"},"modified":"2017-06-12T15:59:29","modified_gmt":"2017-06-12T18:59:29","slug":"grupo-da-usp-investiga-como-os-medicos-pensam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2017\/grupo-da-usp-investiga-como-os-medicos-pensam\/115061","title":{"rendered":"Grupo da USP investiga como os m\u00e9dicos pensam"},"content":{"rendered":"<p> Karina Toledo | Ag\u00eancia FAPESP \u2013 As tarefas de <strong><em>diagnosticar uma doen\u00e7a<\/em><\/strong> e de prescrever um tratamento com base em informa\u00e7\u00f5es escritas ativam no c\u00e9rebro dos m\u00e9dicos os mesmos circuitos neuronais usados por qualquer pessoa para nomear objetos ou animais.<\/p>\n<p>Pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de S\u00e3o Paulo (FMUSP) chegaram a essa conclus\u00e3o ap\u00f3s avaliar o funcionamento cerebral de 31 cl\u00ednicos por meio de exames de resson\u00e2ncia magn\u00e9tica funcional \u2013 tecnologia que permite detectar varia\u00e7\u00f5es no fluxo sangu\u00edneo em resposta \u00e0 atividade neural.<\/p>\n<p>Os resultados da pesquisa, , foram  em maio na revista Scientific Reports, do grupo Nature.<\/p>\n<p>\u201cTamb\u00e9m identificamos neste trabalho mecanismos que podem levar a uma conclus\u00e3o diagn\u00f3stica prematura. Esse tipo de informa\u00e7\u00e3o pode contribuir para o desenvolvimento de ferramentas capazes de reduzir esse tipo de erro na pr\u00e1tica m\u00e9dica\u201d, disse Marcio Melo, pesquisador do Laborat\u00f3rio de Inform\u00e1tica M\u00e9dica da FMUSP e primeiro autor do artigo.<\/p>\n<p>Como relatou o cientista, os participantes do estudo foram submetidos a dois diferentes experimentos. No primeiro, um conjunto de sintomas era apresentado por escrito e o m\u00e9dico tinha de identificar a doen\u00e7a a ele relacionada (os sintomas febre, tosse produtiva e condensa\u00e7\u00e3o pulmonar, por exemplo, deveriam levar \u00e0 conclus\u00e3o de que se tratava de um caso de pneumonia). Como compara\u00e7\u00e3o, eram exibidas informa\u00e7\u00f5es sobre animais ou objetos a serem nomeados (miau, animal dom\u00e9stico e pelo preto, por exemplo, sugeririam se tratar de um gato).<\/p>\n<p>No segundo experimento, as telas mostravam o nome de doen\u00e7as e a tarefa consistia em prescrever o tratamento mais adequado.<\/p>\n<p>As informa\u00e7\u00f5es escritas foram apresentadas por meio de um sistema de espelhos enquanto os participantes do estudo estavam posicionados dentro do equipamento de resson\u00e2ncia magn\u00e9tica. \u00c0 medida que eles executavam as tarefas, imagens do c\u00e9rebro eram coletadas e as respostas, gravadas.<\/p>\n<p>\u201cNossa an\u00e1lise mostra uma not\u00e1vel semelhan\u00e7a na atividade cortical durante as tr\u00eas tarefas \u2013 diagn\u00f3stico, prescri\u00e7\u00e3o e nomea\u00e7\u00e3o de objetos ou animais \u2013, o que corrobora a nossa hip\u00f3tese inicial\u201d, disse Melo.<\/p>\n<p>Como ressaltou o pesquisador, os achados v\u00e3o ao encontro dos resultados de um  anteriormente publicado pelo grupo na revista PLoS One\u00a0\u2013\u00a0no qual o processo diagn\u00f3stico foi investigado no \u00e2mbito visual. No experimento anterior, radiologistas tinham como tarefa diagnosticar les\u00f5es ou identificar animais inseridos em radiografias do t\u00f3rax. Como agora, observou-se que as \u00e1reas cerebrais ativadas durante o diagn\u00f3stico foram muito semelhantes \u00e0quelas acionadas quando se nomeava animais (Leia mais em: ).<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 importante salientar que, no estudo atual, respostas com mais de um diagn\u00f3stico foram evocadas por 80,7% dos participantes pelo menos uma vez durante a execu\u00e7\u00e3o das tarefas. Em resposta ao sintoma des\u00e2nimo, por exemplo, um participante respondeu \u2018depress\u00e3o\u2019 e \u2018hipotireoidismo\u2019. Isso mostra que um processo complexo, como a evoca\u00e7\u00e3o de diagn\u00f3sticos diferenciais, pode ocorrer em poucos segundos\u201d, comentou.<\/p>\n<p>Excesso de certeza pode ser ruim<\/p>\n<p>Tanto o ato de diagnosticar uma doen\u00e7a como o de prescrever um tratamento s\u00e3o considerados pelo grupo da USP um processo de tomada de decis\u00e3o. A incerteza \u00e9 grande no in\u00edcio, por\u00e9m, \u00e0 medida que as evid\u00eancias v\u00e3o se acumulando, um limiar de confian\u00e7a \u00e9 atingido e a decis\u00e3o \u00e9 tomada pelo m\u00e9dico.<\/p>\n<p>No experimento realizado, a tomada de decis\u00e3o correspondia ao momento em que o m\u00e9dico vocalizava o diagn\u00f3stico ou o tratamento.<\/p>\n<p>Como contou Melo, as imagens de resson\u00e2ncia mostraram que quando os m\u00e9dicos deparavam com informa\u00e7\u00f5es diagn\u00f3sticas inespec\u00edficas (que podem estar associadas a diversas doen\u00e7as, como a febre) aumentava a atividade em um sistema cerebral conhecido como rede atencional fronto-parietal (RAFP). Por\u00e9m, se logo no in\u00edcio da tarefa era apresentada ao participante uma informa\u00e7\u00e3o fortemente associada a uma doen\u00e7a \u2013 como um exame HIV positivo, por exemplo \u2013, o monitoramento atencional pela RAFP era reduzido.<\/p>\n<p>De acordo com o pesquisador, esses dados d\u00e3o suporte para a hip\u00f3tese de que a redu\u00e7\u00e3o no grau de incerteza \u2013 sinalizada pela redu\u00e7\u00e3o de atividade na RAFP \u2013 estaria envolvida no disparo da tomada de decis\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cNossas an\u00e1lises sugerem, portanto, que a tomada de decis\u00e3o pode ocorrer de forma prematura caso o m\u00e9dico, logo de in\u00edcio, tenha contato com uma informa\u00e7\u00e3o de alto poder diagn\u00f3stico. Um exame que indica uma baixa dosagem de tiroxina, por exemplo, poderia levar o m\u00e9dico a diagnosticar corretamente hipotireoidismo. A certeza diagn\u00f3stica, por outro lado, pode levar a uma interrup\u00e7\u00e3o prematura da investiga\u00e7\u00e3o impedindo a detec\u00e7\u00e3o de uma depress\u00e3o associada. A conclus\u00e3o diagn\u00f3stica prematura \u00e9 uma causa importante e frequente de erros m\u00e9dicos\u201d, disse Melo.<\/p>\n<p>Para o pesquisador, uma maneira de prevenir o encerramento prematuro da investiga\u00e7\u00e3o seria apresentar ao m\u00e9dico, logo no in\u00edcio, uma lista de op\u00e7\u00f5es diagn\u00f3sticas por meio de um sistema de suporte computadorizado \u2013 que poderia estar acoplado ao prontu\u00e1rio eletr\u00f4nico, por exemplo. \u201cIsso aumentaria o grau de incerteza e, consequentemente, a aten\u00e7\u00e3o no processo de avalia\u00e7\u00e3o\u201d, opinou.<\/p>\n<p>Outra conclus\u00e3o importante do artigo \u00e9 que, aparentemente, os m\u00e9dicos s\u00f3 tomam consci\u00eancia de sua decis\u00e3o quando come\u00e7am a verbaliz\u00e1-la.<\/p>\n<p>Segundo Melo, as imagens revelaram uma \u201cinesperada e dram\u00e1tica\u201d mudan\u00e7a na atividade cerebral entre os per\u00edodos decis\u00f3rio e o in\u00edcio da vocaliza\u00e7\u00e3o das respostas. \u201cNo in\u00edcio da fala foi detectado um forte aumento de atividade em uma ampla rede de estruturas cerebrais envolvidas com a consci\u00eancia e, concomitantemente, com \u00e1reas engajadas no monitoramento auditivo\u201d, contou.<\/p>\n<p>Esse achado, que ocorre em fra\u00e7\u00f5es de segundo, s\u00f3 foi poss\u00edvel de ser detectado gra\u00e7as a uma nova metodologia desenvolvida pelo grupo da FMUSP, que permitiu aumentar a resolu\u00e7\u00e3o temporal da an\u00e1lise dos dados de resson\u00e2ncia magn\u00e9tica funcional. No estudo, uma imagem composta pela superposi\u00e7\u00e3o de 43 fatias do c\u00e9rebro com cerca de 3 mil\u00edmetros cada foi coletada a cada 2,3 segundos.<\/p>\n<p>\u201cPelo modelo tradicionalmente usado, a an\u00e1lise seria baseada na m\u00e9dia da atividade cerebral nessas 43 fatias. A inova\u00e7\u00e3o consistiu em introduzir no modelo matem\u00e1tico de an\u00e1lise dos dados a atividade em cada uma das 43 fatias. Isso permitiu a investiga\u00e7\u00e3o da atividade cerebral em per\u00edodos de 400 milissegundos\u201d, contou Melo.<\/p>\n<p>Os resultados, acrescentou, indicam que os m\u00e9dicos participantes do estudo necessitavam escutar as pr\u00f3prias respostas para tomar consci\u00eancia das suas conclus\u00f5es diagn\u00f3sticas.<\/p>\n<p>\u201cPrecisar\u00edamos nos ouvir falando, em voz alta ou na imagina\u00e7\u00e3o, para sabermos o que estamos pensando. Essa ideia j\u00e1 havia sido proposta anteriormente, por\u00e9m, agora apresentamos a primeira evid\u00eancia experimental dessa hip\u00f3tese. Esse ind\u00edcio ainda precisa ser corroborado por experimentos que abordem especificamente essa quest\u00e3o e pode ter uma implica\u00e7\u00e3o mais ampla, ajudando a entender como as pessoas de forma geral tomam consci\u00eancia do que est\u00e3o pensando\u201d, concluiu.<\/p>\n<p>O artigo How doctors diagnose diseases and prescribe treatments: an fMRI study of diagnostic salience\u00a0pode ser lido em: .<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Karina Toledo | Ag\u00eancia FAPESP \u2013 As tarefas de diagnosticar uma doen\u00e7a e de prescrever um tratamento com base em informa\u00e7\u00f5es escritas ativam no c\u00e9rebro dos m\u00e9dicos os mesmos circuitos neuronais usados por qualquer pessoa para nomear objetos ou animais. 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