{"id":11102,"date":"2009-09-09T12:12:22","date_gmt":"2009-09-09T16:12:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=11102"},"modified":"2009-09-09T12:12:22","modified_gmt":"2009-09-09T16:12:22","slug":"epilepsia-mais-conhecimento-reduz-o-estigma-e-preconceito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/2009\/epilepsia-mais-conhecimento-reduz-o-estigma-e-preconceito\/11102","title":{"rendered":"Epilepsia &#8211; mais conhecimento reduz o estigma e preconceito"},"content":{"rendered":"<p>A <strong>epilepsia<\/strong> \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o neurol\u00f3gica cr\u00f4nica mais comum em todo o mundo e pode acontecer em qualquer idade, ra\u00e7a e classe social. Estima-se que no Brasil existam tr\u00eas milh\u00f5es de pessoas com a doen\u00e7a e a cada dia 300 novos casos s\u00e3o diagnosticados. Apesar de ser um problema de sa\u00fade p\u00fablica, s\u00e3o realmente poucas as pessoas que realmente sabem o que \u00e9 a epilepsia. Na pr\u00f3pria etimologia, a epilepsia foi premiada com um car\u00e1ter m\u00edstico, misterioso, religioso e m\u00e1gico (epi=de cima e lepsem=abater) &#8211; ALGO QUE VEM DE CIMA E ABATE AS PESSOAS. H\u00e1 muito tempo que n\u00e3o faz sentido pensar a epilepsia como um problema vindo &#8220;de cima&#8221; j\u00e1 que o n\u00edvel de compreens\u00e3o que temos hoje dos mecanismos biol\u00f3gicos associados \u00e0 epilepsia s\u00f3 pode ser visto em poucas outras doen\u00e7as neurol\u00f3gicas. Para entender o que \u00e9 epilepsia, precisamos entender um pouquinho como \u00e9 o que o c\u00e9rebro funciona.<\/p>\n<p>Quando nosso c\u00e9rebro d\u00e1 a ordem para nossa m\u00e3o mexer, ele est\u00e1 disparando um impulso nervoso que nada mais \u00e9 do que um impulso el\u00e9trico de baix\u00edssima intensidade. At\u00e9 chegar \u00e0 m\u00e3o, esse impulso viaja pelas ramifica\u00e7\u00f5es dos neur\u00f4nios e passar\u00e1 tamb\u00e9m por esta\u00e7\u00f5es em que os impulsos dependem de transporte qu\u00edmico (sinapses) para que a informa\u00e7\u00e3o chegue enfim aos m\u00fasculos da m\u00e3o. Tudo isso acontece quando resolvemos mexer a m\u00e3o voluntariamente. Imagine agora um grupo de neur\u00f4nios que resolve disparar esses mesmos impulsos &#8220;sem a nossa autoriza\u00e7\u00e3o&#8221;, provocando movimentos involunt\u00e1rios da nossa m\u00e3o. E esses neur\u00f4nios n\u00e3o ficam disparando o tempo todo de forma anormal. Pode ser uma vez ao m\u00eas, uma vez ao ano, todo dia, e quando disparam provocam o que conhecemos como crise epil\u00e9ptica.<\/p>\n<p>\u00c9 muito comum a compara\u00e7\u00e3o de uma crise epil\u00e9ptica com um curto circuito, um fio desencapado no c\u00e9rebro. Qualquer les\u00e3o cerebral, independente do tamanho, \u00e9 capaz de provocar esse curto circuito. Uma pessoa que come uma alface mal lavada com um ovinho de solit\u00e1ria escondido pode ter esse ovinho alojado numa regi\u00e3o do c\u00e9rebro que causar\u00e1 uma les\u00e3o do tamanho de uma semente de ma\u00e7\u00e3. Esse pequeno corpo estranho no c\u00e9rebro pode ser capaz de provocar uma crise epil\u00e9ptica. Da mesma forma, uma crian\u00e7a que tem uma les\u00e3o cerebral extensa em ambos os hemisf\u00e9rios cerebrais, pois nasceu com uma doen\u00e7a gen\u00e9tica associada a grave retardo mental, tamb\u00e9m pode vir a apresentar crises epil\u00e9pticas. Essa \u00e9 uma informa\u00e7\u00e3o importante para a redu\u00e7\u00e3o do estigma da epilepsia, pois muita gente associa a epilepsia a c\u00e9rebros gravemente alterados.<\/p>\n<p>E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma les\u00e3o cerebral que pode provocar uma crise. Existem situa\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas que podem provocar severo desequil\u00edbrio bioqu\u00edmico do corpo, como grandes altera\u00e7\u00f5es nas concentra\u00e7\u00f5es de s\u00f3dio e c\u00e1lcio, situa\u00e7\u00f5es que podem provocar um curto circuito difuso no c\u00e9rebro. O mesmo pode ocorrer quando uma pessoa faz uso de uma subst\u00e2ncia neurot\u00f3xica, como \u00e9 o caso da coca\u00edna. Al\u00e9m disso, existem algumas condi\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas em que o indiv\u00edduo tem uma tend\u00eancia a apresentar crises epil\u00e9pticas ap\u00f3s certa idade, geralmente na inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia, e essas s\u00e3o situa\u00e7\u00f5es em que o c\u00e9rebro funciona normalmente, n\u00e3o apresenta les\u00f5es, mas os neur\u00f4nios t\u00eam algumas peculiaridades que podem gerar curtos circuitos epis\u00f3dicos.<\/p>\n<p>Podemos dizer que uma pessoa tem epilepsia quando j\u00e1 apresentou mais de uma crise epil\u00e9ptica n\u00e3o provocada. Crises n\u00e3o provocadas s\u00e3o as crises que acontecem espontaneamente, sem a presen\u00e7a de um desequil\u00edbrio agudo e transit\u00f3rio do c\u00e9rebro (ex: redu\u00e7\u00e3o na concentra\u00e7\u00e3o de s\u00f3dio). Mais recentemente reconhece-se que mesmo que a pessoa tenha apresentado uma \u00fanica crise, mas na presen\u00e7a de altera\u00e7\u00e3o cerebral que pode vir a causar outras crises, essa pessoa j\u00e1 pode ser considerada como portadora de epilepsia.<\/p>\n<p>Uma quest\u00e3o importante que faz com que a epilepsia seja sub-diagnosticada \u00e9 o fato da maioria das pessoas achar que crise epil\u00e9ptica \u00e9 igual a convuls\u00e3o, ou seja, crise em que a pessoa perde a consci\u00eancia, fica toda dura, roxa e se debatendo, os olhos ficam revirados, pode babar e urinar ou defecar na roupa. A convuls\u00e3o \u00e9 o tipo mais dram\u00e1tico de crise, e significa que o c\u00e9rebro passa por um curto circuito difuso. Por\u00e9m, existem crises epil\u00e9pticas muito mais discretas, e essas geralmente s\u00e3o reflexo de disparos anormais em apenas uma regi\u00e3o do c\u00e9rebro, n\u00e3o se espalhando para o c\u00e9rebro todo, como \u00e9 o caso da convuls\u00e3o. Se o curto circuito acontece somente na regi\u00e3o onde est\u00e3o os neur\u00f4nios que controlam o movimento da m\u00e3o esquerda, a crise se manifestar\u00e1 como movimentos repetidos e involunt\u00e1rios dessa m\u00e3o. Seguindo o mesmo racioc\u00ednio, uma crise pode se apresentar como uma sensa\u00e7\u00e3o ps\u00edquica, diminui\u00e7\u00e3o da responsividade ao meio (&#8220;aus\u00eancia&#8221;), formigamento de um lado do corpo, alucina\u00e7\u00f5es visuais, etc. O fato \u00e9 que crises que inicialmente envolvem s\u00f3 uma regi\u00e3o do c\u00e9rebro podem em seguida ser propagadas para o c\u00e9rebro como um todo, causando uma convuls\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00e1 estamos no s\u00e9culo 21 e ainda existe muita ignor\u00e2ncia sobre o real significado da epilepsia. A falta de informa\u00e7\u00e3o \u00e9 a principal causa do enorme estigma e preconceito que sofrem os portadores de epilepsia, o que dificulta sobremaneira a inclus\u00e3o social dessas pessoas. Em 1997 foi criada uma campanha mundial para reduzir o impacto do estigma da epilepsia, assim como para melhorar o diagn\u00f3stico e o manejo dos pacientes (Campanha Global &#8211; Epilepsia fora das sombras). Desde 2002 o Brasil \u00e9 um dos pa\u00edses que mais tem trabalhado para a campanha gra\u00e7as ao trabalho do projeto ASPE (Assist\u00eancia \u00e0 Sa\u00fade de Pacientes com Epilepsia &#8211; www.aspebrasil.org) que vem efetivamente tirando a epilepsia das sombras em nosso pa\u00eds. Em algumas \u00e1reas do conhecimento cient\u00edfico o Brasil est\u00e1 \u00e0 frente de muitos pa\u00edses desenvolvidos, e a epilepsia \u00e9 um bom exemplo disso. Realmente, poucos pa\u00edses do mundo t\u00eam o n\u00edvel de desenvolvimento cient\u00edfico que tem a epilepsia no Brasil.<\/p>\n<p>* Dr. Ricardo Teixeira \u00e9 Doutor em Neurologia pela Unicamp. Atualmente, dirige o Instituto do C\u00e9rebro de Bras\u00edlia (ICB) e dedica-se ao jornalismo cient\u00edfico em sa\u00fade. \u00c9 tamb\u00e9m titular do Blog &#8220;ConsCi\u00eancia no Dia-a-Dia&#8221; &#8211; www.consciencianodiaadia.com<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A epilepsia \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o neurol\u00f3gica cr\u00f4nica mais comum em todo o mundo e pode acontecer em qualquer idade, ra\u00e7a e classe social. Estima-se que no Brasil existam tr\u00eas milh\u00f5es de pessoas com a doen\u00e7a e a cada dia 300 novos casos s\u00e3o diagnosticados. 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